Avenida Central

Capítulo 43: do barulho

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Já se sabe: o discurso do "antes é que era bom" é um clássico da discussão em Portugal e nele convergem diversas sensibilidades políticas e ideológicas. Isto, aliado a um par de insultos e um tom de voz entre a sabedoria de ancião e o raspanete, então, é coisa para levantar plateias em ovação de vários minutos. É a discussão de café sob a luz dos holofotes e, tal qual efeito reality show, os defeitos do orador não são reprováveis, mas enternecedores; efeito reflexo do espelho, quem ouve identifica-se neles.

Ontem foi notícia Medina Carreira que, apesar de ter falado não num café mas num casino, afirmou que os nossos governantes são "mentirosos e incompetentes"; que a educação em Portugal "é uma miséria" e só produz "analfabetos"; que a geração dos 14 aos 20 anos é uma "cambada" que "anda para aí à solta" e que são uma "tropa-fandanga"; que as Novas Oportunidades são uma "trafulhice" e uma "aldrabice"; que a avaliação dos professores é uma "burrice"; que os programas escolares devem ser "feitos por gente inteligente".

Não é difícil ver por que razão este discurso fez sucesso. Estão lá todos os ingredientes que vimos acima: discurso miserabilista e saudosista; insultos populares e tom de repreensão paternal. Junte-se a isto o facto de o discurso de Medina Carreira poder ser ouvido, da boca de milhares de pessoas, em cafés e mercearias espalhados pelo nosso país e ficamos quase tentados a nomear Medina Carreira como porta-voz do povo português.

O problema é que se este discurso é compreensível na frustração quotidiana e em ambientes informais, não é de todo compreensível em contextos formais e, muito menos, proferidos por pessoas com a responsabilidade de Medina Carreira. E não, não é apenas pelos insultos (outra questão que começa a fazer carreira na política portuguesa), mas pela irresponsabilidade e pela falta clareza do discurso.

Medina Carreira responsabiliza ora os governantes mentirosos e incompetentes, ora a cambada dos 14 aos 20 anos que anda por aí à solta; mistura o ensino regular e um programa de reconhecimento de competências para adultos; diz que os professores têm de ser avaliados mas que a avaliação é uma burrice. Fala muito, dispara em todas as direcções, mas o que sobra do discurso é barulho, ruído e alvoroço.

E "é disto que o meu povo gosta, ripa na rapaqueca". Ninguém percebe bem o que se diz, mas todos aplaudem: "é isso mesmo!".

Capítulo 42: o farmville e a distopia agrícola

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Costuma dizer-se que o ser humano distingue-se também pela capacidade de adaptação. Habita terras frias, terras quentes, terras húmidas e terras secas e adapta-se às mudanças com facilidade. Mas falamos de "adaptação" e não "naturalização", ou outra palavra semelhante. Entendemos, pois, que o ser humano tem grande capacidade para sobreviver em lugares que não lhe são naturais e não que o ser humano tem grande capacidade para viver os lugares em que habita.

Por esta razão, pensamos muitas vezes em fugir, para aqui ou para ali. Para um país tropical, com um clima quente, praias desertas e pouco ou nenhum trabalho; para um país nórdico, um país que funciona em condições, com sistemas de saúde e educação gratuitos, pessoas loiras e altas; para a aldeia, onde o ritmo de vida é muito mais lento, onde o inverno ainda significa lareira, onde a comida ainda tem o sabor das comidas de antigamente. O nosso instinto de sobrevivência assenta não no desejo de viver, mas no desejo de um dia fugir.

Exemplo disto é uma moda, talvez a maior, do Facebook. É um jogo chamado Farmville que pretende simular a vida no campo e é jogado por 66.000.000 de pessoas em todo o mundo. Para além do objectivo principal (gerir uma quinta), o Farmville oferece aos jogadores um mundo paralelo: os vizinhos urbanos do Facebook são lá os vizinhos rurais do Farmville. Os vizinhos urbanos comentam e gostam das coisas publicadas no Facebook, os vizinhos rurais ajudam a apanhar as ervas daninhas no Farmville.

Até aqui nada de especial, concordo. Mas o jogo, que começa por explorar uma utopia comum, transforma-se rapidamente em distopia: há um patinho feio que pode ser transformado em cisne; vacas castanhas que dão leite achocolatado e vacas cor-de-rosa que dão leite com sabor a morango; elefantes (sim, elefantes numa quinta) que produzem amendoins; uma série de animais que aparecem perdidos: para além do patinho feio e das vacas, há gatos pretos, ovelhas negras e perús.

É um jogo sobre uma utopia que descamba para a distopia, porque afinal, se o jogo fosse retrato fiel da vida no campo, a utopia deixava de o ser. Se no jogo os vizinhos se matassem uns aos outros por metros de terreno; se os agricultores de facebook não conseguissem escoar os produtos porque os agricultores de facebook espanhóis vendessem mais baratos ou se existissem quotas de produção, o jogo não teria grande sucesso; as pessoas descobririam logo a razão que levou os seus antepassados a fugir do campo.

Capítulo 41: quanto vale um voto?

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Há umas semanas, ficamos a saber que um voto, em Lisboa, pode valer entre 25€ a 30€. Esta semana, ficamos a saber que um voto, em Braga, não vale coisa alguma.

João de Deus Pinheiro, deputado eleito pelo círculo de Braga, renunciou ao cargo meia hora depois de o ter assumido. Excluindo as óbvias questões éticas, fica ainda por justificar o desequilíbrio entre a vontade dos eleitores e a vontade dos eleitos.

Depois da discussão em torno das duplas candidaturas, João de Deus Pinheiro repete o que antes já tinham feito Luís Filipe Menezes (2005) e José Manuel Fernandes (1999): ser eleito deputado pelo círculo de Braga e renunciar ao cargo.

Ora, se os eleitos podem mudar de ideias, por que razão não têm os eleitores o direito de fazer o mesmo? E se não faz grande sentido inquirir os eleitores sobre se pretendem mudar ou manter o voto depois de saberem que os eleitos mudaram de ideias, é imperativo, a bem da credibilidade da nossa já demasiado desacreditada democracia, que estas mudanças de ideias sejam exemplarmente punidas.

Capítulo 40: dos números

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Quando aqui escrevi que a estratégia de campanha de Ricardo Rio não apostava convenientemente nas freguesias rurais, foram várias as pessoas que se insurgiram no espaço destinado aos comentários. Ainda assim, apurados os votos, nota-se que o mapa eleitoral autárquico bracarense continua bastante parecido ao das eleições de 2005: freguesias urbanas dominadas pela Coligação e as rurais pelo PS.

De resto, Ricardo Rio tem vantagem confortável em apenas duas freguesias rurais: Navarra e Fradelos. Nas outras freguesias rurais em que conquistou mais votos que Mesquita Machado as diferenças foram bastante reduzidas: Crespos e Tenões, 18 votos; Sobreposta, 7 votos; Semelhe e Trandeiras, 1 voto. Porque é justo referi-lo, o PS ganhou em Palmeira com uma diferença de apenas 1 voto.

Ora, se as diferenças no caso das vitórias foram reduzidas, nas derrotas foram já substancialmente maiores. Curioso ainda que, para além da vitória em quase todas as freguesias rurais, Mesquita Machado conseguiu em quase todas as freguesias urbanas, e apesar de derrotado, mais votos do que em 2005.

Ricardo Rio, que tinha ficado a 5000 votos de Mesquita Machado nas últimas eleições, conseguiu os 6000 que bastariam em 2005. Não foi suficiente porque desta vez votaram quase mais oito mil bracarenses do que na altura e, ao contrário do que se tem dito, foi menos o voto útil da esquerda - que como o Pedro Morgado referiu perdeu apenas cerca de 150 votos -, mas mais os "novos" eleitores que fizeram a diferença.

E nestes novos eleitores cabem não só os que votaram hoje pela primeira vez, mas acima de tudo os que em 2005 se abstiveram ou votaram nulo e branco; um total de nove mil votos que se distribuíram pelas listas do PS e da Coligação. E foi aqui, mais do que em qualquer dos outros indicadores que se notou que a imagem Mesquita Machado não está, afinal, tão desgastada como se pensaria; nem na malha urbana, nem na malha rural.

A derrota de ontem não é tanto, então, uma derrota para Ricardo Rio, mas uma vitória de Mesquita Machado. E é por essa razão que Ricardo Rio não deve demitir-se, mas assumir de novo a chefia da oposição e trabalhar para uma alternativa verdadeiramente supra-partidária para 2013.

Capítulo 39: as eleições autárquicas, parte três

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(continua daqui)

Por outro lado, se Ricardo Rio apostou em mostrar-se, Mesquita Machado apostou em esconder-se. Primeiro o tabu sobre a recandidatura, depois o tardio anúncio da recandidatura e, finalmente, a recusa em participar nos vários debates com os restantes candidatos. Não deixa de ser curiosa esta estratégia, tendo em conta as mensagens de campanha dos três outdoors que Mesquita Machado espalhou pelo concelho nos últimos meses.

A primeira, "Muito Mais", com os "émes" a vermelho sugeriam proximidade: "Palavras para quê? Já me conhecem e já sabem o que tenho para vós", pensaria Mesquita Machado naquele cartaz de olhos arregalados e fixos nos cidadãos bracarenses; A segunda, derivações das frases "Diz o que faz. Mostra o que faz.", apresentava um presidente de câmara com obra feita e que não foge aos compromissos que assume durante a campanha. Parece aqui apontar subtilmente o prolongamento do túnel como prova do trabalho; A terceira, "Sempre Presente", afirma-o como um bracarense que não foge aos compromissos nem aos problemas. Esteve sempre no cargo e assim quer ficar, como dizia estes dias em entrevista televisiva: "Braga é a minha esposa e continuo apaixonado" (cito de cor).

Depois das polémicas sobre a Braval e o enriquecimento aparentemente injustificável de familiares e colaboradores de Mesquita Machado, a imagem do presidente da câmara parecia irremediavelmente abalada, podendo ter sido essa a razão do tabu em relação à recandidatura e do constante adiar do anúncio da mesma. Fica a impressão de que a concelhia socialista bracarense não teve outra alternativa a não ser apoiar a recondução de Mesquita no cargo. De notar, ainda assim, a inclusão de Vítor Sousa como número dois, sugerindo que o próximo mandato, se socialista, poderá ser repartido em duas etapas: a despedida do primeiro e a entronização do segundo.

Ora, se a imagem de Mesquita Machado, que já estava desgastada por mais de trinta anos de poder, ficou ainda mais com estas polémicas, a estratégia não podia ser outra: evitar os confrontos públicos com os outros candidatos e apostar em confrontos públicos com os cidadãos, seja directa ou indirectamente. Entre inaugurações e brindes, Mesquita Machado mostra-se sem se deixar ver.

Como a História do nosso concelho mostra, este jogo de esconde-esconde costuma dar resultados nas urnas. Falta saber é se a própria História não se reescreve Domingo, no tabelar constante da confiança que os bracarenses depositarão num ver sem saber bem o quê ou num não ver mas saber bem demais o quê.

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Peço desculpa pelo grande atraso da publicação da terceira parte, mas não foi possível fazê-lo antes.

Capítulo 38: as eleições autárquicas, parte dois

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(continua daqui)
Animado pelo resultado positivo nas eleições de 2005, Ricardo Rio assumiu desde logo que se recandidataria à presidência da Câmara Municipal de Braga em 2009. Perdera as eleições, mas ganhara por uma margem confortável em quase todas as freguesias urbanas, Para além de ter conseguido diminuir a distância para os socialistas de 10000 votos em 2001 para 5000 em 2005.

Pela primeira vez, parecia ter aparecido alguém capaz de destronar Mesquita Machado e, por essa razão, a falange de apoio à candidatura de Ricardo Rio começou a crescer para além das fronteiras partidárias da coligação PSD/CDS-PP/PPM. Ricardo Rio entendeu este sinal e passou a declarar a sua candidatura como supra-partidária. Para reforçar esta ideia, convidou os independentes Miguel Bandeira e Carlos Bernardo para mandatário da campanha e cabeça de lista à Assembleia Municipal, respectivamente.

Este carácter supra-partidário parece estar presente também nos novos cartazes de campanha, nomeadamente na utilização de palavras comummente entendidas como bandeiras de esquerda: "diversidade", "descentralização", "apoio para quem precisa", "respostas para as famílias". Porque estar próximo é a melhor forma de publicidade, criou há dois anos um blogue e, mais recentemente, um site de campanha, para além de ter criado contas no Facebook e Twitter.

Esqueceu-se, porém, de que se tudo isto poderia deixá-lo mais próximo dos eleitores urbanos, o mais provável era que em relação ao eleitorado rural a distância se mantivesse. Ora, se o eleitorado urbano já estava conquistado, este trabalho, apesar de meritório, pode ter sido em vão. As dinâmicas urbanas e rurais são bastante distintas e o facto de não as ter trabalhado dessa forma, pelo menos aparentemente, poderá custar-lhe votos importantes nas freguesias rurais.

Falta também referir os efeitos potencialmente perversos da excessiva mediatização. E se esta ajudou ao reconhecimento público de Ricardo Rio, que se constata em algumas das sondagens publicadas nos últimos meses, a má gestão mediática de alguns temas pode destruir tudo o que havia sido construído. Desta má gestão é exemplo máximo a polémica do estudo encomendado a Ricardo Rio pela Câmara Municipal de Famalicão, que o candidato não soube tratar da melhor forma e alimentou discussões e especulações na imprensa, blogues e twitters regionais.

Ora, partindo daqui, duas hipóteses se levantam: ou o planeamento da campanha foi definido com a convicção de que a diferença de votos poderia ser resolvida entre os eleitores urbanos, ou a estratégia de comunicação falhou na definição do público-alvo; e logo de forma tão básica como a ignorância da distinção entre dinâmicas rurais e urbanas.

(continua na próxima semana)

Capítulo 37: as eleições autárquicas, parte um

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Há uns meses, quando se discutiam os prós e contras da coincidência das datas das eleições legislativas e autárquicas, uns falavam da poupança que ela permitiria, outros da possível mistura entre as questões locais e nacionais. Ainda é cedo para ver se, mesmo com datas diferentes, a mistura não será inevitável, mas a tendência parece ser a de as questões nacionais engolirem as locais; logo veremos.

A verdade é que a prolongada discussão de temas nacionais na campanha e pré-campanha para as legislativas tem prejudicado a visibilidade dos temas locais e a discussão autárquica, até há algum tempo bastante acalorada em Braga, tem perdido fulgor. Dela, vão sobrando apenas os mais ou menos estáticos cartazes eleitorais.

Fenómeno interessante, tendo em conta que a população se mostra normalmente mais preocupada com a resolução dos problemas locais concretos do que com a resolução dos problemas nacionais abstractos. Por essa mesma razão, verifica-se - especialmente em meios não urbanos - que, muitas das pessoas que não votam nas eleições legislativas, presidenciais e europeias o fazem nas autárquicas.

Não desatentos a essa tendência, os candidatos às autarquias apelam exactamente à aparente proximidade com os eleitores. Disso são exemplos o cartaz de Avelino Ferreira Torres (Marco de Canaveses), que diz aos eleitores "sabem como eu sou" ou de dois dos candidatos a Celorico da Beira que coincidem no apelo: "vocês conhecem-me", diz um antigo presidente da câmara e "Celorico conhece-me", diz o actual presidente da câmara.

Em Braga assistimos à mesma tendência, ainda que menos explícita: pela coligação Juntos por Braga, Ricardo Rio assumiu desde cedo que se recandidataria em 2009 e começou desde logo a mostrar-se aos bracarenses; pelo PS, Mesquita Machado demorou a confirmar a recandidatura, mas mostra-se agora nos cartazes a prometer "muito mais", apostando na barba e cabelo grisalhos como patente de experiência.

(continua na próxima semana)

Capítulo 36: a numerologia política

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Os números e estatísticas são muitas vezes apreciados pela sua circularidade. Porque permitem interpretações diversas, é comum vermos os mesmos números agradarem tanto aos partidários do copo meio cheio como aos partidários do copo meio vazio.

Em dias em que não há nada a dizer, como estes dias quentes de silly season, procuram-se notícias em todo o lado e, como ontem e hoje, passam-se dias inteiros a discutir subidas e descidas nos números que nos comparam aos países que invejamos; subidas e descidas que são ora substanciais, ora insignificantes, dependendo da posição relativa do avaliador perante o copo.

Ontem era um crescimento do PIB, hoje o aumento da taxa de desemprego. Ontem era o governo que rejubilava com os primeiros sinais de retoma, hoje a oposição que suspira de alívio com o aparecimento de outro trunfo para a campanha. Ontem era a oposição a dizer que a retoma ainda estava muito longe, hoje o governo a afirmar que a melhoria do clima económico reflectir-se-á em 2010 na taxa de desemprego.

Quando não há palavras que cheguem, os políticos agarram-se aos números, como que acreditando que, com eles, serão seus os melhores números das noites eleitorais.

Capítulo 35: democracia participativa

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Na passada Terça-feira, foi notícia no Diário do Minho a intervenção de um cidadão na última Assembleia Municipal de Braga. Henrique Castro, informa-nos o jornal, aproveitou o período destinado à intervenção do Público para apresentar "um novo modelo de habitação social para o concelho".

Henrique Castro falou na "urgência de encontrar modelos alternativos" aos bairros sociais, lembrando as propostas que a sociologia urbana apresenta para a questão e, oportunamente, sugeriu aos partidos que não esquecessem esta matéria aquando da elaboração dos programas eleitorais.

Este exemplo parece então demonstrar que, ao contrário do que se pensa, a nossa democracia autárquica até pode ser participativa, desde que os cidadãos cumpram a sua parte: assistir às Assembleias Municipais e aí apresentar as suas ideias para o município. O problema é que se por um lado a democracia permite que os cidadãos falem, por outro lado não obriga os políticos a ouvir; afinal, somos todos livres.

E o dado curioso é que a liberdade, bandeira da democracia, acaba por ser um dos seus principais obstáculos. É que como também se lê na notícia: Henrique Castro falou e falou bem, mas discursou sozinho; a maioria dos nossos autarcas tinham aproveitado o espaço dos cidadãos para um intervalo.

Capítulo 34: quanto valem as europeias?

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Era notícia de capa no Público, na edição da passada Quarta-feira, que os meios de campanha do PS "esmagam" os da concorrência. A notícia, meramente descritiva, quase parece artigo de opinião de elogio ao PS, dedicando-lhe, por exemplo, o dobro dos parágrafos que dedica aos meios do PSD.

As condições que o PS oferecem aos jornalistas são motivo de destaque e dão direito a um parágrafo, que descreve a prontidão dos "jotinhas" em levar o carro dos jornalistas "quando o trabalho aperta" ou as condições do autocarro que os socialistas colocam ao seu dispôr: desde as condições técnicas ao "sorriso bem-disposto". Em contraponto, nos parágrafos dedicados ao BE, a notícia dá conta de que os bloquistas não oferecem "qualquer tipo de apoio ao trabalho dos jornalistas".

Não está aqui em causa o espaço dedicado, nesta notícia, a cada um dos partidos, mas o que cada partido tem para mostrar. Porque as ideias e propostas são similares às que serão debatidas na campanha para as Legislativas, parece-me mais útil avaliar o grau de compromisso e vontade com que cada partido encara estas eleições - e já agora, seria também interessante um estudo comparativo do tempo que, da campanha, foi gasto em discussão de questões estritamente europeias e do tempo gasto em questões estritamente nacionais.

Finalmente, na campanha para umas eleições que prometem uma abstenção record, deveriam ser os próprios partidos a motivar a luta contra a abstenção. E esta luta passa não só pelas ideias apresentadas, mas também pela demonstração de que os partidos em campanha estão de facto interessados nestas eleições. Porque como a notícia lembra: os "meios [utilizados nesta campanha ficam] muito aquém dos usados numa campanha legislativa".

Capítulo 33: nos olhos dos outros

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Recebi em minha casa, há duas semanas, um amigo belga que conheci no ano de estudos em Valência. Ficou cá pouco menos que semana e meia e os preparativos para o receber esbarravam no nervoso de não me lembrar de grande coisa para ver em Braga. Prometi-lhe uma visita ao Porto e, quase no fim das férias dele, acabámos por passar também uma tarde em Guimarães.

Não fosse o facto de se ter lesionado no sobe-e-desce das ruas portuenses, provavelmente chegaríamos a meio da semana sem mais coisas para ver; assim, vimos muito pouco, mas ele lá foi embora com uma ideia bastante positiva de Portugal, em especial da cidade de Braga.

É comum ouvir-se "um dia gostava de ser turista na minha própria cidade" e esta, parecia-me, era uma boa oportunidade de o fazer, ainda por cima com os óculos de um europeu da Europa civilizada, limpa, airosa, incorruptível; enfim, um europeu da Europa que tantas vezes invejamos.

Especulava cá para mim sobre o que é que devia mostrar-lhe primeiro, porque já se sabe que a primeira impressão é a que conta mais. E, admita-se ou não, apesar de todos os defeitos que reconhecemos na nossa casa, conduzimos as visitas apenas pelas divisões de que nos orgulhamos mais.

Entre a Sé e o Bom Jesus, o jardim de Santa Bárbara e a mata das Santas Martas, ou o Estádio 1º de Maio e o novo Municipal, algo haveria que o deixasse impressionado e lhe ocupasse o discurso no regresso à Bélgica.

Curiosamente, e apesar de ter gostado de tudo isso, o que o mais impressionou foram duas características que poucos bracarenses reconhecem na sua cidade: a limpeza e a qualidade dos espaços verdes, especialmente pela abundância de árvores.

Indignado, e como bom bracarense que sou, apontei-lhe então os defeitos que, em português, toda a gente grita à cidade: "mas olha, olha para o sítio onde as pessoas deixam o lixo no chão, repara como está sujo. E que dizes tu das árvores plantadas em canteiros de alcatrão? Que espaços verdes são estes que mais que verdes são cinzentos?".

Veio o turista educar-me em amor à cidade-mãe e foi então que percebi o sentido daquele "um dia gostava de ser turista na minha própria cidade": a esperança de que o que se diz da galinha do vizinho ser sempre melhor que a nossa, nos permita olhar, ainda que apenas por um dia, mais ao que há a invejar da nossa cidade do que ao que há nela a desdenhar.

Capítulo 32: quanto custa a cultura?

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Em comentário à minha última crónica, um leitor afirmou que não existia em Braga cultura para ele. Dizia o leitor que para saciar o desejo de cultura tinha de se deslocar ao Porto, porque lá sim, encontrava cultura.

Apesar de não discordar totalmente, lembro que também o Porto atravessou um deserto cultural; e, ironia das ironias, no período pós-Capital da Cultura. Nos últimos dois ou três anos, porém, o Porto voltou a afirmar-se como capital cultural do norte, algo perfeitamente natural dadas as dimensões da cidade.

Importa referir, ainda assim, que este renascimento não se deu por geração espontânea, mas muito pelo trabalho e vontade de algumas pessoas que decidiram devolver a cultura à cidade sem esperar lucros. Num espírito de do it yourself - faz tu mesmo, em tradução literal -, surgiram, entre outras, a Amplificasom e a Lovers & Lollypops, duas promotoras que têm sido responsáveis por concertos de várias bandas internacionais.

Não são caso único no país, mas são dois bons exemplos de como a cultura é fomentada em Portugal; à falta de alternativas institucionais, que normalmente só têm espaço para eventos culturais mainstream, surgem associações - umas mais formais que outras - para promover a cultura que não cabe nos circuitos comerciais.

O problema surge quando a cultura que dizem de todos, em vez de servir para incentivar a diversidade cultural, tenta usá-la para servir uma hegemonização de uma cultura que alguns querem para todos. E por causa disto, a Amplificasom prepara-se para interromper indefinidamente a programação de espectáculos musicais.

Apesar de os concertos organizados pela Amplificasom serem de bandas não afiliadas à Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) nem a nenhuma congénere estrangeira, a SPA tem exigido à promotora a obtenção de licenças relativas a direitos de autor que chegam a ser superiores aos próprios cachets das bandas. Já para não referir o óbvio: o facto de a SPA querer cobrar direitos de autor de bandas que não representam; e se não os representam, servirão a quem esses direitos?

Capítulo 31: da regionalização da cultura

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Há vários anos que anseio por um aniversário com um concerto ou um jogo de bom futebol; nunca tive sorte e este ano até há jogo do Braga na UEFA na Quinta-feira anterior ao meu aniversário. Mas, pior que não haver nada para fazer, é haver uma possibilidade que, de tão má, dá vontade de amaldiçoar a preguiça que me fez não ter nascido mais cedo.

Dia 26 de Março há André Sardet no nosso Theatro Circo e o espectáculo até vai ser gravado para posterior edição em DVD. Mas as boas notícias não ficam por aqui: a sala está quase esgotada e, por isso, ficou em aberto a possibilidade de André Sardet assombrar ainda mais um aniversário; como não sou de celebrar grande coisa para além do meu aniversário, estou a salvo, mas todos os dias nascem pessoas e hoje até é dia 13: será no aniversário do leitor, com certeza.

Porém, a razão da crónica de hoje não é o concerto, mas as palavras de André Sardet. Explicando o motivo de ter escolhido Braga para gravar o seu primeiro DVD, disse: "Como alguém que não é dos grandes centros, achei importante passar a mensagem de que há uma sala em Braga onde temos condições para trabalhar e onde as pessoas são bem recebidas".

Talvez não perceba grande coisa de geografia ou simplesmente não saiba que o Theatro Circo, quando reabriu, chegou a ser a grande sala de concertos no Norte, numa altura em que tantos artistas e bandas tocavam apenas em Lisboa e Braga. Talvez não saiba, mas merecia que lho dissessem: concerteza que vende muitos discos e terá, portanto, muitas fãs, mas a verdade é que por cá já passaram muitos outros artistas e bandas que reconheceram o Theatro Circo como "grande centro" de espectáculos; e é isso que o tem tornado enorme, mesmo sem DVDs.

Capítulo 30: o poder ao povo

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Discutia-se há uns dias no sinecura, e na ressaca da vitória chavista no referendo, o que é, afinal, a democracia e a democracidade do regime de Chávez. No que diz respeito ao conceito, a discussão partiu do ponto "a democracia é, ou não, verificável pelo facto de existir voto". Esta é, aliás, a definição mais comum de democracia e vai, mais ou menos, de encontro à origem etimológica da palavra (do grego, demos: povo; cracia: poder); não confudir poder ao povo com o poder populista.

Porém, como o Pedro Romano defendia n'o número primo, democracia é apenas uma palavra e as palavras são o que quisermos fazer delas. Esta afirmação, aparentemente demasiado simplista, chama-nos a atenção para o perigo da comparação entre democracias e da avaliação da qualidade democrática de um qualquer país.

Grande parte dos países do mundo consideram-se países democráticos; aliás, o Ocidente a isso os obriga. E são, de facto, se a nossa definição de democracia for a existência de eleições. A questão é que se problematizarmos sobre as condições em que decorrem as eleições - e falo da simples existência de oposição, da liberdade de expressão, da garantia de que decorrem sem fraudes, etc. -, encontraremos muitas violações democráticas que não admitiríamos a uma democracia ocidental.

Daqui, e aos nossos olhos, as democracias sul-americanas, africanas ou asiáticas não são mais que democracias exóticas e, provavelmente, até o melhor que eles conseguem fazer ao representar o papel que esperamos deles. A verdade é que a democracia não é perfeita e, como diz o PR, por vezes caminham para a ditadura pelo seu próprio pé.

Capítulo 29: governar para a frente

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Obama prometeu, tem tentado, mas tarda em conseguir. Esperava-se dele a revolução e ele apresentou-se revolucionário, com um governo a tentar fazer esquecer os oitocentistas conceitos de esquerda e direita. Pretendia governar para a frente e, desse modo, ultrapassar a grave crise mundial.

Um mês depois, ainda não tem a equipa completamente formada, tendo visto já quatro nomeados abandonar o cargo para que tinham sido indicados. Ainda assim, a maior perda foi a quarta: Judd Gregg, republicano, demitiu-se na véspera da votação do plano de estímulo económico traçado pela Administração Obama.

Gregg abandona o cargo por "diferenças políticas irreconciliáveis", mas leva com ele grande parte da esperança no fim do bipartidarismo como futuro da política norte-americana. Da política, como da economia, esperavam-se mudanças de paradigmas agora que a crise é uma certeza mundial e não parece ter fim à vista. Ainda assim, as recorrentes recusas do Partido Republicano em colaborar com Obama parecem demonstrar que mais que pelo o interesse dos cidadãos, a política é feita por orgulhos ideológicos.

Obama prometeu e ainda parece querer cumprir, mas não falta já quem o critique pelo idealismo e ingenuidade. Num país que dizem ser o mais livre do mundo, esta pequena revolução é já entendida, imagine-se, como uma revolução socialista.

Capítulo 28: congresso de além e aquém-mar

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Decorre até amanhã, na Universidade do Minho, o X Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Com mais de mil e duzentas comunicações em apenas quatro dias, este evento assume-se como um dos mais importantes marcos do calendário das ciências sociais em língua portuguesa.

Não fosse o facto de a Reitoria da Universidade do Minho ter virado costas à organização, pouco haveria a registar para além dos habituais louvores e elogios à organização e à qualidade das apresentações.

Numa atitude incompreensível, a Reitoria chegou a negar até a simples cedência de instalações. Por esta razão, chegou a ser ponderada a deslocação do evento para a Universidade Técnica de Lisboa, que oferecia à organização as instalações e o equipamento necessário ao congresso.

E se, pelo menos no que concerne ao uso das instalações, a Universidade do Minho reconsiderou, o mesmo não se pode dizer - até ao momento - da taxa de 15% sobre as inscrições e patrocínios.

Apesar de Carlos Silva, coordenador da Comissão Científica do Congresso, rejeitar a ideia de que foram motivações políticas (referindo-se ao facto de ser militante comunista) as que estiveram por trás deste estranho comportamento da Reitoria, parece evidente que as Ciências Sociais continuam a ser parente pobre da Universidade do Minho, quiçá por questões de política interna - já que o Instituto de Ciências Sociais da UM se tem afirmado como um dos núcleos mais fortes de oposição à Reitoria da universidade.

Não deixa de ser irónico, diga-se: os muros que antes separavam a universidade do exterior parecem agora servir para segregar no seu interior.

Capítulo 27: do assobio

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Quando há uma semana li o Rui Tavares chamar ao Andrew Bird "o meu génio vivo preferido", roí-me de inveja. Era mesmo isso, porque é que não me lembrei antes? E andava eu há um mês a pensar em palavras que escrevessem uma justa homenagem ao Noble Beast, o novo álbum do senhor pássaro.

Bird é como um sofisticado homem dos sete instrumentos, manobrando violono, guitarra, glockenspiel e assobio - e que assobio! - à cadência de pés calçados de meias-riscas. E os concertos são isso mesmo: à vez, instrumento a instrumento, para no fim soarem todos em conjunto, em músicas que nunca são iguais e que não terminam em si mesmas.

Estará na harmonia, no equilíbrio, na melodia; estará também na fina ironia, na poesia. O segredo deste álbum estará algures por aí mas vai muito mais além: é uma obra-prima e cresce com o tempo. Para mim, é já o melhor da discografia do senhor e, no primeiro mês do ano, é já o melhor de 2009; no fim logo se vê.

As ideias que vos deixo para esta semana de chuva são as das bonitas composições cromáticas nas paisagens de Noble Beast. Boas audições!

Capítulo 26: da nossa câmara

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Por estes dias vivemos dias difíceis e previsões catastróficas para a economia portuguesa - sendo especialmente catastróficas para as economias dos portugueses. Ninguém sabe muito bem quando é que as coisas vão melhorar e ninguém arrisca previsões, mas, ainda assim, vamos ouvindo críticas insistentes à falta de previsões atempadas sobre a crise que vivemos.

Uns que dizem que era previsível, outros que dizem que ninguém poderia prever. O que no início parecia uma discussão, é hoje uma batalha inconsequente; e dirão vocês: isso sim, era altamente previsível.

De facto, a política tem perdido qualidade e, com ela, o interesse que antes gerava - e deve gerar - entre os cidadãos de um qualquer país. Pode ser que a esperança Obama ajude a mudar o actual paradigma - e que isso crie efeito bola de neve em direcção ao nosso país -, mas com os jogos de "deixa ver se hoje faltam muitos e isto passa" dá a impressão de que a nossa política chegou a um ponto de onde não há retorno possível.

Capítulo 25: hoje não há palavras

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na primeira vez que vi nevar, apeteceu-me voltar a voar.



da minha janela era assim:

foto tirada com o programa photo booth em macbook.

Capítulo 24: das comunidades

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comunidade é um conceito que me agrada particularmente. fui educado segundo os valores da união e da partilha, portanto, sem a carga ideológica que tantos revêm nele, o conceito de comunidade é um conceito de que gosto muito.

vem isto a propósito do regresso da comunidade de leitores, coordenada por um dos meus colegas de blogue. quando em julho passado se despedia para férias, poucos imaginariam que demoraria um ano a voltar. se a isto acrescentarmos o facto de ter aparecido, pela mão do fundador desta comunidade, uma nova comunidade de leitores no theatro circo, é natural que muitos tenham imaginado uma metamorfose da primeira; comunidade a sociedade, quiçá.

isto porque, simplificando o conceito, a comunidade pode ser entendida como quadro de relações sociais horizontais. e apesar de as relações de poder serem tão antigas como a humanidade e bastarem duas pessoas para que elas se verifiquem, elas são menos intensas em comunidade - e, pelo menos, no sentido literal do conceito.

ora, se a comunidade de leitores-da-velha parece corresponder ao tipo-ideal de comunidade, já a comunidade de leitores do theatro circo parece desvirtuar ligeiramente o conceito. quase como se a primeira fosse uma celebração eucarística e a segunda um culto de seita; em ambos há partilha, argumenta o leitor, mas a verdade é que "as partilhas" são bastante diferentes.

e tudo isto interessaria pouco, não fosse o facto de estarmos a falar do maior espaço de espectáculos em braga e da perpetuação de uma característica que muitos apontam aos poderes de braga: os amiguismos e compadrios; com dinheiros públicos, pois claro. depois de um freak show, um arranjo de acordes - quase todos de outros compositores.

e ainda há dois anos tínhamos uma programação exemplar...
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

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