A Agência Lusa convidou-me para uma entrevista a propósito da conclusão do meu curso de Medicina. Nada aparentemente diferente das cerca de 30 entrevistas que dei a diversos órgãos de comunicação social ao longo dos últimos 10 meses. A surpresa chegou quando me deparei com o texto publicado: pouco do que a jornalista escrevera transmitia o espírito do que fora dito por mim e pela minha colega Paula Fidalgo e, ainda mais grave, havia citações de frases que eu nunca proferi e com linguagem que, definitivamente, não utilizo naquele contexto. Contactei a jornalista que me pediu que enviasse uma correcção. Assim fiz. A correcção da Lusa, no entanto, apenas versa sobre um dos aspectos focados e continua a apresentá-lo de forma descontextualizada.
Transcrevo a comunicação que fiz à Agência Lusa e ao seu Director, aguardando que a verdade seja reposta.
«Tendo tido conhecimento da divulgação de uma notícia sobre os novos licenciados em Medicina da Universidade do Minho, a propósito de uma entrevista por nós concedida durante a tarde de ontem à Agência Lusa, cumpre-nos esclarecer que apesar de conter algumas afirmações que correspondem ao que por nós foi dito, muitas das ideias veiculadas e das frases citadas não correspondem àquilo que foi transmitido ao longo da referida conversa, encontrando-se outras completamente descontextualizadas.
1. «Tanto a universidade como os hospitais de Braga e de Guimarães fizeram um grande investimento em nós. Não só por sermos os primeiros alunos mas também porque a Escola de Ciências da Saúde vai ficar conhecida pela formação humana que dá aos futuros médicos». Estas afirmações não foram feitas na sequência/contexto apresentado. O que foi dito é que «Tanto a universidade como os hospitais de Braga e de Guimarães fizeram um grande investimento em nós, não só por sermos os primeiros alunos, mas também porque acreditam e estão motivados para o projecto de ensino-aprendizagem.» Noutro contexto foi dito que «a Escola de Ciências da Saúde vai ficar conhecida pela formação humana que dá aos futuros médicos ».
2. «há mais investigação e mais meios nos hospitais centrais». A afirmação é da jornalista e não da Paula Fidalgo. Em resposta à pergunta, Paula Fidalgo afirmou que os principais motivos que a prendiam ao eixo Porto-Braga eram a família e as oportunidades destas regiões e não necessariamente as condições dos hospitais.
3. «lutou durante todo o curso "contra o preconceito de que só os alunos com dinheiro é que estudam medicina" ». Esta afirmação não corresponde ao que foi dito. O que se disse foi: "é preciso desconstruir a ideia de que as pessoas só vão para Medicina por causa do dinheiro".
4. Por outro lado, a afirmação "Vou trabalhar e ser pago por isso. Não vou fazer beneficência" surge de uma forma completamente descontextualizada. O que foi dito é que as pessoas não deviam ver a medicina como beneficiência, mas sim como um serviço prestado à comunidade com competência científica, técnica e humana e, obviamente, remunerado.
5. «No início, algumas pessoas e algumas instituições torciam o nariz ao curso de Medicina em Braga ». Esta afirmação foi feita pela jornalista e não pelos alunos. E à pergunta que se seguiu (qual é a vossa opinião?) a resposta dos alunos foi precisamente: "no início sentimos alguma desconfiança não da parte das instituições mas apenas de algumas pessoas. Com o tempo sentimos que a maioria das pessoas procurava aprender com a experiência pedagógica do nosso curso, tendo mesmo sido convidados para falarmos sobre essa experiência em pelo menos duas faculdades clássicas."
6. «Entre essas iniciativas, alguns estudantes incluíram "fazer campanha pelo Sim no referendo pela Despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez» Esta afirmação surge mais uma vez completamente descontextualizada. Em momento algum foi afirmado que a campanha para o referendo fazia parte das iniciativas do curso de Medicina. Em resposta à pergunta da jornalista "Custa-me compreender os médicos que são objectores porque a função do médico devia ser exactamente ajudar quem procura ajuda?", Pedro Morgado afirmou: "Compreendo perfeitamente a posição de quem é objector de consciência. Estou à vontade para falar sobre este assunto porque até fiz campanha pelo sim, mas quando se fala de IVG têm que se respeitar os valores e as convicções de cada pessoa e assunto é bastante mais complexo do que a simples vontade da mulher…"
7. "Tenho a certeza que a grande maioria dos licenciados na Escola de Ciências da Saúde não será objector de consciência " Esta afirmação é completamente falsa. Quando questionados sobre a sua percepção sobre esta matéria os alunos responderam que não poderiam falar pelos colegas e que, por ser um assunto recente, ainda não tinha sido muito debatido entre eles.
Porque o direito de informar não pode estar dissociado do dever de informar com rigor e verdade, vimos solicitar a rápida reposição das afirmações feitas e a alteração do teor e do conteúdo da notícia apresentada.
Atenciosamente,
Paula Fidalgo e Pedro Morgado.»
Tantas horas depois, a notícia mantém-se... Todos temos dias maus. Ontem, a jornalista não captou, de modo algum, a mensagem que lhe transmitimos. A Lusa não pode dar-se ao luxo de colocar nas minhas palavras afirmações que nunca proferi.
Assim se faz mau jornalismo em Portugal.
Adenda - A Agência Lusa informou-me telefonicamente que a notícia iria ser retirada. Mas a notícia continua a ser replicada pelos jornais. (RTP, Correio da Manhã)
César das Neves é tão pós-moderno quanto a Floribela
A última homilia de João César das Neves não merecia mais comentários para além do que, muito sensatamente, sugere O Jumento: «Arquive-se por cheirar ao mofo das sacristias.» Mesmo assim, sugere-se a avisada leitura de Mais um Serviço Womenage, Sexo pela Pátria, Momento Zen de Segunda e Este Post Não Existe. Boas leituras.
Braga: Silly City
Ao bom estilo provinciano, tudo fecha durante em Agosto nesta cidade. Como se o deleite de ler um bom livro não fosse o mesmo, como se estudar pudesse ser circunscrito aos horários de expediente, como se a investigação se compadecesse com os horários dos gabinetes, como se a cultura se pudesse dar ao luxo de injustificados hiatos. Até o Theatro Circo foi de férias. Com essas férias percebemos, com maior clareza, que as promessas de cultura todos os dias não passaram de promessas e a anunciada qualidade da programação não é mais que um eufemismo para estranhas parcerias. O Theatro Circo não pode trair tão cruelmente as expectativas da cidade, adicionando desencanto à desilusão (e, ainda por cima, havia um interessante mercado a explorar durante o mês de Agosto).Ao contrário do que seria expectável e desejável, tudo convida ao êxodo estival. Os encerramentos temporários, os encurtamentos dos horários e as más disposições dos funcionários acrescentam inferno ao inferno que é o Agosto bracarense. Ficamos entregues ao fumo do café do bairro, aos solenes desfiles de estandartes e andores, às Ágatas pindéricas, às farturas gordurosas, à música parola que alguns carros com matrículas estranhas nos impingem, aos centros comerciais em saldo e aos festejos populares de Dume, Arentim, Adaúfe ou Pedralva.
Valham-nos o BrunoSpot e o Fotocafé que, lavando a cara, são a única gota de novidade no estival deserto bracarense.
Causas do Nosso Atraso e Urbanismo Caótico
Há coisas que não se compreendem. Além do que já se sabe (o urbanismo bracarense e minhoto é um caos demasiado real), a visita que os estudantes de Direito da Universidade do Minho realizaram desvenda as coisas estranhas que, invariavelmente, justificam muito do nosso atraso estrutural: «Este terreno foi vendido a uma empresa privada de construção por 4,5 milhões de euros, por uma entidade estatal, como Reserva Agrícola. Um ano depois, valia 12 milhões e a reserva agrícola deixava de existir: o encanamento do rio existente resolveu o problema».
Como houve um negócio destes, imagino que possam existir, por esse imenso Portugal, súbitas e injustificadas alterações dos Planos Directores, desvios convenientes de rios, autorizações de projectos estranhos e desenquadrados e cedências ruinosas de espaços públicos para construção de infra-estruturas privadas. Não sei o que há. Será que o senhor Procurador Geral da República sabe?
Como houve um negócio destes, imagino que possam existir, por esse imenso Portugal, súbitas e injustificadas alterações dos Planos Directores, desvios convenientes de rios, autorizações de projectos estranhos e desenquadrados e cedências ruinosas de espaços públicos para construção de infra-estruturas privadas. Não sei o que há. Será que o senhor Procurador Geral da República sabe?
Ideias para Braga: Reorganizar a Sinalética
Normalmente, as placas colocadas nas ruas e eixos viários servem para ajudar os condutores e orientar o trânsito. Em Braga, as placas servem para... baralhar. Quem entra na cidade vindo de Chaves e quer ir para o Porto encontra uma primeira placa que indica que deve manter-se na faixa central para seguir em direcção à A3 (a indicação "Porto" era desejável aqui). Mas, uns metros à frente, desaparece a indicação da A3 e a sugestão da Câmara de Braga para ir para o Porto é passar para a faixa da esquerda, atravessar toda a rodovia e seguir pela EN14. Por outro lado, a indicação do "Parque da Ponte" é, no mínimo, curiosa. Imagino que as pessoas que chegam a Braga não virão propriamente à procura de um jardim abandonado... Em vez disso, afigura-se-me como bem mais útil indicarem o melhor trajecto para o Parque de Exposições ou a Estação de Caminhos de Ferro.Em Braga, a sinalética é uma tremenda confusão. A poluição visual é enorme: existem uns 10 tipos de placas diferentes não havendo qualquer coerência gráfica nem sentido de estética na colocação das mesmas. Na rotunda das piscinas, por exemplo, a placa que indica o cemitério público está misturada com indicações para shoppings, stands e hóteis. Junto ao Braga Parque surge uma indicação de "trânsito local". Parecia-me mais preciso e adequado indicar "Qta dos Congregados" e "Enguardas", que são as principais zonas habitacionais servidas por aquele desvio.
Estes são apenas alguns exemplos. Fica o alerta: é tempo de se reorganizar toda a sinalética da cidade.
A Regionalização é a única saída
Na edição de hoje do Jornal de Notícias, António Marques, Presidente da Associação Industrial do Minho, traça um interessante retrato económico e político do Minho, do Norte e do país centralista e centralizador: o diagnóstico apresentado é o correcto e as soluções propostas parecem as mais acertadas.
O Diagnóstico:
«E há uma incompetência a Norte para criar uma rede de cooperação entre actores, as instituições e a sociedade civil. No Norte as pessoas unem-se para protestar, mas não para apresentar soluções.»
«não há liderança a Norte e, pior, há uma fragilidade da rede institucional na região. Os actores são convidados a desunirem-se - há um subsídio para aqui, um programa acolá, uma iniciativa ali. Qualquer Poder faz isso deliberadamente - dividir para reinar. As autarquias não se entendem, nem as associações, as universidades só agora começam a trabalhar em conjunto, as empresas não trabalham com as universidades, as universidades acham que os empresários não estão lá. Além da ausência de liderança, conjugada com a fragilidade da rede institucional, o processo de descentralização parou.»
As Soluções:
«É necessária a regionalização.»
«É preciso legitimar o poder político local, o que só se consegue através da regionalização. Porque é mais fácil decidir conhecendo os problemas concretos, estando mais próximo de quem se terá de responder politicamente. As entidades que decidem sobre as regiões não as conhecem. É por isso que as políticas públicas parecem, por vezes, um contra-senso, pouco adequadas às regiões e às suas especificidades.»
No essencial estou completamente de acordo com a visão apresentada por António Marques. Aliás, o seu diagnóstico e as suas soluções vão ao encontro de muito do que aqui havia escrito. De toda a entrevista destacaria negativamente uma única passagem em que o Presidente da AIMinho diz que «Qualquer modelo [de regionalização] serve, desde que se faça». Parece-me que não podemos nem devemos ser tão ligeiros nas afirmações que fazemos, sob pena de acabarmos a defender a regionalização como um fim em si mesma.
De qualquer modo, a entrevista marca uma viragem no discurso dos agentes económicos do Minho. É essencial e é urgente que o processo de regionalização entre em velocidade de cruzeiro. Num momento em que estão reunidas na sociedade civil todas as condições para que se possa avançar ainda antes de 2009, só parece faltar vontade aos partidos políticos, apostados em deixar o referendo para depois das legislativas. No entanto, a importância deste processo não pode continuar refém das agendas político-partidárias eleitorais.
O Diagnóstico:
«E há uma incompetência a Norte para criar uma rede de cooperação entre actores, as instituições e a sociedade civil. No Norte as pessoas unem-se para protestar, mas não para apresentar soluções.»
«não há liderança a Norte e, pior, há uma fragilidade da rede institucional na região. Os actores são convidados a desunirem-se - há um subsídio para aqui, um programa acolá, uma iniciativa ali. Qualquer Poder faz isso deliberadamente - dividir para reinar. As autarquias não se entendem, nem as associações, as universidades só agora começam a trabalhar em conjunto, as empresas não trabalham com as universidades, as universidades acham que os empresários não estão lá. Além da ausência de liderança, conjugada com a fragilidade da rede institucional, o processo de descentralização parou.»
As Soluções:
«É necessária a regionalização.»
«É preciso legitimar o poder político local, o que só se consegue através da regionalização. Porque é mais fácil decidir conhecendo os problemas concretos, estando mais próximo de quem se terá de responder politicamente. As entidades que decidem sobre as regiões não as conhecem. É por isso que as políticas públicas parecem, por vezes, um contra-senso, pouco adequadas às regiões e às suas especificidades.»
No essencial estou completamente de acordo com a visão apresentada por António Marques. Aliás, o seu diagnóstico e as suas soluções vão ao encontro de muito do que aqui havia escrito. De toda a entrevista destacaria negativamente uma única passagem em que o Presidente da AIMinho diz que «Qualquer modelo [de regionalização] serve, desde que se faça». Parece-me que não podemos nem devemos ser tão ligeiros nas afirmações que fazemos, sob pena de acabarmos a defender a regionalização como um fim em si mesma.
De qualquer modo, a entrevista marca uma viragem no discurso dos agentes económicos do Minho. É essencial e é urgente que o processo de regionalização entre em velocidade de cruzeiro. Num momento em que estão reunidas na sociedade civil todas as condições para que se possa avançar ainda antes de 2009, só parece faltar vontade aos partidos políticos, apostados em deixar o referendo para depois das legislativas. No entanto, a importância deste processo não pode continuar refém das agendas político-partidárias eleitorais.
Sobre o Metro Braga-Guimarães
Ao longo dos últimos meses, a blogsfera minhota tem centrado as suas atenções na discussão sobre a reorganização/construção de uma rede de transportes ferroviários no Minho, sem que os actores políticos mostrassem grande interesse no projecto. Mas, como refere Pedro Pereira, os políticos regionais «andam mesmo a ler os blogues». A inscrição da construção de uma ligação de Metro entre Braga e Guimarães na lista das intervenções prioritárias é o primeiro caso em que, com suficiente evidência, a discussão na blogosfera precedeu a agenda dos políticos do Minho, indo ao encontro da importância reclamada para os blogues minhotos no 1º Encontro de Blogues do Minho (o único sinal político relevante prévio à discussão blogosférica foi o anúncio tímido, em Abril de 2006, de um estudo da Câmara de Guimarães sobre esta matéria).
O Metro deve ser encarado a grande prioridade do Minho para os próximos anos. É esse sinal que nos chega de Ricardo Gonçalves, deputado socialista, num artigo de opinião publicado no Jornal Primeiro de Janeiro da passada Terça-Feira. É esse sinal que esperamos de todos os partidos. É urgente recolocar o Minho no (seu) lugar.
O Metro deve ser encarado a grande prioridade do Minho para os próximos anos. É esse sinal que nos chega de Ricardo Gonçalves, deputado socialista, num artigo de opinião publicado no Jornal Primeiro de Janeiro da passada Terça-Feira. É esse sinal que esperamos de todos os partidos. É urgente recolocar o Minho no (seu) lugar.
Importam-se de repetir?
A Juventude Popular de Esposende, sempre expedita na defesa da (sua) moral e dos (seus) bons costumes, diz que «devem ser privilegiados os espaços de proximidade, como sejam os cafés ou bares em detrimento de espaços de grande aglomeração de pessoas, nomeadamente discotecas». E acrescenta que «as pessoas preferem ter os seus filhos no café das suas localidades do que em discotecas».
Os jotinhas têm razão. As discotecas são locais nauseabundos onde se fumam coisas esquisitas e há demasiado suor a escorrer pelos corpos. Já os espaços de proximidade têm um ambiente muito mais convidativo para uma tertúlia sobre a homilía do domingo que passou, sobre a última colecção da Gant ou sobre os horrores anti-natura da sociedade pôs-moderna, temas que certamente preenchem as conversas dos jovens conservadores da praia de Braga.
Eu vou mais longe: sugiro aos jotinhas que se opinem também sobre a qualidade da música que passa nas discotecas. Estou certo de que as pessoas preferem ter os filhos a ouvir João Pedro Pais e André Sardet do que essas inglesadas horríveis a bombar...
Os jotinhas têm razão. As discotecas são locais nauseabundos onde se fumam coisas esquisitas e há demasiado suor a escorrer pelos corpos. Já os espaços de proximidade têm um ambiente muito mais convidativo para uma tertúlia sobre a homilía do domingo que passou, sobre a última colecção da Gant ou sobre os horrores anti-natura da sociedade pôs-moderna, temas que certamente preenchem as conversas dos jovens conservadores da praia de Braga.
Eu vou mais longe: sugiro aos jotinhas que se opinem também sobre a qualidade da música que passa nas discotecas. Estou certo de que as pessoas preferem ter os filhos a ouvir João Pedro Pais e André Sardet do que essas inglesadas horríveis a bombar...
Braga: Futuro do 'quarteirão' dos Correios ainda por definir
O Correio do Minho fez notícia da venda do 'quarteirão' dos Correios a uma imobiliária do grupo espanhol Confecções Regojo Velasco, Lda.A dissociação dos edifícios mais relevantes das actividades a que tradicionalmente estavam associados é sempre uma perda dolorosa e embora a notícia seja recebida com uma certa nostalgia, a verdade é que esta venda não é mais que um sinal dos tempos. Na era digital, os correios de papel perderam muita da sua relevância, surgindo naturalmente o abandono dos edifícios mais emblemáticos e centrais das cidades.
No entanto, o que verdadeiramente me inquieta é o destino a dar a uma das zonas mais belas e importantes da cidade. O Correio do Minho, tradicionalmente bem informado nestas matérias que versam sobre negócios em que a Câmara está envolvida, especula que estará em cima da mesa a construção de um parque de estacionamento e de um centro comercial de luxo. Por outro lado, é essencial não esquecer que, a expensas das finanças públicas, aquela zona será brevemente tornada área pedonal, o que aumenta significativamente o seu aspecto exterior e o seu valor comercial.
De qualquer modo, há alguns princípios que me parece essencial preservar: 1) a renovação do edifício dos correios deve respeitá-lo arquitectonicamente tal como está (ao que parece isso estará garantido); 2) não deverá ser permitida a construção de nenhum edifício com altura superior à do o actual prédio dos correios; 3) deverá ser negociado o alargamento da rua entre este 'quarteirão' e o edifício do Hospital de São Marcos; 4) deverá ser negociado, na medida do possível, o alargamento da Rua do Raio para permitir uma maior exposição visual do Palácio do Raio.É natural que a imobiliária pretenda rentabilizar ao máximo o seu investimento. É positivo que a renovação do centro se faça também por intermédio da intervenção de privados. É essencial que a Câmara saiba respeitar o carinho que os bracarenses têm por aquele que é o seu espaço urbano e não pactue com mais nenhum atentado urbanístico. Tenho a plena convicção de que não se repetirão erros antigos, mas nunca se sabe...
O Culto do Ridículo
Pedro Sales, em tom irónico, critica o circo televisivo que os canais generalistas nos impõem nos seus noticiários de Verão, transmitindo directos dos treinos de três clubes portugueses. Tenho que discordar. Este não é um circo estival nem um exclusivo televisivo, infelizmente. Entra-nos por casa durante os 365 dias de cada ano e torna evidente a falta de critério editorial da maioria dos meios de comunicação social nacionais. Sobretudo quando se discute o aniversário da filha de um jogador qualquer enquanto se ignoram as vitórias internacionais de clubes como o ABC de Braga ou de inúmeros atletas amadores que, sem quaisquer apoios, conseguem projectar desportivamente o nome de Portugal.Haja critério.
A Crise do Regime
Manuel Alegre, que continua a ser socialista apesar do seu partido ter desistido de o ser, assina, no jornal Público, uma das mais realistas e convictas críticas ao governo de José Sócrates, recusando o papel de figurante no imenso drama trágico-cómico em que, uns e outros, transformaram este país.
Da delação de colegas de trabalho à perseguição de bloggers, do aluguer de velinhos para simular festas partidárias à contratação de crianças para propaganda governamental, do novo estatuto do jornalista à governamentalização das universidades, dos sucessivos aumentos de impostos às sempre adiadas reformas, os capítulos sucedem-se.
O regime está em doente e a descrença dos portugueses estende-se, justamente. a todos os partidos. Até quando?
Da delação de colegas de trabalho à perseguição de bloggers, do aluguer de velinhos para simular festas partidárias à contratação de crianças para propaganda governamental, do novo estatuto do jornalista à governamentalização das universidades, dos sucessivos aumentos de impostos às sempre adiadas reformas, os capítulos sucedem-se.
O regime está em doente e a descrença dos portugueses estende-se, justamente. a todos os partidos. Até quando?
Ainda o Caso Charrua
Embora administrativamente o caso pareça encerrado, politicamente não está. Se, por um lado, não restavam muitas saídas à Ministra para além do arquivamento do caso, a verdade é que, por outro, a manutenção de Margarida Moreira no cargo de Directora Regional é uma prova do assentimento político que o governo dá às suas atitudes e ao clima de delação instalado e instigado na sociedade portuguesa.
Braga e a Torre de Menagem

Subir à Torre de Menagem e ver Braga pelo canudo da imaginação é um dos maiores deleites que me podem oferecer. A bela cidade, interompida aqui e ali pela dureza do firme betão, passa diariamente ao lado do pouco que resta do que já foi o seu castelo sem lhe dar a devida atenção. Ali ao lado, jaz um enorme edifício, quase desocupado, que por ser nobre e ter nobre localização deveria estar transformado em vida para uma cidade que à noite morre por dentro, vivendo em ebulição periférica.
Mas voltemos à Torre de Menagem. E façamos da Torre uma sala de visitas para os turistas que recebemos. E uma sala de reflexão para todos os bracarenses.
Aceitam-se mais ideias.
Ibéria: Portugal e Espanha vistos ao Espelho
As declarações de José Saramago sobre a integração de Portugal em Espanha têm sido amplamente analisadas de ambos os lados da fronteira, servindo de mote para uma reflexão interessante e aprofundada sobre a história e os desafios que unem os dois países. O periódico El Pais publicou uma reportagem sobre o impacto das declarações do escritor português onde pode ler-se:«España y Portugal son países hermanos, y la Santa Madre Iglesia no aprueba el matrimonio incestuoso. Esa frase histórica, que pronunció un canónigo luso en Braga con motivo de una visita de Alfonso XIII, sigue vigente. Los portugueses ya no odian ni miran a los españoles con el rencor y los prejuicios de otros tiempos ("De España ni buenos vientos ni buenos casamientos", dice el refrán) y, aunque su economía depende en gran medida del comercio con España y adoran ir a Zara o El Corte Inglés, antes muertos que renunciar a la patria y la bandera para convertirse en una comunidad autónoma y fundirse en un país de 55 millones de habitantes llamado Iberia.»
Por toda a Espanha multiplicam-se as reacções à ideia do Prémio Nobel. No El Faro de Cartagena surge uma interessante comparação entre a realidade portuguesa e a do País Basco ou Catalunha:
«Portugal, tan pobrete siempre, ha sido eso precisamente, pobrete, porque le ha faltado su mercado natural, que no es otro que España. O sea, ha sido pobre por independizarse de España. Es el caso contrario de Cataluña y el País Vasco, que siempre tuvieron el mercado español como horizonte de expansión. Abasteciendo a España, se hicieron ricos, y evitaron que España se desarrollase, por creer que ambos territorios eran España. Craso error, sabemos hoy.»
A opinião de Joaquín Roy, catedrático de Relações Internacionais e Literatura Hispano-Americana na Universidade de Miami, desenvolve-se numa tónica diferente, salientando o avanço ideológico da sociedade portuguesa relativamente à espanhola ao longo do último século. Avanço que o século XXI tem feito questão de inverter, com os espanhóis a assumirem a dianteira liberal e progressista mundial.
«En casi todos los acontecimientos del siglo pasado, Portugal se adelantó a España cronológicamente: se despojó de la monarquía antes (1910), instaló un régimen filofascista una década antes que Franco y defenestró los restos de la dictadura salazarista en 1974, más de un año antes de la muerte del dictador español. Incluso en las alianzas internacionales Lisboa dejó atrás a Madrid: Portugal fue miembro fundador de la OTAN, ingresó en la EFTA y firmó los documentos de adhesión a la Comunidad Europea en la mañana, mientras el Gobierno español lo hacía a la una de la tarde.»
A discussão/reflexão que nasceu das afirmações de Saramago tem sido bastante profícua e reveladora. Enquanto europeísta não auguro grande futuro para os desejos de Saramago, mas também não vejo o enorme disparate que lhe querem imputar. O território não deve ser mais do que um meio para a obtenção da prosperidade e a prática do humanismo, embora a sua defesa ainda seja encarada por muitos como um objectivo em si mesmo. Estará um bracarense mais ligado historica, social e culturalmente a um algarvio do que a um galego? Tenho muitas dúvidas.
As discussões nacionalistas e patrióticas, a par dos temas religiosos, são o terreno certo para a expressão dos postulados mais irracionais (pagarão os impostos devidos todos os que tão fervorosamente defendem a Pátria?). É curioso que as principais causas de quase as todas as guerras humanas dos últimos séculos tenham raízes tão distintas: a luta pelo território herdada filogeneticamente e a crença religiosa construída culturalmente. Para mim, nem uma nem outra são particularmente relevantes.
Outras opiniões: La Saramagada. Dominicana+Haiti. Iberia. Expansionismo Espanhol. Portugal mira a España.
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