Avenida Central

Boas Saídas Em 2009

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dinossaurius da politica
© V.P.

Adenda: para quem não percebeu o objectivo do post, dada a discussão-ao-lado que se gerou com o título, que lhes sirva este texto de pista para fintar a minha falta de arte.

Braga, Berço do Fim do Mundo

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O Instituto Ibérico de Nanotecnologia fará da cidade de Braga um centro mundial de referência em Ciência e Inovação, podendo estar por aqui uma das portas que se abrirão para uma revolução no funcionamento da Sociedade e da Economia, nas próximas gerações. Quem o diz, não sou eu - que não monto barraca em Vilar de Perdizes - mas gente da Física, como Michio Kaku, téorico físico, futurista e autor de "Physics of the Impossible"(2008) . Não é pelo Instituto, mas pela Nanotecnologia em si.

Além das inúmeras aplicações em Medicina, Electrónica, Energia e Ambiente, pelo potencial do controlo da matéria a uma escala atómica, imitando as máquinas moleculares cujo bailado dão estrutura à existência da Vida, a Nanotecnologia poderá dar à Humanidade o seu "fabricante pessoal", depois de a ciência lhe ter dado o Personal Computer (PC). Este "personal molecular manufacter", feito por e de nanomáquinas, será capaz de produzir no conforto da casa, a partir de simples matéria, a rodos ao nosso redor, qualquer objecto ou bem que se pretenda, por simples programação. Tal qual um ribossoma (uma nanomáquina celular) constrói proteínas lendo o mRNA, ligando as peças que farão parte da restante maquinaria da célula. Por essa altura, estará o comércio tradicional pelas horas da morte, e nenhum aumento no BragaParque fará sentido. Fica, cada um de nós, dono e criador do que veste, come, usa e abusa - com as devidas questões éticas.

Mas se a maquinaria celular está devidamente programada para não se replicar infinitamente, assim como os organismos não se reproduzem sem limites - graças a milhões de anos sujeitos às ferramentas da Evolução -, surge, com o advento dos nano-robôs, a ameaça do Grey Goo: uma espécie de gosma cinzenta feita de nano máquinas que se multiplicariam (sem as alegrias do sexo) sem controlo, consumindo toda a matéria do planeta, nós inclusivé - ecofagia. Uma hipótese tão possível como remota. Este é aliás, a par dos Buracos Negros gerados pelo CERN, das Bombas Atómicas ou da Inteligência Artificial sem respeito pelo criador, uns dos possíveis "Fins do Mundo" causados pelo avanço tecnológico. Ora a termos tal evento de escala global algum dia, que venha para Braga, já que se ficou sem a organização da Capital Europeia da Cultura...

Pitada de Carril no Investimento Público

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Numa era em que o keinesianismo se tornou a solução e o problema de tudo, em que não há mercado livre que aguente a tentação do alheio, lá se expôs em conferência o bureau do Governo em pose de última ceia, tal qual apostolado de salvador-tecnológico ao meio entre marias madalenas e judas. A apresentação de medidas soube a mais do mesmo, investimento em mais elefantes brancos, depois dos elefantes-bancos.

Banhado em sorrisos, amores de dinheiro fresco, não tardou o sector da Construção Civil, que muito emprega e se governa, motor e betoneira da economia portuguesa - valha-nos eles e até quando o pesado fardo? -, pedir que se lancem as pedras e as empreitadas, sem se estancar, porventura, o défice às derrapagens. No requerimento, exceptuando os remendos a escolas e hospitais, de raíz mal feitos por muitos dos empreiteiros do sector: mais auto-estradas e barragens até que não sobre aldeia com a sua portagem, a sua CRIL e a sua CREL, e bacia hidrográfica que não seja bacia literalmente.

Ora, dado este New Deal a pedido, em advento de país ligado à Europa por TGV e com contas a saldar com Quioto, proponho como investimento público, que talvez agradasse a esta minha geração que pagará as fraldas que se mudaram à Banca, a substituição das automotoras por comboios a sério, nas linhas férreas que definham e nas que acabaram por fechar. Em bitola europeia ou carril magnético, reabra-se - entre outras e por exemplo - a Linha do Tâmega e inclua-se toda a sua extensão nos urbanos do Porto. As gentes do all interior agradecem, preferem carruagens a barcos de recreio.

Políticos Herbalife

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Quando se tem a política como carreira profissional, e provavelmente a derradeira alternativa para uma vida de estatuto e regalada, logo se depreende do que resulta da ética do “vencer a todo o custo”, e como isso se traduz na qualidade moral dos intervenientes. Contudo, o percurso do político profissional não se despoja de regras, mesmo sendo estas meras orientações de sucesso na progressão na carreira. E aqui, porque se mexe com as expectativas das pessoas, a mentira, o cinismo e a hipocrisia são instrumentos de trabalho tão válidos e importantes como outro qualquer, para atingir um objectivo.

A mecânica da carreira política em muito se assemelha ao esquema falacioso da Roda. Senão vejamos: quando alguém quer ser político de carreira, a iniciação, geralmente, é feita por baixo como militante no partido ou na juventude do mesmo. Logo aí, o investimento pessoal na roda é grande, e vai do voto às obrigações quase religiosas para com a nomenclatura partidária. Um dos valores dos quais se abdica, como jóia de inscrição, é a liberdade de pensamento, ficando esta limitada ao “partidariamente correcto” . Há quem abdique de pensar, simplesmente. A partir desse momento, já é visto como alguém integrado e de confiança, com direito a carreira política nesse partido. De seguida, se quiser chegar ao topo e não se ficar por um lugar de contínuo de escola ou membro de assembleia de freguesia (equivalente ao militante de base), terá de angariar a todo o custo, nem pelo conto do vigário – e aqui entra o talento e a formação profissional na arte da retórica -, gente disposta a comprometer-se de igual forma e a comprometer mais alguém de seguida. Só deste modo se sustenta a ascensão teórica e imaculada de todos.

Ora, quando se aparece com uma carteira de novos militantes e simpatizantes, às vezes sem ideia nenhuma, com todo o arrasto de comprometimento entranhado em famílias inteiras, o militante ganha “respeito[será antes medo?] e admiração" dentro da roda e passa quase automaticamente ao nível seguinte, aprovado por maioria ou unanimidade, assim sucessivamente: primeiro na concelhia, depois nas distritais e por aí adiante, até aos órgãos nacionais. À medida que sobe na roda hierárquica partidária, salta de posto em posto, em lugares do equivalente hierárquico da Administração Pública, ou privada protocolada. O tecto atinge-se com a eleição para alto quadro de Governo ou Parlamento, e nesse patamar ganha-se o privilégio de preparar a vida fora da alta-roda da política (nem de propósito, há expressões que não surgem por acaso) com os dividendos do investimento inicial.

Naturalmente, quando a roda fecha para si, tem-se já uma carteira de contactos e a garantia de um lugar numa grande empresa ou multinacional, de origem ou com interesses cá, ou instituição financeira, com o privilégio de fazer fortuna no jorradouro dos cofres e fraquezas do Estado. Se mais modestos, ficam-se pela reforma vitalícia, como senadores ou opinadores, quanto muito candidatos a Presidentes de República. Alcançaram também o karma de insufragáveis. A mecânica da roda assim o exige.

Por isso, esqueçam de referir Jorge Coelho ou Dias Loureiro como eternos candidatos a líderes de partido, porque jamais voltarão à política, nem para líderes nem para nada, nem sequer por amor à Causa Pública, coisa que para a qual nunca tiveram vocação nenhuma.

Fôssemos Todos Padres

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Por muito que a Europa tenha chegado, nas suas directivas e tractores, à ruralidade portuguesa, anos contados depois de Mário Soares assinar a adesão ( fôssemos nós doutro continente ou à deriva no mapa mundi), pouco mudou nalguns hábitos antigos. Sempre que se renova o prior num vilarejo ou cidade com cabeça desse tamanho, faz-se festa em tapetes de flores, comezaina, missa e beijar de mão – para não dizer coisa badalhoca – como quem beija o Menino e espalha o herpes com a boa-nova. Aliás nunca percebi o que é que o patchouli tem de desinfectante que não fosse o cheiro que nos repele de gente de mau gosto e blusas cor-de-rosa ou calças de pano amarelo…

Adiante. Não há padre que morra de fome em lado nenhum, porque não havendo quem oiça e dê resposta que se preze, médicos sem vocação de merceeiro, ou psiquiatras ou psicólogos de centro-de-saúde, nada como alguém embebido da autoridade divina de perdoar todos os pecados da alma que, à excepção dos literais roubos de igreja, estão além dos 10 mandamentos e as desaventuranças, pago com casa feita a expensas da comunidade, porco, pitinho, arroz, batatas, couves, carro e as ofertas – 10% do rendimento mensal do agregado. O altruísmo comunitário é tal, que até o padre desconfia. Houve altura que a paróquia da minha terra montou com o grupo de jovens e catequistas um censo para averiguar de quantas famílias e posses, não fosse o altruísmo ser demasiado comedido. Vale que ficou a ideia pelo papel, por intercepção do arcebispo que, informado das férteis mentes de má-língua geradas pela doença da coceira do grelo, fez guindaste ao padre para beira-mar, longe das tentadas mulheres (e homens) da montanha e mais perto do iodo. Em cada aldeia uma Sodoma à sua maneira, e normalmente não é por serem bonitos. Longe disso, é pela necessidade de quem lhes arrepie a fome de todos os buracos do corpo.

A ideia que geramos que temos tudo em falta ou que nos falta tudo, exagera e distorce os patamares de felicidade. Fica tudo arreado para donzelas de dote alargado e peida parideira, e príncipes dedicados. É o conto de fadas à moda do hipermercado e não há lugar para gente normalmente humana. Pena que não veja a sociedade, nas suas pequenas e grandes comunidades, valor em todas as artes e artistas - mesmo aqueles que chama de preguiçosos. Pena que não façam tapetes de flores aos carpinteiros, que não beijem as mãos aos construtores e aos lavradores, que não louvem os professores com maçãs como faziam dantes, que não ofereçam jantar aos pintores. Parecem agora tantos e de estorvo que se os calibra como a fruta da CE. Ou servem ou não servem - e os que servem mesmo assim têm prazo de validade. Depois não admira que tenhamos um país, uma Europa e um Mundo de fácies depressivo e em delírio de ruína.

A Omelete e os Ovos

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Não estará de boa cabeça Maria de Lurdes Rodrigues, mesmo que não tenha levado com os ovos nela – literalmente - como queriam alunos e professores, unidos pela primeira vez, pela mão desta ministra. Esse facto não é outro que não o grande feito do seu mandato, contra qualquer verso da lírica do “Another Brick in The Wall” dos Pink Floyd. E não é fácil fazê-lo, ou talvez seja, num Ministério com tamanha pressão psicológica. Se repararmos, da tutela da Educação nunca houve bem-dispostinho e bem-intencionado que não saísse grunho, paranóico-depressivo e potencial ministro das finanças ou líder do PSD – personagens que mesmo com manicure e peeling político teimam em não colher simpatia de ninguém.

É que isto de aturar canalha tem que se lhe diga quando a sociedade constrói a imagem de uma profissão pela qualidade de vida (o dinheiro que dá) e reconhecimento (a classe/estilo) que proporciona, e não pelo glamour das suas responsabilidades e importância-vital no bem-estar e prosperidade de uma comunidade.

Falo em relação aos professores como o faria em relação a um profissional de saúde. Quando a avaliação se prende com carreira e com remunerações - como se de uma empresa se tratasse - fica desde logo o caldo de missão entornado. Essa coisa da “qualidade de ensino” não se resolve por decreto, por critérios obtusos ou leis do actual mercado. Resolve-se naturalmente, se o ambiente não for de disputa mas antes de sincera partilha e responsabilidade entre professores, entre alunos e entre professores e alunos.

Com isto, nesse turbilhão de propostas e contra-propostas acerca do modelo de avaliação– que toda a gente tem como imperativo e urgente - faço opinião de que a avaliação de professores é inútil e só se lhe encontra necessidade num exercício de pura competição. A nossa sociedade e modelo económico têm por base princípios funcionamento de luta por sobrevivência - que já deviam estar largamente ultrapassados num mundo de abundância -, fazendo-nos legar grande parte das energias e recursos em actividades laterais sem qualquer outro significado prático que não azedar ânimos e ambientes. Aí a motivação individual tem dínamo em apenas querer parecer melhor que o colega, em louvores e propriedade - se isto é gozar a vida e tirar prazer dela, não percebo em que concepção se anda metido. Na verdade, com a crescente burocracia e papelada para preencher, está à vista que o mundo nem por isso anda melhor e ainda por cima com menos árvores.

Não há gente boa e capaz por obrigação. Há gente disponível para fazer o papel que faz melhor. Acredito que um professor responsável, como um médico, que queira ver o trabalho da sua equipa, da sua escola ou hospital, traduzido em resultados visíveis e positivos para a comunidade faz o esforço automaticamente e é essa a sua motivação para melhorar as suas capacidades profissionais. Mas isso pressupõe que seja num ambiente aberto o suficiente para debater, experimentar, aceitar e adaptar novos e melhores conceitos de ensino - sem paradigmas ou dogmas pétreos e inquebráveis. Perceberá melhor da coisa quem lida com a realidade no terreno e não um sociólogo ou economista metido na chancela, a testar modelos do alto do seu gabinete como quem joga Sim City.

A Barrela

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© Miguel Leite Pereira

O rio Olo, um dos últimos rios impolutos de Portugal, recorta o Alvão contando pontes velhas de aldeias de pedra até se precipitar caudaloso nas Fisgas de Ermelo, Mondim de Basto, numa queda de água de beleza rara na Europa. Maravilha tal que locais levaram uma moção à assembleia municipal, propondo a candidatura da mesma a Património Natural.

No entanto, de pouco pode ter valido a aprovação por unanimidade em torno daquilo têm como valor acrescentado. No País West Coast da Europa, o interior é apenas uma enorme fronteira até Espanha como se o risco fosse dessa largura. O Plano Nacional de Barragens tem projectadas 5 barragens para o Vale do Tâmega, que farão de toda aquela bacia um açude gigante. Pior, uma delas, desviará o rio Olo para alimentar uma outra, de Gouvães, a cargo da Iberdrola. Diria a cargo, porque para lá caminha. O período de discussão pública que teria um ano, foi, em manobras por detrás da cortina, encurtado em meses. Milagre do Simplex da conveniência em nome de favores maiores, será tudo entregue nas mãos dos concessionários já em Dezembro.

Assim que o betão começar a frenar a garganta, das Fisgas do Ermelo não se verá mais que um fio de água fragas abaixo, e do vale do Tâmega pouco restará dele escavado por um rio. Muito da nossa identidade paisagística e património colectivo completamente alagado. O que era natural dará lugar ao impacte artificial de uma albufeira de falsas promessas, à distância e a bem da alumiação do Portugal filho e no que resta em desgraça ao Portugal enteado.

Adenda: assine contra esta tragédia, a Petição anti-barragem: Pela vida no Tâmega e no Olo.

1 de Novembro num Minho Fiel e Defunto

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Tende todo o mundo para a calmaria, no Minho profundo, agora que o sábado fez mais de quantas caras, de sol e de chuva, para quem largou afazeres de casa e foi velar os mortos, santos e diabos, todos eles boas pessoas depois de enterrados. O ritual de memória é complexo mas sistematizado em campas floreadas, velas e rostos caídos sucedidos de rostos fechados, uma ou outra venta de seca, uma tosse e um trago no cigarro – para lá caminhamos todos, uns mais a correr que outros.

Caem as moedas a bater na lata redonda dos voluntários da Liga Portuguesa contra o Cancro que se misturam com os mercadores de cemitério entre cera e flores: crisântemos e jacudílios, nomes de planta tão esquisitos que parecem inventados na hora, como eu inventei o segundo. O cemitério da minha terra tem um estaleiro da Mota-Engil meio caminho entre este e a Igreja. Essa alteia num morro, mas mal se vê por detrás do monte de areia com que se vai fazendo o betão de viadutos e aquedutos, beiras de estrada, entre a saída do nó da A7 - onde deixo 500 euros anuais em portagens, grande imposto de selo - e a sede do concelho, construída também ela quase toda agora em cimento, em redor de um Mosteiro de granito, albergue de missas, do secundário local de gestão católica e dos Paços do Concelho. Todo um encanto natural virado e revirado em terraplanagem e apartamentos.

Cabeceiras de Basto é também uma land of oportunity para os empreiteiros do Estado, que não sendo do Estado em si, são o seu braço operário e a sua carteira de investimentos, em dinheiro e ministros ex-administradores e administradores ex-ministros. Assim se faz o plano Marshal em Portugal anos largos de atraso, o New Deal dado, renovado e embandeirado pelo vendedor do Magalhães, qual feirante de microfone enfiado numa meia, e filiados. O pequeno concelho de Basto, encostado a Trás-os-Montes, em gente bem atrás de tantos outros do distrito de Braga, é anos seguidos, cimeiro em lugares do PIDDAC para o Distrito. Quem é que pode dizer que o Governo de Lisboa não distribui a riqueza com o interior norte?

Assim e Assada, a Lei de Cabrita em Águas de Bacalhau

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A nova Lei Eleitoral Autárquica, antes que descosida, diga-se urgente, está de molho com as birras do costume, sobre o direito de paternidade em reformas do Estado e rombos de qui pro quo. Para o bem e para o mal, Eduardo Cabrita e António Ramos Preto, deputado do PS, encabeçam no Governo e no Parlamento respectivamente, a redacção da lei reformadora do organigrama político das autarquias e eleições anexadas. Encabeçam, como quem diz, porque estas questões de Regime são inevitavelmente da responsabilidade do espectro central e quando assim é não admiram as turras, os azeites e os abortos regulativos, o adiamento da maturação da democracia do País.

Apesar da boa vontade, o que Eduardo Cabrita tem nos braços é muito fraquinho para não dizer mais do mesmo. A Lei Autárquica pouco ou nada acrescenta na redefinição de funções e do prestígio da Assembleia Municipal. Ainda que das mesmas listas saiam os que depois ocuparão lugar no executivo de uma Câmara Municipal, muito à semelhança do que se faz para as Juntas de Freguesia, ou mesmo nas Legislativas, há duas nuances que não se eliminam: os Presidentes de Junta não deixam de ter assento na Assembleia, em muitos concelhos em número tão absurdo, como Barcelos (89), que nem se percebe para que se elege Assembleia Municipal; e, por outro lado, a Câmara Municipal é obrigada a meter no executivo uma minoria de vereadores da oposição que passam a ter a função arcaica e inútil de vogais - muito à semelhança dos actuais vereadores sem poleiro -perdão... - pelouro.

Ainda houve quem quisesse reduzir a participação dos presidentes de Junta a intervenções e a votação apenas do Orçamento (que dizendo-lhes respeito não deixa de ser uma protelação da necessária autonomização das juntas de freguesia) mas do avanço e recuo das tropas de Menezes ( na altura) sobrou, mais uma vez, água de bacalhau. Ainda se acrescenta a seguinte: se houver, por exemplo, 4 forças com percentagens de votos a rondar os 20 %, ganha imediatamente o direito de formação de executivo a força que tiver (nem que seja por um) a maioria relativa dos votos, tendo de negociar com as outras forças a não-recusa do executivo proposto. Muito pouco simplex.

Simplex era o seguinte: eleger uma Assembleia Municipal em boletim único, sem se lhe acrescentar Presidentes de Junta à posteriori, e trocados os votos em deputados municipais, as forças eleitas sem maioria absoluta teriam de negociar um executivo (sem vogais ou vereadores de plantão) para trabalhar em minoria relativa ou em coligação. Prestigiava-se assim, na comunidade, a Assembleia Municipal, com sessões semanais ou quinzenais, mais interventiva e valorizada para forçar a aplicação de determinadas políticas para a cidade/vila, mais central na discussão política na aprovação do plano de actividades e orçamento, ficando as figuras dos executivos mais subordinadas ao hemiciclo e à vontade do espectro eleito, como numa democracia com D grande o deve ser.
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Avenida do Mal

República de Outono, Outono de Democracia

Temos uma República com fundação em Outubro, mês que, de São Petersburgo a Lisboa, não é mês para fazer revoluções. Estas não se fazem ao cair da folha, quando está o mundo tão sujo e deprimido por si, que por muito que se queira aparecer com novidades faz-se pouco mais que substituir muito do que se tem por nada ou coisa nenhuma. E isso, não há primavera que resolva.

Criou-se um Presidente de República que é, quer queiramos quer não, figura de si tão obsoleta como um Rei, legitimada por 10 anos apenas (em tradição, raramente se perde o segundo mandato), uma personagem que, só por existir, desrespeita o âmago da democracia e do debate permanente de ideias. É, por si, um insulto ao parlamento, porque perpetua a ideia desconcertante de nos calhar por fado deputados que não são de fiar, incapazes de cumprir a Constituição e sobretudo legislar - embora se legisle tudo e mais alguma coisa - em tradução do que é o espectro da sociedade que representam. É uma regulação unipolar, de certo modo autocrata, não pelo poder do voto mas no poder do veto.

Bem vistas as coisas, e somando isso, um Presidente existe somente para vociferar discursos redundantes em torno de matérias redundantes, para puxar pelas orelhas e pela moral (?) à classe política, em conselhos de ancião caduco que orienta por parábolas, como um astrólogo faz quando traça cartas astrológicas que dizem tudo e dizem nada sobre nós. Não surpreende que, na total redundância, saiam todas as interpretações possíveis – do PCP ao CDS-PP -, que um Presidente seja Cristo para uns no discurso de Abril e Anti-Cristo para os mesmos em Junho.

Mas Cavaco, Sampaio ou Soares nunca disseram nada que não diria qualquer senador de bancada, na poltrona ou em entrevista a Judite de Sousa. Nunca disseram o que não diria cada um de nós. Tragicamente este sistema redundante só existe porque desde a sua fundação quase todos os eleitores se perderam na sua superficialidade, e nunca pararam para pensar às vezes e olhar o teatro de interesses e leviandades que se tornou a democracia institucionalizada num edifício pétreo cheio de gente que ninguém conhece nem sequer sabe que elegeu ou sabe que existe. Gente que se convence que percebe tanto de leis como de porcas prenhas, que vendo no acto burocrático da democracia um desperdício em si mesmo, desperdiça-se com isso. Gente que, entre abominação e a redenção, se deixa embalar por alguém que, no meio da papelada, há-de apontar defeito ou falta de virtude, fazer disciplina de voto e arrepiar caminho na pompa e protocolo para algum lado ou para lado nenhum.
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Avenida do Mal

Casamento Subprime

Reservo-me a partir de agora ao direito da incoerência, que é coisa de moda neste mundo do avesso, onde os neoliberais se confundem com os socialistas clássicos e estes com os outros atrás. Digo porque não sei para que perdi tempo, agora que vejo, em defender o alargamento dos direitos de casamento a toda a generalidade de gente que o entenda fazer. O verdadeiro significado do casamento foi bem para lá dos afectos, adquiriu um perverso sentido prático por detrás, já não tem o valor sentimental e voluntário que se especula que tem: é meramente o exercício de eficiência numa economia de mercado, seja ela no contexto do Capitalismo Neoliberal seja no de Capitalismo de Estado. Um mal menor como quem vive num apartamento com outra pessoa, a aturar-lhe as neuras e os arrotos, a foder de vez em quando, apenas para pagar as contas.

De verdade, não acredito que se discutissem os direitos adquiridos com o casamento se estes não fossem meras compensações face aos deveres e obrigações para com o Estado ou o Sistema Bancário - mais o segundo que o primeiro. Desde que a sociedade se vergou ao dinheiro e ao que ele compra, mesmo o que não interessa, ficou obcecada por ver inverter-se o sentido do "tempo é dinheiro", qualquer troco que se poupe talvez dê fôlego para nos desenganarmos, de que talvez olhássemos pelos outros e os outros por nós.

Não admira então, que no meio da mediatizada tragédia-dominó do subprime, toda a santa gente - presa ao paradigma do sistema monetário actual - faz por preservar alguma réstia de superioridade, algo que na pirâmide hierárquica do dinheiro (pago com juros) dê para gabar além da casa com picinha, o carro, as jantaradas, a roupa e todas as outras bugigangas e hinos ao ego, mais do cartel de bancos que deles. Era o que faltava, e sem filhos para criar, que se desse aos rabetas e às hómadas, tais "privilégios", no acesso a essa coisa e ao nome que lhe dão.

Tudo em prol da boa moral e tradições ( se é que existe alguma) da muita boa gente sentada na poltrona da mais profunda hipocrisia, a fazer histeria de galinha à sua crise de mealheiro. Mas as galinhas, mesmo abrigadas na toca da raposa, e apesar de tudo, não são anticonstitucionais, "que se lhes dê mesmos os direitos mas com outra denominação": casamento gay, homossexualização, ajuntamento, sodomismo empapelado... Não são preconceituosos, nem coisa que pareça. Tal qual grupo A maioritário, habituado a não partilhar o seu autocarro azul, até acha bem que o grupo B ande também de autocarro (em assentos também serviu a metáfora na questão dos pretos), desde que sejam amarelos. Cada macaco no seu bregalho. Enfim: só de saber de quem frequenta o casamento, não alinho, prefiro andar a pé.
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Avenida do Mal

Parlamento a 23

A mudança prometida pelo Partido Socialista tido como progressista entrou no anacronismo. Problemas de embraigem provavelmente. Descobriu-se que os deputados funcionam como meros moços de recado, no levanta-te e aplaude (quem se ri somos nós - para não chorar mesmo) do circo da Assembleia, mais circo agora que nunca. Mas no fundo tenho pena, não pelos diplomas do BE e PEV estarem em vias de rejeição mas, pelo dinheiro dos contribuintes desperdiçado em tanta carne e assento.

De verdade, poupavam-se alguns milhares (talvez milhões) se o Parlamento se reduzisse a 23 lugares em vez dos 230. Contas feitas, ficava a discussão destribuída por Alberto Martins e mais 11 (para vincar a maioria absoluta!), Rangel mais 6, Louçã, Portas, Carvalhas Jerónimo e talvez um do PEV... E para tal trabalho, nem uma Assembleia se calhar era precisa, porque depois, na prática, por muito que falassem e esperneassem os deputados da parte rosa do centrão, na hora da votação tornariam o laicismo e o progressismo socialista num "faça-se em nós a sua vontade, Senhor Primeiro-Ministro".

Nisto faço o elogio do Congresso Americano, onde por muito ligados estejam os representantes a um veio ideológico comum, fazem-se por mais leais a si próprios e às pessoas que representam, porque dependem delas e não dos desígnios de uma Sede Nacional e da sua máquina de propaganda central. Nunca como nestes dias se tornou mais urgente a implementação de ciclos uninominais como forma de garantir que os deputados prestem contas aos seus eleitores ao invés de uma Comissão Política Nacional.
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Avenida do Mal

Saúde Privada: o Paralelo dos Sistemas

Os serviços de saúde privados, não vendendo o que vende a Banca norte-americana, têm em Portugal um funcionamento em tudo semelhante. Só se equilibram e sobrevivem em Mercado porque o fazem sobre a rede de amparo do contribuinte. Todo o serviço privado é tido, na cabeça de todos, como caro mas de qualidade e - fora quaisquer milagres de gestão - altamente rentável, ao contrário dos hospitais públicos que acumulam passivos. Esta prosperidade do privado é no entanto possível porque todo ele é dependente do que o SNS se tornou – um torniquete enorme e confuso para o financiamento de toda e qualquer actividade de saúde.

O exercício mental não é muito complicado. As concepções socialistas clássicas que fundaram o Serviço Nacional de Saúde(SNS) exigiram uma certa rigidez ideológica na discrepância dos ordenados a pagar aos profissionais, quanto mais não fosse no limite do tecto absurdo do ordenado do Presidente da República.

Por outro lado, de modo a manter a moral e a motivação, de médicos sobretudo, segurando-os no SNS, o sistema permitiu um trabalho híbrido entre o público e o privado, possibilitando deste modo a “dignidade remuneratória” da profissão tradicionalmente liberal da medicina. Poucos são, na realidade, os que trabalham em regime de exclusividade.

O problema é que com o aumento do recurso e dos níveis de exigência aos cuidados de saúde, esta perversidade sustentou a emergência de um Serviço Privado de Saúde mais organizado e moderno, paralelo ao SNS que gradualmente se tornou dispendioso, pouco eficiente e gerador crescente de insatisfação dos utentes.

De verdade, e por este caminho, o sector público limitar-se-á praticamente a suportar a formação dos profissionais de saúde, desde a entrada na Universidade à conclusão da Especialidade, fazendo dos seus hospitais e centros de saúde meros laboratórios com a ralé. O sector privado depois só tem de aliciar os melhores profissionais formados para o seu quadro, onde recebem maior remuneração, despojando o Serviço Nacional de Saúde dos melhores médicos e por conseguinte, obrigando-o a pagar – a preço altamente especulado – os serviços que não tem capacidade de dar resposta.

Assim sendo, não deixando o hospedeiro morrer por agora, o sector privado engorda parasita sobre um Serviço Nacional de Saúde moribundo que só respira ainda à custa de um Orçamento de Estado sempre disponível para o financiar. E quando não o pode, obriga-o a amputar-se de serviços importantes às populações menos abastadas.
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Avenida do Mal

SportTV, Estádios Vazios e Quioto

Não gasto agora demasiado do meu tempo precioso, aquele que parece que acelera com a idade, em discussões de futebol e a assistir a jogos, devidamente sentado no Estádio ou no sofá. Pelo contrário, faço parte daquela geração que se alapa em frente ao computador sem saber o que fazer, a saltar da Blogger para o YouTube. Mas como qualquer activista de sofá, interessam-me as questões do ambiente, da gestão de recursos e da eficiência energética. Coisa que não preocupa, por exemplo, à Liga Portuguesa de Futebol e à SportTV, que mais interessados em embebedar-nos desde pequenos (uns de mais verdes que outros) no vício do futebol se vão esquecendo da sua contribuição para a redução das emissões de CO2.

Em Portugal, país rico da West Coast da Europa, a energia abunda graças às suas enormes albufeiras sustidas por paredes de betão de onde jorram jaculados de água por entre as turbinas. Abunda a energia, porque temos Sines e gasodutos. Temos o País, do Marão ao Caldeirão, impregnados de parques eólicos e temos a Central de Energia Solar da Amareleja.

Assim se deve pensar, porque não se percebe que com tantas horas de sol, e sem o breu do Alasca e da Noruega em meses de Inverno se fazem todos os jogos de futebol da Primeira Liga (não me arrisco nas outras) de noite, obrigando logicamente a acender os enormes focos de luzes do Estádio de fazer estourar qualquer contador eléctrico e a comprometer (moralmente) Quioto.

Não se percebe e até se percebe. À SportTV convém manter bem alimentados os assinantes, do obsessivo e quase omnipresente desporto-rei. Tanto que lhes oferece todos os conteúdos em futebol, do campeonato de Inglaterra ao da Mauritânia, e esses encaixa-os à tarde - como é interessante ver jogos de futebol à tarde... Os da Liga Portuguesa ficam obrigatoriamente para a noite, quer agrade aos adeptos de bancada quer não agrade – que se amanhem – vale mais uma assinatura mensal que um bilhete. E como as torres de iluminação alumiam mas não aquecem, os estádios, nem de propósito, não enchem por aí além, domingos e segundas à noite.
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Avenida do Mal

O Engodo

Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, anunciou na pompa recente do partido a fundação da Res Publica, coisa com o objectivo de repensar as políticas da tal esquerda moderna, centro-esquerda - volver! O exercício, no entanto, é comum sempre que se aproximam batalhas eleitorais importantes, e as próximas, todas umas em cima das outras, obrigam a um esforço – este ano - quase filantrópico.

De todas as vezes, sejam elas Estados-Gerais, Novas Fronteiras, é a mesma receita. À massa cinzenta mais inconformada das bases do partido - arredada do Purgatório nesta altura - junta-se académicos independentes, dá-se sentimento de abertura q.b. e deixa-se apurar em criatividade o possível e o impossível. O resultado, depois de levado ao forno, é um partido motivado, cheio de ideias e um aparelho oleado para o combate eleitoral. O marketing e a publicidade lá tratarão de acomodar a iguaria aos olhos (mais do que a barriga) dos eleitores, sobre um prato de design moderno, enfeitado de um ou outro ramo de erva aromática e pó de perlimpimpim. Assim que comido e enfastiado, é o que se sabe, seguem-se 3 ou 4 anos de má digestão e afrontamento.

O mais interessante – e trágico, se calhar – é que a fórmula é reproduzida à escala das autarquias. Os caciques aproveitam a deixa e hipnotizam as massas no mesmo processo. De verdade, nunca como em advento de eleições autárquicas se consegue encontrar o mais motivado consenso em torno de uma candidatura, mesmo que esta já se prolongue na mais chata das sequelas. Nunca como em advento de autárquicas se consegue vislumbrar num edil uma aura de Obama em promessa de mudança mesmo contra a sua figura e mandato. É este, assim desfiado, o milagre da alternância em redor do próprio umbigo.
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Avenida do Mal

Um Ano de Mal Crónico

Amanhã (e espero que não dê azar) contam-se 52 semanas com quase tantas Avenidas do Mal. E nada como celebrar com um festim do ego. Estou satisfeito e por aqui me fico no panegírico. Escrevi de tudo e sobre tudo, sobretudo também, com mais ou menos razão ou nenhuma, com mais ou menos estilo. Coisas chatas de ler, outras nem por isso. Outras que ninguém ligou nenhuma, mas escrevi ao sabor da pena, com toda a liberdade da Avenida Central. E agradeço ao Pedro as chaves desta que é uma das portas abertas da cidade de Braga.

E como é dia de aniversário, e de Arraial em Arco de Baúlhe, os leitores que me permitam, faço folga. Como tudo, também só se celebra o primeiro, o quinto, o décimo, os 18, os 25 os 50 e os 75, 100! Se os contar todos, por essa altura, a Avenida Central já deve saltar do ecrã.
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Avenida do Mal

Até Que a Morte os Separe

“Quanto mais me bates mais eu gosto de ti.” Devem ser danos colaterais, na aplicação da sabedoria popular, as 31 ou 32 vítimas mortais de violência doméstica, todas elas mulheres, só neste ano em Portugal. Não haverá país ocidental, aliás, onde ditados ganham a expressão trágica de Mandamentos como em Portugal. E no que respeita ao casamento, roçam em autoridade o efeito dissuasor da lapidação.

O casamento, assim que consumado, ganha esta espécie de redoma cultural onde não entra sequer Estado de Direito - o mesmo que parece medir-se em quantidade de polícia. Quem se casa, fica, de imediato, refém do mesmo e aparte de qualquer dever ou direito. Não há snipper que faça mira à esfera conjugal, pelo impedimento moral de um outro mandamento da albardada sabedoria popular: "entre marido e mulher, não se mete a colher". Nem GNR, nem ninguém, pelos vistos.

Em Portugal assiste-se a uma violenta discussão conjugal com a mesma frieza sádica de uma tourada de morte em Barrancos, a diferença é que esta é acossada pela indiferença e pelo imobilismo.

Não admira, então, que a violência doméstica não tenha ondas nem o mediatismo do resto. É um universo paralelo, doentio, a que assaltos a bancos e postos de gasolina chegam a não fazer frente na crueza. Na perspectiva do Presidente de República e da aparente generalidade das pessoas, o casamento é uma mera cruz que se carrega. E não deixa de ser cristão o sacrifício. Mas se para elas existe Céu, para eles parece que não existe o Inferno. Este calvário da mulher, da esposa, portuguesa, como em tantas outras culturas, é uma mera pedra no caminho da santidade. É, como dizia Nietzsche, consequência da centralização da existência individual no além, para lá da morte.

No mesmo sentido, a sociedade portuguesa emburka esta realidade como manifestação própria do casamento, como expressão inerente da responsabilidade moral em mantê-lo, como obrigação. É uma sociedade que normaliza a violência na intimidade. E se não vê nisto motivo de denúncia, reflexão profunda e de intervenção dos mecanismos da Lei, tem que olhar os restantes fenómenos de criminalidade com o mesmo estoicismo fatalista em troca de um lugarzinho no Paraíso. É mais um fardo, se não quiser entrar em constante contradição.
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Presidente-Sol

Há meia dúzia de dias, segui atento, no programa "União a 27" da SIC Notícias, como se organizava e estruturava a democracia na Dinamarca, só por acaso, uma das nações mais desenvolvidas do Mundo. Monarquia constitucional cujo Parlamento é o órgão mais nobre e prestigiado do Poder político e onde a Rainha, neste caso, tem um mero papel cerimonial na tomada de posse de primeiros-ministros e restante governo, ou de galhardete nas relações diplomáticas. Não se espera mais nada dela e não há, na Dinamarca, tribunal, comissão ou figura superior que faça a supervisão da actividade parlamentar porque esta é feita pelos cidadãos dinamarqueses,nas eleições legislativas, sempre interessados e empenhados em eleger os seus melhores representantes. Confiam, por isso, no que lá se produz em matéria de leis e nas políticas para o país.

Não discutindo a influência da cultura nórdica ou anglo-saxónica no funcionamento da democracia dinamarquesa, serve de modelo de comparação à nossa democracia do Sul da Europa. Em Portugal, quase ninguém confia na actividade parlamentar. Tanto é que são necessários organismos que façam a regulação, triagem e aprovação das leis, verificando do seu enquadramento constitucional ou da sua moralidade. O Sistema político é paternalista, herdeiro dessa necessidade salazarenta de um rogador que olhe pela pátria. E aqui entra a nossa maior contradição democrática: ter um Presidente da República para julgar da moralidade ou da constitucionalidade de uma lei produzida em Assembleia Nacional, discutida por 230 representantes do País, os quais se esperariam ser os mais informados da Constituição e representantes íntegros da manta de valores da sociedade portuguesa actual.

Mais. Ao presidente, uno, no seu dom divino, qual Rei Salomão, reserva-se-lhe ainda o condão de absolver uma assembleia, eleita democraticamente, e arrastar um governo com ele. Daí que dou razão aos açorianos e tenho posição diferente à decisão de Sampaio com Santana Lopes. Faço nisto acto de contrição, porque se para muitos isto é que é Democracia, para mim não passa de uma Democracia sobre Vigia. Não sendo monárquico, prefiro a monarquia de fachada dinamarquesa, com a sua verdadeira democracia parlamentar, a esta República com as suas versões-presidente de Luís XIV.

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Sebastianismo Olímpico

As vidas dos Atletas portugueses em Pequim confundem-se com as suas vidas de trabalho em Mouquim (não me lembrei de outra localidade que rimasse). Tanto lá como cá, se espera o máximo deles, no escritório e no tartan, sem flexisegurança ou ordenados que a mais obriguem. É sempre uma vitória, dizemos, quando lá vão uns e outros, e se alarga a comitiva e a esperança (de quê?) com os mínimos garantidos (a fazer lembrar rendimentos sociais de inserção), mesmo que depois toda a gente desdenhe lugares de eliminação, pela sensação de mediocridade. Não deles, mas do país.

No desporto e nas artes, como na política e na ciência, esperamos sempre prodígios, sebastiões encomendados, que singrem de alguma forma e nos engrandeçam o ego e as vidas, sem que a nação se esforce minimamente em preparar o terreno para os prodígios medrarem. Nunca houve espírito de alta competição para lá do futebol e mesmo esse tem também o mérito enveneado.

Enquanto isso, Portugal espera que a sorte lhe caia em cima e veja bandeira erguida por alguém esquecido nos apurados. Nessa altura passa, o atleta, de besta ignorada a Messias digno de vassalagem. É de uma passividade quase religiosa, mas típica. Aliás, se algum dia arrancarmos mais medalhas que os Estados Unidos e a China juntos (coisa que nem em sonhos nos passará pela cabeça) será porventura o clímax do delírio místico em que se embebe a consciência nacional desde os Sermões do Padre António Vieira à Mensagem de Pessoa. É só insistir na fezada.
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Cidade Fiasco

A 3ª cidade do País, conhecida desde o Sul como um mero bairro católico para lá do Porto, guetto de benfiquistas e gente estranha, é uma verdadeira desilusão turística, segundo o Jornal de Notícias. A cidade bimilenar teima em não vender, apesar de burgo importante desde a Idade do Bronze. Os turistas são em grande parte espanhóis, portugueses afrancesados e velhos em excursões do INATEL, que por esta altura deixam a hotelaria com ocupação pela metade. Poderia ser a falta de Praia, mas não é.

Anos de mau planeamento urbanístico e invasão maciça de gente de concelhos em redor para as torres de cimento, deturparam-lhe a identidade, facilitaram o estupro de património arquitectónico e agudizaram falta de respeito pela história de Braga. O que sobrou de património da Igreja lá se foi aguentando face a quase tudo o resto. A restante cidade, metida dentro, sem querer saber de assuntos públicos ou de estratégias comuns, confiou todo o seu destino ao socialismo parolo de Mesquita Machado.

Sobrou para agora uma sombra de cidade que vista do Bom Jesus, até que parece bonita com o fumo que a desfoca. Ironicamente verde. De resto, é pouco mais que uma rua que vai do Arco da Porta Nova até à Avenida Central, um punhado de Igrejas e uma mão cheia de lamentos. Um café na Brasileira e um porto no Vianna por momentos engana, mas tanto a cidade como o partido socialista bracarense vão ter de reflectir seriamente sobre o que tornou uma das mais potenciais cidades portuguesas para se elevar na UNESCO num flop turístico, que até no de religião chega a ficar bem atrás do complexo piroso de Fátima. São favas, senhor, são favas...
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

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