Quando se tem a política como carreira profissional, e provavelmente a derradeira alternativa para uma vida de estatuto e regalada, logo se depreende do que resulta da ética do “vencer a todo o custo”, e como isso se traduz na qualidade moral dos intervenientes. Contudo, o percurso do político profissional não se despoja de regras, mesmo sendo estas meras orientações de sucesso na progressão na carreira. E aqui, porque se mexe com as expectativas das pessoas, a mentira, o cinismo e a hipocrisia são instrumentos de trabalho tão válidos e importantes como outro qualquer, para atingir um objectivo.
A mecânica da carreira política em muito se assemelha ao esquema falacioso da Roda. Senão vejamos: quando alguém quer ser político de carreira, a iniciação, geralmente, é feita por baixo como militante no partido ou na juventude do mesmo. Logo aí, o investimento pessoal na
roda é grande, e vai do voto às obrigações quase religiosas para com a nomenclatura partidária. Um dos valores dos quais se abdica, como jóia de inscrição, é a liberdade de pensamento, ficando esta limitada ao “
partidariamente correcto” . Há quem abdique de pensar, simplesmente. A partir desse momento, já é visto como alguém integrado e de confiança, com direito a carreira política nesse partido. De seguida, se quiser chegar ao topo e não se ficar por um lugar de contínuo de escola ou membro de assembleia de freguesia (equivalente ao militante de base), terá de angariar a todo o custo, nem pelo conto do vigário – e aqui entra o talento e a formação profissional na arte da retórica -, gente disposta a comprometer-se de igual forma e a comprometer mais alguém de seguida. Só deste modo se sustenta a ascensão teórica e imaculada de todos.
Ora, quando se aparece com uma carteira de novos militantes e simpatizantes, às vezes sem ideia nenhuma, com todo o arrasto de comprometimento entranhado em famílias inteiras, o militante ganha “respeito[será antes medo?] e admiração" dentro da
roda e passa quase automaticamente ao nível seguinte, aprovado por maioria ou unanimidade, assim sucessivamente: primeiro na concelhia, depois nas distritais e por aí adiante, até aos órgãos nacionais. À medida que sobe na roda hierárquica partidária, salta de posto em posto, em lugares do equivalente hierárquico da Administração Pública, ou privada protocolada. O tecto atinge-se com a eleição para alto quadro de Governo ou Parlamento, e nesse patamar ganha-se o privilégio de preparar a vida fora da alta-roda da política (nem de propósito, há expressões que não surgem por acaso) com os dividendos do investimento inicial.
Naturalmente, quando a roda fecha para si, tem-se já uma carteira de contactos e a garantia de um lugar numa grande empresa ou multinacional, de origem ou com interesses cá, ou instituição financeira, com o privilégio de fazer fortuna no jorradouro dos cofres e fraquezas do Estado. Se mais modestos, ficam-se pela reforma vitalícia, como senadores ou opinadores, quanto muito candidatos a Presidentes de República. Alcançaram também o
karma de
insufragáveis. A mecânica da
roda assim o exige.
Por isso, esqueçam de referir Jorge Coelho ou Dias Loureiro como eternos candidatos a líderes de partido, porque jamais voltarão à política, nem para líderes nem para nada, nem sequer por amor à
Causa Pública, coisa que para a qual nunca tiveram vocação nenhuma.