Dos Projectos Prioritários

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A questão da prioridade de determinados projectos é sempre discutível, em função da existência de necessidades reais (de todos, ou pelo menos de alguns), ou em função do âmbito profissional de quem transmite uma opinião ou de quem decide sobre os projectos. Mas mais importante que a questão do ser ou não prioritário, é o que essa prioridade implica.

Assistimos, nos meses de verão, em Braga, à manifestação pública de uma consciência patrimonial que muito me impressionou. Impressionou-me a quantidade de gente que veiculou opiniões (as mais variadas) sobre o túnel da Avenida da Liberdade e sobre o quarteirão dos CTT, bem como a mobilização que estas duas intervenções arqueológicas parecem ter motivado na sociedade civil bracarense. Também me impressionaram posturas e opiniões erradas ou pouco informadas. Colocou-se em causa a competência de profissionais qualificados, colocou-se em causa a legalidade das intervenções e confundiu-se claramente o que são tomadas de decisão políticas (o projecto em si) com responsabilidades científicas (os trabalhos necessários para a salvaguarda dos vestígios arqueológicos).

Porém, quando do túnel (discutível) passamos para o hospital (prioritário), dir-se-ia que a consciência civil desaparece... Apenas algumas conhecidas associações bracarenses e os jornais de âmbito nacional se manifestam de forma mais contundente acerca da defesa do património arqueológico da zona do novo hospital.

Não tenho dúvida nenhuma de que a construção do novo hospital de Braga seja prioritária, e que a obra da Avenida da Liberdade não tenha sido propriamente uma necessidade. Mas se há vestígios arqueológicos que devem ser salvaguardados, e eventualmente preservados, não obstando à prossecução dos projectos, a postura cívica em relação ao Património deve ser a mesma. Ainda que a defesa dos vestígios não pareça ser, neste caso, politicamente capitalizável...

É portanto louvável a atitude da Junta de Freguesia de S. Vítor, JovemCoop e ASPA e a concentração que agendaram para o próximo dia 8 de Março. Encontra-se disponível aqui o comunicado emitido pela ASPA a este respeito.

A ler:
Achados arqueológicos na obra do novo hospital, JN

7 comentários:

  1. bravo!

    Sigo à pouco tempo este blog.. mas já descobri que tenho pena de não seguir à mais tempo..

    comento para deixar uma palavra de agradecimento a estas pessoas que realmente zelam pelos nossos interesses!

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  2. Tantos anos à espera do hospital e só agora é que estes senhores se lembraram que poderia haver achados importantes no local?

    Também neste país os arqueologos são portugueses...

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  3. Caro Gonçalo:
    Um pouco de humildade ficar-lhe-ia muito bem. Tem todo o direito de não querer ler jornais regionais, mas essa opção não lhe dá autoridade para essa afirmação categórica de que apenas os jornais nacionais denunciaram as ameaças das obras do novo hospital sobre o património arqueológico e cultural. Se andasse bem informado, saberia que o mesmo jornal regional que primeiro alertou para as questões dos CTT e túnel da Avenida da Liberdade foi o mesmo que primeiro alertou para as obras do novo hospital. Mais: esse jornal que parece ignorar é o que mais tem denunciado os atropelos ao património na zona das Sete Fontes. Os seus jornais nacionais apenas têm ido atrás, o que lhes fica muito bem..E não terá sido por acaso que o expresso, na edição de 21 de Fevereiro,destacou a notícia desse tal jornal regional que revela ignorar sobre as causas que levaram ao despedimento do arqueólogo que acompanhava os trabalhos do novo hospital.

    Os melhores cumprimentos.

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  4. Assistimos, como bem refere, nos meses de verão, em Braga, à manifestação pública de uma consciência patrimonial que muito me surpreendeu, devido ao elevado numero de opiniões sobre as intervenções no quarteirão dos CTT e sobre o Túnel da Avenidada da Liberdade. Também me impressionou, à semelhança do Gonçalo, a postura e opiniões erradas, no entanto e no meu entendimento, advindas das entidades envolvidas (CMB, UAUM e IGESPAR), sem com isso colocar em causa a competência profissionais, dos intervenientes.
    De qualquer forma, este processo (Túnel da Avenidada da Liberdade) deveria ter sido dado a conhecer logo no início, mas claro, era preciso que ele estivesse a decorrer para intervir. No entanto, verificou-se que se tinha contribuído para um mal maior...obras, vestígios…., sem se pensar no planeamento antecipado.
    Consulta Publica, deveria ter tido sido feito em sede de EIA como é de conhecimento comum em projectos com interferências em zonas de protecção como é o caso.
    O processo devia ter tido um diagnóstico prévio, que aliás seria certamente uma das recomendações da CCDRN para dar parecer favorável ao projecto. No entanto, isso não se verificou e consequentemente não se realizou o diagnostico arqueológico e com isso perdendo-se a oportunidade de atenuar o problema que estava a ser criado. Não posso deixar de mencionar, que mesmo assim algumas entidades poderiam ter sugerido esse diagnostico prévio, uma vez que é comummente sabido a zona, em causa, é bastante sensível no que concerne a vestígios patrimoniais e estranho, o facto, de apesar de existir um projecto de salvamento de bracara augusta, não exista uma carta arqueológica de risco, que por si só poderia evitar muitos dos problemas que hoje os intervenientes se debatem.

    O que se verificou, não corresponde à prática corrente, na arqueologia nos dias de hoje e consequentemente os trabalhos foram mal orientados metodologicamente (não confundir com metodologia de escavação), tendo em conta que em vez de haver trabalhos e estudos prévios, avançou-se para a execução do projecto e com isso as máquinas e progresso a pressionar os arqueólogos e o património arqueológico.

    Porém, quando refere que passando “do túnel (discutível) passamos para o hospital (prioritário), dir-se-ia que a consciência civil desaparece”. A consciência, não desapareceu, contínua, como se pode constatar com a posição da Junta de Freguesia de S. Vítor, JovemCoop e ASPA. Consciência e acção essa, bem melhor organizada. Estranho e pergunto o facto de estas entidades (exceptuando a Junta de Freguesia, uma vez que a zona administrativa é diferente) no caso da Avenida da Liberdade não terem tomado posições públicas. Alias este caso “Avenida da Liberdade” é um case study de como não se deve actuar na perspectiva da prevenção arqueológica. É que antes da arqueologia de emergência como advoga a UAUM vem a arqueologia de prevenção.
    No entanto, não posso deixar de mencionar que o erro repete-se, ou seja continuamos a avançar para o projecto, sem planeamento, sem prevenção. É sabido que a obra iria desenvolver-se nas proximidades de um importante complexo arqueológico como é o das Sete Fontes e não houve um estudo prévio que permitisse equacionar todos os perigos de destruição de vestígios e com isso alterar-se o projecto, mantendo ao mesmo tempo a normal prossecução dos trabalhos de execução do projecto de construção e salvaguardar, e eventualmente preservar o património em questão.
    Face ao exposto, está na altura de em Braga, alterar-se o modus operandi e alterar a sua visão claramente inadequada da perspectiva arqueológica, passando-se da actuação do quando acontece para o que antes que aconteça. Sei obviamente que a UAUM não conseguirá dar resposta a estas alterações, uma a vez que o seu objecto é, acima de tudo, a investigação no âmbito de uma Universidade. Resta então como acontece no resto do país dar oportunidade de outras equipas que sabem trabalhar em arqueologia de prevenção e possuem os conhecimentos técnicos teóricos e a experiência necessárias.
    Mas pode o Gonçalo dizer, … pois mas no caso das sete fontes é até uma empresa privada que está a efectuar o trabalho…. Por isso é que é obviamente necessária a introdução do tema da prevenção com força de lei em sede de PDM. É necessário ainda que as instituições culturais de defesa do património conheçam as leis gerais do país. Porque obviamente e segundo a lei de Bases 107/01 “Os órgãos competentes da administração do património cultural têm de ser previamente informados dos planos, programas, obras e projectos, tanto públicos como privados, que possam implicar risco de destruição ou deterioração de bens culturais, ou que de algum modo os possam desvalorizar” e estes dois projectos não foram objecto de uma consulta prévia ao IGESPAR e Serviço Regional da Cultura do Norte. É que o previamente, caro Gonçalo, não é enviar o PATA 2 dias antes de se iniciar a empreitada e de se começar o trabalho com autorização verbal. O previamente é com a antecedência necessária para se avaliar o Plano de Trabalhos. Não se esqueça que segundo o artigo 107 da mesma lei: Artigo 103”quem, por inobservância de disposições legais ou regulamentares ou providências limitativas decretadas em conformidade com a presente lei, destruir vestígios, bens ou outros indícios arqueológicos é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa até 360 dias.”

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  5. "O novo hospital de Braga, com data de abertura proposta para 1 de Abril 2009 é um hospital altamente diferenciado que assegura a cobertura de prestação de cuidados a mais de 1 milhão e 100 mil pessoas, toda a região do Minho, dispondo de uma carteira de serviços completa das quais destacamos as seguintes áreas de excelência: Neuro-ciências, materno-infantil, cardiologia e dermatologia."
    como se vê pela data de abertura, tempo que chegue e sobre ouve para escavações. E não é preciso ser Doutor para se saber que em Braga onde escavar há Romanos, ou não?.
    Quanto a académicos, tenho em muito boa consideração a maioria.

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  6. Caro João Belchior,

    Obrigado.


    Caro anónimo (11:10),

    Tantos anos à espera do hospital e, no decorrer destes anos, os “arqueólogos portugueses” iam lá escavar com autorização de quem e pagos por quem?
    Quem promoveu a obra que, tal como os “arqueólogos portugueses”, sabia perfeitamente o que estava em causa, é que devia ter promovido os trabalhos necessários.
    Os arqueólogos, não podendo obviamente intervir no local, a única coisa que podiam fazer (e que fizeram ao longo destes anos, como facilmente poderá confirmar) foi alertar para o Património Arqueológico que estaria em causa com a construção do hospital.


    Caro Francisco,

    Nunca disse que não lia jornais regionais. No entanto, e na minha opinião, a projecção que foi dada pela imprensa local à questão dos CTT e à da Avenida da Liberdade foi muito maior (sensasionalista até) do que a projecção dada às obras do novo hospital.
    Além disso, as evidentes contradições entre os dois principais jornais bracarenses levam-me a olhar com uma certa reserva para as informações publicadas num ou noutro.
    Se quiser concretizar o que é que isto tem que ver com “humildade”, agradecia.


    Cara Gally,

    Se atribui posturas e opiniões erradas, no âmbito dos processos do quarteirão dos CTT e da Avenida da Liberdade, às entidades envolvidas, isso é uma opinião sua. Eu referia-me a posturas e opiniões veiculadas publicamente acerca destes processos, e não relativamente à sua execução pelas entidades envolvidas. No entanto, considerar que houve “postura e opiniões erradas”, mas “sem com isso pôr em causa a competência profissional dos intervenientes” é, no mínimo, contrasensual...

    Quando fala em “planeamento antecipado”, “diagnóstico prévio”, “diagnóstico arqueológico” para “atenuar o problema”... refere-se concretamente a quê?
    Acha minimamente razoável que, antes da execução do projecto do prolongamento do túnel, se cortasse o trânsito na Avenida da Liberdade, se removesse o tapete betuminoso da avenida, se cortassem tubagens de água, de esgotos e de electricidade, se escavassem metros de entulho para depois se escavarem metros de níveis arqueológicos selados... Tudo isto SÓ para fazer um estudo de impacto??
    Não faria assim, faria como?!
    Faria sondagens cirúrgicas? Onde e com que critério?
    Não faria escavação, faria o quê? Prospecção geofísica para detectar estruturas? Ia encontrar muitas, pela avenida toda. Como as iria diferenciar cronologicamente com base numa leitura geofísica?

    A “Gally” não é a primeira pessoa a arvorar uma suposta “bandeira metodológica” em nome de uma “arqueologia preventiva” para a Avenida da Liberdade, mas nunca ninguém explica como seria a “alternativa”. E ninguém explica porque, na verdade, nenhuma equipa de Arqueologia seguiria um método diferente, em face do contexto específico da área em questão.

    Temos depois:
    “O que se verificou não corresponde à prática corrente na arqueologia nos dias de hoje”.

    Não podia estar mais de acordo consigo. Não corresponde, e ainda bem.
    Grande parte dos estudos de impacto que se fazem neste país são uma formalidade administrativa facilmente ultrapassável por qualquer promotor menos escrupuloso, e a “Gally” sabe isso muito bem.

    “...consequentemente os trabalhos foram mal orientados metodologicamente (não confundir com metodologia de escavação), tendo em conta que em vez de haver trabalhos e estudos prévios, avançou-se para a execução do projecto e com isso as máquinas e progresso a pressionar os arqueólogos e o património arqueológico.”

    Muito bem. Mais uma vez qual era a “fórmula mágica” que dispensava as “máquinas e progresso a pressionar os arqueólogos”?

    Quando falei em consciência civil referia-me à quantidade de reacções que os dois projectos do centro da cidade suscitaram, e não às iniciativas da Aspa, da Jovemcoop e da Junta de S. Vítor. Iniciativas e tomadas de posição que, aliás, já não são de agora. Não me recordo se alguma destas entidades tomou alguma posição pública em relação ao quarteirão dos CTT ou à Avenida da Liberdade. Se não tomaram, acho muito bem que não tenham tomado, como nenhuma instituição deve tomar antes de se conhecerem os vestígios que estavam a ser escavados...
    A zona do novo hospital é um caso distinto, posto que houve uma desavença entre o arqueólogo responsável e o adjudicatário da obra, tal como a zona das Sete Fontes, cujo património é bem conhecido e classificado.

    Quando diz, magistralmente, que “o caso da Avenida da Liberdade é um case studdy de como não se deve actuar na perspectiva da prevenção arqueológica”, deve dizer de seguida como teria actuado. E refiro-me em concreto à conduta científica e profissional da equipa de Arqueologia.

    “No entanto, não posso deixar de mencionar que o erro repete-se, ou seja continuamos a avançar para o projecto, sem planeamento, sem prevenção. É sabido que a obra iria desenvolver-se nas proximidades de um importante complexo arqueológico como é o das Sete Fontes e não houve um estudo prévio que permitisse equacionar todos os perigos de destruição de vestígios e com isso alterar-se o projecto, mantendo ao mesmo tempo a normal prossecução dos trabalhos de execução do projecto de construção e salvaguardar, e eventualmente preservar o património em questão.”

    Aqui concordo em parte com o que disse. Mas não concorda a “Gally” comigo quando eu acho que os arqueólogos não são os culpados da situação?
    Aliás, não me parece que esta situação seja sequer comparável com os processos do quarteirão dos CTT e da Avenida da Liberdade.
    Na zona do novo hospital temos efectivamente motivos para estarmos preocupados.

    "Face ao exposto, está na altura de em Braga, alterar-se o modus operandi e alterar a sua visão claramente inadequada da perspectiva arqueológica, passando-se da actuação do quando acontece para o que antes que aconteça. Sei obviamente que a UAUM não conseguirá dar resposta a estas alterações, uma a vez que o seu objecto é, acima de tudo, a investigação no âmbito de uma Universidade. Resta então como acontece no resto do país dar oportunidade de outras equipas que sabem trabalhar em arqueologia de prevenção e possuem os conhecimentos técnicos teóricos e a experiência necessárias."

    Ora cá está. Depois de um discurso altamente moralizador que, na verdade, não diz nada de concreto, eis que a “Gally” nos apresenta a solução: “outras equipas que sabem trabalhar em Arqueologia de prevenção”.
    Muito bem. A que equipas se refere? Suponho que sejam “equipas” altamente qualificadas e que conheçam a realidade arqueológica de Braga.

    “Mas pode o Gonçalo dizer, … pois mas no caso das sete fontes é até uma empresa privada que está a efectuar o trabalho…. Por isso é que é obviamente necessária a introdução do tema da prevenção com força de lei em sede de PDM.”

    Então, se bem percebi, quando uma intervenção é feita pela UAUM, temos “erros metodológicos”, embora não se apontem quais. Quando temos uma intervenção feita por uma empresa privada, a culpa é do PDM...

    “estes dois projectos não foram objecto de uma consulta prévia ao IGESPAR e Serviço Regional da Cultura do Norte”

    A que projectos se refere?

    O resto não vou comentar. Felizmente que muita gente além da “Gally” conhece a Lei de Bases do Património Cultural.
    Peço desculpa pelo tom irónico que usei, mas quando li o seu comentário apercebi-me que se tratava de um conjunto de afirmações despropositadas, visando apontar supostos erros, para os quais não aponta nenhuma solução.
    Neste post do Avenida Central tive o cuidado de diferenciar o que são, por um lado, decisões políticas, concepção do projecto e calendarização do mesmo e, por outro, responsabilidade científica da equipa que foi chamada a intervir.
    Em relação aos aspectos mencionados tenho opiniões distintas e é um erro gravíssimo atribuir responsabilidades indiscriminadamente.


    Caro anónimo (21:48)
    Remeto para a resposta ao anónimo das 11:10.

    Cumprimentos

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  7. CaroGonçalo,

    No primeiro parágrafo da sua longa resposta ao meu comentário (o qual desde já agradeço) refere que atribuo posturas e opiniões erradas às instituições envolvidas, obviamente volto a afirmar o que anteriormente postulei. Não se compreende, por exemplo, como a entidade C.M. B., em processo de concurso preveja unicamente o Acompanhamento Arqueológico da obra, sabendo (ou pelo menos devia saber, já que existe um Gabinete de Arqueologia da Câmara) que o potencial do sítio em questão é enorme. Relembro que toda a zona está abrangida por uma ZEP (vide site do ex IPPAR; relembro as escavações no Largo Carlos Amarante e na Cangosta da Palha – acha crível que tendo-se detectado parte de uma necrópole num sítio e no outro no seu meio a necrópole não existiria? Mesmo que não existisse seria obviamente necessário um diagnostico prévio dado o potencial do sitio em questão. Não se compreende também a postura da UAUM, tal qual uma empresa e ávida de um reforço de facturação, tenha compactuado com a situação concordando com um acompanhamento inicial e depois em caso de detecção de estruturas a sua escavação. Ora tal postura é exactamente contrária à dos CTT, onde existiram sondagens e escavações previamente à execução empreitada, tal como deveria ser. Porque não aconteceu o mesmo no Túnel. Aí, o Gonçalo acha que não é razoável cortar o trânsito. Relembro que em escavações em Silves, Porto, Lisboa (só para citar alguns exemplos) o trânsito foi efectivamente cortado. Pergunto – lhe desde já, se acha então que a actividade de construção civil é mais importante do que a defesa, estudo e investigação do património arqueológico. Porque pelas suas palavras e dando conta que o trânsito se encontra cortado pelas obras posso inferir que provavelmente acreditará que a actividade de construção é mais importante que a arqueológica. Caro Gonçalo, novamente reafirmo que não ponho em causa a competência profissional, até porque os relatórios finais das intervenções não estão disponíveis no arquivo do IGESPAR, à semelhança alias de quase todos os processos de escavação e acompanhamento da zona de Braga.
    O Gonçalo continua a fazer uma certa confusão entre estudos de IMPACTE ambiental e diagnósticos arqueológicos. (não dispensa a consulta do dect. Lei 69/2000) “Um Estudo de Impacte Ambiental é um estudo que tem vários descritores (ruído, ambiente, sócio-economia, etc) sendo que um dos quais é o de património. Ora não é em sede de EIA que se realizam as sondagens arqueológicas. Em sede de EIA é feita pesquisa bibliográfica e prospecção sistemática, do qual resulta um relatório, onde se preconizam medidas de minimização que vão desde o acompanhamento até sondagens (por exemplo). Este relatório é avaliado pelo IGESPAR que concorda ou não com o arqueólogo. Posteriormente, em sede de Comissão de Avaliação é emitida uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) que obriga então à aplicação dessas medidas minimizadoras (note que são impostas outras medidas que não só as patrimoniais, todos os descritores possuem medidas). Essas medidas são aplicadas em sede ou de RECAPE ou em momento prévio à execução da obra (no caso das sondagens). Era o que deveria ter acontecido no Túnel, uma vez que desconheço completamente a existência de isenção de EIA (pelos vistos no Hospital tal isenção existe). Caro Gonçalo é para estes casos de isenção que existem as cartas arqueológicas de risco para que potenciais obras (publicas ou privadas) definam qual os procedimentos a aplicar, tendo em vista a minimização dos impactes patrimoniais.
    Gonçalo isto é planear, prever, antecipar. Não sou contra o progresso, considero-me alias progressista. Defendo é um postulado de transparência, rigor e planeamento dos processos tendo em vista a defesa do património.
    O Gonçalo solicita me explicações de como actuaria a arqueologia de prevenção no caso. Existindo uma carta arqueológica de risco em Braga, ela definiria certamente sondagens de diagnóstico na zona, atendendo ao potencial do sitio em questão pelas razões acima descritas. Assim efectuaria um diagnóstico por sondagens arqueológicas nos locais de afectação directa da empreitada (no mínimo 20% da área total a afectar). Desses trabalhos resultaria um relatório a ser aprovado pelo IGESPAR que condicionaria a empreitada ou alargamentos (caso de detectassem realidades importantes) ou acompanhamento caso nada se detectasse. Esses alargamentos seriam efectuados anteriormente ao inicio da empreitada, não colocando assim pressão em termos de timings para as equipas de arqueologia que algumas vezes, consequência dessa pressão, vêem-se obrigados a realizar trabalhos de escavação à noite (não sei se foi o caso em , mas conheço casos desses no norte do pais e não sei como se conseguem diferenciar camadas e perceber relações entre elas à noite). Resolvidas as questões do património, alterados os projectos (caso isso fosse uma das exigências do IGESPAR) lançava se a empreitada, e provavelmente, o empreiteiro já não utilizaria a arqueologia para ir buscar mais uns trocos e a defesa do património estava salvaguardada. Gonçalo, novamente reafirmo isto é planear, prever, antecipar – isto é a sua formula mágica, Gonçalo.
    Seguidamente o Gonçalo novamente confunde a significância de arqueologia preventiva. Arqueologia preventiva não é uma metodologia, arqueologia preventiva é um conjunto de regras definidas para um sítio que definem quais as bases para a minimização arqueológica.
    Arqueologia preventiva não lhe define se usa o Baker /Harris ou Complexos. A aplicação do método está ao critério do responsável científico que deverá propô-lo ao IGESPAR (Plano de Trabalhos) e este aceitar ou não.
    O Gonçalo crê que os processos de EIA são formalidades, no entanto não se ultrapassam assim tão facilmente. De salientar, que estranhamente ate o FreePort teve processo de EIA, no entanto, estranhamente o Hospital de Braga e o Túnel estão isentos de tal processo, o primeiro com isenção por despacho ministerial o outro desconheço. Aliás considero que o EIA é um processo importantíssimo para avaliação estratégica dos projectos em geral e em ultima análise para o futuro do pais.

    Na sequência e em nome da consciência civil, o Gonçalo, acha que as instituições referidas não deviam tomar qualquer posição porque não sabiam quais os vestígios que estavam a ser escavados. Volvidos 5 meses e conhecidos os vestígios (continuo sem ver qualquer posição oficial das entidades. Mas isto, é só algo que estranhei nada mais. Mais ou menos como o fado não é? Estranha-se e entranha-se. Em Braga já estamos habituados a entranhar, não é verdade?
    No mesmo parágrafo, o Gonçalo, considera que o caso das Sete Fontes é diferente, porque o património já era conhecido e classificado. Caro Gonçalo, novamente , aconselho-o a consultar a pagina do ex-ippar., a zona do túnel está numa ZEP, tal qual como as Sete Fontes. Igualmente, é de conhecimento comum, que a necrópole da Via XVII seria ali comprovada por inúmeras escavações nas redondezas.
    Relativamente à sua questão : “Quando diz, magistralmente, que “o caso da Avenida da Liberdade é um case studdy de como não se deve actuar na perspectiva da prevenção arqueológica”, deve dizer de seguida como teria actuado. E refiro-me em concreto à conduta científica e profissional da equipa de Arqueologia.” Creio já ter respondido a esta questão acima, quando afirmo Arqueologia de Prevenção não se relaciona com práticas arqueológicas, mas sim com conjuntos de regras preventivas aos trabalhos arqueológicos.
    Gonçalo, o meu discurso não é moralizador, mas sim a constatação de factos. Quando me refiro a outras equipas, é na verdade equipas altamente qualificadas e sempre com a colaboração da UAUM, o que não se verifica, pois estranhamente a acção arqueológica realizada na cidade de Braga cobre-se de características únicas, quando comparada com o que se passa no restante território nacional: inexistência de mercado e de concorrência entre potenciais prestadores de serviços.
    Concorda comigo, que a UAUM não consegue dar resposta a estas solicitações, uma a vez que o seu objecto de estudo é, acima de tudo, a investigação no âmbito de uma Universidade. Caro Gonçalo, acho lamentável que uma cidade como Braga não seja um espaço aberto à diversidade nas perspectivas e posicionamentos que permitem produção de conhecimento.
    Neste contexto, permita-me uma questão, porque razão não existe e poucas vezes aconteceu, equipas de arqueologia a trabalhar em Braga, sem estarem ligadas à UAUM? De salientar, que na minha opinião, a UAUM é indispensável na gestão global e na implementação de planos de investigação e de consolidação de processos de conhecimento, embora abertos à restante comunidade arqueológica e à sociedade civil.
    O Gonçalo, certamente conhece casos, onde esta articulação existe e os resultados são extremamente satisfatórios. Porque razão, não acontece em Braga?

    Quando cito “está na altura de em Braga, alterar-se o modus operandi”, não pretendo atacar a UAUM e defender as empresas privadas, somente referir, que os problemas sucessivos do modelo de gestão implementado em Braga demonstram a urgência da reflexão, de forma aberta e transparente, sobre o futuro e caminhar para à implementação de um adequado modelo de gestão que, na posteridade, assegure uma consequente salvaguarda, investigação e valorização dos seus contextos arqueológico.
    De facto, volto a afirmar que o caso da Avenida da Liberdade é um case studdy de como não se deve actuar na perspectiva da prevenção arqueológica e penso que muita gente concorda comigo, embora perceba a postura do Gonçalo.
    No entanto, não podia deixar de mencionar que o erro repetiu-se, ou seja continuamos a avançar para o projecto, sem planeamento, sem prevenção. É sabido, como bem refere, que a obra iria desenvolver-se nas proximidades de um importante complexo arqueológico como é o das Sete Fontes e não houve um estudo prévio que permitisse equacionar todos os perigos de destruição de vestígios e com isso alterar-se o projecto, mantendo ao mesmo tempo a normal prossecução dos trabalhos de execução do projecto de construção e eventualmente preservar o património em questão. Apesar de achar que os arqueólogos não são os culpados da situação, a situação poderia ter sido evitada se existisse, mais uma vez, a carta arqueológica de risco e se a arqueologia de prevenção tivesse sido aplicada.

    No que concerne, ao tom irónico que utilizou, está obviamente desculpado, pois a critica construtiva é sempre benéfica, embora muita gente entenda a mesma, como um ataque pessoal e neste caso institucional.

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