A Guerra Contra a Ciência

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Depois de tantos séculos de progresso ancorado no conhecimento científico, a forma obsessivamente desconfiada como alguns sectores da sociedade encaram a ciência assume contornos de paranóia. A nova cruzada contra a ciência, liderada por grupos religiosos e acompanhada pelo sectores políticos mais conservadores, procura ostaculizar o desenvolvimento científico através da sementeira do medo e da apologia do desperdício.

O medo é instilado pela delirante denúncia de estratégias de destruição da humanidade por via da manipulação genética, da promoção da eugenia ou da barbarização dos princípios sociais dominantes. A apologia do desperdício, uma espécie de imediatismo idiota tão demagógico quanto mobilizador, opera-se pela ridizularização da investigação científica sempre que a aplicabilidade dos novos conhecimentos ainda não está ao alcance da compreensão da esmagadora maioria da população.

Uma e outra estratégias aceitam-se na conversa de café e toleram-se no jornal de bairro, mas são inadmissíveis quando está em causa decidir o futuro de uma nação. O respeito por toda e qualquer crença, dos dogmas historicamente mais resistentes às idiotices que se perdem no escoar do tempo, não deve ser justificativo para que, a troco de qualquer convicção, tenhamos que suportar uma dantesca permanência no obscurantismo ignorante.

É que, invariavelmente, os apologistas do medo e do desperdício são os primeiros a servirem-se das conquistas da ciência, tratando-se nas clínicas mais luxuosas, com recurso aos fármacos emergentes, às técnicas mais avançadas e às tecnologias mais recentes. Ao empeçilhar o desenvolvimento da ciência, os apologistas do medo e do desperdício condenam todos os outros a uma espécie de castigo de Tântalo, seja pela interminável espera que os governos e/ou o mercado resolvam as questões da acessibilidade ao tratamento emergente, seja pelo óbvio atrasar do virar de página para o sucesso científico que vem a seguir.

Sara Pallin, a número dois de John McCain na corrida à Casa Branca, tem somado intervenções anedóticas no que respeita à investigação e desenvolvimento científicos, engrossando a horda dos que fazem a apologia do medo e do desperdício. Usar do escárnio e acusar de desperdício os trabalhos que têm sido desenvolvidos com a mosca da fruta, um precioso animal que muito ajudou à compreensão e tratamento de algumas das doenças mais nefastas, é abusar da demagogia desonesta e ignorante.

Inteligência, discernimento e humildade é o mínimo que se exige a quem deseja assumir os mais altos cargos de uma nação, mas estes são atributos que, a existirem, têm estado na penumbra sempre que Sara Pallin fala sobre matérias científicas.

3 comentários:

  1. eu reformularia a frase:

    "Inteligência, discernimento e humildade é o mínimo que se exige sempre que SP fala"

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  2. As declarações sobre a mosca acabam por ser particularmente curiosas, pois, em duas semanas, a Sarah Palin gastou quase tanto dinheiro em roupa e 'make up' como o que é atribuído a essa tal pesquisa, em França.

    «Gov. Sarah Palin denounced wasteful expenditure on fruit-fly research, adding for good xenophobic and anti-elitist measure that some of this research took place "in Paris, France" and winding up with a folksy "I kid you not."»

    http://www.huffingtonpost.com/2008/10/22/palin-clothes-spending-ha_n_136740.html

    «Since her selection as John McCain's running mate, the Republican National Committee spent more than $150,000 on clothing and make-up for Gov. Sarah Palin, her husband, and even her infant son, it was reported on Tuesday evening.»

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  3. Pedro,
    Como dissestes, "O medo é instilado pela delirante denúncia de estratégias de destruição da humanidade por via da manipulação genética, da promoção da eugenia ou da barbarização dos princípios sociais dominantes." Eu diria,sim, o medo é o instrumento preferencial do esquema de dominação em curso, e creio que quanto a isso não haja mais dúvida. Já, em nível de responsabilidade social,ou política, compete separar o que é medo instrumentalizado daquilo que é, de fato, entendimento e resistência contra um processo em curso que trás como resultado a subjugação da humanidade. E, sendo mais do que sintético, diria que o reconhecimento de direito de patente sobre sementes geneticamente modificadas é parte desse processo.
    É por essas e por outras que o cientista não deve ignorar o processo "político".
    Att.,
    Mário S.

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