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"Está Quase" - 1

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Portugal, feliz e contente, vai sendo governado por "lisboetas", todos nascidos algures, muitos nas berças, como nós. Não podemos ter um grande futuro pela frente. Está Quase… 2.

Belém

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Em vez de desfazer equívocos no mesmo dia em que o Público lançou a "encomenda", Cavaco Silva arrastou a paranóia a corroer o que restava da imagem do Governo e da Democracia Portuguesa. Se isso pode não dizer nada da neutralidade do Presidente da República, diz muito da sua incapacidade política. Com Fernando Lima a sair, resta saber o que Cavaco Silva ainda está lá a fazer.

Não Reeleição do Presidente?

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"É um programa para as eleições de 27 de Setembro, mas é um programa que eu acho programa que me parece pensado para a hipótese possível, plausível, de sair um Governo minoritário e de haver novas eleições dois anos depois", sublinhou. [i]

Se a eleição de um governo minoritário é perfeitamente plausível, o que é notável nesta previsão do Marcelo Rebelo de Sousa é que, efectivamente, prevê que vai haver uma razão forte para o governo cair daqui a dois anos. Uma razão que não terá a ver com a má governação, pois revela plena fé em que o PSD vai ganhar estas eleições e as que imagina que vão decorrer daqui a dois anos. Então só há uma hipótese: a previsão de que Cavaco não vai ser reeleito. Se isso é possível, a previsão é ainda mais corajosa: o novo presidente vai forçar eleições antecipadas, derrubando um bom governo.

Estou estupefacto. A esta distância, chamar a este cenário rebuscadíssimo uma hipótese plausível?

Da Boa Família

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Das razões dadas para o veto presidencial, algumas saltam à vista. A inoportunidade é questionável, pois a legitimidade democrática existe até ao final do mandato e estes são 4 anos e não de 3 anos e meio. Mais, o projecto foi votado por PS, CDU e BE, tendo o PSD e o PP recusado a participar no processo de aperfeiçoamento.

Já quanto ao "pedido" da "sociedade portuguesa" ao qual o PSD alude e a Presidência deixa implícito, este tem sido feito no dia a dia de quem vive ou deixa de viver em união de facto desde que foi instituída em 2001.

Mas vamos dar de barato a razão ao Presidente nestes pontos, assim como aquele relativo à qualidade do texto legislativo. Se estivessemos em 2001, teria o Presidente aprovado a lei? Não é este um veto absolutamente ideológico? Creio que sim. Se é verdade que estas alterações aproximavam a união de facto do casamento, nalguns aspectos, é absoluta mentira que esta se transforme, por esta razão, num para ou proto-casamento, pois já o é desde 2001. E é proto ou para, com toda a liberdade de escolha para quem por ele opta. De facto, o que distingue, desde a sua origem, a união de facto da economia comum é a proximidade da primeira com o casamento. Proximidade continuamente reforçada em inúmeros diplomas dispersos, com particular destaque para os fiscais.

Na linha de declarações como "a família tem por objectivo a procriação" - Ferreira Leite -, este veto transparece uma discordância de base quanto à mera existência da união de facto. De uma concepção de família que se limita ao casamento. Tendo-se, portanto, como inconcebível qualquer outra forma de (boa) família (católica).

O Outro Cavaco

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Cavaco Silva
© Tiago S. Costa

Agora que a crise se tornou pena corrente, Cavaco Silva apela repetidamente à solidariedade dos portugueses, enquanto imita aquela irritante aura de moral à bispo do Porto - ele que me perdoe. A hipocrisia do discurso catarral, depois da obtusa e atrapalhada defesa de Dias Loureiro e dos sucessivos perdões fiscais ao BPN, só se dilui naquele perfilzinho austero a lembrar a alma reencarnada do Presidente de Conselho, na roupa comedida e na pose tesa. E assim se mantém o homem, popular e gourmet, como grelhado nobre no caldo da mediocridade política que nos servem todos os dias.

Bem vistas as coisas, não fosse enxurrada de dinheiro dos 10 anos pós-CEE, que deludiu Portugal em apartamentos e jipes, o seu mandato de primeiro-ministro tinha o dístico de uma tristeza assolapada como a cara dele. Deturpou os papéis do Estado no Mercado e nos serviços públicos, encerrou a ferrovia a torto e a direito, burocratizou, centralizou quando não litoralizou o investimento e deu a estocada final no interior, arruinando equilíbrios para um desenvolvimento sustentado do País.

Mais, se hoje nos agitamos com a falta de ética nas negociatas do Governo, de como se repetem nelas os nomes das mesmas empresas e dos mesmos gestores (alguns deles ex-governantes de ascensão chico-esperta, e outros notáveis benjamins partidários), devemos agradecer a Cavaco Silva a introdução desses guidelines na rotina da governação. Devemos agradecer a Cavaco e aos seus herdeiros políticos, alguns deles que o bom-senso já devia ter arredado há muito dos palcos, a fisiologia de compadrio que ganhou forma em ambos os partidos do meio. A tolerância geral a Cavaco é sintomática do estado de confusão mental do Regime. Não é por acaso que, 3 anos depois da tomada de posse como Chefe de Estado, ainda me dá náusea ver aquele consenso admirado, da esquerda à direita, a esforçar uma interpretação, sempre que sai uma mensagem redundante e anacrónica da boca do Oráculo-presidente.
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

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