Já se sabe: o discurso do "antes é que era bom" é um clássico da discussão em Portugal e nele convergem diversas sensibilidades políticas e ideológicas. Isto, aliado a um par de insultos e um tom de voz entre a sabedoria de ancião e o raspanete, então, é coisa para levantar plateias em ovação de vários minutos. É a discussão de café sob a luz dos holofotes e, tal qual efeito reality show, os defeitos do orador não são reprováveis, mas enternecedores; efeito reflexo do espelho, quem ouve identifica-se neles.
Ontem foi notícia Medina Carreira que, apesar de ter falado não num café mas num casino, afirmou que os nossos governantes são "mentirosos e incompetentes"; que a educação em Portugal "é uma miséria" e só produz "analfabetos"; que a geração dos 14 aos 20 anos é uma "cambada" que "anda para aí à solta" e que são uma "tropa-fandanga"; que as Novas Oportunidades são uma "trafulhice" e uma "aldrabice"; que a avaliação dos professores é uma "burrice"; que os programas escolares devem ser "feitos por gente inteligente".
Não é difícil ver por que razão este discurso fez sucesso. Estão lá todos os ingredientes que vimos acima: discurso miserabilista e saudosista; insultos populares e tom de repreensão paternal. Junte-se a isto o facto de o discurso de Medina Carreira poder ser ouvido, da boca de milhares de pessoas, em cafés e mercearias espalhados pelo nosso país e ficamos quase tentados a nomear Medina Carreira como porta-voz do povo português.
O problema é que se este discurso é compreensível na frustração quotidiana e em ambientes informais, não é de todo compreensível em contextos formais e, muito menos, proferidos por pessoas com a responsabilidade de Medina Carreira. E não, não é apenas pelos insultos (outra questão que começa a fazer carreira na política portuguesa), mas pela irresponsabilidade e pela falta clareza do discurso.
Medina Carreira responsabiliza ora os governantes mentirosos e incompetentes, ora a cambada dos 14 aos 20 anos que anda por aí à solta; mistura o ensino regular e um programa de reconhecimento de competências para adultos; diz que os professores têm de ser avaliados mas que a avaliação é uma burrice. Fala muito, dispara em todas as direcções, mas o que sobra do discurso é barulho, ruído e alvoroço.
E "é disto que o meu povo gosta, ripa na rapaqueca". Ninguém percebe bem o que se diz, mas todos aplaudem: "é isso mesmo!".
