A Favela de Braga

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Bom Jesus
© Carlos António Rodrigues

Conhecida como «favela dos ricos», a encosta do Bom Jesus vai sendo devastada ao ritmo das desordenadas construções de luxo que ali nascem como uma praga que arrasa o património natural, cultural e visual da cidade de Braga. Miguel Bandeira, geógrafo urbano, Carlos Veiga, sociólogo, e Patrícia Veiga, arquitecta, apresentaram recentemente um estudo sobre a qualidade de vida nas áreas de construção na encosta do Bom Jesus de Braga. Destacam-se as seguintes conclusões:

1. Com o «enfavelamento» progressivo começam a surgir litígios entre vizinhos, seja pelas vistas tapadas seja pelas invasões de territórios alheios. A mais valia que levou à escolha daquela área desqualifica as expectativas. Dizem os autores do estudo que «onde cabe, constrói-se; tudo isto vai gerar níveis de conflitualidade, tornando-se até repulsivo para os que lá moram».

2. A falta de planeamento viário condiciona problemas na gestão do tráfego e do estacionamento, cujos efeitos são já sentidos pelos moradores e pelos cidadãos que se deslocam àquelas zonas.

3. A construção sobre linhas de água é um erro cujas consequências poderão ser trágicas. «Se a construção indiscriminada de casas continuar na Encosta do Bom Jesus, particularmente sobre as linhas de água, esta pode, a médio prazo, tornar-se uma área de risco de consolidação das próprias habitações».

4. Outro problema resulta do facto das casas estarem construídas à medida de interesses particulares sem qualquer sensibilidade ambiental. «Por exemplo, os jardins de tipo canteiro não compensam a perda da vegetação exuberante da Serra de Espinho».

5. O modelo de construção na encosta do Bom Jesus favorece uma cultura de isolamento. «Não há relações de vizinhança, nem sentido de comunidade. Devido ao capital escolar dos moradores, 80% dos quais são licenciados, podia haver um certo rendimento para a freguesia, mas não se verifica».

Constatando que o problema poderia ter sido evitado se a construção desordenada tivesse sido travado, os autores do estudo propõem uma solução: «impedir novos licenciamentos em sede de revisão do Plano Director Municipal». A medida, certamente impopular entre os proprietários, afigura-se-nos como indispensável para a salvaguarda, não só dos interesses particulares dos actuais habitantes da encosta do Bom Jesus, mas também de um património que ainda é de todos.

Num tempo em que as eleições autárquicas se perspectivam num horizonte próximo, torna-se imperioso que todos os candidatos clarificassem as suas posições relativamente a esta matéria.

15 comentários:

  1. Habito nesse local e posso garantir que esses argumentos são completamente falsos! A mais pura da mentira.

    1.Não existem conflitos entre vizinhos, o estacionamento não é sequer um problema para moradores e visitas.

    2.Penso que quanto à referida "cultura do isolamento", cada um faz o que quer e quem habita uma vivenda está exactamente a evitar o sentido de vizinhança que lhe poderia dar um apartamento.


    P.S. Não se trataria de um gravíssimo precedente discriminatório impedir os novos proprietários de também eles construírem a sua habitação??
    Ou a discriminação só é usada para o que vos interessa?

    Reflitam...

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  2. Em "favelas destas" não me importava eu de morar...

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  3. Off Topic:

    Para um blog que se afirma cada vez mais como uma montra e local de discussão sobre o Minho, já é mais do que tempo para dar a devida atenção ao Clube de Rugby dos Arcos de Valdevez.
    Este fim de semana esses rapazes venceram o Benfica para a Taça de Portugal por claros 26x10. Estiveram 700 pessoas a assistir ao jogo no campo do CRAV, algo que poucos clubes de Rugby em Portugal conseguem fazer.

    O CRAV é a bandeira da modalidade no Minho e, através de parcerias, está a desenvolver o Rugby em muitos outros locais da região.

    Apesar de todas as dificuldades, o CRAV está cada vez mais vivo!

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  4. E eu a pensar comprar uma «casinha modesta» nesta zona...
    Pelo estudo podem deduzir-se muitas coisas, e uma delas é que pessoas com formação superior não significa necessariamente mais e melhor preocupação ambiental, ambiental em todos os níveis, inclusive, humano.

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  5. É mais do mesmo, notícias deste género infelizmente acho que já não superpreendem. Oiço muita gente, mas muita gente mesmo, a comentar do género "eu sei que o Mesquita meteu muito dinheiro ao bolso e que favorece muito os empreiteiros, mas está a por Braga no mapa e se for para lá outro ocupar o lugar, vai meter ao bolso tanto o mais que o Mesquista para ganhar o dele. Quando oiço isso, cresce uma revolta que só apetecer mandar pró ##$#%$ esse tipo de gente, mas também cresce uma sensação de impotência porque por mais que não vote nesse senhor, ele vai continuar a fazer o que bem entender e vai ficar até quando quiser naquele poleiro. Pergunto eu o que se pode fazer face a esta situação? Cruzar os braços?

    Abraço

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  6. "Onde cabe, constrói-se!", diz bem o Dr Pedro Morgado. Não só este atentado permanente à encosta do Bom Jesus, lembra-se de "Fujacais, nunca mais?", e o Carandá?
    Ainda bem que o Dr Ricardo Rio falou hoje de avançar com um projecto, tipo Jardim Botânico para o parque da Ponte. Chegará a tempo de impedir mais um atentado?
    Sabemos que Braga é uma cidade de empreiteiros e por isso há que fazer "obra"...

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  7. Ah... fica tão giro aquele colorido todos... Mais bonito fica, sabendo que a cidade é cinzenta... sempre se pode levantar o olhar e contemplar aquele colorido todo!

    Estudos? Revisão do PDM? Medidas a adoptar? Soluções?!Requalificação?!

    Desculpem lá... mas... estamos em que país mesmo?! Em que cidade?!

    Isto já lá não vai com estudos... solução mesmo era toda a escosta desabar... acho que ai sim... e só ai... haveria quem pensasse tomar certas medidas! Nada como uma grande tragédia para animar, por um periodo de tempo restrito, as mentes humanas! :)

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  8. Acho que existe aí um belo conjunto de falsas ideias. Sobretudo quando aplicadas com semelhante destaque a essa zona.

    1. Litígios entre vizinhos? Claro que existe esse potencial. Mas o potencial é 1000 vezes maiores em condomínios, sobretudo em prédios com muitos andares. Nem existe comparação possível.

    2. Se é óbvio que não existe um grande planeamento da rede viária, é óbvio também que não existem problemas de tráfego ou estacionamento - até parece que vive lá muita gente. Ora o problema do planeamento é transversal à cidade. Essa longe está longe de ter qualquer problema de tráfego... muito pelo contrário.

    3. Será. Não sei. Mas sei que também não é um problema exclusivo àquela zona.

    4. Apesar de existirem regras mais rígidas (ou menos quebráveis) na construção desse tipo de casas e respectivas áreas de implantação, de novo, não é um problema daquela zona, é um problema de Braga. Até deverá ser a zona onde o problema é menor, dentro da cidade de Braga.

    5. Por exemplo, o facto de existir um prédio de, salvo erro, 16 andares junto ao Braga Parque, é sinónimo de um não isolamento, de uma existência de relações de vizinhança e de um sentido de comunidade? De novo, em relação àquela zona, é uma falsa questão.

    Se esses problemas existem ou têm potencial para existir naquela zona, é demasiado óbvio que há zonas da cidade onde são muitíssimos mais graves. E, sobretudo, não me parece que existam zonas onde esses problemas não se coloquem, em maior ou menor medida.

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  9. De tempos a tempos somos brindados na imprensa com alguns textos, que invocando um certo, mas duvidoso, intelectualismo e escudando meras opiniões pessoais em pretensos estudos científicos, vem vociferar contra o desenfreado urbanismo da “Colina Sagrada” ou depreciativamente denominada de “Favela dos ricos”. É o caso do texto publicado no JN , resultante do “estudo” de Miguel Bandeira, geógrafo urbano, Carlos Veiga, sociólogo, e Patrícia Veiga, arquitecta, cujos resultados o Avenida Central aqui postou e comentou.
    A forma como o “estudo” vem apresentado na imprensa, mais do que uma análise à situação, cheira-me desde logo a uma certa “dor de cotovelo”. Depois, as conclusões parecem-me que denotam uma enorme falta de trabalho de campo e a metodologia usada para a recolha de informação foi mais visual (olhando a colina a partir da UM) do que documental.
    No que respeita à freguesia de Nogueiró, que é aquela sobre a qual tenho alguma legitimidade para falar e referindo-me às 5 conclusões apresentadas, devo referir que:
    1º Desconheço totalmente desavenças entre a vizinhança por falta de vistas, de entre as pessoasque habitam na encosta. Em Nogueiró ainda há vistas para todos. O mesmo já não se verifica noutras zonas mais urbanas da cidade onde os prédios se tapam uns aos outros e já não é uma questão de vistas, mas de falta de ar.
    2º As ruas existentes na freguesia ainda são mais que suficientes para o tráfego que se verifica, pois ele não é assim tanto. Visto de longe parece haver muitas casas, mas na verdade não é tanto assim. Esse foi o erro do estudo, ver de longe. Posso referir que Nogueiró é a zona melhor servida de alternativas de saída para a cidade, são 9 ao todo todas elas livres na maior parte do dia e com ligação directa ao sul e norte de Portugal e vizinha Espanha. A título de exemplo, num dia normal, sem acidentes, um nogueiroense sai da freguesia em direcção a Madrid e só apanha congestionamento precisamente em Madrid.
    3º Não é verdade que se tenha construído em linhas de água. Em Nogueiró, todas as linhas de água estão devidamente assinaladas, limpas e desimpedidas.
    4ºSó quem não conhece a realidade pode falar na destruição da vegetação. Primeiro a zona florestal do Monte de Espinho está perfeitamente preservada, sem construções e com uma vegetação luxuriante, no que toca a esta freguesia nenhum espaço florestal foi invadido. Somente campos agrícolas, onde já ninguém fazia agricultura, porque muito pobres em termos de solo, cobertos de codeços e infestantes, (esses sim atentatórios do ambiente) foram ocupados por habitações rodeadas de grandes espaços verdes devidamente tratados e arborizados e não os canteirinhos descritos no estudo. Se não tiveram tempo de visitar a zona, sempre podiam ir ao Google e ver a freguesia por cima. Veriam a enorme quantidade de verde que existe.
    5º Neste ponto o “estudo” tem razão, realmente a freguesia pouco lucrou com os novos habitantes. É verdade que se isolam nas suas casas, pouco partilhando e contribuindo para a vivência social e cultural e desenvolvimento da terra. Mas trouxeram uma mais valia à cidade de Braga em termos arquitectónicos, pois aqui se situam os melhores exemplares da arquitectura habitacional dos finais do séc XX e inicio do séc. XXI. Quem sabe se daqui por 100 anos, as casas aqui construídas, não sejam das únicas no concelho que caracterizem esta época? E então a Favela, não passe a ser estudada como o maior e mais rico núcleo urbano representante da nossa época?
    Já me alonguei para um comentário, mas sempre gostava de dizer que tenho para comigo que se fosse hoje, com estudos destes, nem o Santuário do Bom-Jesus, conseguiríamos construir, pelo impacto paisagístico que comporta.
    João Tinoco

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  10. é claro que para certos professores universitários, geografos, etc. desde há 30 anos vem sempre criticando tudo o que se faz por cá.
    estranho é que nunca se proponham soluções.
    agora, de seguida vem as 7 fontes, e sabiido é que os projectos para a zona são muito antigos e com barbas. agora começam as obras e ai veem eles (arqueologos, aspa, etc.) para a fotografia.
    Viva a natureza humana, visibilidade pessoal é afinal o que todos pretendem, pois através desta se sentem grandes...

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  11. Naquela zona moram muitos queques cá da zona que só vêm ter com a corja ao fim de semana para irem ao sardinha.
    Nota-se ao longe esse tipo de gente.
    As miudas metem dó.
    Umas vendidas todas pintadas que se dão por quem tem mais na carteira.

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  12. Para o anónimo (00:11),

    Claro, para que precisamos dos académicos? Para actuarem como "entraves ao progresso"? Isto, claro, "desde há 30 anos"...
    O que precisamos é de gente "esperta" que saiba como "fazer dinheiro". Quem fala assim não é gago, caro anónimo.

    O Portugal pequenino que, quando for grande, quer ser como a América...

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  13. 10:55, isso é frustração. Para isso o melhor não é recorrer a blogs, mas sim à psico-terapia.
    Deixa lá as miudas todas pintadas, porque tu sabes que elas são bem jeitosas...não tens é unhas e dentes para as levar em cantigas!

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  14. Eh?
    E a minha vivenda, palecete, é projectada ainda acima das últimas que já lá estão, sobre uma vista alargada.

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  15. agora olham aos ricos porque se cansaram de falar dos pobres!
    oh minha gente, depois da dita "merda" estar feita só se lembraram agora?
    Tenham dó! Gentinha ;)

    É uma favela, que seja , eu estou lá muito bem :D

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