2006

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2006 surgiu-nos com esperança renovada: Cavaco Silva foi eleito Presidente da República à primeira volta. A esperança depressa se transformou em apreensão. A salutar convivência entre instituições depressa foi substituída por uma despropositada aliança entre Belém e S. Bento. Enquanto Cavaco e Sócrates tocam a mesma música, assistimos ao encerramento de várias Maternidades, sobretudo nas regiões mais carenciadas e desertificadas do país. Portugal está à venda a preço de saldo: até o nascer é transferido para Espanha, seja em Zamora ou Badajoz.
As greves sucedem-se a um ritmo até então desconhecido, mas o Governo segue autista no seu empreendimento socialista, digo, liberal. Sócrates quer para si mesmo a imagem de um líder autoritário que precisa de contestação para se sentir legitimado. E assistimos à transmutação dos socialistas: é vê-los, com o mesmo entusiasmo com que idolatraram Guterres, a aplaudirem, num uníssono quase insuportável, a antítese do Guterrismo, personificada em Sócrates. O governo insiste no erro e leva avante o projecto da TLEBS. E quantas mais são as vozes de contestação maior a obstinação do governo no desiderato.
E, se da oposição se esperariam melhores ventos, a sua completa inexistência e ineficiência é quase a única notícia. E digo, quase, porque existe um tal Rui Rio que se lembrou de entregar o Teatro Municipal do Porto, de seu nome Rivoli, a um empresário, para dele fazer lucro à custa do investimento público na sua reconstrução.
No entretanto, ocupam-nos os dias com três enfadonhas letrinhas: a OPA foi notícia durante dias a fio. E a Autoridade da Concorrência, da qual não se conhece concorrência, demorou vários meses a dar o anunciado aval à operação de concentração das telecomunicações nacionais nas mãos de um único empresário.
No entretanto, o país volta a discutir o aborto. E esta discussão surge, mais uma vez, viciada: quer-se fazer passar a ideia de que o que se discute são os prós e os contras de tão tenebrosa prática quando o que está em discussão é nada mais nada menos que a descriminalização de uma realidade que há-de continuar a suceder em vãos de escada – haja crime ou não, cumpra-se a lei ou nem por isso.
E já que falamos em cumprimento da lei, 2006 também foi um ano pródigo em mostrar-nos que Portugal é menos brando do que o desejável no que é desejável ser-se brando. Percebemos que o Alterne que por aí anda levou à agressão de um vereador socialista, como prémio pela denúncia de supostos crimes praticados por alguns dirigentes desportivos do país. Crimes pelos quais todos continuam impunes.
E em 2006 morreu Saddam, às mãos de uma assassina e ilegal coligação de algumas das chamadas democracias ocidentais. Os Estados Unidos da América prosseguem uma política externa esquizofrénica, sob o comando do não menos esquizofrénico Bush, que vai semeando ódios por todo o mundo. Nem quero imaginar como será a tempestuosa colheita que lhes está destinada.
O Papa Bento XVI confirmou, em 2006, as piores expectativas: prosseguiu uma política de ingerência da Igreja Católica nos assuntos internos dos países maioritariamente católicos e de discriminação das pessoas pelo não cumprimento daqueles que são os supostos preceitos, sobretudo sexuais e reprodutivos, da Igreja Católica. A condenação de Welby fica-nos como o pior escolho da actuação da Igreja Católica neste 2006: a suprema incoerência de condenar e negar exéquias a um homem que apenas disse não querer suportar por mais tempo os tratamentos a que se encontrava votado, mercê de uma doença intratável e altamente debilitante.
2006 foi o ano em que a cidade luz voltou a iluminar-se de raiva e destruição com o fogo ateado por alguns dos jovens habitantes dos subúrbios parisienses. Chamas de intolerância que também atearam centenas de bandeiras da Dinamarca na chamada «cartoonvolução». A ruína do valor da liberdade de expressão esteve perto. Felizmente houve uma Europa que não baqueou.

2006 não foi um bom ano.
2007 não pode ser pior.
Mas temo que sim.

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