Avenida Central

A Última Assembleia Municipal...

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Parque de Exposições de Braga
© PEB

...pôs a nu a emergência de uma profunda revisão da composição de poderes vigente.

Hoje em dia as coisas passam-se da seguinte forma: o partido A ganha as eleições para a Assembleia Municipal com maioria relativa e os partidos B, C e D obtêm a maioria dos votos. Num país com regras claras e objectivas isto significaria que o partido A teria de negociar com algum ou alguns dos partidos da oposição para obter consensos que permitissem a governação. Assim se respeitariam as regras democráticas e a vontade popular. Ora, em Portugal não é bem assim, graças à presença dos Presidentes de Junta nas Assembleias Municipais que, com direito de voto sobre todas as matérias, note-se, subvertem completamente as lógicas normais de exercício de poder.

Na hipótese de o partido A obter a maioria das juntas, como é normal (ainda que não necessário) que aconteça, obtém um suplemento de votos cuja legitimidade é perfeitamente descabida. Em Braga isto beneficia o poder, mas poderia beneficiar a oposição e ser igualmente irracional. Esta última hipótese é mais complexa e só acontecerá em situações pontuais, isto porque quem governa detém os instrumentos financeiros e de poder que condicionam a governação dos Presidentes de Junta, donde dificilmente os veremos a votar contra a Câmara Municipal, por muito corajosos que sejam. É que há respostas de diversa índole que exigem um agir urgente das juntas, que não se compadecem com estratégias negociais prolongadas e "braços-de-ferro" institucionais.

O que seria do país se os Presidentes de Câmara se sentassem no Parlamento, ainda que não eleitos para lá estar? O argumento de que as juntas vivem dependentes de receitas externas não colhe, também as Câmara Municipais dependem grandemente do Estado central e nem por isso as vemos representadas em S. Bento.
Depois dão-se situações caricatas, como a que vimos na última Sexta-feira, em que Presidentes de Junta eleitos pelo PS e alguns independentes se juntam à bancada do PS para chumbar uma recomendação que visa moderar os custos que a AGERE cobra para efectuar a ligação à rede de saneamento. Ou ainda vê-los a votar favoravelmente a aplicação das taxas máximas do IMI e da Derrama, atirando coniventemente para fora do concelho qualquer empresa que tenha gestores com capacidade de rodar o pescoço para a esquerda e para a direita.

Nesta, como em muitas outras matérias, não há inocentes. Foi Menezes, quando presidente do PSD que inviabilizou um acordo para a revisão do actual modelo operacional das Assembleias Municipais. Convém que, pela democracia e pelo respeito que nos devem merecer todos os eleitores, os próximos protagonistas das lideranças partidárias saibam fazer o que lhes compete, reformar.

Política NHL

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NY Rangers @ MSG - 4/1/07 por Christopher & AmyCate.
© Christopher & AmyCate

Sou um incondicional fã de desporto. Acredito que nele sobressai o melhor da condição humana. O desporto tem algo que a qualquer pessoa de direita agrada, a "meritocracia". Salvo circunstâncias pontuais, no desporto ganha sempre aquele(a) que naquele dia foi melhor. Mas também aqui conseguiu o Homem conspurcar as suas melhores criações. Com o desporto se não é a corrupção dos árbitros é o jogador que joga com a mão, se não é a espionagem de equipas na fórmula 1 é o doping no atletismo, etc, etc.

No entanto, há um desporto que me merece especial respeito e admiração, o hóquei no gelo. Aí, no que depende dos jogadores (com excepção do doping, tinha de haver uma excepção, apesar de muito combatido), não há marosca que resulte. O critério amplo dos árbitros, que as regras permitem e incitam, faz com que sejam permitidas entradas mais violentas, ou, quando necessário, levar a mão e o pé ao disco para o colocar no ringue e/ou para o controlar. Os jogadores podem ainda deitar-se e assim evitar que remates dos adversários cheguem à sua baliza. São permitidos empurrões e contactos físicos duros, até combates entre jogadores acontecem, dando origem à interrupção do jogo e terminando quando um dos dois caia ao chão, sendo ambos castigados com 2 minutos de suspensão. Agora, o que não é de forma alguma tolerado é o chico-espertismo, a deslealdade e a violência gratuita, a saber: encontrões nas costas quando o adversário está desamparado, ou quando não esteja em causa a disputa do disco; elevar o stick à cara do oponente; jogar com as mãos e os pés quando tal não seja absolutamente necessário para o regular prosseguimento do jogo e o atraso intencional do jogo.

E para que falo eu do hóquei no gelo e das suas regras mínimas mas eficazes? Muito simples, para mim, este é um desporto que traduz de forma plena a galhardia do Homem e os valores que vão sendo perdidos na sociedade actual: nobreza de espírito, companheirismo, combatividade, esforço, competência e lealdade.
Tudo isto traduzido para o nosso dia-a-dia resultaria numa pendência judicial bem menor e num desenvolvimento bem mais harmonioso e sustentável.

Traduzido para a política só pode significar um Estado com um conjunto de regras curto mas eficaz, é nisto também que me revejo e que se revêem muitos como eu. Defender um Estado forte é apostar na força dos que lhe dão o sustento, os privados. O estado deve estar lá para, como os árbitros da NHL, corrigir os "erros da carne", não como ministro da moral e dos bons costumes, mas como garante do cumprimento da lei. Quando o Estado pretende ser algo mais do que um eficaz aplicador da lei, um competente distribuidor de riqueza e um imparcial e distante, se bem que alerta, regulador do mercado, perde-se algures no caminho. A paranóia adventista da crise pode servir para corrigir erros passados, mas não deve nunca ser o mote para o estrangulamento das liberdades pessoais, onde se inscrevem, obviamente as económicas. Tentemos todos jogar limpo e queixemo-nos menos ao/do árbitro.

Nós somos um Rio

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Ricardo Rio Comicio Braga 2009

Assim reza uma das estrofes de um dos hinos do PSD. Isto pouco importa para o que se decide no próximo Domingo, mas serve para ilustrar um sentimento pungente na cidade de Braga.

Ao longo dos últimos seis anos, Ricardo Rio foi muito mais do que um candidato a um cargo autárquico. Quer se goste ou não se goste, o que é certo é que o trabalho de um homem, obviamente auxiliado por uma equipa valorosa, demonstrou como é fácil destruir um castelo de areia assente na baixa política, nas relações de favores e nas influências e negócios pouco claros.

O nosso concelho esteve anos demais fechado sobre si mesmo. Aqui se alojou um buraco negro que tudo sugou e que vem impedindo que uma cidade maravilhosa possa cumprir todas as potencialidades que se lhe reconhecem. Braga lembra a alegoria da caverna de Platão, vivemos anos a fio olhando para a parede, mas Ricardo Rio ousou olhar defronte para o sol. Felizmente não esteve só. Com ele, a par e passo, muitos outros bracarenses perderam o medo da luz. Hoje sobejam rabos de palha, controleiros aflitos por saber para que lado do barco se hão-de debruçar.

A mudança é uma realidade palpável, mensurável pelo grau de terror que assusta todas as ratazanas sedentas de uma Braga decadente, triste e amorfa, que troque a massa crítica pela massa verde, o ser pelo parecer, o augusta pelo "augustus". Não devemos nada a Ricardo Rio, note-se, o que ele fez deveria ser o padrão de um autarca dedicado, infelizmente bem sabemos que não é assim. Mas há algo que devemos a Braga e às gerações vindouras. Devemos-lhes a certeza de que a cidade que os viu nascer é dos cidadãos e não de uns barões de polichinelo, que de bracarenses nada têm.

Eu, como bracarense que sou, nascido e criado na terra que amo, estou certo de que acordarei na próxima segunda-feira com um novo Presidente de Cãmara e, certamente, um novo futuro.

Porque Votar é Preciso

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manuela ferreira leite psd

Não há muito a dizer depois da campanha eleitoral. Não há muito a dizer depois dos episódios que a marcaram. Não há, sequer, muito a dizer sobre as mudanças de estilo de Sócrates. Não há muito a dizer do "programa" de governo do PS, do seu carácter inovador, da sua aposta no investimento público e demais benesses que os "colunistas" lhe prevejam. Não há muito mais a dizer sobre a licenciatura do candidato socialista, sobre os projectos de casas aberrantes que aprovou, sobre os "Charruas", "Antónios Balbinos Caldeiras" e "Joões Migueis Tavares" deste mundo, que se viram saneados ou processados pelo mero exercício da liberdade de opinião. Não há muito a dizer sobre jornais silenciados e jornalistas afastados. Não há muito a dizer sobre as promessas não cumpridas, sobre os "jamais", os "camelos" e os Magalhães ioiô. Não há muito a dizer sobre o desprezo pelos professores, médicos, funcionários públicos e demais categorias profissionais que se queiram nomear. Não há muito a dizer sobre as ingerências em processos judiciais como o Freeport, sobre as pressões inaceitáveis exercidas sobre titulares de um pilar sagrado do Estado, como é o da justiça. Não há muito a dizer sobre a agricultura, sobre os milhões perdidos em favor de Bruxelas. Não há muito a dizer sobre a bandalheira do QREN. Não há muito a dizer sobre a taxa de desemprego recorde. Não há muito a dizer sobre o défice, nem tão pouco sobre as ajudas selectivas a determinadas empresas em desfavor da livre concorrência.

Em suma, não haverá muito a dizer sobre um país que opte por reconduzir como Primeiro-Ministro uma máquina de propaganda ao invés de um(a) líder. Mas há algo que todos podemos fazer. Todos podemos votar e dizer basta. E isso, caros (e)leitores é dizer muito.

Manuela... A Outra

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Manuela bem pode ter ganho as eleições com este “Prisagate”, a Moura Guedes claro está. O erro fundamental está, como Sócrates já deveria saber, em tentar mexer na comunicação social. É certo que todos os partidos tentam pôr e dispor dos média consoante as suas conveniências, sendo os do poder os que maior sucesso alcançam. Contudo, há limites para a indecência. Ao entrar em rota de colisão expressa e clara com Manuela Moura Guedes e o seu Jornal “Semanal”, o Engenheiro sobredosou de importância aqueles que nunca o beliscariam caso optasse pela indiferença. Está cada vez mais claro que o Freeport não mata, mas mói.

Melhor teria feito o (ainda) primeiro-ministro se reagisse como Marinho Pinto que, ao invés de se refugiar no “bitaite à distância” (corrosivo, mas pouco relevado pelas hostes não afectas a quem o atira), enfrentou a “besta” e saiu em alta. Muitos argumentarão que este negócio (Prisa/MédiaCapital) vinha inquinado desde a origem, outros dirão que o estilo de Moura Guedes é insuportável e que, apesar de tudo, ainda bem que desapareceu. Haverá teses e cabalas várias que ligarão o PSD a um maquiavélico plano que terá proporcionado a quadratura do círculo: queimar Sócrates, arranjar um culpado - a empresa espanhola - e uma vítima conveniente -Moura Guedes. Mas o que ficará para a história é que José Sócrates, em 2009, perdeu as eleições para as Manuelas.

Não deixa de ser irónico que Sócrates possa ser derrubado pelo mesmo motivo que fez tombar a quem tão retumbantemente venceu em 2005 e de quem disse cobras e lagartos pelas alegadas pressões que levaram ao afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa. Em comum, Sócrates e Santana passam a ter mais três letras T V I.

E não deixa de ser sintomático que o último “olé” desta lide novelesca, tão ao estilo das “produções nacionais" daquela estação, caiba ao chefão Moniz que, do alto do seu sofá, vê validada, mais uma vez, a sua dúbia estratégia de tabloidização da informação.

Da minha parte deixo aqui um até nunca a um engenheiro que, pelo menos no que respeita ao pais, não deixa outra obra aos portugueses que não a triste entronização da propaganda como modus vivendi político.

O Complexo Elisa Ferreira

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Elisa Ferreira visita o Hospital São João
© Porto para Todos

Venho manifestar a minha profunda solidariedade para com Hugo Pires e Palmira Maciel. Com efeito, não lhes podendo conferir o voto, tanto por dever de ofício como por imperativo cívico, entendo que a actual crise económica ameaça novas e velhas oportunidades, sem as devidas distinções entre plebeus e aristocratas.

Já não bastava o negro cenário político local, que em Braga promete fazer cair um poder que ganhou raízes, agora também o mundo profissional dá sinais de não poder absorver a competência, rigor técnico e ética profissionais destes dois insignes bracarenses.

É, portanto, com total compreensão que se compreende a dupla âncora largada no meio do mar da incerteza por parte dos dois (quase) ex-assalariados da autarquia. Tanto mais que os exemplos recentes de outros pleitos eleitorais – Elisa Ferreira e Ana Gomes – validam uma tal postura. O apego à causa pública é de salientar, não se encontram exemplos tão apaixonados pela vida política e pelo serviço público todos os dias.

Aproveito ainda para modestamente deixar alguns conselhos úteis para enfrentar as costumeiras criticas de quem, certamente por incapacidade intelectual, não entende como pode alguém candidatar-se a dois cargos de natureza tão distinta entre si, senão como garante de um sustento doutra forma improvável.

Desde já se elogia a lucidez destes dois servidores públicos. Ao embarcarem nas listas à Assembleia da República demonstram ser dos primeiros, entre os seus pares, a entenderem que a Câmara de Braga está perdida, “muito mais [de] Braga”, de momento, só em Lisboa. Por outro lado, exorto os visados a usarem doutro expediente que não o das famigeradas candidatas socialistas. Ao invés de assumirem que só irão para lá (neste caso, para a capital) se perderem por cá, será mais avisado confirmarem que nem uma coisa nem outra, que ficarão a meio caminho, numa qualquer empresa pública, nomeados à boca das urnas, na vertigem da dupla derrota que se anuncia.

O que se perde em decência democrática, ganha-se em frontalidade, o que, nos dias que correm, é capital de monta para qualquer político que se preze.

O dia 11 de Outubro será, acredito, o primeiro do resto das vossas vidas, um bem haja pelos serviços prestados e um até sempre desde esta “Terra do Nunca” em que o relógio, “tic-taqueando” na barriga do crocodilo, começa a ouvir-se perigosamente perto do navio do nosso capitão Gancho, como dizia o outro “vocês sabem de quem nós estamos a falar”.

O Paralelo 46.º/4

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hitler vs. stalin

© il deboscio

Não me verão a escrever isto muitas vezes, mas quando alguém tem razão há que admiti-lo. Alberto João Jardim tem razão. A proposta feita nos termos em que a fez certamente não ajudou à causa, banir o comunismo não será a fórmula mais feliz de dizer, como veio dizer mais tarde, que se devem banir todos os sistemas totalitaristas/ditatoriais ou então nenhum.

A especificidade a que se dá o n.º 4 do artigo 46.º da CRP é absolutamente anacrónica e não pode ser compreendida senão com uma grande dose de tolerância democrática, a mesma, aliás, que a CRP desdenha quando opera tal distinção, ainda que com a melhor das intenções.

Vital Moreira veio dizer, no Público, que temos de enquadrar a proibição no contexto histórico donde ela surge, no pós-fascismo. Ora, se essa é a sua força, então é também a sua maior fraqueza. Ainda que custe a todos os que combateram o regime salazarista (e que não fique aqui qualquer dúvida sobre a condenação veemente e repúdio total desse triste passado português), por muito traumatizante que tenha sido tal experiência, uma coisa é o repúdio absoluto e a luta diária contra tais ideias, outra bem diferente é a consagração legal, individualizada e concreta (?!) da proibição de movimentos fascistas na lei maior da república.

Sejamos sérios, decretar a proibição do fascismo nunca resultou, muito menos a do comunismo ou de outra corrente de pensamento tendencialmente (para ser simpático) totalitária, donde o efeito prático da sua consagração só pode trazer mais males do que bens para a necessária liberdade total de pensamento num regime democrático. O Estado, ao proibir, emite um juízo de valor sobre aquilo que proíbe, devendo ter a maior das cautelas ao fazê-lo.

A democracia, lembre-se, tem como premissa deixar às pessoas, dentro do mais amplo espaço possível, a consciencialização da moral, dos limites do mal e do bem segundo a melhor (ou pior) das subjectividades. Ao escolher as ditaduras boas - as de esquerda - e ao renegar as más - as de direita - (se é que faz sentido dividir ditaduras pelo seu fim e não pelos seus meios), o Estado faz uma escolha entre o que é lícito e o que é ilícito sem que lhe seja lícito escolher, definindo fronteiras artificiais e não provadas entre dois males. Como diz Jardim, ou tudo à terra ou tudo ao mar, ou se proíbe tudo ou nada. Jaime Nogueira Pinto, no "I" da passada quarta-feira, punha as coisas nos justos termos ao escrever que proibir todos é capaz de ser má ideia, é que o Estado não deve colocar-se na posição de superioridade moral tão cara àqueles que combate, arrogando-se o direito de qualificar todo e qualquer movimento e/ou ideário como mais ou menos democrático.

Eu Tenho Dois Amores...

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Elisa Ferreira no Parlamento Europeu
© erikamann_mep

As eleições europeias continuam a fazer mossa, depois do resultado desastroso do PS e das peripécias de Dr Jekyll e Mr. Hide (na versão tuga "Animal Feroz e Português Suave”), agora os arautos da democracia, do 25 de Abril e de todas as conquistas democráticas, pois claro, lembraram-se de copiar os reaccionários, trauliteiros e fascistas. Isto para pôr as coisas em termos perceptíveis a qualquer cidadão bom pai de família.

O PS (Partido de Sócrates como o PP é o do Portas) decidiu, por unanimidade e aclamação do líder, que a táctica do vou ali e já volto de Elisa Ferreira e Ana Gomes (a agente infiltrada da internacional socialista na CIA) poderá não ter sido bem gizada. O Argonauta das novas tecnologias, que fez de Magalhães seu companheiro de viagem (se bem que a 32 kbs, que os contratos de internet custam caro e os paizinhos têm mais do que fazer ao dinheiro), lança-se assim à conquista de um novo Bojador, fazer de nós parvos V 2.0. Não temendo crítica que o belisque ,nem vacilando perante cabalas negras ou brancas (que somos todos diferentes mas todos iguais), o Engenheiro (?![sim, convém pôr estas sinaléticas para que não nos esqueçamos das dúvidas que pairam sobre um inglês técnico que logrou derreter em compaixão George W. Bush]) engendra novo plano rumo à maquinização do voto.

Fátima já lá vai, Cabeceiras foi um dia e Belém é particípio que causa arrepios na espinha do mais temerário cooperador estratégico. Donde, esgotadas as técnicas que deram origem a múltiplas obras de belo traço por toda a província das Beiras, sobra a Sócrates esburacar a caverna onde as sombras deixaram de passar e abraçar o Sol.

Como fazê-lo? Muito simples, seguir o trajecto das sombras até ao seu próximo destino, que, a julgar pelo feedback (termo de inglês técnico significando ressonância sonora que provém das entranhas vocais dessa amálgama a que chamamos de povo) fica ali para os lados da São Caetano-à-Lapa. Cá está em meia dúzia de linhas a nova táctica de Sócrates. Quando não sabes, copia, um ensinamento que parece ter estado presente ao longo de toda a sua académica vida.

Le Roi-Bâtisseur

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König Leopold II. von Belgien, King of Belgium

Leopoldo II, rei da Bélgica, entre o final do século XIX e início do Século XX, ficou conhecido como o Rei-Construtor ("roi-bâtisseur" no original francês). O impulso empreendedor levou-o à cegueira dos meios para alcançar os seus fins. Queria tornar Bruxelas na nova Paris, quis ser um qualquer Marquês de Pombal, refundando o país não por necessidade, mas por desígnio divino.

Fez das obras a marca indelével da sua existência. Para concretizar o seu infinito apropriou-se de um país (o Congo, ex-Zaire), dando ao colonialismo uma nova dimensão de insanidade e despropósito, com as subsequentes e "necessárias" violações dos mais básicos direitos humanos.

Foi, no fundo, um "visionário" (mais um) que não deixou, contudo, de valorizar algumas "modas" de séculos passados - a dos parques e jardins públicos e a dos caminhos de ferro.

Ora se se diz que a cópia nunca é tão boa como o original, o rei cá do burgo é a confirmação desse velho adágio.

Mesquita Machado quis, qual Leopoldo III, fazer de Braga, ao mesmo tempo, o seu Congo e a nova Paris (ou Rio Tinto, para ser mais exacto). Não foi eleito, mas entronizado. Há 32 anos que desmanda em Braga. Não governa, ordena, o que é totalmente diferente.

Também ele pensou que pela força da "obra", pelo esplendor do betão, seria eternamente lembrado. Tinha razão, as próximas gerações de "congoleses-bracarenses" chorarão o seu legado, desesperarão por não terem a oportunidade de "agradecerem" pessoalmente o cinzentismo da cidade e lamentarão não ter durado mais tempo tão luzidio monarca.

O primeiro olá a Mesquita Machado significou o adeus aos espaços verdes, a uma política de transportes públicos coerente e estruturada em múltiplas valências, à cultura e ao ecletismo no desporto. Valha-nos o facto de o último adeus ser o reencontro com a Braga cosmopolita que ansiamos, onde a tradição e a modernidade não se renegam, mas onde a Sé e a Universidade se unem por amor e não por interesse.

O nosso rei construtor será, tal como o original, despojado do seu Congo, desta feita não por pressões externas (que também as há), mas pela vontade (essa sim) soberana dos bracarenses.

Sócrates, o Outro

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José Sócrates Viseu Primeiro Ministro Portugal

A entrevista de hoje ao Primeiro-Ministro foi um autêntico passeio, um passeio dos alegres num país deprimido. Sócrates continua sufocado pela soberba do ensimesmamento que lhe é característico.

Alguém que, enquanto líder do PS, perdeu 3 eleições, contradisse-se em projectos ditos estruturantes, foi e é fonte de polémicas, não pode ser magnanimamente entronado como a figura política de referência portuguesa.
Um Primeiro-Ministro que pensou o exercício do governo como a soma dos negativos, nisso empreendendo todas as suas forças, lançando guerras contra quase todos os sectores profissionais, certamente não serve como figura executiva máxima de um país..
As pseudo-reformas servidas em pacote (como o exigem os tempos modernos) já não justificam o estoicismo artificial que agregava militantes e reformistas. As regras do marketing revelaram o seu perigo original, o que é de plástico pode ser moldável, mas nunca deixará de ser plástico, por muito que as novas formas se diferenciem das anteriores.
Escolheu o caminho que os socialistas geralmente acolhem com bonomia, o da falta de exigência, assim conseguindo melhorar os rankings, é certo, mas piorando a realidade dos factos, o Magalhães venceu a tabuada.

Foi Blair e agora quer ser o seu contrário, pragmático como sempre, afirmou (sobre a conversão ao neo-keynesianismo): "isto não é política nem ideologia", com ele é sempre assim.

Foi arrogante e intolerante, agora mostra-se dócil e humanista. Ao agitar a bandeira da cultura como lapso quintessesncial (espantoso?!), pisca o olho à esquerda que (ele acha que) já não se revê nele. É o renascer do dogma proprietário da cultura como património da esquerda, mostra que perdeu algum tempo a recordar as fórmulas passadas (ou que alguém o fez por ele), valha-nos isso.

Elegeu as barragens, independentemente do que os bulldozers destruírem pelo caminho, como uma aposta determinante para o país, sem que alguma vez nos tivesse sido explicada a relação custo-benefício?!

Em síntese, ficará conhecido como o político dos 3 Pês, Propaganda, Propaganda, Propaganda.

No final, sentenciou um juízo digno de um epitáfio político - "Aqui jaz Sócrates, animal feroz, satisfeito consigo próprio".

Em Coerência

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Numa das primeiros reflexões que aqui deixei, afirmava que a política só se pode regenerar pela reafirmação categórica da diferença ideológica. Apelava, basicamente, a que se reassumisse aquilo que caracterizava a democracia no pós-25 de Abril, a clareza das diferenças.

Em boa verdade, não me devo (posso) escudar em meras declarações de intenções e não o faço. Por isso mesmo assumo, em primeiro lugar, o exercício do voto (o que, vistas as sondagens, já não é nada mau), mas faço mais, declaro que o meu voto vai para o PSD (parece que já não serão tão poucos assim a fazer o mesmo). Voto no PSD e, obviamente, em Paulo Rangel como cabeça de lista. Penso ser este o único conjunto de candidatos com reais capacidades de realizar em Bruxelas e Estrasburgo uma linha de actuação coerente, no âmbito de um projecto comum, com ideias concretas e exequíveis. Não é grande novidade, dirão vocês. Mas é um acto público que considero ser saudável, porque estimula a discussão e desafia o interlocutor a, pelo menos, reflectir nestes argumentos. E desde já vos digo, se conseguir que alguém se levante do sofá para ir votar no próximo domingo, nem que seja só para me contrariar, tanto melhor.

Numa época em que vingam os independentes, quais virgens da poluta vida política, em que respingam os "movimentos" que só querem o nosso "bem estar", independentemente de apresentarem um conjunto de ideias consistente sobre as eleições a que se candidatam, é bom relembrar que não há democracia representativa sem partidos. Os partidos políticos não são massas anódinas de interesses alheios a tudo e a todos, são agremiações de cidadãos com uma visão semelhante do caminho que a sua sociedade deve trilhar.

Independentemente das razões que tenham para detestar os "políticos" e os partidos, tentem fazer um esforço introspectivo e pensem se, no vosso caso, a bidireccionalidade da democracia se cumpriu. Ou seja, tentem recordar-se das vezes em que se interessaram verdadeiramente sobre o que os políticos, que vocês elegeram, fizeram.

E lembrem-se, o voto é, além do fim de um caminho (de avaliação de quem termina o mandato para o qual foi eleito), o início de um outro (que corresponde ao escrutinar, tanto quanto possível, diário, do trabalho daqueles em quem depositamos a nossa confiança). Não dêem o vosso voto, confiem-no.

Problemas de Expressão

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A hora dos jornais por Kiko Rocha.
© Kiko Rocha

Se Dante escrevia que o lugar mais quente do inferno está guardado para aqueles que em tempos de crise se mantêm neutros, então os jornalistas portugueses terão as portas do céu escancaradas.

Há em Portugal uma tradição de castidade dos jornalistas, um mandamento supremo que os impede de se declararem "girondinos ou jacobinos". Em nome da isenção e da deontologia juram fidelidade à bandeira e transformam-se, certamente por processos cuja hermenêutica exige total confidencialidade, em seres andróginos que assumem o cinzento como cor política.

Apesar do registo cínico do que acabo de escrever, eu nada teria contra esta isenção se ela fosse aquilo que anuncia ser. Mas como bem sabemos, as coisas não se passam bem assim.

Hoje a androginia deu lugar ao travestismo e alguns (mais do que a salubridade deontológica ordenaria) içaram a âncora da esquizofrenia e conseguem ser, pasmem-se, profissionais às segundas, terças e sextas e opinativos nos restantes dias. Falo, como está claro de ver, dessa nova estirpe societária, o "cronista", ser que em tudo pensa e que sobre tudo tem opinião.

Eu pergunto, com que isenção ou abertura de espírito irá o jornalista y à conferência de imprensa do partido x, tendo escrito, poucos dias antes no seu blogue/coluna de opinião/etc., sobre a imbecilidade das propostas do(a) líder daquele mesmo partido?

Liberdade de expressão? Claro que sim, mas quando esta colide com o rigor do profissional, há que ter bem presentes as consequências dos comportamentos passados, presentes e futuros. Não é à toa que a um juiz não é lícito, ou pelo menos correcto, comentar as decisões de um colega na praça pública e não é por "mero amiguismo corporativista", é sim pela necessidade de empregar respeitabilidade a um órgão que se deseja imparcial e tendencialmente unívoco na sua actuação.

De duas uma, ou bem que se assumem e passamos a saber com o que contamos ou então esta permanente charada (que se estende, aliás, à linha editorial dos jornais), e que ameaça de morte a imprensa portuguesa, começará a colher as suas vítimas. Ou não, já que isto é o país do faz de conta...

(R)evoluções?!

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© andrew gallix

Eu que nem sou muito dado a estas coisas das manifestações de rua e das palavras de ordem, que cada vez mais soam a cânticos ensaiados e propaganda encapotada de alguns partidos políticos, sinto-me triste pelo caminho que "a luta" parece ter deixado de trilhar.
Não estive no 25 de Abril, nem tão pouco no primeiro 1.º de Maio, mas não deixo por isso de considerar absolutamente essencial garantir, em democracia, o integral e discricionário direito à indignação.

Diz-se frequentemente que os portugueses são um povo de brandos costumes, afirmação que sempre me deixou com um amargo de boca. É que quando se brame esta bandeira está-se, no fundo, a traduzir por graúdos a pretensa cobardia e conformismo de todos nós. Não nos revoltamos, não nos indignamos, não questionamos poderes instalados e lugares comuns. E para quê? Para salvaguardar uma mediania que nos afaste dos tumultos da incerteza. Os portugueses nunca se enganam e raramente têm dúvidas (como alguém já disse), pudera, se não reflectem, se não problematizam, se não questionam, como poderia ser de outra forma?

Ao definhar da "luta" tem correspondido o atrofio das causas que, não tendo cessado de existir, parecem ter sido assimiladas por instrumentos de participação mais fáceis e confortáveis - petições online, sites de protesto, entre outros. O "cliente" sente-se bem porque deu o seu contributo e nem sequer teve de fechar o separador da pornografia. Daí a uma hora já nem se lembra se "assinou" uma petição para baixar o IVA ou para salvar as ratazanas autóctones dos esgotos de Sacavém.

"A rua" costumava ser o último (e mais precioso) reduto da indignação, a expressão máxima da força da sociedade civil, ao mesmo tempo respeitada e temida. Observando o que se passa actualmente em França, o paradigma da participação cívica, país modelo no que às lutas corporativas diz respeito, onde as manifestações de alunos e professores parecem esmorecer sem resultados práticos, não posso deixar de sentir que "a rua" está a adormecer e nós (europeus, trocadilho vital) somos a mão que lhe embala o berço.

Democracia ao vivo

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We Demand Democracy, Santiago 1988 por Marcelo  Montecino.
© Marcelo Montecino

O recente escândalo das despesas dos deputados britânicos e dos reflexos que o mesmo teve, fez-me olhar ao espelho e pensar no que aconteceria se, em Portugal, se descobrisse algo do género, o que, acredito, não ser propriamente extraordinário.
Com o devido respeito que os Deputados à AR me merecem, o certo é que os salários e privilégios dos políticos são um tema tabú e, por isso mesmo, repetidamente afastado das objectivas dos média e tratado entre portas, ou simplesmente abandonado à sorte da inflação.

No próximo dia 7 de Junho elegeremos os nossos representantes ao PE e seria de enorme importância que também isto fosse debatido sem subterfúgios. Os deputados europeus enfrentam um novo regulamento no que aos seus salário e despesas diz respeito e era bom que todos soubéssemos quanto do nosso dinheiro é gasto com a democracia europeia (que é necessariamente cara). Sem demagogias, com responsabilidade e verdade.

Ao assistir a um programa da BBC, onde os deputados estão diante do eleitorado a explicar o sucedido e a pedirem perdão por si e pelos seus colegas, sendo interpelados pelos cidadãos com a frontalidade que aos britânicos se conhece e reconhece, não deixo de ficar entristecido com a brandura com que tratamos aqueles que nos deveriam representar com probidade, decência e espírito democrático e que esbanjam essa confiança com actos indignos e posturas vergonhosas. Não digo nomes, mas não é preciso andar muitos nas avenidas para saberem de quem falo.

Preto, Branco e Talvez Cinzento

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© BasLeiden

O diálogo político substantivo na sociedade portuguesa tem caído a olhos vistos. Ano sim, ano não, vemos os principais protagonistas a envolverem-se em tricas que nada têm que ver com a nobreza de uma actividade que confronta pontos de vista distintos, por vezes mesmo paradoxais.

Desde o 25 de Abril que Portugal, ao invés de gozar de um debate ideologicamente vivo e descomprometido, tem vindo progressivamente a perder essa aura inicial. É normal que o radicalismo tenha esmorecido, é normal que as convergências de blocos centrais e de lutas contra totalitarismos de esquerda tenham aproximado os principais partidos de governo. Tudo isso, a bem dizer, é aceitável numa sociedade democrática.

O que me parece menos normal é que esse empalidecimento ideológico tenha dado lugar a autênticos hermafroditas políticos que não são nem carne nem peixe. Já não digo que se posicionem à direita ou à esquerda, mas ao menos que se identifiquem com a matriz de pensamento do partido que representam e sejam consequentes.

Hoje temos autarcas e políticos da mais variada estirpe que são PS/PSD porque o são desde o 25 de Abril, porque era o partido que estava mais à mão, ou o contrário, porque era o candidato que estava mais à mão para o partido. As feridas mal saradas de um período revolucionário deixaram muita gente confusa, com medo da direita porque significava o fascismo e da esquerda (ainda que menos) porque havia uns seres que comiam criancinhas ao pequeno-almoço, numa visão ascética e iconoclasta da vida pública.

Para mim, como está bom de ver, este cinzentismo dos brandos costumes aplicado à política, que obriga a que, ainda hoje, seja preciso pensar duas vezes sempre que se expressam as convicções de cada um, condena o debate político à nulidade. De um lado somos a favor do mercado, mas atenção que gostamos dos subsídios do Estado e do outro adoramos o Estado social(ista), mas as empresas são um bom retiro para a reforma.

Espantam-se depois que haja um afastamento dos eleitores. Se querem cativar as pessoas, se as querem trazer para a política e para a participação cívica é forçoso que estejam bem claras as diferenças entre os planos. Não podemos esperar que uma escolha entre o lilás e o roxo cative paixões. Não advogo realidades de preto e branco, mas até a realidade é mais clara do que essa mistela de interesses politicamente esterilizada.

Avenida Plural

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Apesar da presença regular na blogosfera bracarense, apenas conheci o João Marques a propósito da nossa participação conjunta no Trio de Blogues do Rádio Clube do Minho. Depressa percebemos que representava, no contexto das juventudes partidárias nacionais, uma verdadeira excepção. João Marques é licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo efectuado um estágio no Parlamento Europeu. Actualmente é advogado estagiário e Vice-Presidente da Secção Concelhia de Braga da Juventude Social Democrata (JSD). A partir de hoje será presença regular no Avenida Central com a sua Avenida Liberal.

Especialista em Arqueologia Urbana, o Professor Francisco Sande Lemos é o mais respeitado arqueólogo bracarense e um dos mais notáveis historiadores portugueses. Autor de inúmeras obras sobre História e Arqueologia, é um dos principais rostos do Programa de Salvação da Bracara Augusta, participando de forma verdadeiramente cidadã em todos os grandes debates sobre a protecção do património bracarense. É, pois, com enorme prazer que vos anunciamos que o Professor Francisco Sande Lemos passará a escrever Avenidas do Passado a partir da próxima Segunda-Feira.

E eis que se completa uma equipa de luxo. Bruno Gonçalves, Cláudia Rocha Gonçalves, Cláudio Rodrigues, Dario Silva, Eduardo Jorge Madureira, Francisco Sande Lemos, João Martinho, Jorge Sousa, Luís Tarroso Gomes e Vitor Pimenta são os rostos de uma Avenida que prometemos Plural. Da Esquerda à Direita. Do Direito à Arquitectura. Da Arqueologia à Medicina. Da Sociologia ao Design. De Cabeceiras de Basto a Barcelos. Da Penha ao Monte Castro.

Do Minho até ao fim do mundo, esta é a Avenida Central.

Capitalismo Social

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Capitalismo
© antoniohauaji

Há por aí um frenesi desvairado contra as obras do "neoliberalismo", do "capitalismo selvagem" e de outras categorias mais ou menos reais, mais ou menos abrangentes, que servem para os arautos dos "maus" costumes embandeirarem em arco e bradarem com toda a alma contra essas forças reaccionárias que promovem os valores do lucro e do sucesso individual.

Não vale a pena branquear os maus resultados da gula incontrolada daqueles que quiseram, a todo o custo, apostar em más soluções financeiras, cujo brilho dos cifrões ofuscou a bendita da razão. Coisa diferente porém é extrapolar indecorosamente e de forma desonesta sobre a imprestabilidade do capitalismo como sistema, ou apelar desesperadamente ao retorno do Estado, fingindo-se uma suposta, mas não provada, ausência do mesmo dos meios financeiros. Parece que o Estado esteve preso por correntes legais, políticas, económicas ou de outra espécie e que, perante o avanço triunfal dessa "corja neoliberal" teve de capitular sob pena de uma investida armada. Nada de mais falso, o Estado não se ausentou, o Estado permitiu. E esteve bem ao fazê-lo.

Tomamos, até há bem pouco tempo, por garantido que nada na economia de mercado poderia correr mal, ou ao menos mal de tal forma que pudessem estar em perigo os alicerces da estabilidade (im)perfeita do Estado social (ocidental). O "wake up call" não sendo desejável nem digno de celebração, tem contudo dimensões positivas. Voltamos à realidade dos sistemas feitos pelo Homem, à percepção da falibilidade de tudo o que criamos e seguimos. Muitos dirão que isto são tretas, que os poderes ocultos do capitalismo, a "mão invisível" da economia (corrompendo a imagem de Adam Smith) precipitaram esta crise e que se tivesse havido um Estado mais forte, com maior poder regulatório, mais presente, mais asfixiante diria eu, então nada disto teria acontecido. É provável que tenham razão. Mas acreditando neste pressuposto tomaremos como certo o que eu mais repudio, a omnipresença do Estado na sociedade.

Para mim, a economia é um domínio onde os governos se devem imiscuir o menos possível. Aceito o seu papel de Xerife de Nottingham (convenhamos, até aos suecos custa pagar impostos), digo-o genuinamente, tem de ser assim para que possa desempenhar o papel que lhe está destinado, o de assistir aos mais fracos e corrigir distorções a montante na ordem social, ou seja garantir a efectiva igualdade de oportunidades. No entanto, pensar que um governo, qualquer que ele fosse, seja ou venha a ser, podia, pode ou poderá decretar e levar a cabo, com efeito universal, a impossibilidade do risco, da má gestão ou sequer da estupidez, equivale a pensar que o Estado pode e deve intervir na nossa esfera mais íntima de actuação, no nosso livre arbítrio. Desenganem-se os puristas dos valores. Ganância, corrupção, ENRONs, Madoffs e outos que tais sempre existirão num sistema capitalista. Neste ou noutro qualquer sistema o Homem ideal não ousa sair do etéreo mundo dos livros e ainda bem que o não faz, pois um mundo de deuses seria a maior desgraça que nos poderia acontecer.

Donde sem dogmas, sem falsos moralismos e sem vergonha liberal me confesso.
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

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