«Uma notinha prévia para dois tipos de pessoas: a) as que usam o argumento de que os homossexuais já se podem casar, só não podem fazê-lo uns com os outros; b) e aquelas que dizem que o país tem assuntos mais graves e, portanto, este não tem a dignidade da urgência que o faria merecer se discutido.
Vão para o raio que vos parta. Todos. Os primeiros porque são imbecis e os segundos porque não têm a mínima noção do que é um contrato social ou, mais ainda, do que é ser cristão. Em que momento da vossa infeliz e ressabiada vida é que olharam directamente nos olhos de alguém que está a tentar discutir uma coisa essencial para a sua vida e tiveram a coragem de lhe dizer:” — Agora não, pá, que estou a tentar resolver os problemas das exportações”.
Caso consigam identificar esse momento — esse no qual a resolução hipotética de um problema vos ocupa mais disponibilidade mental do que o sofrimento de um outro ser humano — chegou a altura de entalarem as mãozinhas na porta do forno (ligado) para terem mais uma coisinha com que se entreter.» [Laura Abreu Cravo]
Evidências | 2
Evidências
Se substituírem a palavra "homossexual" por "preto", "chinês" ou "judeu" em muitos dos textos que escrevem por aí depressa compreendem o que é a homofobia. Não é por ser socialmente mais aceite que a homofobia é moralmente menos repugnante do que o racismo, a xenofobia ou o ódio inter-religioso.
Contra a Discriminação
A sociedade é que se encontra doente porque apenas sabe aceitar a heteronormatividade. Num mundo em que parece que existe sempre uma dicotomia, em que a norma e o desvio parecem sempre necessários para justificar os comportamentos, é necessário protestar com vista à desconstrução do binarismo de género.
A campanha internacional STOP PATOLOGIZAÇÃO TRANS questiona e abala os dispositivos de controlo e o próprio sistema de género. Visa excluir a transsexualidade do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-IV-TR) da Associação Americana de Psiquiatria (tipificada actualmente como uma perturbação da identidade de género).
Esta campanha é extremamente necessária porque as pessoas devem poder escolher a sua vida e o seu corpo. Não devem ser marginalizadas por isso. Porque a luta a travar contra posições essencialistas ainda é muito grande, no passado sábado, dia 17 de Outubro, foi lançada publicamente a campanha em vários países. Em Portugal, várias pessoas juntaram-se em Lisboa, para dizer não à estigmatização, para dizer que não existe a "normalidade" e a "anormalidade", para lutar por uma sociedade mais justa, mais democrática, com vista ao bem-estar de tod@s.
Mais informações aqui.
A campanha internacional STOP PATOLOGIZAÇÃO TRANS questiona e abala os dispositivos de controlo e o próprio sistema de género. Visa excluir a transsexualidade do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-IV-TR) da Associação Americana de Psiquiatria (tipificada actualmente como uma perturbação da identidade de género).
Esta campanha é extremamente necessária porque as pessoas devem poder escolher a sua vida e o seu corpo. Não devem ser marginalizadas por isso. Porque a luta a travar contra posições essencialistas ainda é muito grande, no passado sábado, dia 17 de Outubro, foi lançada publicamente a campanha em vários países. Em Portugal, várias pessoas juntaram-se em Lisboa, para dizer não à estigmatização, para dizer que não existe a "normalidade" e a "anormalidade", para lutar por uma sociedade mais justa, mais democrática, com vista ao bem-estar de tod@s.
Mais informações aqui.
Stop Trans Pathologization – 2012

Mais informações aqui.
Ódios de Deus
© Bilal Hussein/AP
Centenas de homossexuais têm sido perseguidos, humilhados, torturados e assassinados por milícias islâmicas no Iraque, numa barbárie que tem requintes da pior malvadez. Segundo conta o jornal The Guardian [via], as milícias infiltram-se em chatrooms na internet para melhor atingirem os seus alvos, espalhando o terror entre a comunidade homossexual daquele país.
As organizações de Direitos Humanos não se cansam de denunciar casos de violência contra gays nos países islâmicos perante a passividade quase completa das Nações Unidas. Em Dezembro de 2008, foi aprovada, sem qualquer consequência, uma moção contra a homofobia e a discriminação pela orientação sexual que contou com a oposição de alguns países da Liga Árabe e do Vaticano.
A violência contra homossexuais e a promoção da homofobia é um dos traços que mais fortemente tem unido a maioria dos dirigentes e dos apoiantes mais fervorosos das três grandes religiões do livro. Refira-se, a título de exemplo, que o Vaticano tem sido muito activo na campanha contra o reconhecimento de direitos civis aos homossexuais, mas não se lhe conhece qualquer intervenção concreta relativamente aos atentados contra a vida que são perpetrados quotidianamente nos países que continuam a criminalizar (com pena de morte), a perseguir e a matar sumariamente os homossexuais.
Das Doações de Sangue
A questão central em matéria de doação de sangue é a segurança dos receptores. É preciso deixar bem claro que o actual algoritmo exclui pessoas com risco muito baixo e inclui dadores com risco muito elevado. João Miranda diz que se tratam de excepçõezinhas, mas, pensando em abstracto, isso é absolutamente irrelevante. O que é verdadeiramente relevante é saber se o número daqueles que têm muito baixo risco e são excluídos é superior ao número dos que têm risco elevado e são considerados dadores. Se for, então o sistema é ineficaz.
Desde há vários anos, os estudos epidemiológicos sobre VIH demonstram que a avaliação do risco em função de grupos de pessoas que partilham uma característica, seja a cor de pele, a profissão ou a orientação sexual, é sempre menos eficaz do que a avaliação baseada nos comportamentos de risco.
Acrescente-se que João Miranda não demonstra que aquilo a que chama excepçõezinhas são verdadeiras excepções e, mais grave, cita como excepção um exemplo verdadeiramente infeliz: «Se um homossexual fizer sexo protegido é muito mais seguro do que um heterossexual que faz sexo desprotegido».
Na prática, estamos todos de acordo que dar sangue não é um direito de nenhum cidadão e que o objectivo da acção do Instituto Português do Sangue deve ser garantir sangue em quantidade e com qualidade a quem dele necessitar. O que está por demonstrar é que o actual sistema de triagem é o mais eficaz para garantir esse propósito. É que, se levarmos a sério as declarações do senhor Presidente do Instituto Português de Sangue a propósito daqueles que foram violados, torna-se mais claro do que nunca que o actual sistema está assente em princípios absolutamente rejeitáveis, porque baseados em suposições, crenças e preconceitos sem qualquer base científica.
Quanto ao resto, penso que todos concordamos que o Ensino Superior pode acrescentar muita coisa, mas dificilmente elimina preconceitos enraizados como crenças verdadeiramente impermeáveis à crítica e à razão.
Desde há vários anos, os estudos epidemiológicos sobre VIH demonstram que a avaliação do risco em função de grupos de pessoas que partilham uma característica, seja a cor de pele, a profissão ou a orientação sexual, é sempre menos eficaz do que a avaliação baseada nos comportamentos de risco.
Acrescente-se que João Miranda não demonstra que aquilo a que chama excepçõezinhas são verdadeiras excepções e, mais grave, cita como excepção um exemplo verdadeiramente infeliz: «Se um homossexual fizer sexo protegido é muito mais seguro do que um heterossexual que faz sexo desprotegido».
Na prática, estamos todos de acordo que dar sangue não é um direito de nenhum cidadão e que o objectivo da acção do Instituto Português do Sangue deve ser garantir sangue em quantidade e com qualidade a quem dele necessitar. O que está por demonstrar é que o actual sistema de triagem é o mais eficaz para garantir esse propósito. É que, se levarmos a sério as declarações do senhor Presidente do Instituto Português de Sangue a propósito daqueles que foram violados, torna-se mais claro do que nunca que o actual sistema está assente em princípios absolutamente rejeitáveis, porque baseados em suposições, crenças e preconceitos sem qualquer base científica.
Quanto ao resto, penso que todos concordamos que o Ensino Superior pode acrescentar muita coisa, mas dificilmente elimina preconceitos enraizados como crenças verdadeiramente impermeáveis à crítica e à razão.
Uma Homofobia Sem Limites
Toda a entrevista resumida numa frase: «Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação.»
O Presidente do Instituto Português do Sangue não sabe o que é a homossexualidade e, como tal, não têm competência técnica para se manter num cargo destes. Mais tarde, exporei em detalhe os laivos de homofobia que percorrem toda a entrevista. É urgente uma intervenção superior.
A ler: Não digam ao Dr. Olim, por Fernanda Câncio.
Pela Igualdade de Direitos
Decorre por esta hora a apresentação oficial do Movimento pela Igualdade, uma iniciativa cívica que pretende promover a igualdade no acesso ao casamento civil, lutando contra a homofobia e a discriminação. Trata-se de uma manifestação genuína da sociedade civil que pretende pôr fim à marginalização imposta pela actual lei e pela prepotência das crenças que alguns querem impor a todos.
Tal como pode ler-se no manifesto, «exigimos esta mudança necessária, justa e urgente porque sabemos que a actual situação de desigualdade fractura a sociedade entre pessoas incluídas e pessoas excluídas, entre pessoas privilegiadas e pessoas marginalizadas; Porque sabemos que esta alteração legal é uma questão de direitos fundamentais e humanos, e de respeito pela dignidade de todas as pessoas; Porque sabemos que é no reconhecimento pleno da vida conjugal e familiar dos casais do mesmo sexo que se joga o respeito colectivo por todas as pessoas, independentemente da orientação sexual, e pelas famílias com mães e pais LGBT, que já são hoje parte da diversidade da nossa sociedade; Porque sabemos que a igualdade no acesso ao casamento civil por casais do mesmo sexo não afectará nem a liberdade religiosa nem o acesso ao casamento civil por parte de casais de sexo diferente; Porque sabemos que a igualdade nada retira a ninguém, mas antes alarga os mesmos direitos a mais pessoas, acrescentando dignidade, respeito, reconhecimento e liberdade.»
É uma grande honra poder integrar a Comissão Promotora deste Movimento, conjuntamente com o Cláudio Rodrigues, o Vítor Pimenta e muitas outras personalidades da nossa vida pública. A luta contra a homofobia, tal como sucedeu com a luta contra o racismo e contra a discriminação das mulheres, é um imperativo dos nossos dias que tem que marcar a agenda mediática das próximas Eleições Europeias e Legislativas.
Pode subscrever o Manifesto pela Igualdade clicando aqui.
A ler: Igualdade.net (site oficial); José Saramago, Lídia Jorge e Daniel Sampaio apoiam, no Público; De Saramago a Sousa Tavares, todos pelo sim, no i; Novo movimento defende casamento, DN; Movimento pela Igualdade junta mais de 800 nomes, no Expresso; Movidos pela igualdade, por Fernanda Câncio; Pela Igualdade, por Daniel Oliveira.
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Festival Eurovisão da Censura
A forma como vamos perdendo a capacidade de nos indignarmos perante repetidos atropelos aos Direitos do Homem é verdadeiramente inquietante. Na noite de hoje, perante os holofotes do mediatismo mais inútil, o Festival Eurovisão da Canção realiza-se em Moscovo, num palco tingido pela triste cor da discriminação e da censura.
1. A música «We don’t wanna put in» da Geórgia foi censurada pela organização do evento na sequência das pressões do regime russo que exigiam que o trocadilho «put in» fosse removido da canção. A Geórgia abandonou o evento, organizando uma alternativa bem mais democrática e o Presidente Saakashvili georgiano clama, muito sensatamente, contra a vergonha da Eurovisão.
2. Depois de muitas ameaças, vários manifestantes foram detidos em Moscovo quando participavam numa marcha de protesto contra a discriminação dos homossexuais. Como se sabe, a Rússia não respeita os direitos das minorias sexuais, atentando repetidamente contra os Direitos Humanos. O porta-voz da Câmara de Moscovo afirmou que «semelhantes manifestações não só destroem as bases morais da nossa sociedade como provocam conscientemente desordens que irão ameaçar a vida e a segurança dos moscovitas e dos hóspedes da capital», enquanto que a Igreja Cristã Ortodoxa embarcou na tese de que «a propaganda da homossexualidade é, em qualquer caso, um crime contra a infância».
3. Os organizadores do Festival Eurovisão da Canção pediram à representante da Alemanha, Dita von Teese, para mostrar menos decote na actuação desta noite. Segundo os senhores da Eurovisão, o decote da senhora von Teese não é apropriado para um «espectáculo televisivo familiar».
São apenas três exemplos da censória defesa da moral e dos bons costumes que impregna os nossos dias. Tolerantes perante os pequenos abusos, abrimos caminho às imposições mais ignóbeis e aos atropelos mais graves aos Direitos Humanos que todos devíamos professar. As «diferenças culturais entre os países participantes» não são justificativo bastante para que possamos prescindir da liberdade de expressão, seja escrita ou performativa, do direito à manifestação e da defesa universal da igualdade entre todos, independentemente do sexo, do género, da cor de pele, da orientação sexual ou da religião.
A ler: Gays em desgraça na cidade de Moscovo, por José Milhazes.
1. A música «We don’t wanna put in» da Geórgia foi censurada pela organização do evento na sequência das pressões do regime russo que exigiam que o trocadilho «put in» fosse removido da canção. A Geórgia abandonou o evento, organizando uma alternativa bem mais democrática e o Presidente Saakashvili georgiano clama, muito sensatamente, contra a vergonha da Eurovisão.
2. Depois de muitas ameaças, vários manifestantes foram detidos em Moscovo quando participavam numa marcha de protesto contra a discriminação dos homossexuais. Como se sabe, a Rússia não respeita os direitos das minorias sexuais, atentando repetidamente contra os Direitos Humanos. O porta-voz da Câmara de Moscovo afirmou que «semelhantes manifestações não só destroem as bases morais da nossa sociedade como provocam conscientemente desordens que irão ameaçar a vida e a segurança dos moscovitas e dos hóspedes da capital», enquanto que a Igreja Cristã Ortodoxa embarcou na tese de que «a propaganda da homossexualidade é, em qualquer caso, um crime contra a infância».
3. Os organizadores do Festival Eurovisão da Canção pediram à representante da Alemanha, Dita von Teese, para mostrar menos decote na actuação desta noite. Segundo os senhores da Eurovisão, o decote da senhora von Teese não é apropriado para um «espectáculo televisivo familiar».
São apenas três exemplos da censória defesa da moral e dos bons costumes que impregna os nossos dias. Tolerantes perante os pequenos abusos, abrimos caminho às imposições mais ignóbeis e aos atropelos mais graves aos Direitos Humanos que todos devíamos professar. As «diferenças culturais entre os países participantes» não são justificativo bastante para que possamos prescindir da liberdade de expressão, seja escrita ou performativa, do direito à manifestação e da defesa universal da igualdade entre todos, independentemente do sexo, do género, da cor de pele, da orientação sexual ou da religião.
A ler: Gays em desgraça na cidade de Moscovo, por José Milhazes.
Maria, Mártir de Portugal
Intercidades Lisboa-Porto, 3 de Maio de 2009. Quis a má sorte que um acidente atirasse uma morte para a linha e, por via disso, a viagem durasse o dobro do previsto. Maria sentou-se a meu lado ainda antes de supormos que a paragem do comboio para a remoção do malfadado cadáver seria tão longa que a conversa havia de tornar-se inevitável.
O vestir andrajoso, os dentes quebrados, enegrecidos e tortos, a face sombria e o semblante entristecido expunham uma qualquer história infeliz que imaginei antes de supor que ainda a ouviria durante aquela viagem. Filha mais nova de uma fratria de seis irmãos, Maria cedo foi atirava para a vida em toda a sua crueza e crueldade. Casou com dezassete anos. Ele era alcoólico e, etilizado ou não, batia-lhe quotidianamente com as mãos, os pés, as colheres de pau, as cadeiras, as garrafas... batia-lhe no corpo e no espírito, abusando-a até ao limite do suportável.
Corria a década de oitenta e Maria vivia acabrunhada numa pequena aldeia de Trás-os-Montes. Sofria num silêncio ensurdecedor, apenas quebrado por uma denúncia ao padre, em confissão, que lhe revelara tratar-se de um teste em vida, uma autêntica cruz (como a de Cristo) para ser aceite com paciência e capacidade de sofrimento. E assim fez. Maria suportou várias violações e pariu três filhos. O terceiro, nascido no dealbar da década de noventa, foi violentamente agredido in utero, tendo nascido com sequelas irreversíveis que não tem dúvidas em atribuir aos maus tratos perpetrados pelo pai.
Cansada de suportar o insuportável e com três filhos nos braços, também eles repetidamente vítimas de maus tratos, Maria avançou com um pedido de divórcio que se arrastou interminavelmente nos tribunais e na vida. Valeu-lhe a coragem de começar de novo e a boa vontade de algumas amigas e vizinhas.
«Na aldeia em que eu vivia foi o primeiro divórcio...» conta sem voz tremente nem olhos encharcados, mas com a frieza de quem de tanto sofrer verdadeiramente se tornou quase insensível ao sofrimento discursivo. «Fizeram-nos de tudo. Desde bater ao meu pequeno por ser filho de pais divorciados até olharem-me recriminadoramente por ter deixado o pai entregue ao desgosto que afogava em álcool».
A história de Maria é uma história entre muitas e, como muitas, tem a virtude de nos despertar para a discriminação do que não é vulgar. Tal como Maria, também hoje há muitas Marias e Manéis que sofrem cruelmente nas nossas ruas, nos nossos bairros, nas nossas aldeias, nas nossas cidades e nas nossas famílias por não serem a regra, por serem diferentes, por não serem vulgares, por serem os primeiros... Sofrimento que merece aceitação e compreensão, mas que a moral vigente teima em censurar.
O vestir andrajoso, os dentes quebrados, enegrecidos e tortos, a face sombria e o semblante entristecido expunham uma qualquer história infeliz que imaginei antes de supor que ainda a ouviria durante aquela viagem. Filha mais nova de uma fratria de seis irmãos, Maria cedo foi atirava para a vida em toda a sua crueza e crueldade. Casou com dezassete anos. Ele era alcoólico e, etilizado ou não, batia-lhe quotidianamente com as mãos, os pés, as colheres de pau, as cadeiras, as garrafas... batia-lhe no corpo e no espírito, abusando-a até ao limite do suportável.
Corria a década de oitenta e Maria vivia acabrunhada numa pequena aldeia de Trás-os-Montes. Sofria num silêncio ensurdecedor, apenas quebrado por uma denúncia ao padre, em confissão, que lhe revelara tratar-se de um teste em vida, uma autêntica cruz (como a de Cristo) para ser aceite com paciência e capacidade de sofrimento. E assim fez. Maria suportou várias violações e pariu três filhos. O terceiro, nascido no dealbar da década de noventa, foi violentamente agredido in utero, tendo nascido com sequelas irreversíveis que não tem dúvidas em atribuir aos maus tratos perpetrados pelo pai.
Cansada de suportar o insuportável e com três filhos nos braços, também eles repetidamente vítimas de maus tratos, Maria avançou com um pedido de divórcio que se arrastou interminavelmente nos tribunais e na vida. Valeu-lhe a coragem de começar de novo e a boa vontade de algumas amigas e vizinhas.
«Na aldeia em que eu vivia foi o primeiro divórcio...» conta sem voz tremente nem olhos encharcados, mas com a frieza de quem de tanto sofrer verdadeiramente se tornou quase insensível ao sofrimento discursivo. «Fizeram-nos de tudo. Desde bater ao meu pequeno por ser filho de pais divorciados até olharem-me recriminadoramente por ter deixado o pai entregue ao desgosto que afogava em álcool».
A história de Maria é uma história entre muitas e, como muitas, tem a virtude de nos despertar para a discriminação do que não é vulgar. Tal como Maria, também hoje há muitas Marias e Manéis que sofrem cruelmente nas nossas ruas, nos nossos bairros, nas nossas aldeias, nas nossas cidades e nas nossas famílias por não serem a regra, por serem diferentes, por não serem vulgares, por serem os primeiros... Sofrimento que merece aceitação e compreensão, mas que a moral vigente teima em censurar.
Paridade Fantasma
"O que está em causa é um problema de autenticidade". [...] "Se a dra. Elisa Ferreira e dra. Ana Gomes forem eleitas no Porto e em Sintra e o PS eleger sete eurodeputados, só haverá uma mulher - Edite Estrela - e se elegerem dez eurodeputados, haverá duas mulheres", acusou [Nuno Melo]. [Público]
"Há uma coisa que não faremos de certeza absoluta que é candidatar pessoas candidatos fantasmas. Aquilo que o PS está a fazer, candidatar pessoas às autarquias e ao Parlamento Europeu, é coisa que com a minha direcção nunca acontecerá. Tenho regras muito restritas sobre isto", frisou. [DN]
Esta parece-me ser um boa norma de conduta política. Honesta e transparente. Mas não é sobre isso que me proponho a escrever, como tampouco é especialmente dirigido em especialmente dirigido a algum partido.
Para além da "honestidade", há um outro aspecto em causa: o cumprimento das quotas de mulheres (em rigor, trata-se de uma representação mínima de 33,3% de cada um dos sexos). Pode-se concordar ou não com a imposição legal de quotas nas listas às várias eleições. Acho que, naturalmente, deve existir um equilíbrio de géneros, que claramente não existe.
A garantia que se pretende dar através da impossibilidade de se colocarem mais de dois candidatos do mesmo sexo, consecutivamente, na ordenação da lista, é uma garantia meramente formal. Aliás, uma rápida análise das listas [BE][PCP][PS][PSD][PP] revela que, grosso modo e com excepção do PCP, estas tendem a cumprir este requisito apresentando uma mulher a intervalar dois homens; o contrário é bastante mais raro.
Por outro lado, já se sabe que as suspensões, por uma ou outra razão, são extremamente frequentes. O exemplo dado pelo Nuno Melo é, de facto, flagrante (convém dizer que se o PP eleger os mesmos dois deputados, não vai lá estar nenhuma mulher). Esta Lei da Paridade, quer através de manipulações premeditadas, quer através da "tradição" de suspensões de mandato, ameaça tornar-se um mero formalismo, uma pseudo-paridade, existente apenas no momento de apresentação das listas. As listas para as autárquicas e para as legislativas trarão mais luz a esta questão.
Do Ecumenismo Homofóbico
«Um bispo anglicano nigeriano pediu ao Parlamento que impeça os casamentos entre homossexuais. E como medida adicional a prisão para quem tiver a coragem de aparecer na boda.» [Público]
Os bispos cristãos prosseguem a sua campanha contra os homossexuais. Depois das críticas veladas da Conferência Episcopal Portuguesa, dos insultos do Cardeal Saraiva e da intromissão dos bispos espanhóis na campanha contra Zapatero, foi a vez de um bispo anglicano da Nigéria qualificar a homossexualidade como «uma perversão, um desvio e uma aberração capaz de engendrar o holocausto moral e social».
Não deixa de ser irónico que o ódio contra os homossexuais seja o assunto que mais consistentemente une os discursos da maioria das religiões e seitas em todo o mundo.
A Homofobia Não Tem Limites?
Há pouco mais de dois anos, Jacobo Piñeiro espetou por 57 vezes uma faca no corpo de dois homossexuais. Não satisfeito, ateou fogo à habitação em que se encontravam. O caso arrepia não só pelos evidentes contornos de cruel homofobia, mas também pelos requintes de malvadez do acto. Apesar disso, um grupo de jurados (civis chamados a proferir uma decisão judicial) decidiu inocentar o assassino, alegando que agiu em legítima defesa por ter medo de ser violado pelo infortunado casal.
«Deixais livre um assassino confesso», grita, em desespero, a mãe de uma das vítimas. Imagine, só por um instante, que isto acontecia ao seu filho... Mesmo admitindo a versão do assassino como verdadeira, o que está longe de estar demonstrado, será que o medo de ser violado justifica um assassínio cruel? A decisão seria a mesma se as vítimas fossem um casal heterossexual? E como aconteceria se o júri fosse constituídos por juízes profissionais?
Da homofobia do assassínio à crueldade discriminatória da decisão do jurado, os trágicos acontecimentos de Vigo são um retrato bem fidedigno da sociedade em que vivemos, expondo os efeitos nefastos das campanhas de intoxicação da opinião pública que têm sido levadas à prática pelos grupos religiosos e conservadores. A sociedade não é insensível à homofobia que se pressente nos discursos falsamente misericordiosos de quem está num posição de privilegiado ascendente sobre os grupos menos instruídos da população.
Tal como aconteceu com os pretos, os grupos religiosos e conservadores tardam em assumir a riqueza da diversidade humana, acotovelando-se na censura às leis anti-discriminatórias e esquecendo-se de condenar com verdadeira veemência a homofobia assassina e as condenações da homossexualidade do apedrejamento à morte, infelizmente tão comuns nos nossos dias.
A ler: Indignación por el fallo que absuelve de asesinato al joven Jacobo Piñeiro, Galicia Hoxe; Los dos jóvenes asesinados en la calle Oporto recibieron 60 puñaladas, Faro de Vigo; ¿57 puñaladas en defensa propia?, El Pais; Un jurado popular absuelve al autor del crimen de una pareja homosexual, El Mundo; Un jurado homófobo, La Sexta; Absuelven a un hombre que confesó haber apuñalado a sus dos víctimas, Antena 3; El crimen de Vigo pone en duda el jurado popular, Xornal de Galícia; «Dejáis libre a un asesino confeso», gritó la madre de Isaac, La Voz de Galícia.
«Deixais livre um assassino confesso», grita, em desespero, a mãe de uma das vítimas. Imagine, só por um instante, que isto acontecia ao seu filho... Mesmo admitindo a versão do assassino como verdadeira, o que está longe de estar demonstrado, será que o medo de ser violado justifica um assassínio cruel? A decisão seria a mesma se as vítimas fossem um casal heterossexual? E como aconteceria se o júri fosse constituídos por juízes profissionais?
Da homofobia do assassínio à crueldade discriminatória da decisão do jurado, os trágicos acontecimentos de Vigo são um retrato bem fidedigno da sociedade em que vivemos, expondo os efeitos nefastos das campanhas de intoxicação da opinião pública que têm sido levadas à prática pelos grupos religiosos e conservadores. A sociedade não é insensível à homofobia que se pressente nos discursos falsamente misericordiosos de quem está num posição de privilegiado ascendente sobre os grupos menos instruídos da população.
Tal como aconteceu com os pretos, os grupos religiosos e conservadores tardam em assumir a riqueza da diversidade humana, acotovelando-se na censura às leis anti-discriminatórias e esquecendo-se de condenar com verdadeira veemência a homofobia assassina e as condenações da homossexualidade do apedrejamento à morte, infelizmente tão comuns nos nossos dias.
A ler: Indignación por el fallo que absuelve de asesinato al joven Jacobo Piñeiro, Galicia Hoxe; Los dos jóvenes asesinados en la calle Oporto recibieron 60 puñaladas, Faro de Vigo; ¿57 puñaladas en defensa propia?, El Pais; Un jurado popular absuelve al autor del crimen de una pareja homosexual, El Mundo; Un jurado homófobo, La Sexta; Absuelven a un hombre que confesó haber apuñalado a sus dos víctimas, Antena 3; El crimen de Vigo pone en duda el jurado popular, Xornal de Galícia; «Dejáis libre a un asesino confeso», gritó la madre de Isaac, La Voz de Galícia.
O Absurdo (Quase) Dispensa Comentários
© Pierre Brueghel (1525-1569)
Sem qualquer fundamento credível e à revelia dos consensos médicos e científicos, os bispos dizem que o prolongamento da homossexualidade «pela idade jovem e adulta denota a existência de problemas de identidade pessoal». Ao escolher o caminho da segregação teimosa e ignorante, a Igreja Católica continua a afundar-se no pântano do preconceito.
A Tradição Ainda É o Que Era...
«A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) anunciou hoje ter contabilizado nos seus atendimentos no ano passado 18669 crimes, dos quais 90 por cento se referem a casos de violência doméstica. [...] Na violência doméstica, 90 por cento das vítimas foram mulheres e 90 por cento dos agressores homens.» [Público]
A ler: A "vítima-tipo", por Ana Matos Pires.
Onde os Pretos Somos Nós
«Se não servirem para mais nada, as manifestações de trabalhadores ingleses contra a contratação de operários estrangeiros, incluindo portugueses, podiam ter, ao menos, o benefício de levar certos cidadãos nacionais – os que organizam manifestações contra os pretos, ucranianos, ciganos e demais imigrantes e os que concordam com eles, mais ou menos silenciosamente - a pensar, uma vez na vida que fosse, e a perceberem que há muitos sítios no mundo onde os pretos somos nós, a suposta e superior “raça portuguesa”.»
Brilhante, no Teatro Anatómico.
O Abraço Não Mata
«Quase todos os trabalhadores seropositivos acabam por perder o emprego quando a empresa sabe da doença» [Público]
A notícia só surpreende os mais distraídos. A ignorância que se faz medo é o primeiro passo para a discriminação. Tal como a SIDA, também as posturas e atitudes discriminatórias não escolhem idade, sexo, etnia, religião ou orientação sexual – os mitos e as ideias erradas sobre a doença germinam nas cabeças de um número indesejavelmente alto de portugueses.
Ao contrário do que muitos pensam, o contacto social com pessoas infectadas com o VIH – dos apertos de mão aos abraços, do trabalho em equipa à partilha de comida, das picadas de insectos ao uso de casas de banho comuns e da tosse aos espirros – não constitui qualquer perigo de contágio. Cientes disto, importa que acolhamos a todos e, ao mesmo tempo, que não nos acomodemos perante as evidentes discriminações que ainda perduram na nossa sociedade.
A ler: Quero Justiça!; Das Riscofobias Selectivas; Portugal no Divã; SIDA e Discriminação.
Das Prioridades
«Pelo menos seis jovens portugueses abandonaram o sistema escolar nos últimos dois anos por não conseguir aguentar a discriminação perante a sua orientação sexual. E oito admitem ter mesmo tentado o suicídio.» [JN]
Quando José Sócrates anunciou que o Partido Socialista vai propor o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa apressou-se a dizer que é «desproporcionado que o partido do governo se fixe neste assunto dos casamentos homossexuais, quando há tantos problemas graves e gritantes na nossa sociedade actual.» O argumento da Igreja Católica é, obviamente, falacioso, demagógico e populista.
Em primeiro, porque é manifestamente desproporcionado dizer que o partido do governo se fixou no assunto. A medida foi anunciada por entre muitas outras e o destaque informativo é da exclusiva responsabilidade dos órgãos de comunicação social;
em segundo, porque a resolução deste problema social que afecta alguns portugueses não colide com a procura de soluções para os outros graves e gritantes problemas da nossa sociedade actual;
em terceiro, porque não se percebe a postura da Igreja Católica enquanto principal promotor da homofobia militante em Portugal quando se sabe que há pessoas que sofrem até à morte pela discriminação das sociedades religiosas mais tradicionais.
Da Selecção Artificial
© dacruz33
A notícia de que um casal foi impedido de adoptar devido à obesidade do marido é o capítulo mais recente dessa cruzada dos nossos dias a que metaforicamente chamaram «ecologia do homem». Os sinais de avanço das teorias eugenistas são tremendamente inquietantes. Grande é o equívoco dos que pensam que uma sociedade de heterossexuais brancos e esbeltos sem acne nem celulite seria melhor.
A Devassa da Vida Privada
Sempre desconfiei que as teorias da sexualidade propostas por Freud ajudavam a explicar a postura recalcada de alguns crónicos insurgentes contra a liberdade sexual dos outros. Parece que a minha desconfiança assenta na perfeição ao caso de Jörg Haider, o líder da extrema-direta austríaca. Seja como for, e independentemente das suas ideologias e opções políticas, é-me absolutamente indiferente saber com quem Jörg Haider ía para a cama.
A apologia da homofobia, do racismo, da xenofobia e do sexismo é abjecta, independentemente do sexo, da cor de pele, da orientação sexual, da religião, da nacionalidade e do partido político de quem a promove.
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