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meu texto da semana passada deu azo a alguns comentários interessantes. Uma coisa curiosa é que a muitos dos argumentos a favor do Acordo Ortográfico sejam, na verdade, argumentos contra o Acordo. Às vezes basta soprar o pó a algumas coisas para se ver o que na verdade são. E a pestilência salazarista deste Acordo não resiste sequer a uma brisa suave.
O leitor Bruno Simões, por exemplo, diz que o desejo de internacionalizar a língua
“não se compadece de um hífen a mais ou a menos”. Eu concordo em absoluto. Aliás, é por isso mesmo que o Acordo é tão irrelevante a nível prático. As divergências em torno dos hífens eram irrelevantes para a internacionalização da língua. E a harmonização dos mesmos hífens vai pelo mesmo caminho: não aquece nem arrefece.
O mesmo Bruno Simões diz que
“a língua oficial do país deve ser ensinada e difundida de igual modo por todas as escolas”.
“Afinal é língua oficial por alguma razão”. Mas isto é o exemplo acabado de um argumento tautológico. Devemos ensinar a língua oficial porque essa é a língua que tem de ser ensinada, e a língua que tem de ser ensinada é a língua oficial.
Isto faz tanto sentido como criar juridicamente uma saudação padronizada que substitua os dois beijinhos e os apertos de mão. Não é por ser a saudação oficial que deixa de ser uma patetice. E note-se que o problema nem está no completo absurdo da saudação adoptada. O problema está mesmo em haver uma saudação oficial. Como reagiriam os portugueses se a partir de agora houvesse uma coisa deste género. Por vezes, uma comparação ajuda a entender melhor a questão do que as prelecções de um linguista.
A língua mudou? Claro que mudou. É normal. E não há nada de criticável numa mudança orgânica. Mas não há aqui, ao contrário do que a leitora Mariana disse, apelos nacionalistas patrioteiros. O nacionalismo é a submissão das vontades individuais a uma vontade nacional (a que, curiosamente, apenas os grandes líderes, quais exegetas do espírito nacional, conseguem ter acesso). Os verdadeiros nacionalistas são os que defendem o novo acordo. Trocaram o espírito nacional de ontem pelo espírito nacional de amanhã. No fundo, a pulsão controladeira é a mesma.
Por último, a forma como alguns continuam a não conseguir conceber uma educação livre é bem revelador de como em Portugal ainda se pensa. Alguns leitores levantaram a questão dos exames nacionais. Mas essa é outra questão. Por que não hão-de ser as próprias universidades a definir os seus próprios exames? E por que é que não pode haver vários exames nacionais em concorrência uns com os outros? Um sistema livre permitiria a cada escola ministrar o tipo de ensino que entendesse (onde se inclui, naturalmente, a ortografia); permitira a cada universidade escolher o tipo de exames necessários à entrada; e permtiria a cada família escolher a escola que quisesse. Só não permitiria mesmo aos linguistas de pacotilha continuarem a fazer experiências com o ensino das crianças.