O Comboio do Minho

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5,1 milhões de passageiros viajaram no comboio entre Braga e o Porto ao longo do ano de 2007. Este número significa uma antecipação de sete anos em termos de previsões da CP, já que a empresa tinha previsto alcançá-lo apenas em 2014.

A aposta na ferrovia é estruturante para o país. Chegou a hora dos actores políticos e das populações do Minho reivindicarem com maior vigor a construção de uma ligação ferroviária entre Braga e Guimarães, bem como a reestruturação e modernização da linha do Minho até Viana do Castelo, criando uma verdadeira rede de transportes ferroviários urbanos na nossa região.
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Avenida Monumental

Os detectores de metal e os sítios arqueológicos[2]

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© SMS

A utilização deste tipo de tecnologia está, na verdade, regulamentada, e pode ser utilizada em sítios arqueológicos. No entanto, a sua utilização é restrita aos profissionais da área, para a qual têm que requerer autorização expressa ao Igespar, e sempre no contexto de uma intervenção arqueológica previamente projectada.

A questão que mais frequentemente se coloca em relação à utilização “civil” de detectores de metal, não se prende apenas com o facto de peças recolhidas, com valor monetário, irem parar ao mercado paralelo de venda de antiguidades (ou ao mercado legal, quando as peças são levadas para outros países, onde não são identificadas como recolha fortuita). Se esse fosse o problema, os detectores poderiam até ser de utilização livre. Mas a recolha isolada de determinadas peças arrasta consigo um conjunto de factores que implicam necessariamente uma destruição.

Do ponto de vista dos trabalhos de escavação arqueológica, uma peça vale muito mais pelo contexto de deposição em que se insere, e não tanto pelo valor artístico, histórico ou monetário que possa ter. A partir do momento em que uma pessoa, que não tem qualquer formação na área, e como tal não pode ser autorizado sequer a fazer prospecção de superfície, palmilha um sítio arqueológico com um detector, identifica concentrações de metal, e depois desenterra um eventual objecto metálico (por exemplo, um par de arrecadas em ouro), esse objecto é irremediavelmente “arrancado” ao seu contexto arqueológico, sem que o mesmo seja registado.

Posto isto, o objecto agora desenterrado, e que poderia ser de uma utilidade fulcral, por exemplo para datar determinada estrutura, não tem qualquer valor científico, precisamente porque se desconhece o contexto arqueológico de onde ele foi retirado. O mesmo contexto, e os contextos que o sobrepunham, é irremediavelmente perturbado, comprometendo a informação registada em escavações arqueológicas a posteriori.

Tendo em conta o exposto, os arqueólogos não são “egoistas” ao defenderem que mais ninguém deve fazer escavações a não ser eles próprios. Quando tomam esta posição, estão a salvaguardar os monumentos arqueológicos de um dos mais preocupantes perigos que os ameaçam. Por este motivo, pelo que me diz respeito, evito aqui a divulgação de sítios arqueológicos que não foram já intervencionados.
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Avenida do Mal

Até Que a Morte os Separe

“Quanto mais me bates mais eu gosto de ti.” Devem ser danos colaterais, na aplicação da sabedoria popular, as 31 ou 32 vítimas mortais de violência doméstica, todas elas mulheres, só neste ano em Portugal. Não haverá país ocidental, aliás, onde ditados ganham a expressão trágica de Mandamentos como em Portugal. E no que respeita ao casamento, roçam em autoridade o efeito dissuasor da lapidação.

O casamento, assim que consumado, ganha esta espécie de redoma cultural onde não entra sequer Estado de Direito - o mesmo que parece medir-se em quantidade de polícia. Quem se casa, fica, de imediato, refém do mesmo e aparte de qualquer dever ou direito. Não há snipper que faça mira à esfera conjugal, pelo impedimento moral de um outro mandamento da albardada sabedoria popular: "entre marido e mulher, não se mete a colher". Nem GNR, nem ninguém, pelos vistos.

Em Portugal assiste-se a uma violenta discussão conjugal com a mesma frieza sádica de uma tourada de morte em Barrancos, a diferença é que esta é acossada pela indiferença e pelo imobilismo.

Não admira, então, que a violência doméstica não tenha ondas nem o mediatismo do resto. É um universo paralelo, doentio, a que assaltos a bancos e postos de gasolina chegam a não fazer frente na crueza. Na perspectiva do Presidente de República e da aparente generalidade das pessoas, o casamento é uma mera cruz que se carrega. E não deixa de ser cristão o sacrifício. Mas se para elas existe Céu, para eles parece que não existe o Inferno. Este calvário da mulher, da esposa, portuguesa, como em tantas outras culturas, é uma mera pedra no caminho da santidade. É, como dizia Nietzsche, consequência da centralização da existência individual no além, para lá da morte.

No mesmo sentido, a sociedade portuguesa emburka esta realidade como manifestação própria do casamento, como expressão inerente da responsabilidade moral em mantê-lo, como obrigação. É uma sociedade que normaliza a violência na intimidade. E se não vê nisto motivo de denúncia, reflexão profunda e de intervenção dos mecanismos da Lei, tem que olhar os restantes fenómenos de criminalidade com o mesmo estoicismo fatalista em troca de um lugarzinho no Paraíso. É mais um fardo, se não quiser entrar em constante contradição.
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Avenida Ideal

Capítulo 7: sagrado bairro

Ontem, num telejornal, uma peça mostrava uma mãe indignada. Dizia a senhora que a polícia lhe tinha entrado em casa adentro à procura de armas, mas que não tinham encontrado nada. Pudera, ao que esta mãe afirmava: “a única arma que os meus filhos têm é a bíblia sagrada”.

Vivemos no tempo das tribos, como diria Maffesoli. Ressurgem os mitos e afirmam-se novas religiosidades e o melting pot da era da globalização ajuda à complexificação da estratificação social. A tradicional estratificação social vertical já não é suficiente: a sociedade dos nossos dias estratifica-se na horizontal, apoiando-se não apenas nos factores económicos, mas cada vez mais em factores culturais.

Em Portugal, os pobres já não são apenas pobres. Há pobres portugueses, pobres luso-africanos, pobres luso-ucranianos, pobres ciganos. São todos iguais na pobreza económica, mas vincam a diferença na riqueza cultural. Os pobres olham os outros pobres como pobres de espírito, enquanto os ricos olham os pobres como se fossem todos iguais.

As disputas armadas por território e controlo dos negócios ilícitos não são puro capricho e divertimento: luta-se pela sobrevivência. Os bairros sociais não são uma selva ou o faroeste, como lhes chamam tantas vezes, mas são arrogantes tentativas de padronizar os pobres e afastá-los dos circuitos sociais dos menos pobres.

Ora, se logo nas políticas sociais surgem os primeiros traços de marginalização, não podemos esperar que a inclusão seja pacífica e espontânea.

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Taça UEFA: Braga Apurado

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Sporting against Sporting
© bache

Foi através do caminho mais longo, mas o Sporting de Braga acaba de garantir a quinta presença consecutiva na Taça UEFA. Depois de um inesperado sétimo lugar no campeonato, a equipa minhota viu-se obrigada a disputar quatro jogos para atingir a segunda competição mais importante da Europa do futebol.

Feitas as contas, estão encontrados os representantes nacionais nas competições europeias da presente época. Porto e Sporting disputam a Liga dos Campeões, tendo conhecido hoje os seus adversários na fase de grupos. Na Taça UEFA, por seu turno, Portugal está representado por cinco clubes. No sorteio que amanhã se realizar, os cabeças de série Braga e Benfica juntam-se a Guimarães, Marítimo e Setúbal para conhecer os adversários da primeira eliminatória.

Dois Ponto Zero [2]

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A ler: Se tivessem uma família normal e fossem felizes, por Ademar Santos; Admirável Mundo Novo, por Vitor Pimenta; Fazer Política, por Pedro Norton.

Eleições à Vista

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Nas vésperas das últimas eleições, Mesquita Machado mandou construir uma ciclovia caduca desde nascença, mandou arranjar os canteiros e separadores centrais das avenidas, mandou ornamentar as rotundas, mandou lavar os túneis, mandou asfaltar as estradas e, entre outras coisas, mandou afixar cartazes a lembrar que Braga era uma «cidade do século XXI».

Há coisas que nunca mudam. Multiplicam-se as evidências (1, 2, 3 e 4) de que, depois de 3 anos sem uma única obra assinalável, os próximos 12 meses serão recheados de obras e propaganda.

Médicos e Doentes

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A confiança é a base do sucesso da relação médico-doente, uma das mais peculiares e complexas ligações da nossa sociedade. Contudo, é bom não esquecer que alguns dos insucessos da medicina começam precisamente na incapacidade dos médicos para ouvirem os seus doentes e com eles estabelecerem boas relações de empatia.

Injusto

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golo anulado
© White Shadow

Do Silêncio

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«Eu não tenho nada contra o silêncio de Manuela Ferreira Leite. O meu problema é mesmo quando ela fala[João Miguel Tavares, DN]

Avenida Plural e Responsável [2]

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L' Impero della Mente
© Giuliet

Talvez haja tantas definições de "blogue" quantos blogues existem. Um blogue não é um jornal nem uma revista, mas essencialmente um espaço de partilha, uma visão do mundo entre muitas possíveis. Talvez por isso, o Avenida Central tem tantas agendas quantos os seus autores.

No Avenida Central sempre se aceitaram todas as opiniões divergentes. E continuar-se-ão a aceitar. No Avenida Central sempre respeitou o anonimato. E continuar-se-á a respeitar. No Avenida Central sempre se repudiou a abjecção anónima. E continuar-se-á a rejeitar.

Quem aqui não vier por bem, escusa de entrar. A ignomínia, porque estranha à participação responsável, não será mais tolerada.

Adenda - como já perceberam há um indivíduo que tenta usar este blogue para denegrir e insultar terceiros. Desafio o anónimo a entregar na Procuradoria Geral da República as provas de que dispõe em vez de vir aqui acusar alguns dirigentes desportivos e autárquicos de corrupção. O Avenida Central habituou os leitores a outro nível e jamais será instrumentalizado através de agendas que desconhecemos e enjeitamos.

Déjà Vu

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Tudo começou com os incêndios. Depois de televisões e oposições quase derrubarem o governo de Durão Barroso à custa da exploração dos incêndios, os especialistas concluíram, no início do consulado de Sócrates, que as reportagens sobre incêndios estimulavam os incendiários.

Agora, um especialista acha que as notícias sobre assaltos podem ajudar a aumentar crimes. Depois virá o dia em que as notícias sobre corrupção ajudarão a aumentar a corrupção. E um especialista há-de supor que as notícias sobre a derrapagem do défice a aumentar o défice. E outro dirá que as notícias sobre o desemprego fazem aumentar o desemprego.

Até que um dia, quando já nada de mau fôr noticiado, seremos um país completamente enganado mas verdadeiramente feliz.

Liga Sagres: A Pressão Resolve

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Eu bem disse que Paulo Bento que as pressões do Sporting sobre a arbitragem visavam preparar a deslocação a Braga. O sucesso não podia ser mais evidente: Bruno Paixão é o escolhido.

Um Quilómetro e Meio

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Como bem destaca o Tiago Laranjeiro, a Capital Europeia da Cultura 2012 não vale mais de 1,5 quilómetros de Metro em Lisboa.

SIC Faz Serviço Público

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Zrinjski x S. C. Braga (Taça UEFA)
Quinta-feira, às 17.15.

Serviço Público de Televisão

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A televisão que todos pagamos continua a ignorar parte significativa da representação nacional nas competições europeias de futebol. A negligência reiterada surge-nos como gravosa e atentatória dos princípios de diversidade e pluralidade a que a estação está obrigada.

Perante as críticas, a postura da RTP tem sido de um arrogante desprezo, dando-se ao luxo de prestar impunemente informações manifestamente falsas como justificação para as suas inaceitáveis opções. A transmissão de jogos-treino em alternativa aos desafios europeus de Sporting de Braga e Vitória de Guimarães não pode deixar de ser considerada provocatória e mesmo pornográfica.

É de todo inaceitável e incompreensível que, a dois dias de um desafio de importância capital, ainda não esteja assegurada a transmissão televisiva em sinal aberto do jogo de Basileia para território nacional. É um pecado grave demais que Guimarães e Portugal não podem jamais perdoar à autista RTP.

Dois Ponto Zero [1]

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A ler: Porreirismo em Pequim, por Henrique Raposo; Orçamento 2009, por Vital Moreira; Concorrência entre Aeroportos, por João Miranda; Um Homem Amável, por João Gonçalves.

O Jardim Público de Fraião

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braga37
© JC - Bracara Augusta

O chamado Vale de Lamaçães é uma das áreas urbanisticamente mais problemáticas da cidade de Braga, com a agravante dos erros de planeamento terem sido cometidos num tempo em que as questões do urbanismo eram meticulosamente tratadas noutros municípios do país.
No ínicio da presente década, um grupo de ilustres bracarenses alertou a autarquia bracarense, lembrando que «qualquer plano urbanístico começa pela definição da estrutura viária e do espaço público para que se possa determinar a área de implantação dos edifícios. O espaço público tem uma função primordial pelo que nunca pode corresponder às "sobras" das várias construções

Apesar dos avisos e de todas as críticas da oposição, os erros foram-se multiplicando com voracidade, sem que a autarquia acautelasse a preservação de um espaço público capaz de garantir em plenitude o bem-estar dos seus habitantes. Numa tentativa de contrição, o Presidente da Câmara de Braga apresentou recentemente o denominado Parque Arborizado do Vale de Lamaçães como um «importantíssimo contributo para o reforço da qualidade de vida na zona urbana, designadamente nas novas áreas residenciais circundantes».

Embora esteja muito longe de responder às reais necessidades do conjunto urbano do Vale de Lamaçães, a obra anunciada tem a virtude de criar uma ilha que se espera aprazível numa cidade em que escasseiam os jardins públicos e os parques. A salubridade física e mental das cidades está muito dependente da existência destes espaços e da sua fruição por parte das populações. Não é por acaso que os vinte e dois hectares a que os vimaranenses chamam, com toda a propriedade, Parque da Cidade Guimarães se constituem como um dos espaços de predilecção dos seus habitantes.

Ainda que o aproximar das eleições justifique a sumptuosidade do anúncio de um «parque arborizado», a exiguidade do espaço que destinaram à natureza e ao lazer mereciam mais sobriedade e discrição. Na verdade, o denominado Parque de Lamaçães não passa de um jardim público, implantado numa área total de um hectare da Freguesia de Fraião (1. segundo o livro Normas Urbanísticas, o jardim público é um equipamento social de recreio e lazer de âmbito mais local do que o parque urbano e com uma área geralmente inferior a dez hectares; 2. também no fórum Skyscrapercity houve reacções de surpresa quando se descobriram as verdadeiras dimensões do espaço).

Num país demasiado habituado a equívocos terminológicos, as autarquias deviam evitar cair na tentação da hipérbole, tantas vezes reflexo de um certo parolismo nacional. Braga precisa de um parque, mas desta vez não foi possível construir mais do que um jardim. Seria tão difícil chamar-lhe Jardim Público de Fraião?

Da Genética do Sexo

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artigo

Um estudo levado a cabo por investigadores da Austrália e dos Estados Unidos da América concluiu que «predisposing to homosexuality may confer a mating advantage in heterosexuals, which could help explain the evolution and maintenance of homosexuality in the population.» Dito de outro modo, parece que os genes que predispõem para a homossexualidade aumentam o sucesso dos heterossexuais nas conquistas sexuais.

Estes dados, que resultam da análise do comportamento de 4904 gémeos, ajudam a explicar o facto dos genes que predispõem para a homossexualidade continuarem a ser seleccionados no processo evolutivo. Depois de muitos avanços e alguns recuos, os resultados científicos mais recentes continuam a expor o equívoco daqueles que insistem em confundir orientação com opção sexual.

Liga Sagres: Braga Entra a Ganhar

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O Sporting de Braga estreou-se na edição 2008/09 da Liga Sagres com uma vitória claríssima(*) sobre o Paços de Ferreira. Num estádio tradicionalmente difícil e perante mais de 2.000 adeptos bracarenses, a equipa comandada por Jorge Jesus marcou dois golos sem resposta, continuando vitoriosa e sem sofrer golos.

Em Alvalade, Paulo Bento começou a preparar a difícil deslocação a Braga com as habituais tentativas retóricas de condicionamento das arbitragens. Eu até adivinho quem será o árbitro nomeado e imagino a borrada que se avizinha. Há dúvidas?

(*) O suposto penálti do Alan é tão evidente que a RTP até mostra outro lance quando se refere a ele!!!

O Aeroporto do Minho

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O poder centralista de Lisboa tem recusado a entrega da gestão do Aeroporto Francisco Sá Carneiro a um consórcio liderado por empresários do Norte, num processo muito apoiado e mediatizado pelo Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio. Os empresários oferecem mil milhões de euros pela concessão por trinta anos de um aeroporto que, segundo a própria ANA, dá prejuízo.

No apoio às intenções dos empresários nortenhos, António Marques, Presidente da Associação Industrial do Minho, fez questão de realçar que «em questões estratégicas de importância para o Norte do país, o Norte fala a uma só voz.» Mas já alguém ouviu a voz dos líderes políticos do Minho sobre esta matéria?

Adenda - Por estar de férias não tive conhecimento da tomada de posição de Ricardo Rio, líder do PSD/Braga, sobre esta matéria. Fica a rectificação.
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Avenida Monumental

Os detectores de metal e os sítios arqueológicos [1]

Avenida Monumental

Há pouco tempo, Luís Raposo, Director do Museu Nacional de Arqueologia, publicou uma crónica de opinião na qual explanou a sua perspectiva relativamente à delicada situação da utilização fortuita de detectores de metal nos monumentos arqueológicos. Independentemente das ideias por ele manifestadas, ou dos procedimentos que sugere, a temática é assaz complexa.

Durante a nossa formação não nos apercebemos, na verdade, da dimensão do problema, e limitamo-nos a interiorizar que essas acções são criminosas e, como tal, puníveis. Acontece que a Lei, por vezes, não assume propriamente uma função educativa, sobretudo quando raramente é aplicada.

Recentemente, enquanto falava com alunos da Escola EB 2 3 de S. Salvador de Briteiros, apercebi-me de que muito pouca gente tem a efectiva consciência do que é correcto ou errado, relativamente aos sítios e ao espólio arqueológico. Efectivamente, a maioria dos alunos tem concepções erradas de que os objectos arqueológicos têm valor monetário (e que é o sustento dos arqueólogos), de que a sua recolha (entenda-se, desenterrar objectos) é livre, e que, o mais engraçado, os arqueólogos só têm que se congratular com isso, porque escusam de fazer o trabalho “mais difícil”.

Ou seja, apesar de serem perspectivas um pouco ingénuas, e talvez normais em estudantes do ensino básico, a verdade é que as mesmas se estendem a grande parte dos adultos. E aqui reside o problema maior. Verificam-se danos irreversíveis em monumentos, cujos autores podem não ter de facto consciência de que o que fazem é errado. Daí que estes sejam facilmente detectáveis, porque por vezes acabam por procurar os arqueólogos para se informarem do valor das peças (que frequentemente é pouco ou nenhum).

Mas outros há, os casos mais graves, que não têm ingenuidade nenhuma, como porventura o autor dos saques ilustrados na imagem, no Concelho de Boticas. Estes sabem bem o que procuram, e destroem completamente os níveis arqueológicos em busca de tudo o que seja metálico, só porque alguém, há muitas décadas atrás, recolheu ali um objecto em ouro.

Tendo em conta o isolamento de grande parte dos sítios arqueológicos, convenhamos que a fiscalização (para a qual, na verdade, o Estado não dispõe de meios) é quase uma utopia.
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Avenida do Mal

Presidente-Sol

Há meia dúzia de dias, segui atento, no programa "União a 27" da SIC Notícias, como se organizava e estruturava a democracia na Dinamarca, só por acaso, uma das nações mais desenvolvidas do Mundo. Monarquia constitucional cujo Parlamento é o órgão mais nobre e prestigiado do Poder político e onde a Rainha, neste caso, tem um mero papel cerimonial na tomada de posse de primeiros-ministros e restante governo, ou de galhardete nas relações diplomáticas. Não se espera mais nada dela e não há, na Dinamarca, tribunal, comissão ou figura superior que faça a supervisão da actividade parlamentar porque esta é feita pelos cidadãos dinamarqueses,nas eleições legislativas, sempre interessados e empenhados em eleger os seus melhores representantes. Confiam, por isso, no que lá se produz em matéria de leis e nas políticas para o país.

Não discutindo a influência da cultura nórdica ou anglo-saxónica no funcionamento da democracia dinamarquesa, serve de modelo de comparação à nossa democracia do Sul da Europa. Em Portugal, quase ninguém confia na actividade parlamentar. Tanto é que são necessários organismos que façam a regulação, triagem e aprovação das leis, verificando do seu enquadramento constitucional ou da sua moralidade. O Sistema político é paternalista, herdeiro dessa necessidade salazarenta de um rogador que olhe pela pátria. E aqui entra a nossa maior contradição democrática: ter um Presidente da República para julgar da moralidade ou da constitucionalidade de uma lei produzida em Assembleia Nacional, discutida por 230 representantes do País, os quais se esperariam ser os mais informados da Constituição e representantes íntegros da manta de valores da sociedade portuguesa actual.

Mais. Ao presidente, uno, no seu dom divino, qual Rei Salomão, reserva-se-lhe ainda o condão de absolver uma assembleia, eleita democraticamente, e arrastar um governo com ele. Daí que dou razão aos açorianos e tenho posição diferente à decisão de Sampaio com Santana Lopes. Faço nisto acto de contrição, porque se para muitos isto é que é Democracia, para mim não passa de uma Democracia sobre Vigia. Não sendo monárquico, prefiro a monarquia de fachada dinamarquesa, com a sua verdadeira democracia parlamentar, a esta República com as suas versões-presidente de Luís XIV.

God is Republican!

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God Is Republican

© Pat Bagley, The Salt Lake Tribune

O Veto Ideológico [3]

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«Parece que entre Governo e Presidente ainda há uma vaga ideia de esquerda e uma vaga ideia de direita...» É com esta evidência que Pedro Rolo Duarte fecha a Janela Indiscreta do passado dia 21 de Agosto [audio].

Em boa verdade, convém assinalar que a reacção do PSD de Manuel Ferreira Leite é indistinguível da opinião da hierarquia da Igreja Católica, o que demonstra, como salienta Tiago Barbosa Ribeiro, que «Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva parecem preferir as concepções morais de uma organização à liberdade individual de cada um decidir sobre as suas concepções morais.»

Esta postura é ainda mais simbólica numa semana em que Alberto João Jardim fez questão de proferir uma verdadeira homília, afirmando, entre outras coisas, que «a doutrina social da Igreja Católica é a grande base doutrinal para os novos tempos» e que «a globalização é um dom de Deus.»

Os últimos dias têm mostrado um PSD apostado no conservadorismo e tomado pelo catolicismo mais atávico e revanchista. É o próprio Pedro Passos Coelho que denuncia que os «argumentos que foram produzidos pelo Presidente da República traduzem uma concepção da família e da sociedade que está um pouco ultrapassada.» [ver também a reacção de Francisco Louçã]

Tal como havíamos previsto, é pela via da castração da autodeterminação e da liberdade individuais em matéria de concepções morais acerca da vida e da sociedade que o PSD de Manuela Ferreira Leite se procura diferenciar do PS de José Sócrates. Infelizmente. Era precisamente no campo económico que o país precisava que a diferença se acentuasse.

Coerências Que Fascinam...

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Depois das críticas à naturalização do luso-brasileiro Deco, gostava de ouvir a opinião de Rui Costa sobre o luso-marfinense Nélson Évora.

Projectos 14 | Hotel Sol Melia

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Hotel Melia Braga
© Britalar

Está em construção aquele que será o primeiro hotel de cinco estrelas de Braga. Fica nas imediações da Universidade do Minho, junto à variante do Fojo.
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Avenida Ideal

Capítulo 6: e-democracia

Há pouco menos de um ano, discutia-se aqui nesta Avenida Central a Democracia Participativa. O Outono de 2007 trazia novidades à política local bracarense: afinal sempre é possível participar na política sem fazer parte dela.

Eram mais de cem, eram quase mil; quase mil assinaturas e várias notícias na imprensa local e nacional. Debateu-se a mobilidade em Braga e discutiu-se esta nova forma de participação política. Nascia em Braga uma nova utopia local: a democracia participativa.

O optimismo perante esta nova forma de participação fazia acreditar na mudança do paradigma da política local. Já não era apenas o eléctrico, era o que ele representava: o povo unido jamais será vencido?

Há pouco menos de um ano surgia uma nova Braga - ou várias, como preferirem. Um eléctrico, um corredor verde nas margens do rio Este, um parque da cidade no Picoto e Parque da Ponte, um novo parque de diversões, um centro histórico habitado e seguro; uma Braga nova e bem à medida de cada cidadão.

Hoje, porém, a Braga em que vivemos é a mesma de há um ano e a utopia parece arrumada na gaveta à espera de eleições um melhor "timing". É importante não esquecermos que mais urgente que lutar pela democracia participativa, é trabalhar a participação quotidiana.

Linha do Tua: À Espera do Fim [2]

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Linha do Tua
© Nuno Antunes

Dados o oportunismo e a falta de senso político do Ministro Mário Lino e conhecidas as verdadeiras razões para o encerramento da Linha do Tua, o acidente de hoje não será mais do que um pretexto para a fechar. Imoral.

Adenda - sugiro a leitura do comunicado do Movimento Cívico pela Linha do Tua, do blogue A Linha é Tua e deste post no Toca a Andar.

Linha do Tua: À Espera do Fim

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Era uma vez um país que se dividiu em dois.
Um desses países chora a morte em novo descarrilamento da Linha do Tua. O outro sonha com o TGV.
Um desses países demora uma hora e quarenta minutos a percorrer cinquenta e quatro quilómetros. O outro sonha em submergir essa linha com uma barragem.
Um desses países ainda é Portugal. O outro já é Europa.

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Finalmente, Ouro!

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Nelson Évora
© souoj4

Nelsón Évora conquistou o ouro que os portugueses mais desejavam. Depois da depressão nacional, a selecção olímpica consegue melhorar a prestação de 2004, nos Jogos Olímpicos de Atenas. Parece que os críticos se precipitaram. Felizmente!

Crónica de um Sistema Judicial Falido

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A casa da família Gonçalves foi assaltada durante a noite, enquanto todos estavam a dormir. Depois de sedarem os cães e possivelmente as pessoas, entraram pela janela da sala, passearam-se pelo piso térreo e pegaram em dois carros, fugindo descansadamente para parte incerta. Com os automóveis, de que apenas apareceu um motor desmatelado, levaram também a paz daquela família.

Dois anos mais tarde, a polícia anunciou pomposamente o desmantelamento do gangue e a devolução da sucata encontrada aos legítimos proprietários, o que abriu lugar a que fosse possível aos lesados intentarem os competentes processos judiciais. No entanto, todos foram prevenidos da inconsequência da acção judicial. A teimosia da família Gonçalves tornou-os nos únicos queixosos de um rol de mais de quarenta e cinco lesados.

Cinco anos depois e com mais de dois mil euros gastos em despesas e representações judiciais, soube-se que os ladrões seriam condenados a 3 anos com pena suspensa e ao pagamento de uma indeminização de vinte mil euros, que nunca há-de ser paga dado tratar-se de gente sem vontade de trabalhar e sem recursos financeiros em seu nome.

Depois de morrer mais um cidadão às mãos de um crime bárbaro, a convicção generalizada é de que os assassinos não terão sorte muito diversa da que tiveram os intrusos da casa da família Gonçalves. É a falência do sistema judicial português...

O Veto Ideológico [2]

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«"Conservador" - foi assim que alguns socialistas classificaram ao DN a decisão de Cavaco Silva. Foi o caso de Manuel Alegre. "Este veto não é só político, é ideológico. Traduz uma visão conservadora e ultrapassada da vivência e necessidades da sociedade actual", afirmou ao DN o histórico socialista.» [DN]

O Veto Ideológico

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«Numa situação de violência doméstica, em que o marido agride a mulher ao longo dos anos - uma realidade que não é rara em Portugal -, é possível aquele obter o divórcio independentemente da vontade da vítima de maus tratos[Mensagem do Presidente da República]

Quem lê a frase supracitada sem complexos ideológicos ou preconceitos religiosos, depressa se apercebe do absurdo em que se cai quando se pretende proteger a família por via da criação de entraves legais ao divórcio. Porque há-de o Estado de obstaculizar o divórcio daqueles que selvaticamente agridem as suas próprias mulheres? Será o casamento socialmente mais relevante do que o direito a não ser agredida pelo próprio cônjuge?

Há muito quem entenda que sim e, não se contentando com uma vida segundo os princípios em que acredita, pretende impô-la aos outros pela via legislativa. Não deixa de ser exemplificativo que a Igreja Católica reaja no mesmo tempo que os partidos políticos, afirmando que o diploma vetado é «ofensivo do valor da religião» e acusando a Assembleia da República de legislar com «leviandade» [sobre o despropósito desta acusação, sugiro a leitura de Max Spencer-Dohner, Tiago Barbosa Ribeiro e Filipe Tourais].

Vital Moreira chama a atenção para a «ampliação da intervencão presidencial na função legislativa» que está subjacente a este veto político. Em boa verdade, o veto é essencialmente ideológico, assentando na visão do Presidente sobre o que deve continuar a ser e a significar o casamento civil. Esta é uma posição inegavelmente legítima, mas que o tempo inevitavelmente se encarregará de demonstrar equívoca - não é possível continuar a ignorar que o casamento e a família estão em constante mudança.

Portugal Olímpico

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Ao prometer resultados claramente acima das nossas possibilidades e do investimento de um país que só quer saber de futebol a três cores, Vicente Moura é o principal responsável pela depressão colectiva que, segundo as televisões, se apoderou do estado anímico dos portugueses. É preciso dizer com desassombro que a pressão colocada sobre os atletas portugueses, a começar pelas lamentáveis declarações de Vanessa Fernades, é absurda e imoral.

Bem lembra Pedro Sales (1, 2, 3 e 4), «num país em que ninguém gosta de desporto, todos querem medalhas».

Verão sem Deus

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Blasfémias que se devem ler no Blasfémias.

Tintin Continua Virgem

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Tintin et Moulinsart
© Le Manu

Os herdeiros de Georges Remi Hergé impediram a reedição de um livro sobre a iniciação sexual de Tintin. O acto é digno de grande austeridade de princípios: os conservadores não fazem sexo, procriam.

Liberdade de Informação

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«A SIC apresentou hoje uma queixa contra o S.L. Benfica à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), solicitando a "intervenção urgente" da entidade reguladora junto do clube e da SAD do Sport Lisboa e Benfica "por deliberadamente impedir um jornalista" da estação televisiva "de exercer o seu trabalho nas instalações do clube"[Público]

O Benfica continua a sua luta heróica para limpar o futebol português. Como se vê, a ideia é fazê-lo regressar aos tempos da velha senhora, altura em que, como se sabe, as vitórias eram menos suadas e mais baratas.

A Semântica Desonesta

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Pinóquio de castigo
© G. Branco

Foi no regresso à cena política que José Sócrates anunciou que o governo já criou 133 mil novos postos desde Março de 2005. O anúncio vai repetir-se indefinidamente até às próximas eleições, criando a sensação de que o governo está muito perto de cumprir a promessa de criar 150.000 postos de trabalho.

Porém, a verdade é outra. Já se percebeu o tamanho do engodo, mas é preciso frisar que o problema não é apenas de semântica mediática, mas sobretudo de honestidade política. Mesmo aceitando que José Sócrates chame a si a responsabilidade por todos os empregos que foram criados desde Março de 2005, mérito que não é exclusivamente seu, a verdade é que o Partido Socialista prometeu recuperar (e não criar) 150.000 empregos.

A mudança cirúrgica do léxico político não é obviamente inocente, mas como lembra João Gonçalves «he is doing his job», cabendo à oposição (qual oposição?) expor a mentira. Seja como for, convém lembrar que os efeitos eleitorais da fraude são directamente proporcionais à degradação da nossa democracia.

Os Fariseus Regionalistas

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Alberto João Jardim avançou com a hipótese de criar um partido de doutrina cristã «que resulta de uma grande junção de todos aqueles que têm ideias regionalistas em todo o pais e estão fartos do jacobinismo».

É caso para perguntar: onde andava Alberto João Jardim quando os madeirenses rejeitaram a regionalização em referendo?

«Virtude Invejada é Duas Vezes Virtude»

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Eu diria que os obsessivos comentários de Manuel Cajuda sobre o Sporting de Braga têm tido efeitos altamente contra-producentes no ego dos bracarenses.

Adenda - A inveja de Jesus, segundo O JOGO.
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Avenida Monumental

Castros e Capelas

Av_Monumental_11

A imagem do mítico eremita S. Romão franqueia a primeira muralha da Citânia de Briteiros. Dirige-se em procissão para a respectiva capela, um quadrilátero de cobertura estranhamente piramidal que, há 150 anos, alguém construiu no interior das ruínas milenares da Citânia (então por escavar). Com efeito, cerca de 20 anos depois da construção da capela, Martins Sarmento daria início à escavação daquele monumento proto-histórico, que é hoje a imagem de marca de Briteiros, e um ex-líbris de Guimarães e de Portugal. Em frente ao andor o cenário é indescritível, correspondendo à terrível necessidade, que as romarias vulgarmente têm, de encher os olhos a quem nelas participa, com o que de mais garrido possa haver.

No Minho existem mais capelas do que castros, no entanto estes, correspondendo a uma elevada densidade demográfica da região na Idade do Ferro, encontram-se em grande número, por parte das elevações que se destacam no horizonte. Acontece que os povoados proto-históricos e determinado tipo de capelas (ermidas), parecem partilhar os mesmos critérios de localização, o que aliás, pode corresponder a uma continuidade na sacralização de determinados espaços. Por este motivo, muitos povoados castrejos, alguns visitáveis, apresentam uma capela, ou vestígios de uma, no cume da elevação.

A prática religiosa associada a uma ermida não é, de todo, incompatível com a preservação de vestígios arqueológicos. Na verdade, porque haveria de o ser? À partida, os problemas da degradação do património mais facilmente se levantariam com outro tipo de utilizações num espaço monumental. Acontece que as experiências que se verificam frequentemente, revelam o contrário... Tal acontece por vários factores, nomeadamente a falta de civismo dos praticantes, mas sobretudo pela não limitação das romarias à prática religiosa em si... Em nome, claro, de uma suposta “tradição” dos arraiais, que na verdade é uma tradição discutível.

O exemplo citado, da Citânia de Briteiros, não tem levantado problemas. Felizmente, nota-se já uma consciencialização da comissão organizadora e da Paróquia, e actualmente a romaria realiza-se sem se verificarem destruições. No entanto, existem imensos exemplos de uma contínua e implacável degradação.

Cuba no Meu Moleskine

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Igreja de Trinidad

Havana, 12 de Agosto de 2008 - «Os cubanos não o querem mais!», assim mo dizem, em discurso directo, numa surdina que se interpõe à verborreia oficial da utopia. A pobreza, miséria mesmo, invade-nos o olhar com a mesma naturalidade com que a música nos embala os ouvidos. A corrupção e os mercados paralelos multiplicam-se em todos os sectores da sociedade. Estranha ironia, o dinheiro obtido de forma subterrânea, o maléfico capital, é o traço distintivo entre aquelas gentes forçadas à ditadura comunista. Quem paga, tudo consegue naqueles lugares que nos diziam serem quimera de desenvolvimento fraterno.

No Hotel Ambos Mundos fica o quarto que já foi de Ernest Hemingway e que agora se visita como museu. Pedem-me 2 CUC (Peso Convertible Cuban), mas ofereço metade e deixam-me entrar. Aqui tudo se negoceia e, com grande probabilidade, nunca aquele dinheiro entrará nos cofres do Estado para ser distribuído por todos.

Ainda há tempo para uma visita à Bodega del Medio. A taberna fica nas imediações da Havana real que não consta das visitas oficiais dos turistas. Dizem-me aqui que se dispensam as eleições porque «os líderes sabem bem o que o povo quer». Confesso que não consigo deixar de me enternecer com tudo isto do mesmo modo que me enternece a ingenuidade cândida com que alguns falam desta Cuba em Portugal. Há qualquer coisa de perverso quando defendem e elogiam um sistema político, educativo e de saúde onde os profissionais não são mais que máquinas devotas a um regime com o qual tantas e tantas vezes não têm qualquer afinidade para lá do instinto de sobrevivência. Aqui não há direitos, não há greves, não há salários acima da inflação nem há liberdade de expressão.

Partimos de Havana. Trago na retina a imagem da criança que veio pedir-me a caneta com que escrevo. Não lhe dei a que trouxe para escrever neste moleskine, mas entrego-lhe outra que guardo no bolso. Pediu-me também a camisola e algum dinheiro para comer... para matar uma fome que não se alimenta de propaganda nem utopias e, ainda menos, de tiranas teimosias.

Trinidad, 14 de Agosto de 2008 - Chegámos à mais bela das cidades cubanas. Aqui o tempo parou. Encontramo-la tal como fora construída no tempo dos colonos espanhóis. Nesta «terra dos iguais», vemos um escravo dos novos dias desfazer-se em suor para transportar um turista ou uma espécie de executivo (?) pelo paralelo irregular das ruas tórridas do verão de Trinidad.

Partimos pelas estradas velhas de um país que floresceu até aos anos oitenta graças ao dinheiro que era artificialmente injectado pela URSS. No dia em que o comunismo teve que defrontar-se com o mundo real, a necessidade de produzir na medida do que se consome tornou o fracasso do igualitarismo evidente.

Na versão oficial ainda há espaço para os anti-heróis, inimigos que se querem apoderar da maior riqueza do povo que, daquele povo, não é mais do que a não-liberdade de viver na igualdade da penúria. A única coisa que não se imputa aos americanos é a aparente inexistência de ricos por aquelas terras. Tudo o resto, é culpa deles e do maldito embargo, dizem-nos...

O silêncio que se exige no mausoléu que construíram para El Che em Santa Clara deveria ser regenerador. Cada um dos revolucionários devia aproveitá-lo para reflectir sobre a miséria e a escravatura a que a ditadura comunista vem condenando irremediavelmente todo um povo.

Braga, 16 de Agosto de 2008 - Optei por transcrever algumas das ideias cruas que fui vertendo no meu moleskine ao longo destes dias. Para lá do desencanto com a miséria profunda, registo com grande apreço a sinceridade do povo, apenas sentida nos subúrbios da oficialidade, a fantasmagoria da História, vertida em repetidas loas à versão que consta, e a beleza dos monumentos, invariavelmente herdados dos regimes anteriores. Quanto ao resto, nem Cuba nem o comunismo têm o encanto que lhe apregoam.
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Avenida do Mal

Sebastianismo Olímpico

As vidas dos Atletas portugueses em Pequim confundem-se com as suas vidas de trabalho em Mouquim (não me lembrei de outra localidade que rimasse). Tanto lá como cá, se espera o máximo deles, no escritório e no tartan, sem flexisegurança ou ordenados que a mais obriguem. É sempre uma vitória, dizemos, quando lá vão uns e outros, e se alarga a comitiva e a esperança (de quê?) com os mínimos garantidos (a fazer lembrar rendimentos sociais de inserção), mesmo que depois toda a gente desdenhe lugares de eliminação, pela sensação de mediocridade. Não deles, mas do país.

No desporto e nas artes, como na política e na ciência, esperamos sempre prodígios, sebastiões encomendados, que singrem de alguma forma e nos engrandeçam o ego e as vidas, sem que a nação se esforce minimamente em preparar o terreno para os prodígios medrarem. Nunca houve espírito de alta competição para lá do futebol e mesmo esse tem também o mérito enveneado.

Enquanto isso, Portugal espera que a sorte lhe caia em cima e veja bandeira erguida por alguém esquecido nos apurados. Nessa altura passa, o atleta, de besta ignorada a Messias digno de vassalagem. É de uma passividade quase religiosa, mas típica. Aliás, se algum dia arrancarmos mais medalhas que os Estados Unidos e a China juntos (coisa que nem em sonhos nos passará pela cabeça) será porventura o clímax do delírio místico em que se embebe a consciência nacional desde os Sermões do Padre António Vieira à Mensagem de Pessoa. É só insistir na fezada.
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Avenida Ideal

Capítulo 5: a cidade dos livros

Se n'A Sombra do Vento de Ruiz Zafón havia o "Cemitério dos Livros Esquecidos", em Urueña há, desde o ano passado, o céu dos livros a recordar.

Urueña é uma pequena vila medieval da província de Valladolid, na Comunidade de Castela e Leão, ali junto à fronteira transmontana. Como medida de apoio ao desenvolvimento rural, o município de Valladolid investiu na transformação da pequena Urueña em capital ibérica da literatura.

Não será a capital do mercado editorial dos nossos dias, mas é, concerteza, a prova de que a arte, e o romantismo que orbita em torno dela, não morrem; nem que para resistir tenham de se amuralhar.

A meio das férias, uma crónica leve e uma ideia para um passeio de estórias de encantar.

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Para saber mais:
http://www.diputaciondevalladolid.es/villadellibro/presentacion.shtml

Estado Laico Evangelizador

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Mosteiro de Tibães
© Francisco

A história que me têm contado é mais ou menos esta: há muito muito tempo houve um rei que doou um couto ao Mosteiro de Tibães. Ao longo de vários séculos, os monges cobravam impostos e administravam justiça em vastos territórios da Póvoa de Lanhoso à Póvoa de Varzim. No fundo, governavam(-se) à custa do património que o rei lhes doara, mas que era, por direito natural, do povo. No século XVIII, o Marquês do Pombal expulsou as ordens religiosas e ficou-lhes com parte das propriedades que haviam tido o mérito de construir e gerir.

Uma parte significativa do Mosteiro de Tibães foi então vendido a particulares, algumas das obras de arte do seu espólio transferidas para depósitos do Estado e o vastíssimo património que restou ficou entregue à volúpia do tempo, à incúria dos proprietários e à inconsciência do povo. Acabou profundamente degradado, tendo sido readquirido pelo Estado em 1986.

Iniciou-se então um longo processo de recuperação que ainda perdura e que devolverá ao espaço algum do encanto perdido. As intervenções avançam em várias frentes, incluindo a recuperação do espaço físico da cantina e da ala sul, pela recriação da biblioteca em formato digital e pela instalação de uma hospedaria e um restaurante.

Não posso deixar de manifestar toda a minha incredibilidade quando descobri, através da leitura de uma publicação religiosa distribuída em Lisboa, que o objectivo do restaurante e da hospedaria instalados no edifício público seria evangelizar. Leram bem, evangelizar. No jornal Cavaleiros da Imaculada lê-se que oito irmãs da ordem religiosa Trabalhadoras Missionárias «irão evangelizar através de um restaurante e de uma hospedaria. Servem as refeições e, no final, abordam temas actuais à luz do Evangelho e convidam as pessoas a rezar em conjunto

O Mosteiro de Tibães é um dos espaços mais belos do país, não podendo deixar de estar aberto à visita e à fruição de todos. Como tal, não podemos permitir que o Estado, que se quer laico, invista milhões de euros em intervenções em edifícios públicos para os entregar ao serviço da evangelização de alguns. Onde está a massa crítica de Braga e do país?

Ideias para Braga: Um Museu Internacional

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Braga football stadion - panorama

A escolha do Centro Cultural de Belém para receber o Museu Colecção Berardo desalojou o Museu de Design. O espólio do Museu tinha sido adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa em 2002 que prontamente encontrou uma nova solução - o museu vai ocupar o antigo edifício do Banco Nacional Ultramarino em plena baixa pombalina. Este é um exemplo da excelente intervenção da autarquia lisboeta na criação de pontos de atracção capazes de potenciar o turismo e a cultura daquela cidade.

Depois do sucesso do Museu da Imagem, é tempo da Câmara Municipal de Braga investir numa colecção que coloque a cidade e a região no roteiro das grandes mostras de arte internacionais. Quanto a mim, o espaço para receber o Museu está encontrado e não pode deixar de ser o Estádio Municipal de Braga. A escolha só é surpreendente para os mais incautos, na medida em que aquele recinto desportivo é a obra mais marcante da arquitectura bracarense no último meio século.

A instalação do museu no interior da bancada poente do Estádio Municipal de Braga obrigaria a algumas alterações pontuais na estrutura e na funcionalidade interna do edifício, mas teria o mérito de conjugar a melhor arquitectura da cidade com aquela que seria a melhor colecção de arte fora de Lisboa e do Porto. Por outro lado, os milhões investidos no estádio estariam ao serviço das populações durante 365 dias por ano e não apenas nos eventos desportivos e nos espectáculos musicais que vai acolhendo pontualmente.

Um estádio, dois museus é mais uma ideia para Braga.

Uma Semana em Lisboa [3]

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wHEN sOMETHING iS wRONG
© Manuel Manso

Lisboa tem as virtudes e os defeitos das capitais europeias. A indigência escancara-se-nos com mais insistência e maior vigor do que em qualquer outra parte de Portugal. E escreve-se na miséria das casas vazias e degradadas e graffitadas, nas ruas com cheiro a mijo, na pobreza dos espíritos devolutos e na droga que se oferece sorrateiramente à descarada.

Nas "Nações", onde um T1 se arrenda por mais de mil euros mensais, descansam penosamente dezenas de almas desorientadas no abrigo da Gare que é, estranha ironia, do Oriente. Seguindo em direcção o rio, cola-se-nos a retina no novo Casino de Lisboa, edifício transbordante de reluzentes néones e sorvedouro patológico de dinheiro justo ou lavado. Ali entra toda a gente porque o dinheiro não tem cor. Já nos cabarés da modernidade, travestidos de discotecas e clubes, seleccionam religiosamente os clientes, de tal modo que só entram estrangeiros endinheirados mais a aristocracia da finança e dos morangos açucarados.

A Lisboa que se move na penumbra e na penúria é perigosa e inquietante, mas não é por isso que devemos continuar a ignorá-la.

Uma Semana em Lisboa [2]

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José de Almada Negreiros: Auto-Retrato num grupo (1925)
© nfcastro

É uma enorme emoção percorrer os corredores de alguns dos museus de Lisboa, tão recheados que estão da melhor arte nacional e internacional. O Museu Colecção Berardo, o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu Calouste Gulbenkian ocupam o topo das minhas preferências não só pela beleza dos espaços, mas também pela variedade e qualidade das colecções que albergam. De Monet a Almada Negreiros [na imagem], de Bosch a Rembrandt, de Le Corbusier a Nuno Gonçalves, de Picasso a Amadeo Sousa-Cardozo ou de Paula Rego a Júlio Pomar, há um apaixonante mundo de arte e cultura para descobrir. De visita absolutamente obrigatória.

Uma Semana em Lisboa [1]

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Plaza de Rossio (Lisboa)
© basajauntxo

Capital da diversidade, Lisboa tece-se de inquietantes contrastes. Nas avenidas em que convivem todas as raças, todos os credos e todas as sexualidades também vagueiam insuportáveis laivos de boçal intolerância. As suas ruas testemunham a pobreza atroz dos que, sem tecto nem trabalho, se alimentam da generosidade alheia, mas também o apressado trânsito dos negócios, do dinheiro e dos ócios. Dos miradouros vêm-se casas de luxo e extravagância e, mesmo ao lado, degradadas paredes de pobres habitações. As universidades respiram ciência, as livrarias transbordam cultura, as tertúlias multiplicam conhecimento e os museus respiram História enquanto a indigência espiritual se multiplica em crendices e neo-religiões.

Lisboa, como eu a vejo, é apressada e cosmopolita, culta e monumental.
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Avenida Monumental

A necrópole das lamentações

Não deixa de ser agradável, ou mesmo reconfortante, verificar como a temática do Património Arqueológico passa, em muito pouco tempo, do mais profundo anonimato e indiferença, para a ordem do dia. Basta uma ajudinha... Normalmente não pelos motivos que nós, profissionais da área, gostaríamos. Muitas vezes, arqueólogos fazem as suas escavações no meio de nenhures, detectam e estudam vestígios interessantíssimos, mas bem podem clamar pela hoje em dia tão desejada ou tão indesejada (consoante os casos) comunicação social.

No entanto, e curiosamente, talvez pela controvérsia que normalmente envolve estas questões, tenho a sensação de que o património e as comunidades não ficam a ganhar no meio de tudo isto. As questões são estrapoladas em demasia, saem do seu âmbito próprio, e rapidamente o património é o fulminante que desencadeia uma explosão. Passada a explosão, tudo fica na mesma...

Não fiquei minimamente admirado pelo facto de o vice-Presidente da Câmara de Braga não ter conhecimento da descoberta de uma necrópole romana no quarteirão dos CTT, e tão pouco fiquei admirado pela oposição naturalmente também não saber (penso que se soubesse, já teria entregue e tornado público o seu requerimento antes da notícia do Diário do Minho), apesar de louvar a atitude de defesa dos vestígios que parece nortear o programa de Ricardo Rio.

O que me admirou, e na verdade de forma positiva, foi constatar a existência de muitos cidadãos preocupados com a história da sua cidade, com o crescimento equilibrado da mesma e com a harmonização entre o seu passado e o seu futuro. Resta esperar, por um lado, que estes cidadãos deixem de ser uma minoria, por outro, que estas questões não sejam colocadas a debate público como se se tratassem do processo “Apito Dourado”, o que implica a discussão de uma temática importante, mas envolta numa desnecessária teia especulativa, e em preconceitos político/partidários.

As estelas funerárias que eventualmente venham a surgir na necrópole do quarteirão dos CTT, têm assim uma nova reutilização: amparam as lamentações de todos os cidadãos, dos que se queixam com razão, e dos que se queixam, simplesmente...

Foto: © MDDS
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Avenida do Mal

Cidade Fiasco

A 3ª cidade do País, conhecida desde o Sul como um mero bairro católico para lá do Porto, guetto de benfiquistas e gente estranha, é uma verdadeira desilusão turística, segundo o Jornal de Notícias. A cidade bimilenar teima em não vender, apesar de burgo importante desde a Idade do Bronze. Os turistas são em grande parte espanhóis, portugueses afrancesados e velhos em excursões do INATEL, que por esta altura deixam a hotelaria com ocupação pela metade. Poderia ser a falta de Praia, mas não é.

Anos de mau planeamento urbanístico e invasão maciça de gente de concelhos em redor para as torres de cimento, deturparam-lhe a identidade, facilitaram o estupro de património arquitectónico e agudizaram falta de respeito pela história de Braga. O que sobrou de património da Igreja lá se foi aguentando face a quase tudo o resto. A restante cidade, metida dentro, sem querer saber de assuntos públicos ou de estratégias comuns, confiou todo o seu destino ao socialismo parolo de Mesquita Machado.

Sobrou para agora uma sombra de cidade que vista do Bom Jesus, até que parece bonita com o fumo que a desfoca. Ironicamente verde. De resto, é pouco mais que uma rua que vai do Arco da Porta Nova até à Avenida Central, um punhado de Igrejas e uma mão cheia de lamentos. Um café na Brasileira e um porto no Vianna por momentos engana, mas tanto a cidade como o partido socialista bracarense vão ter de reflectir seriamente sobre o que tornou uma das mais potenciais cidades portuguesas para se elevar na UNESCO num flop turístico, que até no de religião chega a ficar bem atrás do complexo piroso de Fátima. São favas, senhor, são favas...

[modo férias]

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plymouth
© jovivebo

Nos próximos oito dias voltarei a estar em modo férias, pelo que ficarei menos disponível para escrever. Ainda assim, publicarei algumas reflexões e as crónicas semanais mantêm-se. Boas leituras.
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Avenida Ideal

Capítulo 4: "jedes herz ist ein revolutionäre zelle"

Há alguns dias vi Os Edukadores, um filme do austríaco Hans Weingartner sobre os movimentos anti-capitalistas e anti-globalização. Na verdade, não retrata exactamente os movimentos, mas antes aqueles que os compõem; não é um filme sobre ideologias mas sim sobre as convicções que as formam.

Depois de ver o filme, revi "a ética protestante e o espírito do capitalismo" de Max Weber e deparei-me com a seguinte afirmação: "a ordem económica capitalista nos nossos dias é um universo de grandes proporções, que os indivíduos encontram ao nascer, e que constitui para cada um deles, pelo menos enquanto indivíduo, um contexto que não se pode modificar e onde se terá de viver".

Esta obra de Weber completou já cem anos, mas a afirmação não perdeu qualquer valor. Aliás, com a globalização, esta realidade expandiu-se a todo o planeta. E, se por um lado sabemos que grande parte dele está ainda em vias de desenvolvimento, sabemos também que esse desenvolvimento dependerá da vontade do espírito do capitalismo.

O filme de Hans Weingartner mostra-nos que a globalização não alimenta apenas o capitalismo, como também o anti-capitalismo. De câmara na mão, ao estilo de um documentário, Hans apresenta-nos Jan e Peter, os Edukadores. Num estilo quasi-terrorista, Jan e Peter entram em casas de pessoas "com demasiado dinheiro" e, sem roubar nada, alteram-lhes a disposição das mobílias. No final deixam uma de duas mensagens: "Tens demasiado dinheiro" ou "Os teus dias de fartura estão a terminar". Fazem-no para despertar o medo dos donos das casas que "assaltam" e o espírito revolucionário de outros jovens, esperando ser a inspiração de um movimento subversivo. "Todos os corações são uma célula revolucionária", é o título desta crónica e a mensagem que Jan deixa ao senhorio da namorada de Peter, Jule.

Quando um "assalto" corre mal, os três são obrigados a "raptar" o dono da casa e fogem para uma casa de abrigo nos Alpes. Aqui nasce uma relação de cumplicidade entre os raptores e o raptado, outrora um revolucionário de 1968. Hardenberg, o raptado, explica-lhes que a vida é que comanda o que somos e cita a célebre expressão: "aos 20, quem não é revolucionário não tem coração; aos 40, quem não é conservador não tem cabeça".

Os Edukadores é um filme sobre ideias, é um debate entre duas gerações com ideias aparentemente antagónicas. É um filme que, acima de tudo, nos prova que as "boas ideias nunca morrem", apenas se reciclam.

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Para saber mais:
Die Fetten Jahre sind vorbei (The Edukators/Os Edukadores), Hans Weingartner
A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber

Tropa de Elite

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As muitas restrições conhecidas no acesso ao serviço e a algumas das especialidades militares são absolutamente incompreensíveis num tempo em que deveria assumir-se sem reservas o combate a qualquer discriminação em função de género, cor de pele, credo ou orientação sexual.

Não há desculpa que pegue... Ora leia-se com atenção a forma como Fernanda Câncio, no Diário de Notícias de hoje, vulgariza alguns dos estranhos argumentos que têm estado na base da manutenção de algumas destas estranhas discriminações.

«Ele é a necessidade de separação de alojamentos (como se fosse impensável homens e mulheres dormirem juntos); ele é a hipótese de relacionamentos amorosos e/ou sexuais (nunca deve ter havido homossexuais na tropa) e de abuso sexual das mulheres em caso de captura (se todas as forças de combate fossem mistas era capaz de haver menos violações perpetradas na guerra), ele é o cavalheirismo natural deles que os fará "arriscar tudo para as salvar". Tudo somado, resta o argumento biológico/físico: os homens têm mais força física e um mais elevado nível de agressividade aparente. É relevante? É, sobretudo se as batalhas forem travadas à paulada.»

Sem Comentários

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propaganda
© love underlined

Já há muito se percebeu que o blogue e o Canal Informativo do Município de Braga se afastaram da aura informativa inicial, convertendo-se em meros instrumentos de campanha da maioria que governa a Câmara. Ainda assim, jamais imaginei que o Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Braga se entretivesse a responder, em discurso directo, a um comentador desportivo. Há limites.

A Necrópole de Braga [2]

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capa diario do minho - 7 de Agosto de 2008

Com um comentário a este post do blogue Avenida Central, Francisco Sande Lemos, notável arqueólogo e professor jubilado da Universidade do Minho, deu novo fôlego à discussão sobre dois dos assuntos mais cruciais para o futuro estratégico da cidade de Braga - o prolongamento do túnel da Avenida da Liberdade depois de conhecida a nova Necrópole de Braga e a recuperação do Teatro Romano da Cividade.

As pertinentes reservas que o reputado professor enunciou ao prolongamento do túnel da Avenida da Liberdade e a sua «grande preocupação com a preservação de vários outros espaços arqueológicos da cidade, para lá da muito falada necrópole romana» fazem a manchete do Diário do Minho de hoje, numa mostra de que o jornal continua a fazer bom jornalismo a propósito deste tema.

A preservação do património arqueológico da cidade é de importância capital para que a cidade se possa afirmar no contexto peninsular e europeu. Mas, tal como sugere Sande Lemos, cabe aos verdadeiros cidadãos bracarenses manterem-se firmes na defesa do património e nos apoio às medidas tendentes à sua salvaguarda*. É a hora da massa crítica da cidade se mobilizar na defesa do futuro que o passado milenar da urbe ainda nos pode garantir.

*será interessante conhecer a resposta da maioria ao requerimento que a oposição lhe fez chegar.

Este País é uma Anedota

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Sócrates pretende pagar multa que ninguém quer cobrar. O Nós Por Cá, da SIC, costuma resolver com alguma celeridade os problemas que alguns cidadãos vão tendo com os serviços públicos. Será que o Primeiro Ministro já tentou esta via?

Regionalizar é Preciso!

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«ao que o PÚBLICO conseguiu apurar, o pomo da discórdia entre o director do IINL e o ministério de Mariano Gago tem a ver com o financiamento do laboratório. O Governo quereria centralizar decisões relativas à aplicação do dinheiro e o responsável do IINL temia que o laboratório servisse apenas como receptor dos fundos, que seriam reencaminhados para a administração central.»
[Samuel Silva, Público]

A demissão do Professor Carlos Bernardo da Direcção do Instituto Ibérico de Nanotecnologia vem demonstrar, até aos mais cépticos, que a força centralista dos nossos governantes já não se resolve com um tratamento qualquer. Enquanto Portugal não for definitivamente regionalizado, distribuindo verbas e as competências pelos governos regionais, a deriva controladora centralista permanecerá bem viva.

Ao contrário do que escreve o João Marques, a regionalização é precisamente a única reforma política capaz de dotar as populações de instrumentos de acção capazes de resistir à falta de vontade do poder alapado em Lisboa.

Primeiro as Massagens, Agora as Maçãs...

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Curious sculpture in Berardo Museum, Lisbon
© sonoflusus

«Toda a gente sabe como começa uma massagem, mas não como acaba.» Este foi o surpreendente argumento do Comando Marítimo do Sul para proibir as massagens nas praias do Algarve. Como uma asneira nunca vem só, «o comandante da zona marítima do Algarve resolveu proibir também a distribuição de maçãs por considerar que esta acção seria apenas pura publicidade.» A iniciativa integrava uma campanha de promoção de estilos de vida saudáveis e era patrocinada pela insuspeita Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

Esta deriva proibicionista, matizada com laivos de um nauseabundo puritanismo
é altamente perigosa. Há gente que não tem noção dos limites quando se trata da defesa da (sua) moral e dos (seus) bons costumes. Em Itália, o líder populista Silvio Berlusconi até já mandou cobrir a mama desnuda de uma pintura exposta na sala onde costuma proferir conferências de imprensa, num inquisitório episódio de lamentável censura artística.

Confesso que tenho medo dos traumas e dos complexos dessa gente. Já imaginaram a quantidade de coisas que se podem começar na praia e que não se sabe como acabam? Não lhes contem, senão ainda se lembram de proibir!

A Necrópole de Braga

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Só o desenrolar dos factos desvendará os motivos pelos quais a notícia da nova necrópole de Braga surgiu neste momento. O súbito suposto interesse pelo património arqueológico da cidade não pode ser um mero acto contrição pelo mal que lhe fizeram ao longo destes últimos trinta anos, profanando, destruindo e delapidando sem dó nem piedade e a troco de um soldo que todos pagaremos em défice de turismo ao longo dos próximos tempos.

Gostei de Ler

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Daniel Oliveira observa (e bem) que Pacheco Pereira, «o paladino do jornalismo sem agenda e sem causas, só não costuma gostar da agenda e das causas do jornalismo». Enquanto isso, José Pedro Ribeiro gosta da Braga ao sábado de manhã que o Bruno Gonçalves descobriu. Já António Amaro das Neves questiona o desprezo que os órgãos de informação têm dado à Guimarães Capital Europeia da Cultura, enquanto que no Café Toural se sente algum desconforto pela associação da máfia ao Vitória de Guimarães que está a ser promovida pelo marketing do próprio clube.

Boas leituras.

Justiça Desportiva Selectiva

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Galo de Barcelos
© Vitó

A justiça desportiva selectiva voltou a castigar o Gil Vicente. Desta vez arranjaram a história de um suposto aliciamento a um jogador do Olhanense, coisa bastante para demonstrar que o Norte é mafioso e o Sul imaculado. Do meio do circo, o que verdadeiramente me incomoda é que o Estado seja cúmplice e a Federação Portuguesa de Futebol mantenha o Estatuto de Utilidade Pública.

S.C. Braga 2008/09: Promissor

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Ao contrário do defeso anterior, os primeiros indicadores parecem sugerir uma época muito promissora para o Sporting Clube de Braga. A exibição dos Guerreiros do Minho, agora sob comando de Jorge Jesus, foi bastante para deliciar os adeptos que se deslocaram ao Estádio Axa.

O Torneio Internacional de Braga foi ganho pelo Futebol Clube do Porto, mas isso é um mero detalhe depois de um jogo em que Alan, Luís Aguiar e Andrés Madrid deixaram excelentes indicações, assumindo-se como os melhores reforços para a presente temporada.

SNS: O Bicho Papão

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Devo dizer-vos que fui utente intensivo de um hospital público português durante oito meses. Dos porteiros aos médicos, passando pelos enfermeiros, auxiliares e administrativos só encontro coisas boas para contar. Tenho para mim que, havendo algumas razões de queixa, o Serviço Nacional de Saúde, felizmente universal e inevitavelmente quase gratuito, é uma das coisas boas deste país.

Bastará atender ao espectacular decréscimo da taxa de mortalidade infantil, às taxas de cobertura vacinal ou às percentagens de doentes em tratamento para os mais variados cancros para se perceber que, ao contrário do que sucede em sectores como o ensino ou a justiça, o Serviço Nacional de Saúde é um dos maiores sucessos do Portugal democrático. Apesar disso, muito está por fazer e, ao contrário do que alguns pensam, muito mais poderia ser feito com os recursos humanos que existem (seja pelo incentivo à exclusividade dos médicos e demais profissionais de saúde seja pelo aumento da eficiência dos diversos serviços clínicos).

O país real é muito diferente do que no-lo pintam quotidianamente nas notícias dos telejornais. Só assim se explica que uma simples remodelação ministerial tenha acabado com a suposta ineficácia do INEM e com o nascimento de crianças no caminho para as maternidades encerradas.

Bem diz o povo que «a galinha da minha vizinha é sempre melhor do que a minha.» Há nisto algo tragicamente realista, quase espelho da sociedade nacional, que ajuda a explicar o facto de muitas das discussões e comentários acerca do Serviço Nacional de Saúde resvalarem para a demagogia trauliteira e a insinuação irresponsável que infelizmente se vai ouvindo e lendo por aí.
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Avenida Monumental

Preconceito Profissional

Trabalhar com o Património Arqueológico exige lidar com alguns constrangimentos, um deles é a ideia preconcebida, e errada, de que, onde uma equipa de arqueólogos entra, está tudo perdido e ninguém mais pode construir nada naquele local. Por vezes, essa ideia preconcebida parte do cliente, ou seja, de quem paga a intervenção arqueológica. Outras porém, parte de quem, não estando convenientemente informado dos processos, tenta criar um escândalo “à moda de Foz Côa” (a expressão tem direitos de autor), porque estes escândalos normalmente vendem bem.

Na semana passada, veio a público notícia da descoberta de uma necrópole no centro de Braga. Na reportagem do Diário do Minho, além de informações vagas relativamente aos vestígios arqueológicos detectados, deu-se especial ênfase ao invulgar sigilo que teria revestido a intervenção da equipa de Arqueologia, ao alegado pedido de não divulgação por parte do promotor da obra feito aos arqueólogos, e a associação imediata dos achados detectados a outros projectos, como o prolongamento do túnel da Avenida da Liberdade, o hotel para idosos, etc. Tudo isto baseado em fonte anónima.

Em boa hora, os investigadores responsáveis esclareceram a opinião pública, e anteciparam a divulgação dos resultados da intervenção, de modo a evitar uma visão deturpada dos trabalhos que decorrem.

De facto, a comunicação social tem destas coisas, divulga-se uma descoberta com uma segunda intenção, mais ou menos evidente. Se o objectivo era unicamente fazer uma reportagem acerca de uma intervenção arqueológica, então porque não entrevistar os responsáveis? Ou porque não esperar o término da escavação?
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Avenida Ideal

Capítulo 3: da monarchia

Há um par de meses, numa conversa sobre ideias, um amigo falou-me da "Monarquia do Norte", a mais importante tentativa de restauração da Monarquia em Portugal; como nunca tinha ouvido falar de tal coisa, decidi ler sobre o assunto.

A Monarquia do Norte, proclamada no Porto a 19 de Janeiro de 1919, durou apenas 25 dias, mas conseguiu expandir-se por todas as grandes cidades a norte do rio Vouga, à excepção de Chaves. Apesar de não ter conseguido conquistar Aveiro nem Coimbra, o movimento monárquico liderado por Paiva Couceiro fazia tremer o Governo de Tamagnini Barbosa, obrigando-o a apelar aos civis e estudantes que se alistassem para defender a República.

A 22 de Janeiro, enquanto um grande número de voluntários republicanos davam vivas à República em desfile patriótico até ao Terreiro do Paço, as forças monárquicas lisboetas entrincheiravam-se no alto de Monsanto para, na manhã seguinte, bombardear Lisboa e tentar a rendição do Governo. A batalha durou até à tarde de 24 de Janeiro, quando as forças republicanas se uniram e preparam um ataque geral às forças monárquicas que não tardaram a render-se.

Com esta demonstração do poder republicano, as forças partidárias da "República Velha" voltaram à esfera do poder para combater a política do Governo de Tamagnini Barbosa, que legislava mais para agradar a monárquicos e republicanos do que para bem da Pátria; curiosamente, a revolta monárquica como a contra-revolta republicana têm o mesmo fim: a "salvação da Pátria". A 26 de Janeiro, Tamagnini Barbosa demite-se e, a 28 de Janeiro, José Relvas sucede-lhe.

Com a monarquia confinada ao espaço a norte do Vouga, as forças republicanas foram avançando e reimplantando a República e, ainda antes do final de Janeiro, várias cidades eram já republicanas. Pouco tardaria até que, a 13 de Fevereiro, a República fosse reimplantada na capital da monarquia do norte, o Porto, pelos mesmos que 25 dias antes haviam restaurado a Monarquia.

A História também é feita de mudanças de ideias.


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Para saber mais:
Paiva Couceiro e a contra-revolução monárquica, Artur Ferreira Coimbra
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

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