1 de Novembro num Minho Fiel e Defunto

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Tende todo o mundo para a calmaria, no Minho profundo, agora que o sábado fez mais de quantas caras, de sol e de chuva, para quem largou afazeres de casa e foi velar os mortos, santos e diabos, todos eles boas pessoas depois de enterrados. O ritual de memória é complexo mas sistematizado em campas floreadas, velas e rostos caídos sucedidos de rostos fechados, uma ou outra venta de seca, uma tosse e um trago no cigarro – para lá caminhamos todos, uns mais a correr que outros.

Caem as moedas a bater na lata redonda dos voluntários da Liga Portuguesa contra o Cancro que se misturam com os mercadores de cemitério entre cera e flores: crisântemos e jacudílios, nomes de planta tão esquisitos que parecem inventados na hora, como eu inventei o segundo. O cemitério da minha terra tem um estaleiro da Mota-Engil meio caminho entre este e a Igreja. Essa alteia num morro, mas mal se vê por detrás do monte de areia com que se vai fazendo o betão de viadutos e aquedutos, beiras de estrada, entre a saída do nó da A7 - onde deixo 500 euros anuais em portagens, grande imposto de selo - e a sede do concelho, construída também ela quase toda agora em cimento, em redor de um Mosteiro de granito, albergue de missas, do secundário local de gestão católica e dos Paços do Concelho. Todo um encanto natural virado e revirado em terraplanagem e apartamentos.

Cabeceiras de Basto é também uma land of oportunity para os empreiteiros do Estado, que não sendo do Estado em si, são o seu braço operário e a sua carteira de investimentos, em dinheiro e ministros ex-administradores e administradores ex-ministros. Assim se faz o plano Marshal em Portugal anos largos de atraso, o New Deal dado, renovado e embandeirado pelo vendedor do Magalhães, qual feirante de microfone enfiado numa meia, e filiados. O pequeno concelho de Basto, encostado a Trás-os-Montes, em gente bem atrás de tantos outros do distrito de Braga, é anos seguidos, cimeiro em lugares do PIDDAC para o Distrito. Quem é que pode dizer que o Governo de Lisboa não distribui a riqueza com o interior norte?

2 comentários:

  1. Mas o homem da distrital não é o presidente da câmara?
    Sempre há solidariedade com o interior...à medida, claro...

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  2. Não resisto a dizer-lhe que o acho um bom escritor.
    Textos com esta qualidade literária - ademais em momento de alguma crise do gosto - dignificam qualquer blogue.
    Continue com a sua Avenida do Bem e do Bom que a gente agradece.

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