O Outro Cavaco

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Cavaco Silva
© Tiago S. Costa

Agora que a crise se tornou pena corrente, Cavaco Silva apela repetidamente à solidariedade dos portugueses, enquanto imita aquela irritante aura de moral à bispo do Porto - ele que me perdoe. A hipocrisia do discurso catarral, depois da obtusa e atrapalhada defesa de Dias Loureiro e dos sucessivos perdões fiscais ao BPN, só se dilui naquele perfilzinho austero a lembrar a alma reencarnada do Presidente de Conselho, na roupa comedida e na pose tesa. E assim se mantém o homem, popular e gourmet, como grelhado nobre no caldo da mediocridade política que nos servem todos os dias.

Bem vistas as coisas, não fosse enxurrada de dinheiro dos 10 anos pós-CEE, que deludiu Portugal em apartamentos e jipes, o seu mandato de primeiro-ministro tinha o dístico de uma tristeza assolapada como a cara dele. Deturpou os papéis do Estado no Mercado e nos serviços públicos, encerrou a ferrovia a torto e a direito, burocratizou, centralizou quando não litoralizou o investimento e deu a estocada final no interior, arruinando equilíbrios para um desenvolvimento sustentado do País.

Mais, se hoje nos agitamos com a falta de ética nas negociatas do Governo, de como se repetem nelas os nomes das mesmas empresas e dos mesmos gestores (alguns deles ex-governantes de ascensão chico-esperta, e outros notáveis benjamins partidários), devemos agradecer a Cavaco Silva a introdução desses guidelines na rotina da governação. Devemos agradecer a Cavaco e aos seus herdeiros políticos, alguns deles que o bom-senso já devia ter arredado há muito dos palcos, a fisiologia de compadrio que ganhou forma em ambos os partidos do meio. A tolerância geral a Cavaco é sintomática do estado de confusão mental do Regime. Não é por acaso que, 3 anos depois da tomada de posse como Chefe de Estado, ainda me dá náusea ver aquele consenso admirado, da esquerda à direita, a esforçar uma interpretação, sempre que sai uma mensagem redundante e anacrónica da boca do Oráculo-presidente.

19 comentários:

  1. Apesar de tudo, foi sem dúvida o melhor governo que tivemos.

    Não nos podemos esquecer que Portugal foi na altura um dos países com maior crescimento do PIB do mundo.

    E já agora, o $$ da EU continua a fluir...

    Cumprimentos.

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  2. Obrigado pelo texto. Ao menos por aqui ainda se vão dizendo algumas verdades que parecem perdidas no tempo.

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  3. Caro anónimo das 15:57h crescimento não significa desenvolvimento. Uma nação pode crescer económicamente à vista da estatística, mas esse crescimento pode ser insustentável e esconder o fraco desenvolvimento económico estrutural, e social. Do meu ponto de vista o governo de Cavaco Silva apenas alimentou o crescimento económico centralista e capitalista. É bom que se olhe para Cavaco com olhos de ver e não avaliar e formar opinião sobre o seu desempenho político pelo que a maioria das pessoas dizem ou acham (efeito de halo). Temos pontos de vista diferentes nesta matéria.

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  4. Este senhor não se tem revelado outra coisa que não um delegado, ou melhor, lacaio, ao serviço da ICAR, que não se cansa em dar cobertura à chulice que a padralhada e bispalhada anda a fazer aos portugueses. Como é possível o mais alto magistrado da nação andar constantemente a alardear as supostas benfeitorias desses homens de saias, quando são eles que andam a chupar milhões e milhões directamente do OE? Ainda hoje o senhor PR apareceu ao lado do logotipo do Banco Alimentar que anda a recolher milhares de toneladas de alimentos para os entregar aos padres e depois diz que é para os pobres.
    O pior é que a Esquerda continua muda e queda perante isto. Até a CGTP foi lamber as botas a estes abutres.

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  5. A coberto do anonimato diz-se cada babuseira. Mas viva a santa liberdade. Já agora para não cair no ridículo, caro anónimo, seria importante concretizar as suas acusações. caso contrário não passará de mais um mentiroso, e infelizmente, há muitos.
    Já agora, à sua esquerda, que diz que anda quieta e muda, eu pergunto quantas acções ou instituições de apoio social têm para apresentar? Pois, o dinheiro depois de gastos numas «festas do fumo», como lhe chama a ContraInformação», já não dá para ajudar pobres. Em vez de chulos são chupões...

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  6. este senhor, enquanto primeiro ministro e o seu governo de entao, tem grande grande reponsabilidade no estado actual do país. o português é que é de memória curta!

    e para mim, ser melhor que outros governos que vieram depois, nao o iliba da responsabilidade que tem no estado do país.

    bem empregues todos aqueles fundos europeus e aplicados no desenvolvimento (desenvolvimento muito diferente de crescimento) e por certo nao estavamos neste estado de falências. falencias essas que resultam (muitas) do crescimento desenfreado em detrimento do desenvolvimento sustentavel.

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  7. Quanto ao artigo, propriamente dito, revela aquilo que o autor era na altura do governo de Cavaco Silva, um adolescente, que pelo que transcreve, ou seja, pelo que lhe ficou na memória, seria um adolescente, pouco consciente, para não dizer, inconsciente. Por muito que se queira lançar poeira para o ar, foi o temo em que Portugal mais cresceu a nível económico. Se este é o nível único para se medir evolução, claro que não. Mas que pode ter a certeza que se apostou mais na cultura e educação que agora, pode crer. Certamente poderá apresentar os ditos números das estatísticas... os tais que entram pelos olhos dentro. Eu não lhe vou apresentar estatísticas, mas factos. Que me abstenho de nomear as instituições e pessoas porque a conversa foi privada. Mas se quiser posso enviar-lhe pro email, para si, os dados... A semana passada a meio de uma reunião com uma directora de uma museu de uma cidade perto de braga, recebe uma chamada telefónica de um director de uma outras instituição cultural perguntando-lhe se não tinha papel para lhe emprestar. Isso mesmo, papel, daqueles que se podem comprar às caixas no office por 15 euros... no final da chamada, desabafou a directora dizendo que isto está a ficar insuportável, que não sabe se vai aguentar o mandato até ao fim. É que nem eles próprios já têm dinheiro para reparar a máquina fotocopiadora, que as cópias estão, gentilmente, a ser tiradas nos serviços da câmara municipal. Alguém fala publicamente? claro que não. é que alguns quando se diz que vivemos num clima de ameaça à liberdade riem-se...
    Depois, quando ao dinheiro que veio da CEE, procure saber quanto vem agora da CE... Não é outra «enxurrada»?!

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  8. Caro Miguel Braga. Antes de mais não estou a desculpabilizar nenhum outro governo. Limitei-me a apontar a má herança do cavaquismo e a destapar, na minha opinião, a manta imaculada de Cavaco Silva.Ter sido um adolescente ou um púbere então não o impede. Quase que me está dizer que não devo falar do Estado Novo porque na altura mal era amostra de espermatozóide ou oócito.

    Por outro lado, confundir crescimento pontual do PIB com desenvolvimento com pernas para andar é um exercício perigoso e enviesado. Houve uma vez em que um blogger da praça defendeu o crescimento sem precedentes da economia portuguesa no tempo de... Salazar - bem, só isto diz da natureza distorcida do seu argumento. Um país rico não é necessariamente um país equilibrado e com futuro. Nisto, até a Floribela é uma filosofa cheia de razão...

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  9. O presidente está preocupado e triste, pois eu ando é lixado.

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  10. Caro Vitor Pimenta:
    1. Se um país rico não quer dizer um país desenvolvido e equilibrado, penso que a perspectiva sobre a qual avalia, em duas penadas, o trabalho de Cavaco Silva, também não o pode ser somente no aspecto económico, ou pior ainda, sobre a perspectiva daqueles que, como sempre, se aproveitam da política para viver. E como bem sabe, estes casos não são únicos dos governos de Cavaco. Certamente que saberá de muitos casos ainda deste governo.

    2. Depois, como em tudo, para falar de qualquer assunto, pelo menos para sentenciar como o faz no seu comentário, é preciso estar muito por dentro do assunto. Conhecer bem a matéria. Caso contrário, o melhor é começar por, «na minha opinião». Perdoe-me a franqueza, mas não lhe conheço os atributos para poder falar de modo tão absoluto, de alguém que, por muito que lhe custe, vai deixar uma marca bem mais visível do que qualquer chefe de governo antes dele e depois dele, até aos dias de hoje, entenda-se. Por alguma razão, os seus atributos são reconhecidos por muitas universidades, dentro e fora do país. E como sabe estes reconhecimentos não estão dependentes interesses mais ou menos escondidos...
    Certamente que poderá dizer que não me reconhece atributos para dizer o contrário. Aceito. Mas, por essa razão, não vê artigos meus a sentenciar de modo tão absoluto como o faz.
    Para criticar o trabalho de alguém, como o faz, no mínimo o que se exige é que seja capaz de fazer pelo menos igual... Portanto, certamente, que temos em si um futuro ministro...

    3. O seu artigo não faz qualquer referência à «mensagem». Transparece, claramente, ser mais um caso de: importante é abater o mensageiro. O que me leva a crer que o que o incomoda, na verdade, é a mensagem que traz...

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  11. Muito bem Vítor, grande texto!!

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  12. E o Pedro Morgado não comenta este post? Então ele não foi o mandatário distrital da juventude para a candidatura de Cavaco Silva?

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  13. Caro Miguel Braga.

    Antes de mais se o artigo é da minha autoria, obviamente é da "minha opinião". Quanto aos fundamentos que sustentam o artigo, ou o desabafo, o que quiser, estão na forma como se vê o funcionamento canceroso dos partidos(acredite que tenho experiência o bastante), na inconsequência do mau exercício político e económico, na estrutura desmotivada da função pública, na cara e os modos das pessoas. Está também nos jornais, nos indicadores, nos artigos de gente entendida.

    A mensagem do Presidente é cliché e sem novidade nenhuma. Nada que não se possa dizer com a mesma falta de sabedoria que me aponta. E mesmo assim não o impede a ele, a si, como a mim, de dizer o que quer - com o julgamento devido que se lhe segue. Aliás, se o que digo não lhe fizesse diferença nenhuma nem se dava ao trabalho de vir aqui comentar. Afinal, eu mal saí da adolescência ou se calhar nem dela saí.

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  14. acho que ja estava na altura vitor de te pores a frente de um projeto pa ajudar o teu concelho uma junta qualquer lugar na camara uma coisa qualquer. falam falam nao fazem nada... Por isso ve se ganhas coragem e vai a luta...boa sorte ja agora

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  15. O "consenso admirado" não é nenhum pecado original só que estranhamente este dá náusea. Estranho é não haver vozes que se interroguem porque chegamos aqui. Os governos de Cavaco podem não ter sido perfeitos, mas pelo menos tiveram resultados. Ontem o Medina Carreira na tv desmontou a tese do dinheiro de Bruxelas, nos últimos anos entre fundos comunitários e endividamento chegaram a Portugal mais recursos que nos governos de Cavaco com os resultados conhecidos. Nesse tempo estava em Belém Mário Soares que admite hoje que no segundo mandato fez oposição ao Governo. Seria muito interessante estudar os seus vetos. Seria interessante perceber que reformas foram travadas para agora serem reclamadas.
    Depois de Cavaco tivemos Guterres um primeiro-ministro que começou a receber as manifestações que chegavam a S. Bento e fugiu para não cair na lama.
    Cavaco errou em muitas coisas. Na altura a confrontação social subiu apesar dos bons resultados económicos. Eu recordo-me especialmente das propinas que tantas manifestações geraram. O seu sucessor – Guterres - começou por recusar as propinas. Em Coimbra disse mesmo que com ele nunca haveria propinas, mas depois as propinas vieram. E em Belém calaram-se. Recordo-me também que com Guterres chegamos a ter a gasolina mais barata que Espanha. Na altura foram muitos os economistas que alertaram para o erro, só que o populismo de Guterres preferiu não escutar. E em Belém calaram-se. Depois de muitos disparates de “alegria assolapada” dá-se a fuga e a sucessão não foi a mais feliz. Só que em Belém já não se calaram. O Presidente Sampaio, que não tinha percebido que o país estava a caminhar para a crise de que Guterres fugiu, descobriu então que teria que haver um país para além do défice. Com uma maior colaboração de Sampaio os resultados poderiam não ter sido diferentes, mas que nunca compreendi porque é que se omite a sua oposição a reformas que depois foram consideradas necessárias e fundamentais num governo do PS. Acusação que não se pode fazer a Cavaco. Aceito que o "dístico de uma tristeza assolapada como a cara dele" não lhe agrade, mas esquece Cavaco não começou a governar em maioria. Foi com os seus méritos de Primeiro-Ministro que conquistou a primeira maioria, num país que fazia de “marquises” 1ªs páginas. Imagine o que faria então com os “faire divers” de hoje. Na altura um ministro não resistia a uma anedota, hoje sabemos que até podem ser anedota. É verdade que como Presidente não organiza visitas a imitar o fausto de D. Manuel, como uma célebre visita à Índia de Soares, mas deu a Sócrates a solidariedade institucional que nenhum Presidente deu a outro governo. Fiquei a saber que o seu mal é a roupa comedida e na pose tesa.
    A verdade é que se o Medina Carreira tiver razão. Se, como ele opina, tivermos também um problema de regime, Cavaco dá algumas razões para acreditar que existem outros modelos que o parlamentar.

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  16. "Para criticar o trabalho de alguém, como o faz, no mínimo o que se exige é que seja capaz de fazer pelo menos igual... Portanto, certamente, que temos em si um futuro ministro..."

    Uau. Adoro discussões cheias de lógica.

    Espero que nunca venha um canalizador fazer um mau serviço cá a casa. Como raio é que eu podia reclamar,se não percebo nada daquilo?!

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  17. Acho que alguns comentadores estão a esquecer-se de um pormenor importante quando falam de fundos europeus. Dizer que actualmente e nos anos que se sucederam ao Cavaquismo, Portugal recebeu mais fundos europeus, pode ser falacioso. É preciso pensar no valor que o dinheiro tinha no final dos anos 80 e inicios de 90 e comparar com o valor do dinheiro agora. Por exemplo, quanto custavam 100km de auto-estrada e quanto custam agora??? ou quanto custava 1 litro de gasóleo e quanto custa agora??? Pensem nisso.

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  18. Amigo Hugo Monteiro!
    Comparar o trabalho de um governo com o de um canalizar, demonstra a profundidade, e já agora lógica, da sua afirmação...
    Nessa ordem de ideias, qualquer um é bom comentador ou crítico, seja do que quer que for, desde que diga qualquer coisa... Já agora nem precisa de ver os filmes para ser bom crítico de cinema... É só fazer «eco» do que ouviu ou pelo título lhe parece ser...

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