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Avenida do Mal

Casamento Subprime

Reservo-me a partir de agora ao direito da incoerência, que é coisa de moda neste mundo do avesso, onde os neoliberais se confundem com os socialistas clássicos e estes com os outros atrás. Digo porque não sei para que perdi tempo, agora que vejo, em defender o alargamento dos direitos de casamento a toda a generalidade de gente que o entenda fazer. O verdadeiro significado do casamento foi bem para lá dos afectos, adquiriu um perverso sentido prático por detrás, já não tem o valor sentimental e voluntário que se especula que tem: é meramente o exercício de eficiência numa economia de mercado, seja ela no contexto do Capitalismo Neoliberal seja no de Capitalismo de Estado. Um mal menor como quem vive num apartamento com outra pessoa, a aturar-lhe as neuras e os arrotos, a foder de vez em quando, apenas para pagar as contas.

De verdade, não acredito que se discutissem os direitos adquiridos com o casamento se estes não fossem meras compensações face aos deveres e obrigações para com o Estado ou o Sistema Bancário - mais o segundo que o primeiro. Desde que a sociedade se vergou ao dinheiro e ao que ele compra, mesmo o que não interessa, ficou obcecada por ver inverter-se o sentido do "tempo é dinheiro", qualquer troco que se poupe talvez dê fôlego para nos desenganarmos, de que talvez olhássemos pelos outros e os outros por nós.

Não admira então, que no meio da mediatizada tragédia-dominó do subprime, toda a santa gente - presa ao paradigma do sistema monetário actual - faz por preservar alguma réstia de superioridade, algo que na pirâmide hierárquica do dinheiro (pago com juros) dê para gabar além da casa com picinha, o carro, as jantaradas, a roupa e todas as outras bugigangas e hinos ao ego, mais do cartel de bancos que deles. Era o que faltava, e sem filhos para criar, que se desse aos rabetas e às hómadas, tais "privilégios", no acesso a essa coisa e ao nome que lhe dão.

Tudo em prol da boa moral e tradições ( se é que existe alguma) da muita boa gente sentada na poltrona da mais profunda hipocrisia, a fazer histeria de galinha à sua crise de mealheiro. Mas as galinhas, mesmo abrigadas na toca da raposa, e apesar de tudo, não são anticonstitucionais, "que se lhes dê mesmos os direitos mas com outra denominação": casamento gay, homossexualização, ajuntamento, sodomismo empapelado... Não são preconceituosos, nem coisa que pareça. Tal qual grupo A maioritário, habituado a não partilhar o seu autocarro azul, até acha bem que o grupo B ande também de autocarro (em assentos também serviu a metáfora na questão dos pretos), desde que sejam amarelos. Cada macaco no seu bregalho. Enfim: só de saber de quem frequenta o casamento, não alinho, prefiro andar a pé.

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