Problemas de Expressão

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A hora dos jornais por Kiko Rocha.
© Kiko Rocha

Se Dante escrevia que o lugar mais quente do inferno está guardado para aqueles que em tempos de crise se mantêm neutros, então os jornalistas portugueses terão as portas do céu escancaradas.

Há em Portugal uma tradição de castidade dos jornalistas, um mandamento supremo que os impede de se declararem "girondinos ou jacobinos". Em nome da isenção e da deontologia juram fidelidade à bandeira e transformam-se, certamente por processos cuja hermenêutica exige total confidencialidade, em seres andróginos que assumem o cinzento como cor política.

Apesar do registo cínico do que acabo de escrever, eu nada teria contra esta isenção se ela fosse aquilo que anuncia ser. Mas como bem sabemos, as coisas não se passam bem assim.

Hoje a androginia deu lugar ao travestismo e alguns (mais do que a salubridade deontológica ordenaria) içaram a âncora da esquizofrenia e conseguem ser, pasmem-se, profissionais às segundas, terças e sextas e opinativos nos restantes dias. Falo, como está claro de ver, dessa nova estirpe societária, o "cronista", ser que em tudo pensa e que sobre tudo tem opinião.

Eu pergunto, com que isenção ou abertura de espírito irá o jornalista y à conferência de imprensa do partido x, tendo escrito, poucos dias antes no seu blogue/coluna de opinião/etc., sobre a imbecilidade das propostas do(a) líder daquele mesmo partido?

Liberdade de expressão? Claro que sim, mas quando esta colide com o rigor do profissional, há que ter bem presentes as consequências dos comportamentos passados, presentes e futuros. Não é à toa que a um juiz não é lícito, ou pelo menos correcto, comentar as decisões de um colega na praça pública e não é por "mero amiguismo corporativista", é sim pela necessidade de empregar respeitabilidade a um órgão que se deseja imparcial e tendencialmente unívoco na sua actuação.

De duas uma, ou bem que se assumem e passamos a saber com o que contamos ou então esta permanente charada (que se estende, aliás, à linha editorial dos jornais), e que ameaça de morte a imprensa portuguesa, começará a colher as suas vítimas. Ou não, já que isto é o país do faz de conta...

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