Avenida Central

Avenida Plural

| 0 Comentários | Partilhar
A partir de amanhã, as Sextas-Feiras serão dia da Avenida Ideal. João Martinho, bracarense e estudante de Sociologia na Universidade do Minho, junta-se a esta «avenida que quer ser do tamanho do mundo» para nos trazer uma outra perspectiva da realidade.

No entretanto, novos desafios profissionais levaram o Pedro Romano a suspender por tempo indeterminado a sua excelente participação no blogue Avenida Central. Ao longo destes seis meses, o Pedro espicaçou o debate, dando particular relevo aos assuntos económicos e lançando um olhar liberal sobre a sociedade e a vida. Em nome de todos os que, tal como eu, criaram o ritual de ler a Avenida Marginal, desejo ao Pedro Romano as maiores felicidades nas novas avenida da vida.

Avenida Marginal George Bush

| 13 Comentários | Partilhar
George Bush vai abandonar a Casa Branca dentro de pouco tempo. O momento é histórico e reveste-se de especial importância; durante quase oito anos, a acção do presidente americano foi um desastre completo. Bush alimentou guerras desnecessárias no Iraque e no Afeganistão, fez uma gestão ruinosa das contas públicas (os excedentes da era de Clinton desapareceram num piscar de olhos) e submeteu a sua política externa aos caprichos dos neocons e aos interesses da indústria armamentista. Os americanos compraram a banha da cobra pela segunda vez, mas os erros de palmatória não escaparam aos europeus.
A história viria a dar-lhes razão. Aos europeus, claro. A leviandade com que Bush encarou um dos dossiers mais delicados da comunidade internacional provou que o conservador americano era não apenas um erro de casting forjado nas urnas mas também um entrave de peso ao solucionar de problemas globais. O Aquecimento Global exigia racionar o consumo de combustíveis poluentes e incentivar as energias renováveis. O aumento do preço do crude criou uma janela política para o natural solucionar do problema. Ledo engano. Bush, que já tinha rejeitado Kyoto, apresentou propostas para diminuir os impostos sobre os combustíveis. Sugeriu encontros para discutir o problema e exigiu à OPEP que alargasse a malha das quotas petrolíferas. Os esforços dos europeus foram em vão.
A Defesa foi outro falhanço. Bush invadiu o Iraque e o Afeganistão. O erro propagou-se: os ataques terroristas sucederam-se e o nível da ameaça não diminuiu. A opção pelo unilateralismo, aliás, não se compreendia. Os europeus estavam unidos. Tinham uma política externa conjunta e despesas militares que justificavam algum poder negocial. Os cidadãos europeus tinham, sobretudo, uma boa atitude. Estiveram sempre mais preocupados em pensar na sua própria política externa do que em criticar a dos americanos.
Sosseguemos. Bush vai abandonar o posto e a escolha que se segue, seja qual for, promete melhorias nítidas – não apenas para os americanos mas também, e sobretudo, para os europeus. Mas o erro era evitável. Se à primeira ainda se compreendia, a insistência foi anedótica. Porque já então os europeus compreendiam de que massa era feito Bush – numa atitude, de resto, partilhada por grande parte do planeta. Ainda esta semana, a Newsweek mostrou que Bush é, a nível mundial, dos líderes que inspira menos confiança. Entre os melhores estão Putin, da Rússia, e Hu Jintao, da China. Não há que enganar; quando tiverem dúvidas, perguntem ao resto do mundo.

Avenida MarginalPobreza George Bush

| 15 Comentários | Partilhar
Um estudo de Bruto da Costa revelou, entre outras coisas, que quase metade dos portugueses está numa situação vulnerável à pobreza. Foi um bom mote para o populismo: Bloco de Esquerda e PCP puseram em marcha o respectivo repertório humorístico e, deste vez, com Alegre a juntar-se à festa. Nem Manuela Ferreira Leite se afastou da turba em alvoroço.

Compreende-se a situação. Épocas de crise são propensas a demagogias e o estudo, claro, teve o condão de fazer os portugueses exigirem ao Estado mais medidas contra a pobreza. Mas há algo de extravagante nas exigências que os portugueses fazem aos seus governantes. Combater a pobreza exige criar riqueza, tarefa em que os Governos têm, recorrentemente, mostrado uma pródiga inépcia. Alguns conseguem, quanto muito, distribui-la. Mas distribuir um bolo pequeno é condenar a família a viver de migalhas.

Manuel Alegre e seguidores alimentam, ainda, a doce ilusão de que a vitalidade económica de Portugal depende dos humores do primeiro-ministro e das grandes obras do regime, tão do agrado deste Governo. É um engodo apreciável a que o povo adere com agrado. Desresponsabiliza os portugueses e atira as culpas para o homem do leme. A crença é psicologicamente recompensadora para o português, que encontra um bode expiatório, e politicamente útil para os partidos, que encontram solo fértil para fazer demagogia.

Mas é falsa. Portugal não precisa de um Manuel Pinho hiper-activo. Portugal precisa que o Manuel Pinho saia da frente e que deixe trabalhar os portugueses que ainda estão interessados em fazê-lo. Precisa de menos burocracias, de menos impostos e de um Estado menos adiposo. Precisa, sobretudo, de mudanças institucionais que incentivem a produção de riqueza. Fazer como os nórdicos: primeiro a riqueza, depois os impostos. Começar por sair da pobreza pode ser um bom princípio.

Isto exige, também, mudanças culturais. Por exemplo, uma ética que não veja a riqueza como um pecado mas como um objectivo legítimo. O ataque cerrado às «grandes fortunas» é, por vezes, apenas o subproduto de uma inveza tacanha e mesquinha; mas constitui-se, quase sempre, como um olhar persecutório que vilifica qualquer forma de excelência. O corolário final é previsível: a criação de riqueza é desincentivada, os melhores quadros abandonam o país e os cérebros entram em processo de fuga. É verdade que os portugueses não lhes devem nada; mas também é verdade que afastar aqueles que mais poderiam contribuir para o enriquecimento geral acaba por constituir uma forma masoquista e contraproducente de desenvolvimento.

Avenida MarginalCombustíveis

| 36 Comentários | Partilhar
O Bloco de Esquerda (BE) quer “travar a espiral especulativa verificada nos últimos tempos” no mercado de crude. A proposta é simples: o Governo estipula um preço máximo, que é fixado tendo como termo de comparação os preços praticados num grupo de países de referência. Na prática, passa a estar em vigor um limite para a variação de preços.

A proposta nasce manca. Por exemplo, é interessante imaginar como é que é possível comparar preços entre países quando não há harmonização fiscal. Actualmente, os preços em Portugal estão muito próximos da média europeia; a diferença vem, em grande parte, da carga tributária. Dada a intransigência de Sócrates em baixar impostos, resta a Francisco Louçã convencer os Governos europeus a aumentarem os seus. Sempre se salvava uma proposta.

Depois, a maldita especulação. Não sei onde é que o BE vai buscar a ideia de que há uma “espiral especulativa”. Com tantas certezas, talvez o melhor fosse investir em crude e ganhar uma pipa de massa do que em revelar ao mercado que há uma bolha a formar-se (o facto de o mercado não ter reagido também indica que a credibilidade do BE em termos de análise económica não será a melhor).

De qualquer modo, um preço máximo não limita a especulação. Limita a oferta. E fomenta a procura. Não haverá apenas especuladores a sairem do mercado. Haverá consumidores sem gasolina e filas enormes para racionar a oferta, à semelhança do que aconteceu em 1973 nos Estados Unidos. O impacto mediático do controlo de preços é inversamente proporcional à sua eficiência económica.

Mas assumamos que há mesmo especulação a aumentar o preço. Qual é exactamente o problema da especulação? A especulação representa uma aposta em relação ao preço futuro. Quem compra hoje para vender amanhã acredita que o preço de hoje é inferior ao preço de amanhã. Mas a aposta representa um risco: a previsão pode sempre sair furada.

Qual é o resultado final? O primeiro é que a procura actual aumenta – o preço sobe. O segundo é que a oferta futura também aumenta – o preço desce. A parte engraçada é que a especulação tende a equivaler os dois preços. O aumento de preço é o mesmo, com ou sem especulação. A especulação apenas torna a transição mais suave. Esta proposta do BE é mais demagogia barata.

Avenida MarginalA questão de fundo

| 16 Comentários | Partilhar
O meu texto da semana passada deu azo a alguns comentários interessantes. Uma coisa curiosa é que a muitos dos argumentos a favor do Acordo Ortográfico sejam, na verdade, argumentos contra o Acordo. Às vezes basta soprar o pó a algumas coisas para se ver o que na verdade são. E a pestilência salazarista deste Acordo não resiste sequer a uma brisa suave.

O leitor Bruno Simões, por exemplo, diz que o desejo de internacionalizar a língua “não se compadece de um hífen a mais ou a menos”. Eu concordo em absoluto. Aliás, é por isso mesmo que o Acordo é tão irrelevante a nível prático. As divergências em torno dos hífens eram irrelevantes para a internacionalização da língua. E a harmonização dos mesmos hífens vai pelo mesmo caminho: não aquece nem arrefece.

O mesmo Bruno Simões diz que “a língua oficial do país deve ser ensinada e difundida de igual modo por todas as escolas”. “Afinal é língua oficial por alguma razão”. Mas isto é o exemplo acabado de um argumento tautológico. Devemos ensinar a língua oficial porque essa é a língua que tem de ser ensinada, e a língua que tem de ser ensinada é a língua oficial.

Isto faz tanto sentido como criar juridicamente uma saudação padronizada que substitua os dois beijinhos e os apertos de mão. Não é por ser a saudação oficial que deixa de ser uma patetice. E note-se que o problema nem está no completo absurdo da saudação adoptada. O problema está mesmo em haver uma saudação oficial. Como reagiriam os portugueses se a partir de agora houvesse uma coisa deste género. Por vezes, uma comparação ajuda a entender melhor a questão do que as prelecções de um linguista.

A língua mudou? Claro que mudou. É normal. E não há nada de criticável numa mudança orgânica. Mas não há aqui, ao contrário do que a leitora Mariana disse, apelos nacionalistas patrioteiros. O nacionalismo é a submissão das vontades individuais a uma vontade nacional (a que, curiosamente, apenas os grandes líderes, quais exegetas do espírito nacional, conseguem ter acesso). Os verdadeiros nacionalistas são os que defendem o novo acordo. Trocaram o espírito nacional de ontem pelo espírito nacional de amanhã. No fundo, a pulsão controladeira é a mesma.

Por último, a forma como alguns continuam a não conseguir conceber uma educação livre é bem revelador de como em Portugal ainda se pensa. Alguns leitores levantaram a questão dos exames nacionais. Mas essa é outra questão. Por que não hão-de ser as próprias universidades a definir os seus próprios exames? E por que é que não pode haver vários exames nacionais em concorrência uns com os outros? Um sistema livre permitiria a cada escola ministrar o tipo de ensino que entendesse (onde se inclui, naturalmente, a ortografia); permitira a cada universidade escolher o tipo de exames necessários à entrada; e permtiria a cada família escolher a escola que quisesse. Só não permitiria mesmo aos linguistas de pacotilha continuarem a fazer experiências com o ensino das crianças.

Avenida MarginalChatinho

| 8 Comentários | Partilhar
O acordo ortográfico foi aprovado no Parlamento, com os votos a favor do Bloco de Esquerda, do PS, do PSD e de um bocadinho do CDS. Pessoalmente, faz-me pouca diferença. Vou continuar a escrever da mesma forma que escrevia. Em primeiro lugar por uma questão de hábito, e em segundo lugar por uma questão de respeito: longe de mim assumir que o leitor brasileiro não saberá que “óptimo” significa “ótimo” e que “passatempo” é mais ou menos o mesmo que “passa-tempo”. Vício meu. Ao contrário das luminárias por detrás do acordo, não tenho por hábito gozar com a cara dos outros.

De resto, as mudanças são praticamente irrelevantes. Não porque sejam pequenas (não são), mas porque ninguém se vai importar muito com elas. A língua é feita por quem com ela trabalha. Editores, jornalistas, escritores, poetas, leitores. É pouco relevante legislar sobre a língua porque em última análise não há forma de garantir o cumprimento da legislação. O que é que se faz a quem escreve fora da norma? É uma boa pergunta.

Mas, a prazo, a questão é outra. O acordo passa a representar a norma oficial. Começa nos gabinetes e propaga-se pelas escolas. As crianças vão aprender os “ótimos” e os “passa-tempos”. Haverá algumas chatices, alguns manuais por reajustar, algumas arestas por limar. Não vai ser um tumulto porque, ao contrário do que alguns pensam, um hífen a menos não impede a comunicação (nem a publicação em solo alheio, fácil de ver). Não vai ser calamitoso. Vai ser só chato. Chatinho.

Mas mesmo as coisas chatinhas podem ser evitadas. Neste caso, é curioso notar que, apesar da óbvia patetice que representa, é bem possível que este acordo se propague. Propaga-se através da política educativa, e apenas porque a política educativa é ditada pelo mesmo órgão que dita a norma oficial da língua: o umbigo do Governo. Os planos educativos e os manuais adoptados têm de ser aprovados por um Governo que tem como prioridade máxima a quantidade de hífens que cada um utiliza enquanto escreve. Prioridades.

Uma política descentralizada permitira evitar isto. Uma política descentralizada permitiria a cada escola utilizar a norma ortográfica que achasse mais conveniente aos seus alunos e não aos umbigos dos burocratas estatais. Permitiria pôr em primeiro lugar aqueles a quem é suposto servir e não aqueles que se servem do poder central para impor modas de circunstância.

O acordo não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas as patetices dos Governos são uma constante às quais nos temos de habituar. O segredo não está em eliminar a estupidez alheia (essa é um dado), mas em evitar que ela tenha capacidade de contaminar aqueles que a ela são alheios. Uma política educativa mais livre era um bom passo nesse sentido.

Avenida MarginalA terceira via do PSD

| 14 Comentários | Partilhar
O espectro político em Portugal encontra-se razoavelmente bem preenchido pelos partidos estabelecidos. O centro oscila entre o PS e o PSD. Cada partido tem um núcleo duro no centro e, nas margens, um eleitorado um pouco mais maleável cujo voto oscila mais com contingências do ciclo económico e da personalidade do líder partidário do com qualquer questão substancialmente ideológica.

Depois aparecem o Bloco de Esquerda e o PCP. A inspiração é a mesma (e até já tem 150 anos), mas os eleitorados são distintos. O PCP continua a martelar na luta de classes e na revolução do proletariado. O Bloco de Esquerda modernizou o tom e acrescentou-lhes as causas fracturantes. Ganharam em jovens o que perderam em camponeses.

Por fim, o CDS alberga um pouco de tudo o que se encosta à faixa mais direita do espectro. Cabem conservadores, conservadores-liberais e democratas cristãos. Há mais Conservadorismo do que propriamente Liberalismo, arrisco dizer. E depois sobra o PNR, que fica com as sobras nacionalistas. Um espaço pequeno para crescer.

O PSD está actualmente à procura de líder, do qual dependerá a sua orientação programática. O líder escolhido deparar-se-á com um espectro político bem definido e com um eleitorado razoavelmente estável em termos de escolhas políticas. O espaço de manobra costuma cingir-se a algumas franjas do PS e a alguns sectores do CDS. Talvez não haja muito a fazer, qualquer que seja o líder: repetir o discurso ao centro e esperar que a inflação e a crise vinda dos EUA façam o resto. Jogar pelo seguro.

Acontece que historicamente o PSD é um partido ideologicamente difuso e que vive mais da personalidade do líder do que da ortodoxia social-democrata (que, aliás, é dificilmente consensualizável). Isto abre espaço a um reposicionamento político em termos inovadores. Actualmente, o PSD ocupa uma posição no centro da linha Esquerda-Direita: moderado nos costumes e moderado na economia; uma terceira alternativa permitiria romper com esta dicotomia e apresentar uma proposta de Esquerda nos costumes e de Direita na economia.

Parece um paradoxo? Nem tanto. A Esquerda defende tolerância nos costumes e a Direita liberdade na economia. A nova proposta poderia casar o melhor dos dois mundos sob o signo comum da liberdade. Que apenas por questões de target político não pode ser defendida num único projecto. Um projecto liberal.

Avenida MarginalAos poucos

| 4 Comentários | Partilhar
Durante muitos séculos a crença num Deus criador foi comum. Aliás, foi não só comum como racionalmente plausível. Porque havia factos a explicar e porque o criacionismo bíblico apresentava-se como a única teoria capaz de o fazer. Claro que havia a concorrência das outras religiões, mas o argumento da heresia era particularmente convicente nesses casos. O argumento da fogueira também não tinha maus resultados.

David Hume atacou de forma incisiva os principais argumentos a favor da tradicional concepção de um Deus criador. Mas faltava-lhe o fundamental: uma explicação alternativa capaz de rivalizar com a hipótese cristã e que pudesse ser pesada na balança dos factos. Por isso, o máximo a que intelectualmente se sentiu obrigado foi a suspensão do juízo em matéria de criação divina. Faltava qualquer coisa que permitisse saltar do tradicional «não sei se a criação foi feita em seis dias» para o actual «mas tu bebes ou quê?».

A revolução veio com Darwin. A explicação que Darwin propôs era simples mas extraordinariamente fecunda. Desde então, deixaram de ser necessários artifícios sobrenaturais para explicar a criação. A hipótese darwinista explicava tudo o que a hipótese bíblica explicava, mas de uma forma muito mais elegante e sem precisar de postular entidades desnecessárias. Era curto e apelativo.

Hoje parecem ridículas as teses bíblicas da criação em seis dias. Posturas como as de Jónatas Machado, que esta semana defendeu o criacionismo em Braga, são praticamente impossíveis de encontrar. O edifício ruiu por dentro. A Igreja adaptou-se e os teológos reviram a hermenêutica. A teologia agilizou-se e tornou-se mais fácil ver metáforas e conotações onde antes havia apenas uma verdade pura e dura. Os tempos mudaram a Igreja fez um lifting. Foi o preço a pagar pela fidelidade dos fiéis em fuga.

Claro que foi um processo gradual. Primeiro aceitou-se que a explicação darwinista era correcta, mas que o processo de selecção natural exigia a mão divina. Depois a mão divina mudou de hospedeiro: era na origem das primeiras formas de vida que residia o toque de Deus. A biologia mostrou que nem para isso era necessário um Deus. E ele conformou-se. Foi aos poucos.

Actualmente, é difícil encontrá-lo. Já não está na criação dos homens nem na sua evolução. Já não está na origem da vida nem na criação dos planetas. Já nem está na Ética. Tem recuado aos poucos, para os únicos lugares que nunca serão perscrutados: para os confins do Universo e para os corações dos fiéis. Os únicos em que nenhum cientista alguma vez poderá entrar para ver se está lá alguém. É o mais sensato. E o mais seguro. Ninguém quer perder o amigo invisível.

Avenida MarginalA tecla de sempre II

| 7 Comentários | Partilhar
A entrada da semana passada justificou alguns comentários. Alguns já eram expectáveis. Vergastam o neoliberalismo selvagem, esquecendo que a flexisegurança é uma invenção desse paraíso social-democrata que é a Escandinávia. O disparate do costume.

Mas outros colocam questões interessantes. A leitora Lois Lane afirma: «(...) a experiência no nosso mercado laboral mostra que se o “velhadas” for para a rua o mais provável é nunca mais ninguém venha a ser contratado para aquele lugar, em condições similares. O posto de trabalho extingue-se». Mas não é bem assim.

Suponhamos que a empresa x quer despedir o empregado y porque o posto de trabalho já não é necessário. Suponhamos ainda que a legislação laboral não o permite. Neste caso, a legislação laboral está a manter um emprego desnecessário. O que é óptimo para o empregado mas péssimo para o empregador e para a economia, que aplica recursos humanos em actividades nas quais estes já não são necessários.

A segunda alternativa é a empresa x despedir o empregado y porque o empregado não é produtivo. Ainda há uma função útil pela qual compensa pagar um salário, mas não àquele empregado em particular. O carro ainda é bom, só é preciso trocar os pneus traseiros. Nesta situação, mais cedo ou mais tarde a empresa acabará por contratar alguém como substituto. A legislação laboral rígida manteria um emprego às custas do empregador, do empregado que deixou de ser contratado, e da economia, que tem uma empresa menos produtiva.

Em qualquer dos casos, a rigidez laboral tem um custo elevado. Se a economia está em reestruturação, a rigidez impede-a. Mantém-se um posto de trabalho apenas pelo mecanismo perverso que impede a criação de um outro posto de trabalho mais produtivo. Se o problema é do trabalhador, a rigidez impede que um trabalhador mais produtivo possa aceder ao posto de trabalho. Perdemos todos e perde o trabalhador que não é contratado. Bom, talvez seja. Talvez o contratem a recibos verdes. Se a estrutura de custos é rígida, há que flexibilizar por algum lado.

O ideal seria flexibilizar, aumentando a eficiência, e proteger durante as fases de reestruturação económica, dando segurança àqueles cujos empregos mais facilmente se volatilizam. Voilá! A flexisegurança permite compatibilizar a eficiência com a segurança, promovendo ainda a aprendizagem activa durante a vida. E aumenta a produtividade – e consequentemente os salários – ao mesmo tempo que diminui o desemprego. Como os benefícios diminuem ao longo do tempo também exige algum esforço com a requalificação, mas também não parece demasiado exigente pedir um esforçozinho de vez em quando.

A objecção a esta hipótese é a de que o empresário médio português é um idiota com a quarta classe, que despede mais porque acordou com mau humor do que porque a produtividade desceu. Mas, dado que esta é uma má opção económica, empresas que funcionam nesta base tenderão a ser superadas por empresas que actuem de forma mais racional. Neste caso particular, a legislação laboral rígida apenas impede que empresas deste género sejam substituídas por empresas mais racionais e que os empresários com o quarto ano sejam ultrapassados por empresários mais evoluídos.

Avenida MarginalFundamentalismo da escolha

| 20 Comentários | Partilhar
Ouvimos durante a última semana vários sociólogos a ensinar como lidar com alunos impertinentes como a menina do caso «Carolina Michaelis». Alguns dizem que exige tempo, dedicação e entrega; e, já agora, ler Bourdieu e Foucault. Outros, da escola tradicional, são mais pragmáticos. Uns tabefes e a coisa vai ao sítio.

Haverá crianças manipuladoras que exigem um tratamento menos maleável. E haverá certamente outras com as quais uma pedagogia mais branda pode ter bons resultados. As crianças não são iguais e crianças diferentes podem exigir diferentes métodos de ensino. Isso é uma possibilidade real que tem uma implicação concreta: as escolas devem poder ter diferentes métodos educativos. Porque a educação, no fundo, é como a roupa interior. Toca no que de mais íntimo temos e quando é partilhada por muitos acaba por dar asneira.

Os sistemas baseados na escolha permitem atingir este objectivo. O cheque-ensino, por exemplo, promove a concorrência entre escolas, incentivando-as a adaptarem-se às necessidades do aluno e a fornecerem melhores serviços com menos dinheiro. Com o cheque-ensino, pode dar-se o pecado supremo de diferentes escolas terem diferentes metodologias de ensino, diferentes critérios de avaliação e diferentes métodos de punição. Precisamente o oposto do paquiderme imóvel que é a «Escola Pública».

Esta noção não é nova. Estamos habituados a escolher e, em boa verdade, ficamos realmente chateados quando nos limitam esse direito. Escolhemos a padaria que frequentamos, o carro que usamos, a casa em que vivemos e até os amigos com quem andamos. Às vezes somos picuinhas ao ponto de escolhermos com base em pequenos detalhes, como quando olhamos à grossura de uma ponta de lápis. O que até é compreensível, porque as pequenas nuances fazem, às vezes, grandes diferenças. No fundo, somos todos fundamentalistas da escolha.

O princípio do cheque-ensino não é muito inovador. É apenas um pouquinho mais fundamentalista do que todos os outros fundamentalistas da escolha. Os defensores da «Escola Pública» gostam de escolher em tudo. Em tudo, excepto na educação. Os defensores do cheque-ensino apenas constatam que não há nenhuma razão para o princípio da escolha não ser útil no caso da escola e então alargam o critério para incluir mais esse objecto. A diferença não é muita.

No «caso Carolina Michaelis», o princípio da escolha garantiria que a escola pudesse adaptar a punição ao tipo de alunos que tem; garantiria que os pais pudessem retirar os filhos da escola se não concordassem com o modelo punitivo, promovendo o aparecimento de escolas com modelos punitivos mais adequados; e, por fim, garantiria que os 374646 piscólogos que apareceram na televisão a falar sobre o caso teriam a oportunidade de pôr em prática as suas «metodologias psico-cognitivo-educativas» em vez de andarem a dizer disparates em horário nobre.

Avenida MarginalNem os horários escapam

| 22 Comentários | Partilhar
Na Sexta-Feira Santa, a ASAE encerrou seis hipermercados. Nada que espante, dado o percurso recente. Desta vez, a única coisa original foi mesmo o motivo. A ASAE costuma fechar estabelecimentos dizendo que não servem bem o consumidor; na sexta-feira, a acusação era de servirem bem demais. Nota negativa pela inteligência, mas uma menção honrosa pela criatividade.

Convém, ainda assim, temperar o tom da crítica. Afinal de contas, a ASAE só faz o que lhe pedem. No caso, impedir que estabelecimentos com mais de dois mil metros quadrados tenham liberdade para escolher o horário de funcionamento aos domingos e feriados. A lei parece inadequada, incompreensível para o consumidor, lesiva para os hipermercados e, de forma genérica, pouco inteligente? Pois esperem até ver os argumentos.

Basicamente, há dois. O primeiro defende que há que moderar o consumismo nos domingos e feriados. É o argumento religioso. Consumir é aceitável, mas consumir muito é demais e tudo o que é demais é erro. Aliás, para quê consumir quando a Igreja está aberta durante os domingos e feriados? Então se for possível meter o povo lá dentro à força de lei, perfeito.

O segundo argumento é mais subtil. E menos bafiento, também. Vem do pequeno comércio. Se a Igreja quer consagrar em lei os dias devotados ao Senhor, o comércio tradicional quer implementar os dias sem concorrência. É, no fundo, a ideia velhinha de que a voragem domingueira das grandes superfícies tem de ser limitada por lei caso contrário destrói os empregos das lojas da esquina. O argumento tem de ser disparado de rajada, antes que o interlocutor pergunte se uma lei desse género não acaba também por inviabilizar a criação de empregos nas próprias grandes superfícies.

Ironias de lado, convenhamos que faz sentido usar a lei para fechar os hipermercados ao domingo. Provavelmente não para o consumidor, mas para o «comércio tradicional» é ouro sobre azul. É muito mais fácil apelar ao Governo para solucionar um problema do que inovar no atendimento, flexibilizar horários ou adaptar os serviços aos clientes. Os outros que concorram. Nós, por cá, somos pela tradição. Desde que salvaguardada pela lei. E por tratamento especial. E por apoio estatal. E um subsidiozinho até vinha mesmo a calhar.

Avenida MarginalA democracia do gosto

| 10 Comentários | Partilhar
Texto de Pedro Romano [colocado por mim devido a dificuldades técnicas]
O Partido Socialista quer proibir os piercings na língua. À primeira vista, esta proposta parece ser desajustada, altamente castradora das liberdades individuais, paternalista até ao vómito e insuportavelmente ditatorial. Mas isto é só à primeira vista. Um olhar mais atento revela que estamos perante uma verdadeira questão de saúde pública. Há externalidades envolvidas e nunca se sabe onde os meninos vão acabar por meter a língua.

O Pedro Morgado tem razão quando fala de estatização do gosto. Mas penso que não está a olhar para o quadro todo. Esta medida é apenas a face mais visível do paternalismo que ainda dá cartas na política nacional, e do qual este Governo tem sido um dos mais entusiastas arautos. A tendência tem raízes salazaristas mas para a desmontar não é preciso recorrer à história ou à antropologia: ela bebe de uma crença bastante arreigada que quase todos alimentam no seu íntimo – lá no fundo, todos sabemos o que é melhor para os outros.

Isto não seria um problema se o devaneio cruzasse a mente de um Silva qualquer. A ideia só ganha contornos mais gravosos quando vem da consciência superior de um deputado. É um dos paradoxos da democracia. Porque um iluminado se lembrou de que os piercings ficam mal, vamos todos ter de os tirar da língua. Afinal, não é só o ministro Santos Silva que anseia por controlar as línguas alheias.

Esta questão põe em evidência um dos problemas dos sistemas democráticos. A democracia foi sempre uma ideia atractiva porque invertia a lógica que durante séculos vigorou na Europa (e, de forma mais ou menos semelhante, um pouco por todo o planeta), com o líder supremo a mandar e o povo oprimido a ser mandado. Mas a democracia não controlada é um sistema apenas um pouco melhor do que esse: a maioria manda e a minoria é mandada. O princípio é o mesmo da ditadura; só muda o alcance e a subtileza do exercício da força.

São necessários mais gatilhos de segurança contra esta tutela estatal da vontade alheia. Mais limites ao poder que garantam que o Estado legisle apenas sobre o que é do domínio público e que deixe para a vida privada dos cidadãos aquilo que diz respeito à vida privada dos cidadãos. No fundo, um sistema que deixe de pressupor que quem está no poder ganha, como que por direito divino, competências sobre as preferências alheias. Porque é no mínimo irónico que um homem tenha direito a escolher o Governo que dirige o país e não possa ter uma palavra a dizer no destino que dá à sua língua.

Avenida MarginalContradições da manifestação: a história de uma crise - sem revisionismos

| 29 Comentários | Partilhar
1. Foi durante muito tempo consensual que o sistema educativo vigente em Portugal tinha graves lacunas. A falta de avaliação sempre foi um dos maiores problemas porque potenciava o desleixo e incentivava a indigência. O diagnóstico, aliás, não variava muito; ministros da Educação, sindicalistas e professores convergiam na necessidade de mudança.

2. Houve esforçadas tentativas de reforma por parte de vários Governos. As reformas esbarraram sempre na intransigência de sindicalistas, professores acomodados e paladinos dos “direitos adquiridos”. Apesar da urgência de reformas, o nosso sindicalismo caracterizou-se sempre pela absoluta incapacidade de propor (ou sequer aceitar) a mais pequena mudança.

3. A reforma da actual ministra da Educação reuniu as críticas de vários sectores, segundo os quais os professores não teriam sido ouvidos no processo. É natural que assim seja. Os rostos mais visíveis da representação pública dos professores fecharam sempre as portas ao diálogo. Qualquer reforma teria sempre de ser feita sem ouvir a classe porque, sempre que foi ouvida, a classe esteve contra a mudança. Foi claro desde muito cedo que quem quisesse mudar não poderia ouvir e que quem quisesse ouvir acabaria sempre por ouvir a mesma coisa. E, no fim, não se mudava nada.

4. As mudanças impostas pela actual ministra da Educação não parecem ser as mudanças de que o sistema educativo precisava. Os sindicatos afirmam que boas alterações só se fazem depois de ouvidos os professores, mas é por demais óbvio que os professores nunca estiveram interessados em ser ouvidos, a não ser para manter o status quo. É, aliás, curioso reparar que, apesar de já termos visto todos os sindicatos a criticarem o sistema de avaliação, ainda não ouvimos nenhum a propor um sistema de avaliação diferente. Os sindicatos criaram o seu próprio problema. A corda deixou de esticar.

5. A manifestação do sábado passado juntou dezenas de milhares de professores em Lisboa. Os professores estavam unidos. Contestaram a ministra num momento em que podiam ter dado um passo em frente: passar da contestação para a proposta. Uma boa proposta de avaliação seria irrecusável no contexto em que era formulada: com a ministra presa por arames, com Portugal a assistir e com o apoio em peso da classe. Não foram tão longe; ficaram-se pelo barulho.

6. Esta incapacidade de propor alterações - mesmo nas situações em que seriam mais facilmente aceites - revela, mais uma vez, que as propostas dos sindicatos definem-se mais pelo que não querem do que por aquilo que querem. Reconhecendo, como reconhecem, a podridão do actual sistema, o mínimo que se exigia era uma proposta alternativa que contemplasse algum mecanismo de avaliação. Essa pecha revelou que, para os sindicatos, o problema não é esta avaliação. O problema é mesmo a avaliação.

7. É possível afirmar que esta aversão à avaliação não é transversal a toda a classe e que há bons professores dispostos a serem avaliados e que aceitariam de bom grado uma proposta mais razoável do que a da ministra. Mas esses professores não são o rosto visível da manifestação de sábado. A manifestação de sábado teve como protagonistas os mesmos protagonistas dos últimos 20 anos; os mesmos que, durante esse tempo, optaram sempre por ser forças de bloqueio. A manifestação de sábado mostrou que o diálogo continua impossível, porque os protagonistas, os métodos e os objectivos continuam os mesmos. A manifestação de sábado foi a confirmação do que já se sabia: as reformas, quaisquer que sejam, terão de ser feitas contra os professores; ou, pelo menos, contra estes representantes dos professores.

8. Na RTP 1 ouvimos uma senhora em lamentos sinceros por “levar porrada dos alunos”. Curiosamente, é contra a avaliação que está a protestar, e não contra a “porrada”, contra os “alunos”, ou contra a “porrada dos alunos”. Os sindicatos conseguiram capitalizar o descontentamento agregado dos professores e apresentá-lo ao país e ao Governo apenas como efeito da indignação gerada pelo sistema de avaliação proposto pela ministra. É uma vitória para os sindicatos, que revela outra coisa importante: os poderes instalados estão mais preocupados em defender os maus professores da avaliação do que em encontrar solução para os problemas reais dos bons professores. Nunca houve 100 mil manifestantes a exigir o combate à violência dos alunos contra os professores. Estes sindicatos não são só um entrave à avaliação. São um obstáculo a um bom sistema de ensino.

9. Comentários à minha entrada anterior mostram que a questão se polarizou de tal forma que o diálogo se tornou, de facto, impossível. Apesar de ter escrevido que o sistema de avaliação proposto não me parecia o mais indicado, disse-se que apoio a ministra e até me conotaram com o PS. O debate de ideias tornou-se uma luta política em que todos têm de estar comprometidos. Quem não está com os professores tem de estar com a ministra. Desnecessário será dizer que isto inviabiliza que se encontre um meio-termo que satisfaça as duas partes. O diálogo morreu.

10. Acusaram-me ainda de não dar os professores o direito de se manifestarem. Erro crasso. Dou todo o direito e, em certas circunstâncias, até apoio. Acho que é o caminho a seguir. Aliás, sugiro que vão mais longe. Não se fiquem pelo protesto. Proponham. Já disseram o que não querem. Agora, o mais difícil: dizerem o que querem. Sim, na avaliação também. Para quem anda há tanto tempo a exigir diálogo, não ficava nada mal.

Avenida MarginalSilêncios coniventes

| 34 Comentários | Partilhar
Os professores reuniram-se em Braga para protestar contra as políticas da ministra da Educação. O principal argumento é curioso. Admitem que o actual sistema educativo não funciona. Mas defendem que esta reforma só piora as coisas. Pelo meio, também dizem que não estão a ser ouvidos. Se a hipocrisia matasse...

Ainda sou do tempo em que os professores podiam chegar à sala de aula vinte ou trinta minutos depois do toque de entrada e faltar a um terço das aulas durante o ano por causa da morte do pai (o pai morria muitas vezes, mas o funeral acabava sempre a tempo de se assinar o livro de ponto). Sem avaliação e sem mecanismos de controlo, não se esperava outra coisa.

É curioso que a maioria dos professores que agora protestam admite estes problemas do sistema educativo. Admitem que não havia avaliação, admitem que o mérito não era premiado e admitem que um chico-esperto podia baldar-se para as aulas e receber no fim do mês o mesmo que o cristo de serviço. (Mas compreende-se facilmente a necessidade do chico-esperto de faltar às aulas: estava na rua a protestar contra o ministro da Educação da altura. Ser sindicalista cansa. Não tanto quanto trabalhar, mas mesmo assim ainda cansa um bocadinho).

Aliás, os professores admitiram esta cenário durante muitos anos. Nunca nenhum professor negou que fosse necessária uma reforma profunda deste sistema putrefacto. Queriam todos a mudança. Só não queriam aquela mudança em particular. «Aquela mudança» era toda e qualquer mudança que fosse proposta. Em abstracto, eram todos a favor de mudanças. Concretamente, a coisa ficava mais turva.

A reforma proposta pela ministra também não parece das coisas mais eficazes. Quem era bom professor está a perder o tempo que gastava a preparar boas aulas; e quem era mau professor não está tornar-se melhor. Só tem de encontrar mais artimanhas para não ser descoberto.

Eu não nego isto. Mas acho espantoso que quem foi conivente com a situação venha agora queixar-se de não ser ouvido. Durante anos os professores tiveram a oportunidade de apontar o dedo ao esgotamento de um sistema que não premeia o mérito e que abre as portas ao aproveitamento dos incompetentes.

Curiosamente, preferiram lutar por reformas aos 50 anos, progressões automáticas na carreira e salários que são um mimo. Os professores queixam-se de que não são ouvidos. Concordo, mas penso que erram no ónus da iniciativa. Pelo menos acerca disto, nunca se fizeram ouvir em tempo útil.

Avenida MarginalO racismo dos outros

| 34 Comentários | Partilhar
O catedrático de sociologia da Universidade do Minho, Carlos Silva, apresentou hoje um estudo no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. O estudo revela comportamentos discriminatórios de alguns portugueses face a determinadas comunidades étnicas. Estava sentado numa sala da Universidade do Minho quando soube disto. Quem estava ao meu lado disse: «Racistas». Eu disse: «Nem por isso».

Antes que também me acusem de racismo, permitam-me dizer também discrimino. Discrimino nas ligações pessoais, nas parcerias académicas e nas relações afectivas. Uma tendência que, aliás, vem de longe: ainda não tinha 12 anos e já dizia aos meus amigos que nunca haveria de me casar com uma mulher feia.

O problema da interpretação de muitos destes estudos é a enorme confusão conceptual entre juízos de valor e juízos de facto. Em rigor, a discriminação étnica não é racismo per se. Num mundo em que a informação não é perfeita, é natural que se use raciocínios rápidos de correlações simples para facilitar a acção. Nem todos os homens de 1,90m, 85 quilos, feios, grandes e maus a circular pela via pública às 02h00 da manhã são assaltantes. Mas é razoável evitar personagens desse calibre, especialmente a essas horas. É discriminação, mas é pouco razoável não discriminar nestas alturas. Chama-se prudência.

Os raciocínios rápidos não são seguros e até podem ser estatisticamente irrelevantes. É o resultado natural de processos mentais aos quais se devota pouco tempo. Mas, mesmo nesse caso, estão em causa erros, e não racismo. O racismo é a posição normativa segundo a qual uma raça ou etnia deve ter menos direitos. Quem diz que um negro não deve poder votar é racista; quem diz que um negro tem um cérebro mais pequeno que um branco, é só ignorante.

Convém manter as diferenças presentes para evitar mal-entendidos. O politicamente correcto militante exige com frequência alguma apatia perante as diferenças, na presunção errada de que a ignorância é racismo e que a precaução é condenável. São pessoas que acham inaceitável olhar um cigano nos olhos (discrimina) ou evitar o Cacém (quase dá a ideia de que aquilo tem problemas...). Curiosamente, são as mesmas pessoas que evitam os bairros ciganos e que raramente fazem as compras da semana no Cacém.

Avenida MarginalCrendices

| 3 Comentários | Partilhar
Na semana passada, o Pedro Morgado colocou neste blogue uma interessante imagem com as evidências de poderes sobrenaturais. O desenho é taxativo: parece que não há nenhuma. Intuitivamente, concordo com a conclusão. Mas depois questiono-me um pouco e fico a pensar que raio será um «poder sobrenatural».

Há uma definição simples para poder sobrenatural: é aquilo que transcende o natural. Mas há um problema óbvio com esta definição. Se considerarmos que natural é tudo aquilo que existe na natureza, então, e por definição, não pode haver coisas sobrenaturais. Se existem, são naturais. Se não existem, não são sobrenaturais. São só disparate.

No século XVII, parecia sobrenatural um planeta agir à distância sobre outro planeta. Disparate duplo, claro: uma mistura exótica da influência planetária dos astrólogos com a acção à distância das bonecas vodu. Mas as evidências (e Newton) mostraram que não havia nada de sobrenatural nessa acção. Foi uma conquista da ciência humana à ignorância medieval. E foi mais um item que a razão naturalista riscou do cardápio sobrenatural. Afinal, era mesmo a sério.

Astrólogos, cartomantes, espíritas e milagreiros tentam afirmar-se no mercado de crendices recorrendo a essa figura obscura que é a do «sobrenatural». Mas isto é uma contradição nos próprios termos. Se as cartas ditam a nossa sorte, se os signos influenciam a nossa vida e se realmente é possível falar com os mortos, então não há nada de sobrenatural aí. Mostrem-me uma bruxa a voar e ela será tão natural quanto um avião ou um helicóptero. Tem é de voar mesmo...

O problema das bruxas, dos lobisomens e das cartas é que sistematicamente não voam, não aparecem e não ditam futuro coisa nenhuma. O ‘sobrenatural’ é o último recurso de quem ganha a vida com a banha da cobra e não tem evidências ou sequer indícios para apresentar. Dá a ideia de que há dois mundos: um natural, compreensível, e outro sobrenatural, incompreensível e não passível de escrutínio. Mas o que existe é natural. A etiqueta de sobrenatural é apenas uma má desculpa para a ignorância.

Avenida MarginalMais papistas que o Papa

| 10 Comentários | Partilhar
A entrada da semana passada justificou alguns comentários. Num deles, um leitor criticou o meu argumento principal, classificando-o de «puramente económico». Concordo no essencial: é óbvio que era um argumento económico. Mas isso só é problema para quem pensa que a economia trata do dinheiro.

A economia não trata do dinheiro. Trata das escolhas individuais num contexto de bens escassos. O dinheiro é apenas uma forma fiável de aferir o valor que cada um dá a cada bem. Os preços reflectem a procura e a oferta: as preferências dos que compram e as disponibilidades dos que vendem. São indicadores das disponibilidades da economia e das prioridades das pessoas.

Num café com fumo, há um custo óbvio para aqueles que não fumam: para além do incómodo, há o problema da saúde. E a forma como cada pessoa reage a este custo diz muito acerca do valor que atribui à sua própria saúde. Quem atribui pouco valor, frequenta o café à mesma. Quem atribui mais valor pode reduzir o tempo de permanência. E quem atribui muito valor nem põe lá os pés.

Claro que é preciso olhar para o outro lado: o valor que cada um atribui à frequência do café. Quem não aprecia muito, não terá problema em deixar de o frequentar. Mas quem não passa sem os quinze minutos de relaxe diário, estará disposto a gastar um pouco mais de tempo e gasolina e visitar um café sem fumo, ainda que mais distante. Gasta mais, mas compensa.

Num sistema livre, a oferta de cafés tende a acomodar-se às preferências dos consumidores. Quando a saúde é muito valorizada, a afluência aos cafés com fumo desce e o lucro dos cafés sem fumo sobe, estimulando a abertura de mais cafés deste género. A existência de poucos cafés sem restrições ao tabaco e os lucros normais dos que o proíbem são um reflexo do pouco incómodo que o tabaco causa ao consumidor médio ou um espelho do pouco valor que cada pessoa atribui à própria saúde.

O que a Lei do Tabaco faz é acabar com os custos dos não fumadores. Mas, como a manta não estica, tem de ir tirar a outro lado. Neste caso, vai buscar ao bolso dos proprietários e dos empregados de cafés. É possível dizer que a função do Governo é zelar pela saúde dos cidadãos e que por isso todos os custos se justificam; mas fica por explicar por que deveria a Lei atribuir à saúde dos consumidores um valor que os próprios não atribuem.

Avenida MarginalO critério do umbigo

| 10 Comentários | Partilhar
É repetitiva a forma como a comunicação social aborda a nova Lei do Tabaco. O jornalista escolhe o estabelecimento, crava os olhos na presa e avança de microfone em riste, com a pergunta já fisgada: «E a Lei do Tabaco, concorda?». Claro que a resposta varia. Os fumadores discordam e os não-fumadores concordam. Que surpesa, hein?

Esta persistente tendência para se julgar as questões alheias de acordo com preferências pessoais é regra. Todos os portugueses têm uma ideia precisa de quantas urgências são necessárias, de qual a taxa de juro que o BCE deveria fixar, que tipo de cultura devia ser subsidiada e de como gerir um café, um bar ou uma discoteca. Aliás, este parece ser o nosso modelo de gestão preferido: o teu dinheiro e o meu umbigo. (É por não terem a nossa visão que os americanos – esses broncos – vão agora entrar em recessão).

Agora, parece que o umbigo do Parlamento já valeu 70% de prejuízo a quem foi afectado pela Lei do Tabaco, tendo, inclusive, levado a alguns despedimentos. Era suposto a lei defender os não-fumadores. Defendeu-os, mas à custa dos fumadores que tiveram de arranjar outro sítio para acender o cigarro, dos proprietários, que perderam dinheiro, e de alguns trabalhadores, que perderam o emprego. O umbigo é dos deputados mas, felizmente, o dinheiro (e o emprego) é dos outros.

Esta situação era expectável. A anterior lei já permitia estabelecimentos sem fumo. E o facto de haver poucos estabelecimentos com cigarro resurado só mostrava o quão marginal era o desconforto causado pelo fumo, pelo menos em relação aos outros factores que condicionam a escolha do café, do bar ou da discoteca. Se fosse um factor determinante, quem proibisse o fumo teria um lucro extraordinário, o que levaria à abertura de mais estabelecimentos sem fumo.

Mas debater números oculta a questão de fundo. Independentemente dos prejuízos, a decisão sobre que tipo regime deve vigorar num espaço privado deve ser tomada por quem é afectado: pelo proprietário, que fornece o espaço, e pelos clientes, que o pagam. Nenhuma lei pode estipular que os pulmões dos não fumadores valem mais do que os empregos dos trabalhadores, nem deve ser um deputado a escolher entre a dois dedos de conversa com um fumador e uma camisa sem cheiro a tabaco. Essa era a guerra dos lilliputianos de Jonathan Swift, que batalharam para decidir para que lado se partia o ovo sem pensarem por um segundo se a escolha não devia ser de quem o comia.

Avenida MarginalVozes marginais

| 5 Comentários | Partilhar
Perguntaram-me se os blogues são jornalismo. É um péssimo início de conversa. Dá ideia de uma dicotomia que, na realidade, não existe. Como se a escolha fosse binária. De um lado o jornalismo, do outro lado o resto. Pega-se nas gavetas de ontem, rotula-se o produto e guarda-se com cuidado. E, quando a gaveta não fecha, dá-se um empurrão até a coisa se compor. Mas mais valia mudar de gavetas em vez de andar a partir a mobília.

Os blogues não têm a dimensão institucional do jornalismo. Faltam os filtros, falta o processo de edição. Falta a assinatura em baixo da peça, muitas vezes. Se é isto o jornalismo, os blogues não são jornalismo. Mas é duvidoso que seja esse o sentido que normalmente se dá à pergunta. That’s not the point. A questão é se, como os media tradicionais, os blogues informam, apuram e servem ao debate público. É menos uma questão de meios do que uma questão de resultados.

Para a informação ainda falta um bocadinho, até porque é difícil ter um correspondente no Paquistão ou no Quénia a escrever sem salário; mas na discussão a história é outra. Neste ponto, aquilo que afasta os blogues do jornalismo é precisamente aquilo que lhes dá vantagem: a abertura à concorrência. O mercado interno é pequeno, o que limita o universo da comunicação social. Mas um blogue não exige tantos recursos. Antes, quem discordava das vozes habituais contava três opções: ter a sorte de aceder aos microfones oficiais, comer e calar ou fazer um jornal. Hoje é mais simples: cria-se um blogue. Neste mercado de ideias, a sorte e o dinheiro contam cada vez menos.

Nem todos gostam. Os media de raízes assentes tendem a olhar os blogues com desconfiança (embora, claro, haja excepções). É normal. Os blogues apertam a vigilância, apontam as incorrecções, propõem alternativas e quebram o monopólio. Não são jornalismo, nem são ‘o resto’. São as tertúlias de café abertas ao público em noite de entrada livre. São algo diferente a precisar de uma gaveta nova. Claro que se ouvem lamentos. A concorrência externa é frequentemente acompanhada de apelos ao proteccionismo.

A blogosfera também combina um monte de recursos que a tornam um lugar de insulto fácil. A comunicação é rápida, o diálogo está aberto nas caixas de comentários e ninguém tem de assinar o que diz. As calúnias e as imprecisões são os graffitis da blogosfera, mas criticá-la por isso é como criticar uma tertúlia que dá voz a idiotas. Até pode dar, mas só lhes presta atenção quem quer.

Ano Novo, Avenida Nova

| 1 Comentário | Partilhar
Gerir esta Avenida não tem sido tarefa fácil. A partir de hoje (já ontem!), mais difícil será. O início da formação médica pós-graduada implica novas responsabilidades e novos desafios, a que responderei com a mesma entrega e motivação.

Apesar dos novos compromissos pessoais e profissionais, o blogue Avenida Central continuará a ser um palco de discussão em torno dos grandes temas deste Minho, num Portugal e num mundo em mudança. É, pois, com enorme prazer que vos anuncio duas novidades.

A partir do dia 28 de Janeiro, o blogue Avenida Central terá o segundo cronista residente
. Pedro Romano, estudante de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, aceitou o desafio de compor a «Avenida Marginal» todas as Segundas-Feiras. O autor do blogue O Número Primo junta-se a Vitor Pimenta, estudante de Medicina, e colaborador do Avenida Central desde Setembro de 2007.

Também a 28 de Janeiro, iniciam-se as Conversas Improváveis no Café Blogue, uma iniciativa promovida pelos blogues Avenida Central, Colina Sagrada, Disputa, Fontes do Ídolo, Mal Maior e Mesa da Ciência. Porque a discussão virtual não tem a alma da conversa viva em que o pulsar das ideias se sente no vigor das palavras entoadas e dos argumentos cruzados, os blogues minhotos descem à cidade para Conversas Improváveis em que se propõem conjugar temas tantas vezes desencontrados. Ao longo de seis meses, sempre na última Segunda-Feira de cada mês, pelas 21.30, três bloggers conversam com duas personalidades de áreas (mais ou) menos interligadas no quotidiano dos dias. As Conversas Improváveis do Café Blogue alternarão entre a Velha a Branca e o Espaço Pedro Remy.

Espero que continuem a apreciar esta Avenida.
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

Pesquisar no Avenida Central




Subscreva os Nossos Conteúdos
por Correio Electrónico


Contadores