Sonho de Abril

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Celebram-se os heróis da revolução. Festeja-se o fim da guerra colonial. Recordam-se os eventos da revolução, minuto a minuto. Ouvem-se as músicas e contam-se as histórias. De parada militar em parada militar, todos os anos se discursa, em nome do Abril que nos deu a Democracia e a Liberdade.

A história de Portugal pós-abril confunde-se com a história de Portugal na CEE, à qual de imediato nos candidatamos. Com a entrada na CEE e às cavalitas dos 3 milhões de contos por dia, na era Cavaco, lá fomos disfarçando e readiando a crise. Vivemos deslumbrados com uma prosperidade que só seria real sem esbanjamento, com investimentos avisados e, sobretudo, com uma profunda alteração das mentalidades. Até que a torneira se fechou e outros Estados se tornaram membros. Disfarçamos uma crise que não é a crise global de hoje, nem é de 2001. Em bastantes aspectos, tampouco será uma do séc. XX. É uma crise civilizacional. Portugal não fica para trás. Para ficarmos para trás, era preciso ter estado a par daqueles (e "corrido" ao seu ritmo) com quem nos comparamos, alguma vez nos últimos séculos. A par, a nível económico, social e cultural. Outros souberam aproveitar as oportunidades. Com o Plano Marshall a Europa reconstruiu-se. Com a entrada na CEE a Espanha, aqui ao lado, conheceu uma enorme prosperidade, apesar dos seus alicerces, tal como os dos irlandeses, ainda não serem os mais famosos. Portugal corre sempre ao mesmo ritmo enfadonho e pouco ambicioso, desde há séculos. Os "anos dourados" dos fundos da CEE foram apenas uma espécie de doping.

Mas afinal, o sonho de Abril não era e é, para além do objectivo da Liberdade e da Democracia, também um projecto de nação? As celebrações de Abril pautam-se sempre, exclusivamente, pelo saudosismo da conquista dessa liberdade e dessa democracia. Deviam também servir como uma lembrança, como um estímulo constante na persecução desse projecto. Enfim, como um despertar que se adia.

3 comentários:

  1. O Jorge Sousa quis escrever sobre o 25 de Abril mas acabou por passar completamente ao lado.
    Saltou de 1974 para 1986 num ápice.
    Não abordou as razões de Abril, o período revolucionário, a assembleia constituinte e os traços gerais da CRP (estranho para um estudante de Direito).
    Acha mesmo que Abril se resume aos fundos da CEE?
    Depois mete o plano Marshall ao barulho sem saber o que tal implicou para Portugal...
    Mas que grande confusão.
    E as consequências de Bril na política internacional?
    E a descolonização?
    Nada?Nada mesmo?
    Agora sim, percebo a razão pela qual Abril é mais um dia neste país.

    Fernando Montenegro

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  2. Não queria falar propriamente do que Abril é. Não queria falar da Assembleia Constituinte ou da Constituição. Tampouco da ditadura, da guerra colonial ou do Verão Quente. Os fundos da CEE foram só um pormenor de um passado recente, para frisar a oportunidade que de novo perdemos. Continuamos a cometer os mesmos erros do passado e não é um passado de 35 anos, nem sequer do séc. XX.

    Quis falar da Revolução de que não se fala. Do Sonho de Abril que também foi e parece que não é, nem vai ser. Do Sonho que nem sequer é dessa geração, mas já bastante antigo. Mais logo entra outro post e perceberá a que Revolução me refiro. De qualquer forma, a ideia do post é dizer que há uma não-Revolução que há séculos que se adia, que devia ser lembrada, pois também fez parte da revolução de Abril, dos seus ideais.

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  3. PS: Como referi quanto à CEE, a referência ao Plano Marshall foi apenas para frisar o agarrar das oportunidades, que este significou para muitos países. Portugal entrou tarde e recebeu uma soma comparativamente insignificante. Espanha só posteriormente foi ajudada. Mas a verdadeira oportunidade que o dinheiro garante, surgiu com a entrada na CEE, quer para Espanha, quer para Portugal, . Mas a abundância de dinheiro não faz tudo. Oportunidades. :)

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