Avenida Central

Da Liberdade Religiosa

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Flare and minaret
© Akmal al-Taqi (Cynic)

Mais de cinquenta e sete por cento dos suíços expressaram em referendo a concordância com a proibição da construção de minaretes nas mesquitas daquele país. Contra todas as expectativas, a proposta da direita e da extrema-direita foi aprovada, configurando uma exemplar «vitória do medo» e um «duro golpe para a liberdade religiosa».

As relações entre o Estado e as religiões têm sido um tema extremamente sensível e polémico na Europa. Por um lado, as Igrejas Cristãs não têm reagido da melhor forma à progressiva separação entre Estado e religião, pretendendo continuar a utilizar os meios do Estado para a expressão das suas crenças e defendendo o dispêndio de fundos públicos em iniciativas de cariz religioso. Se é verdade que foram cometidos alguns excessos anti-religiosos em determinados períodos da história, é um facto que a multiplicidade de crenças e não crenças que compõe a sociedade dos nossos dias já não se compadece com a usurpação dos bens e espaços do Estado para benefício das crenças de alguns.

Por outro lado, a Europa tem dado alguns sinais de intolerância perante crenças emergentes no seio da nossa sociedade e, curiosamente, são precisamente os sectores mais conservadores e altamente reaccionários à laicidade do Estado que têm alimentado o discurso do medo e da discriminação. Tal como sublinham os bispos suíços, o referendo do passado Domingo é um «duro golpe na liberdade religiosa», uma ameaça para a estabilidade do país e um péssimo acto de diplomacia, a confirmar todas as perversões dos referendos e a dar razão ao argumento de que não se devem referendar os direitos civis das minorias.

A liberdade religiosa, tal como a laicidade do Estado, é um pilar fundamental da sociedade democrática em que acreditamos, não podendo hipotecar-se às mãos de qualquer medo ou devaneio extremista. A Suíça é uma lição para todos nós.

Perdoai-lhes Senhor, Não Sabem o Que Dizem

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THE ANCIENT AGORA OF ATHENS, GREECE
© Andrea Motta

«Esquecem-se que, se lhe retirarem o cristianismo, a Europa fica sem nada 
[Carlos Gomes, Presidente da Associação Famílias de Braga]

Da Obsessão

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A Igreja Católica portuguesa diz que o tema não é prioritário mas não há dia em que não falem dele. Aliás, não há ninguém neste país que fale mais do casamento entre pessoas do mesmo sexo do que padres, freiras e quejandos. É uma estranha obsessão que alguma teoria freudiana há-de ajudar a explicar.

Adenda - ainda a este propósito, refira-se que há uns que se acham mais católicos que outros.

Mateus 22:21

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«Os senhores padres e bispos, cheios de dons atrás do nome – coisa que ainda não consigo perceber –, vieram a terreiro condenar a prioridade dada à legalização do casamento entre homossexuais. Dizem que «preparam uma resposta» e até se vão reunir em Fátima daqui a uns dias. Eu por mim, acho muito bem que os senhores padres e bispos, mais os seus dons atrás do nome, se divirtam em concílios destes, fingindo que o Estado ainda não é laico e que ainda mandam alguma coisa. Preocupante, preocupante, é que a população portuguesa em geral e a classe política em particular lhes dê algum tipo de importância a não ser aquela que é devida aos comuns cidadãos.

É extraordinariamente interessante que os senhores padres e bispos ainda não tenham percebido que quem decide os contratos civis são os civis e quem decide as matérias religiosas são, por sua vez, os religiosos. Foi Jesus quem o disse e Mateus quem nos fez saber – e julgo que pelo menos esta parte da Bíblia será para ler de uma forma literal. Que os senhores padres e bispos, mais os seus dons antes dos nomes, não queiram, em Igrejas, celebrar matrimónios entre homossexuais, é com eles. Não me interessa. Não nos interessa. O que é importante é que não abusem da sua influência junto de uma boa parte da população, tentando decidir, eles próprios, matérias políticas.»

Texto ostensivamente roubado ao Tiago Moreira Ramalho do Corta-fitas.

Ódios de Deus

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iraqi gay
© Bilal Hussein/AP

Centenas de homossexuais têm sido perseguidos, humilhados, torturados e assassinados por milícias islâmicas no Iraque, numa barbárie que tem requintes da pior malvadez. Segundo conta o jornal The Guardian [via], as milícias infiltram-se em chatrooms na internet para melhor atingirem os seus alvos, espalhando o terror entre a comunidade homossexual daquele país.

As organizações de Direitos Humanos não se cansam de denunciar casos de violência contra gays nos países islâmicos perante a passividade quase completa das Nações Unidas. Em Dezembro de 2008, foi aprovada, sem qualquer consequência, uma moção contra a homofobia e a discriminação pela orientação sexual que contou com a oposição de alguns países da Liga Árabe e do Vaticano.

A violência contra homossexuais e a promoção da homofobia é um dos traços que mais fortemente tem unido a maioria dos dirigentes e dos apoiantes mais fervorosos das três grandes religiões do livro. Refira-se, a título de exemplo, que o Vaticano tem sido muito activo na campanha contra o reconhecimento de direitos civis aos homossexuais, mas não se lhe conhece qualquer intervenção concreta relativamente aos atentados contra a vida que são perpetrados quotidianamente nos países que continuam a criminalizar (com pena de morte), a perseguir e a matar sumariamente os homossexuais.

Revolta em Teerão | 2

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Enquanto Teerão continua a silenciar os jornalistas internacionais, as imagens que chegam ao mundo através do IranTube são verdadeiramente chocantes. A intolerância do regime religioso de Teerão voltou a vestir-se da sombria face da morte. Tal como num passado não muito distante aconteceu na Europa, a intolerância religiosa continua a ceifar inocentes enquanto alá esfrega um olho...

A ler: Não sabia que ainda havia destes maluquinhos, por João Galamba.

Revolta em Teerão

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IRAN EXECUTION HANGING Irão Execuções Pena de morte vergonha Teerão
© r.karthikeyantamil

Mahmoud Ahmadinejad foi declarado vencedor das eleições presidenciais no Irão. Os resultados têm sido fortemente contestados nas ruas pelos apoiantes do principal candidato da oposição, Mir-Hossein Moussavi. Indiferente às acusações de fraude, o Supremo Líder do Irão, ayatollah Ali Khamenei, apela a todos os iranianos para que apoiem o Presidente eleito. Aliás, outra coisa não seria de esperar dos líderes religiosos do país, sequiosos de continuar a impor a sua doutrina a todos os cidadãos e cidadãs do Irão. Nas últimas horas surgiu a informação de que o candidato da oposição teria mesmo sido detido.

Daniel Oliveira, no Arrastão, chama a atenção para o confronto entre um «Irão moderno, jovem e urbano» que apoia maioritariamente Moussavi e «outro pobre e conservador» fiel ao Presidente Ahmadinejad. Na verdade, qualquer que tenha sido o verdadeiro resultado das eleições, é certo que há uma fatia considerável de iranianos empenhada em impor a teocracia a todos os outros, numa inaceitável ditadura religiosa que continua a violar os Direitos Humanos a um ritmo verdadeiramente assustador perante a passividade da comunidade internacional.

A ler: O despertar de um Irão livre ou a verdadeira face de uma teocracia?, por Palmira Silva; Iranian elections: live, no Guardian; Scuffles in Tehran as Ahmadinejad and Mousavi both claim victory, no Times.

Adenda: 14/06/2009, 02.00.
Latest: Tehran Streets Iran Irão Revolta Revolução Eleições Mousavi
© mousavi1388

Um dia depois de ter sido falsamente anunciado o fim do twitter, é no twitter que Mousavi, a mais recente vítima da intolerância da teocracia iraniana, anuncia a ilegítima prisão domiciliária a que foi sujeito. «Dear Iranian People, Mousavi has not left you alone, he has been put under house arrest by Ministry of Intelligence», assim se lê na página oficial do líder da oposição iraniana, cujos apoiantes levam até às ruas de Teerão a mais ruidosa das indignações perante a mais que provável fraude eleitoral. Mousavi, apoiado esmagadoramente pelo eleitorado jovem, urbano e feminino, é o rosto da libertação do Irão do jugo castrador imposto pela revolução cultural islâmica promovida pelos líderes religiosos e secundada pelo presidente Ahmadinejad.

A ler: «The government is trying to hide the fact that Mir-Hossein Mousavi won», num impressionante relato a partir de Teerão de uma estudante iraniana; Detidos cem responsáveis reformistas iranianos após noite de tumultos, no Público; Ahmadinejad responde a revolta com bloqueio a telemóveis, no DN.

Do Ecumenismo Homofóbico

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«Um bispo anglicano nigeriano pediu ao Parlamento que impeça os casamentos entre homossexuais. E como medida adicional a prisão para quem tiver a coragem de aparecer na boda.» [Público]

Os bispos cristãos prosseguem a sua campanha contra os homossexuais. Depois das críticas veladas da Conferência Episcopal Portuguesa, dos insultos do Cardeal Saraiva e da intromissão dos bispos espanhóis na campanha contra Zapatero, foi a vez de um bispo anglicano da Nigéria qualificar a homossexualidade como «uma perversão, um desvio e uma aberração capaz de engendrar o holocausto moral e social».

Não deixa de ser irónico que o ódio contra os homossexuais seja o assunto que mais consistentemente une os discursos da maioria das religiões e seitas em todo o mundo.

Teimosias Que Matam

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«No avião que o leva de Roma para Yaoundé, nos Camarões, o chefe da Igreja Católica insistiu em que o problema da seropositividade "não se pode resolver com a distribuição de preservativos", pois que, "pelo contrário, isso só irá complicar a situação"[Público]

Há uns dias, um padre diocesano meu amigo confessava que ficava angustiado quando ouvia o Papa Bento XVI dizer certas coisas. Quando leio as notícias mais recentes, compreendo ainda melhor essa angústia. As declarações de Joseph Ratzinger são de uma irresponsabilidade atroz, deitando por terra todo o trabalho que vem sendo efectuado pelas organizações não-governamentais no terreno, algumas das quais católicas.

A campanha contra o uso do preservativo é uma daquelas teimosias que mata. E, tal como em 12 de Março de 2002, ainda virá o dia em que nos pedirão desculpas por tudo isto. Como sempre, será tarde demais...

A ICAR Explicada às Crianças

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Uma menina de 9 anos foi violada pelo padrasto, tendo ficado grávida de gémeos. Devido à idade da criança, o organismo ainda não está preparado para suportar as alterações fisiológicas da gravidez, havendo alto risco de morrer ou de ficar com sequelas irreversíveis. A mãe e os médicos decidiram, muito sensatamente, proteger a criança, interrompendo a gravidez. O arcebispo da terrinha excomungou-os por terem garantido a salvaguarda dos interesses da criança violada.
*ICAR = Igreja Católica Apostólica Romana

A ler: Católicas pelo Direito de Decidir, por Ana Matos Pires.

A Homofobia Não Tem Limites?

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Há pouco mais de dois anos, Jacobo Piñeiro espetou por 57 vezes uma faca no corpo de dois homossexuais. Não satisfeito, ateou fogo à habitação em que se encontravam. O caso arrepia não só pelos evidentes contornos de cruel homofobia, mas também pelos requintes de malvadez do acto. Apesar disso, um grupo de jurados (civis chamados a proferir uma decisão judicial) decidiu inocentar o assassino, alegando que agiu em legítima defesa por ter medo de ser violado pelo infortunado casal.

«Deixais livre um assassino confesso», grita, em desespero, a mãe de uma das vítimas. Imagine, só por um instante, que isto acontecia ao seu filho... Mesmo admitindo a versão do assassino como verdadeira, o que está longe de estar demonstrado, será que o medo de ser violado justifica um assassínio cruel? A decisão seria a mesma se as vítimas fossem um casal heterossexual? E como aconteceria se o júri fosse constituídos por juízes profissionais?

Da homofobia do assassínio à crueldade discriminatória da decisão do jurado, os trágicos acontecimentos de Vigo são um retrato bem fidedigno da sociedade em que vivemos, expondo os efeitos nefastos das campanhas de intoxicação da opinião pública que têm sido levadas à prática pelos grupos religiosos e conservadores. A sociedade não é insensível à homofobia que se pressente nos discursos falsamente misericordiosos de quem está num posição de privilegiado ascendente sobre os grupos menos instruídos da população.

Tal como aconteceu com os pretos, os grupos religiosos e conservadores tardam em assumir a riqueza da diversidade humana, acotovelando-se na censura às leis anti-discriminatórias e esquecendo-se de condenar com verdadeira veemência a homofobia assassina e as condenações da homossexualidade do apedrejamento à morte, infelizmente tão comuns nos nossos dias.

A ler: Indignación por el fallo que absuelve de asesinato al joven Jacobo Piñeiro, Galicia Hoxe; Los dos jóvenes asesinados en la calle Oporto recibieron 60 puñaladas, Faro de Vigo; ¿57 puñaladas en defensa propia?, El Pais; Un jurado popular absuelve al autor del crimen de una pareja homosexual, El Mundo; Un jurado homófobo, La Sexta; Absuelven a un hombre que confesó haber apuñalado a sus dos víctimas, Antena 3; El crimen de Vigo pone en duda el jurado popular, Xornal de Galícia; «Dejáis libre a un asesino confeso», gritó la madre de Isaac, La Voz de Galícia.

O Absurdo (Quase) Dispensa Comentários

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Pierre Brueghel (1525-1569)
© Pierre Brueghel (1525-1569)

Sem qualquer fundamento credível e à revelia dos consensos médicos e científicos, os bispos dizem que o prolongamento da homossexualidade «pela idade jovem e adulta denota a existência de problemas de identidade pessoal». Ao escolher o caminho da segregação teimosa e ignorante, a Igreja Católica continua a afundar-se no pântano do preconceito.

A Igreja É, Mais Coisa Menos Coisa, Isto

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«A homossexualidade não é normal, temos que dizê-lo [...] Não é normal no sentido de que a Bíblia diz que quando Deus criou o ser humano, criou o homem e a mulher. É o texto literal da Bíblia, portanto esse é o princípio sempre professado pela igreja[Cardeal José Saraiva Martins]

A Igreja Católica mantém-se fiel a ideias perfeitamente desmentidas por todas as evidências que a sociedade e, em particular, a ciência nos vão demonstrando. Apesar disso, os católicos moderados tentam apagar ou desvalorizar estes momentos infelizes, alegando que «esta gente não fala pela instituição». Mas fala. Ser católico é, precisamente, professar crença na «Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana», nesta gente que apela à discriminação dos homossexuais pela propaganda à sua «anormalidade».

É Mentira, Senhores Bispos!

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Artigo 36.º
(Família, casamento e filiação)

1. Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.

2. A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte ou divórcio, independentemente da forma de celebração.

3. Os cônjuges têm iguais direitos e deveres quanto à capacidade civil e política e à manutenção e educação dos filhos.

[Constituição da República Portuguesa, 2005]

O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa afirmou hoje que o casamento entre pessoas do mesmo sexo «viola a Constituição, que fala de um casamento entre homem e mulher». Se os bispos falam da Constituição Portuguesa e se a Constituição não foi alterada à revelia do Parlamento, as declarações de Manuel Morujão são muito infelizes dada a sua falsidade.

Como comprova o artigo supracitado, a Constituição da República Portuguesa não se refere, em parte alguma, ao casamento como uma união entre um homem e uma mulher. Pelo contrário, é taxativa ao afirmar que «todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade».

Se outras evidências não chegassem, o recurso à mentira é sempre uma prova da fraqueza. Deixem-se disso!

Adenda - Eu não quero acreditar que a Igreja Católica vai intrometer-se na campanha eleitoral para as próximas eleições legislativas. Se o fizer, a resposta do eleitorado português será seguramente da mesma amplitude que tiveram em Espanha e o Partido Socialista renovará com maior segurança a maioria absoluta.

A Bizarra História de Eluana Englaro

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Em 1992, Eluana Englaro foi vítima de um terrível acidente de viacção que a atirou para um longo e profundo estado de coma. Após uma penosa batalha jurídica que durou mais de dez anos, os seus pais conseguiram que o Tribunal Constitucional italiano decretasse a suspensão da alimentação artificial que mantém a integridade das suas funções vegetativas.

Após o anúncio da decisão, Sílvio Berlusconi reuniu com o Vaticano e iniciou uma série de manobras políticas que estão a mergulhar a Itália numa perigosa crise constitucional. Para além de ter feito aprovar uma Lei que proíbe o cumprimento da decisão judicial, o governo de Berlusconi iniciou uma perseguição à clínica onde a jovem se encontra internada, lançando suspeitas de ilegalidades administrativas no seio da mesma. Os pais da jovem Eluana continuam a sua longa batalha, denunciando que «Berlusconi enfrentou o Presidente da República para tentar deter a legalidade» e acrescentando que «a Igreja (católica) não tem nada a ver com este assunto» nem lhe deveria impor os seus valores.
Segundo Berlusconi, Eluana Englaro não pode morrer porque, pelo menos fisicamente, ainda está em condições de ter filhos. Eu não quero crer que a opinião pública europeia e, em particular, a italiana corroborem este tipo de afirmações ignóbeis que reduzem toda a existência feminina ao útero potencialmente reprodutor.

Independentemente da posição individual que cada um tiver nestas matérias, convém ter presente, como bem assinala Laura Ferreira dos Santos, que «é tempo de reconhecermos devidamente o pluralismo ético em que estamos envolvidos, em que não há uma única perspectiva do que é, ou pode ser, uma vida (moralmente) boa».
[Soube-se agora que Eluana morreu.]

Das Prioridades

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«Pelo menos seis jovens portugueses abandonaram o sistema escolar nos últimos dois anos por não conseguir aguentar a discriminação perante a sua orientação sexual. E oito admitem ter mesmo tentado o suicídio.» [JN]

Quando José Sócrates anunciou que o Partido Socialista vai propor o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa apressou-se a dizer que é «desproporcionado que o partido do governo se fixe neste assunto dos casamentos homossexuais, quando há tantos problemas graves e gritantes na nossa sociedade actual.» O argumento da Igreja Católica é, obviamente, falacioso, demagógico e populista.

Em primeiro, porque é manifestamente desproporcionado dizer que o partido do governo se fixou no assunto. A medida foi anunciada por entre muitas outras e o destaque informativo é da exclusiva responsabilidade dos órgãos de comunicação social;

em segundo, porque a resolução deste problema social que afecta alguns portugueses não colide com a procura de soluções para os outros graves e gritantes problemas da nossa sociedade actual;

em terceiro, porque não se percebe a postura da Igreja Católica enquanto principal promotor da homofobia militante em Portugal quando se sabe que há pessoas que sofrem até à morte pela discriminação das sociedades religiosas mais tradicionais.

Associação Ateísta Solidariza-se com Cardeal

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«A Associação Ateísta Portuguesa (AAP), sem se rever nos conselhos do Sr. Patriarca, José Policarpo, às católicas jovens que eventualmente queiram casar com muçulmanos, manifesta-lhe pública solidariedade perante a onda de falsa indignação com que pretendem impedir-lhe o direito à livre expressão e aos conselhos que entende dar.

Carecem de legitimidade moral para condenar o patriarca, por sinal bastante tolerante, para um bispo, os que defendem a poligamia, a discriminação das mulheres, a decapitação dos apóstatas e a lapidação das mulheres adúlteras e pretendem que o Corão substitua o Código Penal.

Antes de se manifestarem ofendidos com o cardeal, os líderes islâmicos em Portugal devem penitenciar-se do seu silêncio perante as ditaduras teocráticas do Médio Oriente e o carácter implacavelmente misógino do Islão. Face a qualquer mullah até Bento XVI parece um defensor dos Direitos do Homem.

Quem pretende que compreendam os seus preconceitos tem de os explicar com clareza. E quem quiser que respeitem as suas crenças tem de demonstrar que estas merecem algum respeito. Falta aos muçulmanos europeus explicar a que tipo de regime submeteriam os não muçulmanos se deixássemos que Alá se tornasse grande e Maomé fosse o único profeta. Falta-lhes justificar porque havemos de respeitar as suas crenças acerca das mulheres, dos apóstatas, dos outros crentes, dos ateus e de todos que critiquem a sua religião.

Mas compete também aos bispos católicos fazer o mesmo. Explicar o que fez a sua religião pela democracia e pelo livre-pensamento, sabendo-se que a derrota política da Igreja está na origem das liberdades individuais de que gozamos. E justificar porque hão de merecer respeito as crenças católicas acerca das mulheres, do divórcio, do sacerdócio, da homossexualidade e do que é ou não é pecado.

Não são só os muçulmanos que criam um "monte de sarilhos" sem necessidade. A AAP recorda que as três religiões do livro – judaísmo, cristianismo e islamismo – são anti-humanas e patriarcais. A misoginia não é uma tara exclusiva do Islão mas apanágio do texto bárbaro da Idade do Bronze – o Antigo Testamento –, herdada pelas referidas religiões. O racismo, a xenofobia, a misoginia e a homofobia são valores do Antigo Testamento.

As três religiões não têm feito mais do que reproduzir esses valores cruéis e obsoletos sendo o Islão, actualmente, a religião que mais implacavelmente se bate pela manutenção do obscurantismo.

A AAP reitera o seu firme propósito de defender as liberdades, nomeadamente a religiosa, do mesmo modo que defende o direito à descrença e à anti-crença.»

[Associação Ateísta Portugesa, via Jugular]

A Ecologia do Holocausto

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«A natureza não é exemplo moral seja para quem for. Ninguém me defende o direito de matar os filhos que a minha mulher teve com outro homem, à semelhança do que fazem os leões. Ou o direito de fazer sexo na rua com quem me der na gana, como os cães. Não devemos procurar orientação moral na natureza, mas sim no nosso pensamento articulado, pesando cuidadosamente os prós e os contras do que fazemos. A natureza não é o fundamento da moralidade. Se o fosse, seria imoral viver até aos setenta anos, dado que estamos biologicamente programados para viver enquanto nos reproduzirmos e depois rebentar. Caso fosse a natureza a orientar-nos a moralidade, ser Papa seria o cúmulo da imoralidade.» [Desidério Murcho, Público]

A par de todos os preconceitos, o que verdadeiramente choca nas declarações do Papa é a sugestão de uma ecologia humana que expurgue a Humanidade daquilo que a Igreja Católica abjecta. Convém lembrar aos que condescendem com estas teorias e delírios profundamente Nietzschianos que da última vez que a ideia de uma ecologia humana foi levada à prática tivemos o Holocausto que se conhece.

A ler: Santa Hipocrisia, por André Couto; Pensamentos Natalícios, por Adão; Invocar a Natureza Quando Convém, por João Galamba; What Benedict Actually Said, por Andrew Sullivan.

Não Me Comovo

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The Burning Times - an engraving by Jan Luyken of women being burned as witches or heretics
© rosewithoutathorn8

A história de Galileu é uma exemplar metáfora do modus operandi da Igreja Católica Apostólica Romana. Sabendo-se que a busca da salvação é um produto que só vende quando há sentimento de culpa é necessário investir forte na bolsa de valores do pecado. Neste capítulo, o contrariar da natureza humana é o viveiro mais profícuo. Pecas se vives amantizado e pecas se fornicas sem procriar. Pecas se desmanchares para não sofrer e pecas se viveres como sodomita. Pecas se racionares mais que o devido e pecas se investigares para lá do permitido. Pecas se não admirares a beleza da criação e pecas se te enfastiares com a verborreia doutrinária. Tudo é pretexto para exponenciar a necessidade da conversão.

Também Galileu pecou por mostrar aos homens que a verdade era diferente do que a Igreja contava e, por causa disso, foi perseguido e obrigado a converter-se ao obscurantismo dogmático. Depois de séculos de silêncio sobre a perseguição e condenação daquele cientista, o Vaticano tem repetido os elogios e pedidos de perdão pela sua envergonhante conduta. Mas, sabendo que todos os pedidos de desculpa são inúteis quando desacompanhados da necessária mudança de atitude, não me comovo com os recentes elogios do Papa Bento XVI aos trabalhos desenvolvidos pelo cientista Galileu.

A atitude da Igreja Católica, pretensamente transbordante da mais genuína humildade, esvazia-se quando se conhecem os contornos da nova inquisição contra a ciência, os ateus, os homossexuais ou as liberdades individuais de cada cidadão. Não esqueçamos que, enquanto o Vaticano se redime pela censura dos esforços científicos de Galileu, continua a promover todos os esforços para obstaculizar o desenvolvimento científico que salva vidas, evangelizando contra a selecção de embriões ou a clonagem. Mas, tal como sucedeu com a verdade de Galileu, virá o dia em que se tornará inevitável elogiar o trabalho dos ímpios cientistas que hoje, por via da descoberta e aplicação dessas técnicas, vão tornando mais salutar e aprazível a vida de muitos milhões de pessoas.

Lindas Mensagens de Natal

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«...e àqueles que O rejeitam.
"Mas quem não crê já está condenado" [João 3:18]
A decisão é sua!»

Na tarde de ontem, um grupo de seis ou sete jovens cantava alegremente na Avenida Central, enquanto distribuíam estas lindas mensagens de natal.
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

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