Fôssemos Todos Padres

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Por muito que a Europa tenha chegado, nas suas directivas e tractores, à ruralidade portuguesa, anos contados depois de Mário Soares assinar a adesão ( fôssemos nós doutro continente ou à deriva no mapa mundi), pouco mudou nalguns hábitos antigos. Sempre que se renova o prior num vilarejo ou cidade com cabeça desse tamanho, faz-se festa em tapetes de flores, comezaina, missa e beijar de mão – para não dizer coisa badalhoca – como quem beija o Menino e espalha o herpes com a boa-nova. Aliás nunca percebi o que é que o patchouli tem de desinfectante que não fosse o cheiro que nos repele de gente de mau gosto e blusas cor-de-rosa ou calças de pano amarelo…

Adiante. Não há padre que morra de fome em lado nenhum, porque não havendo quem oiça e dê resposta que se preze, médicos sem vocação de merceeiro, ou psiquiatras ou psicólogos de centro-de-saúde, nada como alguém embebido da autoridade divina de perdoar todos os pecados da alma que, à excepção dos literais roubos de igreja, estão além dos 10 mandamentos e as desaventuranças, pago com casa feita a expensas da comunidade, porco, pitinho, arroz, batatas, couves, carro e as ofertas – 10% do rendimento mensal do agregado. O altruísmo comunitário é tal, que até o padre desconfia. Houve altura que a paróquia da minha terra montou com o grupo de jovens e catequistas um censo para averiguar de quantas famílias e posses, não fosse o altruísmo ser demasiado comedido. Vale que ficou a ideia pelo papel, por intercepção do arcebispo que, informado das férteis mentes de má-língua geradas pela doença da coceira do grelo, fez guindaste ao padre para beira-mar, longe das tentadas mulheres (e homens) da montanha e mais perto do iodo. Em cada aldeia uma Sodoma à sua maneira, e normalmente não é por serem bonitos. Longe disso, é pela necessidade de quem lhes arrepie a fome de todos os buracos do corpo.

A ideia que geramos que temos tudo em falta ou que nos falta tudo, exagera e distorce os patamares de felicidade. Fica tudo arreado para donzelas de dote alargado e peida parideira, e príncipes dedicados. É o conto de fadas à moda do hipermercado e não há lugar para gente normalmente humana. Pena que não veja a sociedade, nas suas pequenas e grandes comunidades, valor em todas as artes e artistas - mesmo aqueles que chama de preguiçosos. Pena que não façam tapetes de flores aos carpinteiros, que não beijem as mãos aos construtores e aos lavradores, que não louvem os professores com maçãs como faziam dantes, que não ofereçam jantar aos pintores. Parecem agora tantos e de estorvo que se os calibra como a fruta da CE. Ou servem ou não servem - e os que servem mesmo assim têm prazo de validade. Depois não admira que tenhamos um país, uma Europa e um Mundo de fácies depressivo e em delírio de ruína.

3 comentários:

  1. Vejam o ridículo da igreja e dos seus funcionários:)

    Rir é o melhor remédio…aqui vai…

    http://padremagalhaes.blogs.sapo.pt/8276.html

    dificil mas acho que este ganha ao EXCELENTE texto do Vitor:)

    Os defensores da igreja que comentem…

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