Avenida Central

Falperra, Hoje, Como Há Mais de 3000 anos...

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Avenida Monumental
© Freguesia de Esporões

Finalizando hoje o Avenida Central a sua existência, de indiscutível importância para a cidade de Braga, em virtude da discussão de praticamente todas as áreas que a Braga dizem respeito e de um conjunto de aspectos de relevo nacional, muitas vezes marginalizados, não quis deixar de assinalar aqui também este encerramento com um último texto. E para o efeito faço aqui uma referência a um aspecto ligado ao que foram as minhas intervenções na ínfima participação que tive no blogue: o património arqueológico. E dentro da temática, uma referência à Falperra, monumento sobre o qual nunca aqui escrevi.

Não pretendo descrever, que para tal não sou o mais indicado, os vestígios arqueológicos existentes no topo do monte que completa o cenário envolvente da cidade de Braga, e que integra a simbologia e o imaginário dos Bracarenses, mas recordar, como Sande Lemos fez neste blogue, a necessidade de a Câmara de Braga se consciencializar que deve à cidade a “devolução” do monte de Santa Marta das Cortiças. “Devolução” sugerida pela Unidade de Arqueologia da UM, no interessante projecto que apresentou.

Devolvido à cidade como espelho onde se reflecte uma grande parte da história de Braga, desde há mais de 3000 anos. Por essa altura e pelos séculos fora, a considerável elevação atraiu a atenção dos homens, por vezes como habitat, por outras como fortificação, por outras como santuário… Como hoje continua a atrair, agora como janela para um passado impressionante e culturalmente rico.

Dos Projectos Prioritários

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A questão da prioridade de determinados projectos é sempre discutível, em função da existência de necessidades reais (de todos, ou pelo menos de alguns), ou em função do âmbito profissional de quem transmite uma opinião ou de quem decide sobre os projectos. Mas mais importante que a questão do ser ou não prioritário, é o que essa prioridade implica.

Assistimos, nos meses de verão, em Braga, à manifestação pública de uma consciência patrimonial que muito me impressionou. Impressionou-me a quantidade de gente que veiculou opiniões (as mais variadas) sobre o túnel da Avenida da Liberdade e sobre o quarteirão dos CTT, bem como a mobilização que estas duas intervenções arqueológicas parecem ter motivado na sociedade civil bracarense. Também me impressionaram posturas e opiniões erradas ou pouco informadas. Colocou-se em causa a competência de profissionais qualificados, colocou-se em causa a legalidade das intervenções e confundiu-se claramente o que são tomadas de decisão políticas (o projecto em si) com responsabilidades científicas (os trabalhos necessários para a salvaguarda dos vestígios arqueológicos).

Porém, quando do túnel (discutível) passamos para o hospital (prioritário), dir-se-ia que a consciência civil desaparece... Apenas algumas conhecidas associações bracarenses e os jornais de âmbito nacional se manifestam de forma mais contundente acerca da defesa do património arqueológico da zona do novo hospital.

Não tenho dúvida nenhuma de que a construção do novo hospital de Braga seja prioritária, e que a obra da Avenida da Liberdade não tenha sido propriamente uma necessidade. Mas se há vestígios arqueológicos que devem ser salvaguardados, e eventualmente preservados, não obstando à prossecução dos projectos, a postura cívica em relação ao Património deve ser a mesma. Ainda que a defesa dos vestígios não pareça ser, neste caso, politicamente capitalizável...

É portanto louvável a atitude da Junta de Freguesia de S. Vítor, JovemCoop e ASPA e a concentração que agendaram para o próximo dia 8 de Março. Encontra-se disponível aqui o comunicado emitido pela ASPA a este respeito.

A ler:
Achados arqueológicos na obra do novo hospital, JN

Os Detectores de Metal e os Sítios Arqueológicos [3]

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«A Polícia Judiciária constituiu como arguido um ex-emigrante nos Estados Unidos, de 58 anos, natural e residente na aldeia de Lebução, em Valpaços, por presumível actividade continuada, ilegal, de escavação, junto ao castro da aldeia de Cimo de Vila da Castanheira, em Chaves. O caso já remonta a 2008 e foi com base nas notícias dessa prática ilegal que os serviços da autarquia apresentaram queixa, junto do Ministério Público.
Ontem, depois de uma investigação por parte da PJ, o ex-emigrante, que supostamente recolhia e guardava vários tipos de achados arqueológicos, das épocas romana e medieval, foi surpreendido pelas autoridades na sua residência e a PJ apreendeu um total de 113 artefactos e fragmentos, de entre os quais moedas e objectos metálicos, em barro e em granito, bem como de dois detectores de metais que terão sido utilizados nessa actividade.» [DN, 17/02/2009]

Posto que já anteriormente tinha abordado esta temática no Avenida Central, achei apropriado dar aqui especial destaque à notícia acima transcrita. Notícias como esta são raras, embora esta prática criminosa seja recorrente, e as suas consequências sejam sentidas pelos arqueólogos no seu dia-a-dia profissional.

Não existe uma investigação judicial contínua de combate a estas e outras situações de ameaça ao nosso Património, o que faz com que apenas se actue verdadeiramente quando há uma denúncia. O princípio da denúncia nunca foi bem aceite em Portugal, país de brandos costumes e de “boa gente”. Daí que quem denuncia seja, por vezes, “castigado”.

[um texto de Gonçalo Cruz]

O Minho Branco [16]

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Citânia de Briteiros com Neve
Citânia de Briteiros com Neve
Citânia de Briteiros com Neve
Neve na Citânia de Briteiros
Fotografias enviadas por Gonçalo Cruz. Mais no Flickr do Avenida Central.

Responsabilidade Social da Arqueologia

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Sessão de Apresentação do Trabalho Arqueológico de Braga

Na passada quinta-feira a Biblioteca Pública de Braga foi o palco de uma conferência relativa às escavações realizadas pela UAUM em Braga, no ano de 2008. Manuela Martins e Luís Fontes foram os oradores desta comunicação, que divulgou os resultados das recentes intervenções arqueológicas na cidade e arredores, na tradição seguida pela Universidade do Minho no contexto do estudo e salvamento de Bracara Augusta.

A iniciativa transparece a legimitidade de quem efectivamente conhece os processos e conteúdos abordados, mencionando as descobertas realizadas, a sua interpretação e os passos do minucioso estudo que tem vindo a ser feito. Foi também um exemplo de honestidade, pela forma como as informações foram abertamente dadas a público e pela forma como todas as questões colocadas pela assistência foram efectivamente respondidas.

O público foi, como já é hábito nestas conferências, pouco afluente. De facto, a iniciativa não foi divulgada com a mesma veemência com que por vezes se apontam supostas ilegalidades ou falta de transparência. Gostaria de ter ouvido, no auditório do Largo do Paço, a colocação frontal de muitas questões e dúvidas que, noutros contextos, quiçá menos indicados, foram manifestadas sem rodeios. Haveria melhor local e oportunidade para o fazer?

Mais Congregados

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Igreja dos Congregados em Obras

Falar na Avenida Central, sobretudo quando a temática de fundo é o Património ou a monumentalidade, implica necessariamente falar na Igreja dos Congregados, apesar de não o ter ainda feito neste blogue. Não tenho por hábito escrever sobre igrejas (e, em Braga, teria pano para mangas), por isso a referência que aqui faço é para louvar uma interessante iniciativa.

A Igreja dos Congregados (referente à Congregação do Oratório) foi concebida para templo conventual e a sua projecção deve remontar a finais do século XVII, tendo sido iniciada a construção no início do século XVIII. A partir daqui, o edifício apenas se deu por terminado, já com o seu aspecto actual, no século XX, o que não impediu a sua utilização ao longo de mais de dois séculos. Pelo caminho ocorre a ostensiva intervenção arquitectónica de André Soares, em meados do século XVIII.

O edifício da Igreja dos Congregados foi desenhado no âmbito de um conceito urbanístico da Idade Moderna, a monumentalização das cidades. Neste âmbito, temos em Braga imensos exemplos, sobretudo de igrejas e de casas particulares, que não procurando necessariamente critérios funcionais, visavam atribuir à cidade a monumentalidade que a devia caracterizar. Esta monumentalidade passava em grande medida pelo engrandecimento arquitectónico do então designado “Campo de Sant’Anna”, actual Avenida Central.

A este respeito teve lugar, ainda não há um ano, um interessante colóquio promovido pelo Movimento Mais Congregados, no Museu D. Diogo de Sousa, com a presença do usual público modesto. E a iniciativa que gostaria de louvar aqui é precisamente a existência do referido movimento cívico, promovido pela Jovemcoop e pela Irmandade de Nossa Senhora das Dores e de Santa Ana dos Congregados. O movimento tem subjacente um processo em execução que, sem verbas fartas, ambicionou requalificar um monumento. A sociedade civil pode ter mais peso nestas questões do que geralmente se pensa, se houver sensibilidade e empenho.

A gestão do Património Arqueológico Urbano

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Av_Monumental_26
© Gisela Braga

As investigações arqueológicas levadas a cabo em contexto urbano, a conservação dos vestígios descobertos, a musealização dos mesmos e a publicação de dados científicos, sob diversas formas, são um conjunto de componentes de todo um processo que deve estar implícito no planeamento de uma cidade. Isto quer na sua vertente infra-estrutural (escavações e musealizações) quer na sua vertente cultural (fruição do Património pela comunidade).

Em Portugal, praticamente não temos modelos exemplares de gestão do Património Arqueológico urbano: ou as escavações são feitas por uma infinidade de equipas que são contratadas como se de empreiteiros se tratassem, que fazem o trabalho de campo, entregam o relatório ao Igespar e vão-se embora; ou as intervenções são feitas por uma instituição pública, que garantindo um trabalho eficiente a nível de investigação, não garante (por não ter prerrogativas para isso) uma musealização posterior dos vestígios, que por vezes são deixados ao abandono. Existem cidades onde as coisas funcionam melhor, outras existem onde a Arqueologia passa completamente ao lado dos cidadãos.

Na grande maioria dos casos, a Arqueologia está amplamente dependente das autarquias. Ainda que algumas câmaras municipais demonstrem uma maior sensibilidade pela área, o que se faz pelo Património Arqueológico está directamente relacionado com a política local. Na verdade, a conservação do Património não devia depender de decisões políticas, mas sim de decisões de entidades cientificamente credenciadas para o efeito.

Embora já o tenha citado aqui, volto uma vez mais a referir o modelo utilizado em Mérida. A criação de um Consórcio com amplos poderes de gestão relativamente ao Património Arqueológico urbano, estabele uma coordenação necessária entre instituições administrativas de diferentes instâncias, desde o Governo até à Câmara Municipal, e de diferentes âmbitos, da Universidade aos organismos do Ministério da Cultura. Deste modo, evitavam-se problemas de sobreposição de competências, de compasso de espera relativamente a decisões e de passagem da posse administrativa de um monumento.

O Consórcio da Cidade Monumental de Mérida reúne as competências que, na maior parte das cidades portuguesas e espanholas, são repartidas por uma infinidade de organismos e instituições. O Consórcio faz as escavações, trata a informação recolhida, conserva e musealiza as ruínas e gere os conjuntos abertos ao público. Além disto, aufere do patrocínio do mecenato local. Mas a criação de um organismo destes em Braga, não me parece uma bandeira eleitoral de nenhum candidato autárquico.

Metamorfose em curso

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Braga - Avenida da Liberdade em Obras
© Britalar

O aspecto actual da Avenida da Liberdade deixa antever uma autêntica metamorfose deste espaço. Mas é também um cenário que o transeunte gosta muito de apreciar, ou as obras, ou o que o “pessoal dos calhaus” anda por lá a descobrir, o que é perfeitamente compreensível e até desejável.

Anunciada a descoberta de vestígios arqueológicos importantes, colocam-se agora diversas questões acerca de uma possível (em meu entender necessária) alteração ao projecto inicial. A discussão surge: os arqueólogos chateiam-se uns com os outros devido à divergência de opiniões sobre a importância dos vestígios; os políticos digladiam-se em sede parlamentar e na comunicação social; o cidadão comum encolhe os ombros, e de vez em quando lá se pergunta, numa conversa de café, “como vai ficar aquilo do túnel”.

O resto do processo não o vou descrever aqui, porque ainda está para acontecer. E ainda que possamos ter melhores ou piores perspectivas quanto ao desenrolar da situação, a verdade é que tudo está ainda em aberto.

Se estes processos prevêm sempre um período de consulta pública, ainda na fase de projecto, porque não prevêm uma consulta idêntica face à necessidade de alterações estruturais? Eu sei porquê, não é exigido. Mas uma coisa é o que se faz porque é obrigatório segundo a Lei, outra é o que devia ser exigido pela nossa consciência colectiva: não é obrigatório, mas é correcto que se faça. O que é legal e o que é moral nem sempre coincidem (daí a “objecção de consciência”).

A minha sugestão: faça-se uma consulta pública, ou até um debate mais amplo, em torno de uma forma de preservação ou musealização dos vestígios arqueológicos da Avenida da Liberdade. Isto, obviamente, após informações mais conclusivas da equipa de Arqueologia que está a estudar os vestígios.

We are watching you...

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We Are Watching You -  Stencil Braga

O passado espreita-nos. Uma boa expressão para descrever este graffiti, pintado há algum tempo na parede do antigo edifício dos CTT, em Braga. Como se, efectivamente, os nossos antepassados da Antiguidade Clássica, dissolvidos em partículas de pó, observassem atentamente a forma como tratamos o património que nos deixaram.

Na verdade, a forma como tratamos o nosso património arqueológico não é julgada pelo passado, mas sim pelo futuro. As descobertas arqueológicas causam dores de cabeça, mas devem ser encaradas como um desafio. E se a nível do registo dos achados, nada temos a apontar, no caso do centro de Braga, porque a Universidade do Minho se encarrega do mesmo, com toda a mais-valia científica que representa, as soluções de conservação a posteriori deixam mais a desejar. E deixam a desejar sobretudo porque se arrastam longamente (veja-se o caso das Carvalheiras).

Infelizmente, a forma como os vestígios arqueológicos podem vir a ser musealizados quase nunca é discutida publicamente, até ao dia em que se toma conhecimento da solução encontrada, por vezes irreversível. E resta-nos confiar no bom senso e no bom gosto de quem decide. Em Portugal, estas soluções passam frequentemente por decisões políticas, mais do que por decisões de quem investiga e conhece o património. E isto acontece, não raras vezes, porque os cidadãos se desinteressam destas questões.

Voltando ao graffiti, é uma forma de demonstração pública apontada por muita gente como vandalismo (que por vezes é), e é verdade que muitas destas pinturas dificilmente podem ser consideradas como transmissoras de uma mensagem coerente. No entanto, penso que esta acção dos denominados “Stencil Terrorists” é interessante, porque pode ter uma posição subjacente (embora não assumida) e não a considero vandalismo, porque foi feita numa parede que, ao fim e ao cabo, vai ser demolida.

A (re)integração urbana de um conjunto monumental

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Teatro Romano de Cartagena
© FTRC

Nós, Portugueses, olhamos de forma recorrente para os países estrangeiros, particularmente para os países europeus, como exemplos modelares, em vários aspectos. Olhamos particularmente para a vizinha Espanha com uma profunda admiração, e por vezes até o facto de o salário mínimo nacional ser superior, no país de nuestros hermanos, é motivo suficente para amaldiçoar a Restauração, o Mestre de Avis e Afonso Henriques. É a postura típica de muitos Portugueses, que não olham para os aspectos negativos dos nossos vizinhos europeus e, sublinhando os bons exemplos, nada fazem para alterar as coisas no seu próprio país.

Avançada esta opinião, e informando que gosto muito de Espanha (não por achar que eles são melhores ou piores), a referência que aqui vou fazer a um projecto não tem nada que ver com o contexto descrito no parágrafo anterior, mas sim com a necessidade de conhecermos exemplos de integração urbana do Património, com os quais podemos ou não concordar. E o exemplo que segue é um projecto na cidade espanhola de Cartagena, na comunidade de Murcia.

A descoberta de um teatro romano Alto-imperial em 1988, dentro dos limites do centro histórico de Cartagena, não foi encarada como um problema, antes como parte da solução para o problema da regeneração urbana daquela zona da cidade. Os restos do edifício, de grandes dimensões, foram compreendidos pela cidade actual, como uma potencial imagem de marca, quer pela monumentalidade que conserva e ostenta, quer pelo significado histórico que representa, quer pela nova dinâmica cultural que poderia vir a conferir à urbe.

Depois de observadas as condições de conservação, as limitações existentes e os exemplos de valorizações efectuadas, surgiu o projecto integrado, da autoria de Rafael Moneo, antecedido pela ideia fulcral de “um monumento visitável que se devolve à sociedade para a sua própria contemplação e disfrute, e como transmissor dos indicadores da identidade da Cartagena Romana”.

Pegando nesta ideia, a mesma pode perfeitamente estar subjacente a uma integração urbana de um equipamento monumental e simbólico da Bracara Avgvsta dos Flávios (o Teatro Romano do Alto da Cividade), na Braga actual, como parte inalienável da sua identidade.

Recuperar a insula das Carvalheiras

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Mapa Casa das Carvalheiras - Braga
© UAUM

Depois de visitar o website do Orçamento Participativo do Município de Braga (uma boa iniciativa), concretamente o documento que contém as Grandes Opções do Plano e Orçamento para 2008, despertaram-me a atenção sobretudo os dois parágrafos que formam a rubrica intitulada “Renovação Urbana”. Infelizmente, o documento disponível online, relativo ao ano transacto (mas que o de 2009 com certeza irá reproduzir na forma), não se encontra suficientemente detalhado para que se possa ter uma ideia mais concreta do plano plurianual de investimentos.

Penso que a renovação urbana de Braga, particularmente do centro histórico, passa necessariamente pela valorização dos espaços monumentais, ou pelo menos pela criação das condições necessárias para evitar a destruição ou afectação intensiva de imóveis históricos. Concretamente, o Património Arqueológico tem merecido mais atenção e tem sido cientificamente salvaguardado no centro de Braga, porquanto a existência do projecto de salvamento de Bracara Augusta o tem garantido.

Mas o patamar em que o Património Arqueológico se pode interligar harmonicamente com a renovação urbana é sobretudo nos projectos de valorização, musealização e integração arquitectónica dos vestígios arqueológicos exumados. As ruínas da insula das Carvalheiras, em progressiva degradação, ocupam um espaço que permite uma visualização ampla das ruínas, porque se estendem por um quarteirão inteiro da cidade romana. Mas são também um exemplo de um sítio classificado onde equipas de arqueólogos trabalharam intensivamente, na perspectiva de uma musealização de todo o espaço, que, até à data, não se fez... Será este espaço, em 2009, contemplado e orçamentado nas GOP?

Sabroso, 50 anos depois...

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Castro de Sabroso
© SMS

Fez este ano, em Abril, 50 anos sobre a passagem de um grupo de investigadores ingleses no Castro de Sabroso. Este interessante monumento localiza-se no concelho de Guimarães, em S. Lourenço de Sande. Após a escavação intensiva de Martins Sarmento, em 1878, não se desenvolveram novas escavações no povoado até 1958, ao contrário do caso da Citânia de Briteiros, não muito longe, onde Mário Cardozo coordenou trabalhos de escavação e restauro durante décadas, no século XX.

A presença da brigada inglesa da Universidade de Oxford em Sabroso, coordenada por Christopher Hawkes, partiu da ideia de implementar novas metodologias de escavação em Portugal. Se nos anos cinquenta já se faziam no Norte da Europa escavações com análise da sobreposição dos estratos de ocupação e respectiva datação, com registo gráfico de todos os contextos, em Portugal, as escavações arqueológicas que se faziam consistiam em “desaterros”, através da abertura de trincheiras. Infelizmente, muitos sítios arqueológicos da Idade do Ferro no Norte de Portugal foram em parte escavados desta forma, frequentemente por pessoas que não tinham uma formação académica adequada, mas que eram simples curiosos. Consequentemente, os únicos registos existentes são alguns textos publicados, com conclusões formuladas, mas nenhum registo técnico, não permitindo portanto uma reinterpretação dessas escavações.

Além disto, em Portugal, entre a década de 20 e inícios da década de 70, as investigações históricas foram norteadas por um paradigma muito particular, histórico-culturalista e nacionalista. A intervenção de Hawkes no Castro de Sabroso, através de uma cooperação com a Sociedade Martins Sarmento, foi portanto pioneira, embora não tenha feito com que se mudassem os métodos seguidos. Mário Cardozo continuaria a fazer as suas trincheiras em Briteiros, apesar das críticas que lhe foram feitas por investigadores de outros países (vide pág. 408).

Entretanto, e 50 anos depois, falecido já C. Hawkes, o Castro de Sabroso, a algumas centenas de metros do recente Ave Parque (planta interactiva, com o castro na zona de parque), padece de uma praga de Acacea Dealbata (mais conhecida como mimosa), que tem dificultado uma possível valorização, esperando-se que uma requalificação florestal de todo o monte possa aniquilar a “invasão” da planta australiana.

Dos autarcas do interior

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Av Monumental
© Manuel Perestrelo

A propósito de um post recente do Pedro Morgado, e pelos mesmos afectos que o Pedro invocou, queria dar aqui um exemplo do funcionamento da política local no interior do país, neste caso na Beira Alta.

A barragem do Sabor foi uma de várias hipóteses de construção de empreendimentos hidroeléctricos na bacia hidrográfica do Douro. Uma das alternativas era a barragem da Quintã de Pêro Martins, no Côa, entre os concelhos de Pinhel e de Figueira de Castelo Rodrigo. A antevisão de uma decisão governamental de construir a barragem no Sabor, afectou a susceptibilidade dos autarcas de Pinhel e Figueira, de modo que a Assembleia Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo aprovou uma moção de repúdio, onde manifestava todo o seu descontentamento pela não construção da referida barragem da Quintã de Pêro Martins.

A mesma moção foi remetida para a Assembleia Municipal de Pinhel, que a aprovou, ipsis verbis. Sendo eu membro da Assembleia, em Pinhel, questionei o executivo municipal, nestes termos: quais seriam o benefícios, a médio ou longo prazo, da construção da barragem no Concelho, que nos façam sentir assim tão revoltados pela não construção da mesma. A resposta foi sucinta: a barragem da Quintã de Pêro Martins teria muito maior potencial hidroeléctrico que a do Sabor. Nada mais.

Posto isto, e tendo evidentemente ficado sem saber quais eram os tais benefícios que nos estavam a ser vedados (os responsáveis autárquicos usaram mesmo o mais que gasto chavão “uma machadada no desenvolvimento do nosso Concelho”), votei contra a moção. Votei contra, e apresentei mesmo uma declaração escrita, para vincar e fundamentar a minha posição.

Fiquei absolutamente estarrecido, quando verifiquei que, num universo de 55 deputados, eu fui o único membro a votar contra a moção, a votar contra a (pouco original) ideia de construir uma barragem no Côa. Todos queriam a barragem! Embora não soubessem muito bem porquê…

Minutos antes, a Assembleia Municipal de Pinhel tinha aprovado a Agenda 21 Local, um documento bastante completo em torno do desenvolvimento sustentado, e que claramente desaconselhava a construção da mesma barragem! Os mesmos deputados que aprovaram a Agenda 21 Local, aprovaram também uma moção de repúdio pela não construção da barragem…

Não sei bem que conclusão deva tirar destas posturas. A verdade é que a ansiedade em torno do “progresso”, leva as pessoas a comportamentos estranhos. É uma barragem. Se fosse uma central nuclear era igual, ela que viesse, “em prol do desenvolvimento do nosso Concelho”.

As gravuras "ocultas" do Minho

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Avenida Monumental
© CNART

A Arte Rupestre, enquanto património arqueológico culturalmente útil, é muitas vezes subestimada, não só pelos “leigos”, como também muitas vezes por especialistas da área do património, historiadores e programadores culturais. É verdade que a questão de Foz Côa veio contrariar uma tendência generalizada que atribuía valor apenas ao que enche a vista, ao que sugere uma interpretação mais evidente ou, resumindo, ao que é património edificado. Tanto para com os vestígios do passado, como para a análise do desempenho de um autarca, por exemplo, os portugueses valorizam essencialmente o que se vê, e que impressiona a visão.

As gravuras rupestres não existem só no Vale do Côa (embora aí, determinadas características contribuíram para que elas se conservassem, e que sejam testemunho de tempos muito mais remotos). A Arte Rupestre conserva-se em rochas de todo o país, e o Minho não é excepção. As superfícies graníticas que afloram por toda a região, frequentemente apresentam os mais diversos motivos gravados, de diferentes períodos históricos. Os líquenes, os fungos, a orientação da luz natural, o sobreaquecimento provocado pelos incêndios... tudo contribui para que as gravuras se tornem cada vez mais ocultas.

De um momento para o outro, acendem-se as luzes, e deparamo-nos com um cenário invulgar. Como vemos na imagem acima, a orientação da luz artificial através de fois focos, torna mais claro o que se encontra gravado num penedo, desde o Neolítico Final. E vê-se então o que, recorrendo unicamente à luz natural, apenas se distingue ao nascer do Sol, ou ao ocaso. Estas gravuras estão em Briteiros, onde foram gravadas de modo a acolher a luz nascente, que irrompe das cumeadas da Serra da Cabreira. Mas os mesmos motivos se encontram em penedos espalhados por toda a região, no meio das “bouças” ou até no meio de jardins de moradias.

Arqueologia por terras do Barroso

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Av_Monumental_18

Sob os “auspícios” da agreste montanha do Larouco, realizou-se este fim-de-semana, em Montalegre, um Congresso Transfronteiriço de Arqueologia, que reuniu várias dezenas de investigadores num interessante debate e apresentações de projectos e resultados de intervenções arqueológicas.

Ainda que este tipo de eventos seja um pouco considerado como um encontro entre arqueólogos, que se reúnem para discutir entusiasticamente entre si questões que só a eles interessariam, são na verdade espaços abertos de discussão, em que a temática, à partida bastante específica, abarca questões actuais e importantes para o desenvolvimento local e regional. A grande parte destes eventos são abertas a pessoas que não trabalham em investigação arqueológica, e que a eles acorrem para se manterem informados, ou para absorverem alguns aspectos relativamente a um mundo que se revela tendencialmente atractivo. Houve inclusivamente lugar para uma breve, mas muito lúcida, intervenção do conhecido padre António Fontes.

A presença, a dado momento, do ministro da Administração Interna na vila de Salto, que veio inaugurar, curiosamente, o edifício em que o congresso de desenrolava, um pólo do Ecomuseu do Barroso, não impediu os arqueólogos de prosseguirem com a empolgada exposição de ideias (salvo a já costumeira interrupção protocolar).

Como em outras áreas da investigação, os arqueólogos não são todos iguais. Uns há que pensam de forma absolutamente oposta de outros, tendo em conta a sua visão da História, a sua escola de formação, ou mesmo as suas tendências políticas. Por isso mesmo, estes encontros são importantes, no sentido de filtrar, na medida do possível, as interpretações mais tendenciosas ou menos informadas, e de sublinhar, por vezes recorrendo a situações concretas, as normas deontológicas que nos regem.

Por esta iniciativa, que abarcou as investigações no perímetro geográfico de Trás-os-Montes Ocidental, o Município de Montalegre está de parabéns, e que outras iniciativas deste género se sigam. Já agora, um óptimo dia da República!

Castrejos eróticos?

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Avenida Monumental
© SMS

Parece que nem sempre são os Gregos e os Romanos a representarem actos sexuais nas suas pinturas e esculturas. Este curioso baixo-relevo, recolhido na Citânia de Briteiros em 1875, por Martins Sarmento, é um exemplo (não muito típico) de uma muito provável representação de cena sexual. Tal hipótese de interpretação foi, aliás, de imediato colocada por Sarmento, recorrendo à “hermenêutica dos pedreiros” que o ajudavam na Citânia.

A figura da esquerda parece segurar o cabelo da figura da direita. Esta, por sua vez, parece segurar um objecto que, pelo desenho efectuado por Sarmento, parece uma falcata (espécie de pequena espada curva, usada pelos Calaicos), embora este pormenor não se afigure muito nítido na pedra, pelo menos actualmente. Ambas as figuras se encontram unidas por um provável falo.

O conservador arqueólogo Mário Cardozo, não subestimando a interpretação de Sarmento, preferiu ver este baixo-relevo como representação de uma “cena agrícola”, em que duas figuras conduzem um arado.

A existência de uma falcata, na mão da figura da direita, pode indicar a presença de dois guerreiros, sugerindo assim a representação de uma cena homossexual. Mas por outro lado, tendo em conta a descrição de Plínio acerca das mulheres dos Bracari, podemos estar também em presença de uma “guerreira”. Mantêm-se portanto as duas hipóteses. Aliás, mantêm-se as três, não me esquecendo da “cena agrícola”. E porque não... uma cena sexual num cenário agrícola? Bom domingo!

A inexpressividade do tempo

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© SMS

Jocosamente, costumo tratá-la como “o E.T.”, devido ao seu aspecto tendencionalmente alienígena, segundo a ideia preconcebida e errada que o incidente de Roswell nos sugeriu. A perda do nariz original, e os olhos em amêndoa acentuam um pouco essa sugestão cinematográfica. Esta quase inexpressiva cabeça de estátua, da qual não se conhece o resto do corpo, foi recolhida no castro de Santa Iria (Póvoa de Lanhoso), em 1876, tendo sido depois oferecida a Martins Sarmento, de cuja autoria é a fotografia acima.

A estatuária proto-histórica, ainda que amplamente inventariada e estudada do ponto de vista técnico-artístico, desperta interrogações quanto ao real significado da escultura. A maioria da estatuária teria aparentemente um carácter ritual ou político, ou ainda militar (note-se que as estátuas de guerreiros podiam ter também um significado simbólico religioso). Mas quando a fragmentação das esculturas limita a sua leitura técnica, como neste caso da “cabeça” de Santa Iria, a interpretação é ainda menos conclusiva.

De facto, este fragmento pode ter integrado uma estátua de um guerreiro em pé, ou de qualquer outro personagem simbólico, mas pode ter integrado também uma estátua sedente, como a que foi recolhida em Braga (visível aqui), na Colina da Cividade, interpretada como representação de uma divindade, ou de um chefe local.

A “cabeça” do Castro de Santa Iria está actualmente exposta no Museu da Cultura Castreja.
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Avenida Monumental

Um exemplo mais

0830 Ponte Trajano, Chaves
© bridgink

Depois da classificação do centro histórico de Guimarães como Património da Humanidade, em 2001, desta vez a Câmara Municipal de Chaves anunciou a sua intenção de candidatar o núcleo da cidade flaviense a esta importante classificação mundial. Tendo em conta a diferença proporcional (mas não histórica) entre Braga e Chaves poder-se-ão deste facto retirar ilações em relação à forma como os cidadãos de uma e de outra cidade encaram o seu Património, ou do ponto de vista do qual as respectivas edilidades o observam.

Verificou-se nos últimos anos, em Chaves, um importante investimento na investigação e na preservação do património edificado da cidade, quer quando nos referimos ao castelo medieval, às fortalezas modernas de S. Francisco e S. Neutel, às construções urbanas civis que formam o núcleo histórico ou, actualmente em destaque, aos vestígios romanos de Aquae Flaviae. A condição de interioridade geográfica, com as dificuldades que lhe são inerentes, parece ter motivado a Autarquia e os habitantes de Chaves para um novo conceito de desenvolvimento.

Já em Braga, o desenvolvimento surgiu, nas últimas décadas, sob a forma do crescimento urbano oficialmente incentivado, alimentado por um intenso êxodo rural, para fascínio da tecnocracia e do cidadão deslumbrado com os prédios, as avenidas e os shopings. Adquiriu assim a cidade a classificação de "grande", para orgulho de alguns, mas felizmente não para todos. Mas Braga não foi só precoce em crescimento, foi-o também a nível do estudo do seu Património urbano, particularmente depois do surgimento do Campo Arqueológico, na década de setenta. Este estudo, o “Salvamento de Bracara Augusta”, colidiu por vezes com o referido crescimento da cidade. No entanto, os frutos resultantes da investigação arqueológica, ao longo de décadas de escavações, não foram em grande parte colhidos pelos cidadãos.

Esta situação verifica-se porque as zonas escavadas, raramente são conservadas e musealizadas, e quando o são, são muito pouco divulgadas e dinamizadas. Nem Bracara Augusta é, ainda, uma imagem de marca cultural, nem Braga tem as condições necessárias para seguir o exemplo de Guimarães e, agora, de Chaves.
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Avenida Monumental

O Outeiro Lesenho





© MNA


Apesar de conhecer o monumento arqueológico há já algum tempo, pude recentemente ter um contacto mais próximo com este local extraordinário. O monte conhecido como Outeiro Lesenho ou Lesenho Grande, localiza-se na divisória dos concelhos de Boticas e de Ribeira de Pena, sendo um dos limites Sudeste do planalto do Barroso. Na zona mais alta da elevação, que atinge 1073 metros de altitude no vértice geodésico que a encima, estende-se um vasto povoado da Idade do Ferro, do qual a evidência que mais se destaca é o complexo defensivo.

O Castro do Lesenho consiste em vestígios de várias ordens de muralhas, espessas e maciças, que se dispõem, de forma não propriamente concêntrica, pelo que seria a área habitada do povoado. Este teria sido um local de grande simbologia para as populações que habitavam o Alto Tâmega no primeiro milénio antes de Cristo, não só pelo aspecto imponente da elevação, de configuração cónica, mas sobretudo pelos achados que este monumento já revelou.

As duas estátuas em cima, que figuram guerreiros proto-históricos, formam um ícone da Idade do Ferro do Norte de Portugal, e da denominada “Cultura Castreja”. Foram recolhidas no Castro de Lesenho, em data incerta, tendo sido colocadas no adro da igreja da localidade próxima de Covas do Barroso, de onde foram transportadas para Lisboa em 1785. Desde então, acabaram por se tornar numa imagem de marca da Arqueologia portuguesa, conotados, um pouco erroneamente, com os Lusitanos, com um mundo ancestral proto-histórico, do qual teriam descendido os Portugueses actuais. No entanto, a entidade colectiva e cultural na qual estavam inseridos, está hoje mais clarificada, até pelos achados de outras estátuas semelhantes, por todo o Norte de Portugal.

Já no início do século XX, duas estátuas mais, igualmente de guerreiros Calaicos, mas já sem as respectivas cabeças, foram recolhidas no Lesenho, e transportadas para Viana do Castelo, de onde seriam igualmente levadas para Lisboa. As quatro estátuas encontram-se actualmente no Museu Nacional de Arqueologia. Foram já admiradas por imensos investigadores e público geral, não só em Portugal, mas também em países distantes onde, apesar da sua proveniência ser indicada, não se tem uma ideia concreta do monumento de onde estas peças foram retiradas, o seu contexto inicial de inserção.

Boticas tem tentado imprimir alguma visibilidade ao Castro de Lesenho, bem como uma progressiva afirmação da proveniência dos guerreiros. Mas, por vezes, a interioridade é um obstáculo difícil de transpor.
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Avenida Monumental

Os detectores de metal e os sítios arqueológicos[2]

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A utilização deste tipo de tecnologia está, na verdade, regulamentada, e pode ser utilizada em sítios arqueológicos. No entanto, a sua utilização é restrita aos profissionais da área, para a qual têm que requerer autorização expressa ao Igespar, e sempre no contexto de uma intervenção arqueológica previamente projectada.

A questão que mais frequentemente se coloca em relação à utilização “civil” de detectores de metal, não se prende apenas com o facto de peças recolhidas, com valor monetário, irem parar ao mercado paralelo de venda de antiguidades (ou ao mercado legal, quando as peças são levadas para outros países, onde não são identificadas como recolha fortuita). Se esse fosse o problema, os detectores poderiam até ser de utilização livre. Mas a recolha isolada de determinadas peças arrasta consigo um conjunto de factores que implicam necessariamente uma destruição.

Do ponto de vista dos trabalhos de escavação arqueológica, uma peça vale muito mais pelo contexto de deposição em que se insere, e não tanto pelo valor artístico, histórico ou monetário que possa ter. A partir do momento em que uma pessoa, que não tem qualquer formação na área, e como tal não pode ser autorizado sequer a fazer prospecção de superfície, palmilha um sítio arqueológico com um detector, identifica concentrações de metal, e depois desenterra um eventual objecto metálico (por exemplo, um par de arrecadas em ouro), esse objecto é irremediavelmente “arrancado” ao seu contexto arqueológico, sem que o mesmo seja registado.

Posto isto, o objecto agora desenterrado, e que poderia ser de uma utilidade fulcral, por exemplo para datar determinada estrutura, não tem qualquer valor científico, precisamente porque se desconhece o contexto arqueológico de onde ele foi retirado. O mesmo contexto, e os contextos que o sobrepunham, é irremediavelmente perturbado, comprometendo a informação registada em escavações arqueológicas a posteriori.

Tendo em conta o exposto, os arqueólogos não são “egoistas” ao defenderem que mais ninguém deve fazer escavações a não ser eles próprios. Quando tomam esta posição, estão a salvaguardar os monumentos arqueológicos de um dos mais preocupantes perigos que os ameaçam. Por este motivo, pelo que me diz respeito, evito aqui a divulgação de sítios arqueológicos que não foram já intervencionados.
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

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