A Omelete e os Ovos

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Não estará de boa cabeça Maria de Lurdes Rodrigues, mesmo que não tenha levado com os ovos nela – literalmente - como queriam alunos e professores, unidos pela primeira vez, pela mão desta ministra. Esse facto não é outro que não o grande feito do seu mandato, contra qualquer verso da lírica do “Another Brick in The Wall” dos Pink Floyd. E não é fácil fazê-lo, ou talvez seja, num Ministério com tamanha pressão psicológica. Se repararmos, da tutela da Educação nunca houve bem-dispostinho e bem-intencionado que não saísse grunho, paranóico-depressivo e potencial ministro das finanças ou líder do PSD – personagens que mesmo com manicure e peeling político teimam em não colher simpatia de ninguém.

É que isto de aturar canalha tem que se lhe diga quando a sociedade constrói a imagem de uma profissão pela qualidade de vida (o dinheiro que dá) e reconhecimento (a classe/estilo) que proporciona, e não pelo glamour das suas responsabilidades e importância-vital no bem-estar e prosperidade de uma comunidade.

Falo em relação aos professores como o faria em relação a um profissional de saúde. Quando a avaliação se prende com carreira e com remunerações - como se de uma empresa se tratasse - fica desde logo o caldo de missão entornado. Essa coisa da “qualidade de ensino” não se resolve por decreto, por critérios obtusos ou leis do actual mercado. Resolve-se naturalmente, se o ambiente não for de disputa mas antes de sincera partilha e responsabilidade entre professores, entre alunos e entre professores e alunos.

Com isto, nesse turbilhão de propostas e contra-propostas acerca do modelo de avaliação– que toda a gente tem como imperativo e urgente - faço opinião de que a avaliação de professores é inútil e só se lhe encontra necessidade num exercício de pura competição. A nossa sociedade e modelo económico têm por base princípios funcionamento de luta por sobrevivência - que já deviam estar largamente ultrapassados num mundo de abundância -, fazendo-nos legar grande parte das energias e recursos em actividades laterais sem qualquer outro significado prático que não azedar ânimos e ambientes. Aí a motivação individual tem dínamo em apenas querer parecer melhor que o colega, em louvores e propriedade - se isto é gozar a vida e tirar prazer dela, não percebo em que concepção se anda metido. Na verdade, com a crescente burocracia e papelada para preencher, está à vista que o mundo nem por isso anda melhor e ainda por cima com menos árvores.

Não há gente boa e capaz por obrigação. Há gente disponível para fazer o papel que faz melhor. Acredito que um professor responsável, como um médico, que queira ver o trabalho da sua equipa, da sua escola ou hospital, traduzido em resultados visíveis e positivos para a comunidade faz o esforço automaticamente e é essa a sua motivação para melhorar as suas capacidades profissionais. Mas isso pressupõe que seja num ambiente aberto o suficiente para debater, experimentar, aceitar e adaptar novos e melhores conceitos de ensino - sem paradigmas ou dogmas pétreos e inquebráveis. Perceberá melhor da coisa quem lida com a realidade no terreno e não um sociólogo ou economista metido na chancela, a testar modelos do alto do seu gabinete como quem joga Sim City.

5 comentários:

  1. Conversar, escutar, dialogar, debater, por vezes com furor e impaciência, é solução muito mais eficaz do que alimentar uma inconsiderada teimosia, de consequências imprevisíveis.

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  2. Concordo com a visão no geral. Se a avaliação será útil ou inútil... logo se verá, pois muito dependerá da sua implementação prática.

    Em todo o caso, a necessidade da avaliação, não é por estes serem professores. É por serem funcionários públicos. O problema é exactamente o mesmo. Mediocridade não é sancionada. Lugar para a vida. Progressão pelo mero decurso do tempo.

    Procurou-se em 2004 modificar-se isto quanto ao resto da função pública. Com resultados ou não, será cedo para avaliar, mas pretende-se agora alterar (ou pode-se falar mesmo em introduzir) um regime de avaliação para os professores.

    Se a avaliação produzir esse efeito, de afastamento da mediocridade, já será positiva. Felizmente, ou infelizmente, há muitos professores à espera de um lugar.

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  3. «Essa coisa da “qualidade de ensino” não se resolve por decreto, por critérios obtusos ou leis do actual mercado. Resolve-se naturalmente, se o ambiente não for de disputa mas antes de sincera partilha e responsabilidade entre professores, entre alunos e entre professores e alunos.»

    Portanto, para melhorar o ensino deveremos deixar tudo como estava. De facto este Governo veio estragar uma tendência de melhoramento explícita.

    «A avaliação de professores é inútil e só se lhe encontra necessidade num exercício de pura competição. A nossa sociedade e modelo económico têm por base princípios funcionamento de luta por sobrevivência [...] Aí a motivação individual tem dínamo em apenas querer parecer melhor que o colega, em louvores e propriedade»

    Que não se avalie os professores e não se afira a sua qualidade já o relatou anteriormente. Essa competição hedionda, que tem o tal efeito nefasto de as pessoas quererem melhorar-se, é aliás o motor desse país a todos os títulos inferior chamado Estados Unidos da América.

    «Acredito que um professor responsável, como um médico, que queira ver o trabalho da sua equipa, da sua escola ou hospital, traduzido em resultados visíveis e positivos para a comunidade faz o esforço automaticamente e é essa a sua motivação para melhorar as suas capacidades profissionais.»

    Já o professor e o médico irresponsáveis, que não são avaliados e entram nas mesmas profissões pela mesma porta, saíndo ao mesmo tempo que os responsáveis, não têm essa mesma motivação de auto-melhoramento. Mas concordo consigo, porque como podemos aferir a olho nu os portugueses têm uma capacidade única (no mundo) de entreajuda.

    «Perceberá melhor da coisa quem lida com a realidade no terreno e não um sociólogo ou economista metido na chancela, a testar modelos do alto do seu gabinete como quem joga Sim City.»

    Concordo. Do mesmo modo, quem lida com uma realidade específica no terreno não tem nas mãos as estatísticas que lhe mostrariam o quão próspero é este país e, certamente, lhe dariam ainda mais ânimo acrescido à sua já natural filantropia.

    Cumprimentos

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  4. Caro Rui Passos Rocha:

    Fez a leitura que quis e concordo que não temos uma sociedade produtora de trabalhadores motivados, nem é eminentemente filantrópica. Mas como eu disse, o problema não se resolve com avaliação burocrática.

    Não vejo porque é que tem os Estados Unidos da América como exemplo máximo, a única coisa que os torna academicamente/humanamente avançados é apesar de tudo a livre iniciativa, a liberdade de expressão e sua tradição visceral de cidadania. Isso e o enorme caldo de gente que é. De resto o modelo económico americano não é assim tão sustentável como faz parecer. É talvez o país que, de algum modo, vai na dianteira na economia do desperdício, um consumismo irresponsável, que não tem agora por onde se lhe agarrar. Modo de vida que tende só a ser possível por uma "elite de consumo", círculo cada vez mais fechado. Digo-o em termos globais e apesar de lhe parecer que no mundo ocidental o acesso a bens de consumo é cada vez mais alargado. Engana-se.

    Adiante: se acha que a avaliação é o segredo para melhorar a qualidade do ensino, está enganado. Aliás, tudo o que se prende com darwinismo social - teoria falaciosa -, aplicada às empresas tem os exemplos nefastos da Enron, por exemplo: onde 10% dos trabalhadores eram despedidos e substituídos a cada semestre de modo a ficarem os mais "capazes". Pois, apesar dos critérios de avaliação, sobreviveram os mais mesquinhos e maquiavélicos de todos. Resultado: a Enron faliu com o saque. Se defende este tipo de canibalismo, pode ser o irónico quanto quiser, mas não me parece que o ensino ganhe alguma coisa com isso.

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  5. «Não vejo porque é que tem os Estados Unidos da América como exemplo máximo, a única coisa que os torna academicamente/humanamente avançados é apesar de tudo a livre iniciativa, a liberdade de expressão e sua tradição visceral de cidadania.»

    Ainda bem que fala dos meios académicos, porque, "apesar de tudo" o que por cá se vai dizendo, é nos Estados Unidos e no Reino Unido que está localizado o futuro próximo em termos investigativos. Se isto não é ser exemplar...

    «É talvez o país que, de algum modo, vai na dianteira na economia do desperdício, um consumismo irresponsável, que não tem agora por onde se lhe agarrar. Modo de vida que tende só a ser possível por uma "elite de consumo", círculo cada vez mais fechado. Digo-o em termos globais e apesar de lhe parecer que no mundo ocidental o acesso a bens de consumo é cada vez mais alargado. Engana-se.»

    É engraçado que esse "consumismo irresponsável", potenciado pela expansão produtiva, foi um forte impulsionador do surgimento daquilo a que chamamos economias emergentes. "Não tem por onde se lhe agarrar"? Então não tem... Até já foi responsável pela conversão do Vital Moreira à economia de mercado!
    Tem razão: eu engano-me frequentemente. Mas olhe que as estatísticas, as tais com que não se conhece a realidade, mostram algo diferente: o mundo cada vez mais consumista, mais próspero, menos miserável. (A não ser que se refira à contracção decorrente da crise financeira.)

    «Se acha que a avaliação é o segredo para melhorar a qualidade do ensino, está enganado. Aliás, tudo o que se prende com darwinismo social - teoria falaciosa -, aplicada às empresas tem os exemplos nefastos da Enron»

    Como referi engano-me muito, mas confesso que não vejo em que é comparável um modelo de avaliação de professores ao modelo da Enron. Se esta faliu com o saque, qual seria o seu equivalente num modelo de avaliação de professores?

    Como daria esse resultado um modelo que resultasse de um misto de auto-avaliação, avaliação pelos pais, pelos colegas professores e pelos alunos?

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