RTP e a Ditadura do Popular

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«Serviço Público» é o eufemismo com que se têm justificado as avultadas quantias transferidas dos cofres do Estado para o orçamento da RTP. Ainda que o conceito seja altamente subjectivo e pleomórfico, parece consensual que o «Serviço Público» da RTP se tem degragado significativamente devido aos sucessivas devaneios da televisão do Estado para um estilo altamente comercial e nada condicente com as funções que lhe estão consignadas.

Transformada numa «televisão popular de Lisboa», a RTP pouco tem acrescentado ao depauperado panorama televisivo nacional. Ainda o estilo seja mais sóbrio, o Telejornal mantém a fórmula de sensação dos espaços informativos das concorrentes privadas, insistindo na análise superficial do que merecia reflexão profunda e no aprofundamento sistemático do que dispensava mais do que uma simples referência.

Não são raras as vezes em que o futebol é o espelho do país. A notícia de que a RTP pagou 350 mil euros pela transmissão de um jogo do Benfica na Taça UEFA está a causar polémica pelos valores envolvidos na transacção. Contudo, esse é um detalhe absolutamente irrelevante sabendo-se que o valor em causa será parcialmente amortizado pelas receitas publicitárias do jogo. O que deve causar verdadeira indignação é a rendição da televisão pública à «ditadura do popular».

Havendo três clubes portugueses em prova, a RTP deveria ter a obrigação de asseguar que os jogos menos apetecíveis pelo mercado privado não ficassem sistematicamente sem transmissão. Só assim contribuíria, como é sua missão, para o cumprimento dos princípios da «diversificação» e do «pluralismo», previstos na Lei da Televisão.

É esta «ditadura do popular» que, ao impor-nos a transmissão ad nauseum de conferências de imprensa, de treinos, de detalhados relatórios médicos e de novelas de balneário, torna a RTP indistinguível das suas congéneres privadas.

Por tudo isto, talvez seja tempo de repensarmos o «Serviço Público» de televisão, isentando os contribuintes do pagamento compulsivo de uma televisão que apenas serve para acrescentar oferta ao público que se contenta com a «ditadura do popular».

11 comentários:

  1. excelente texto. nunca tinha pensado nas coisas dessa perscpectiva, mas defacto é verdade... andamos a pagar para a rtp dar o mesmo que as outras e, tal como as outras, discriminar o nosso minho...

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  2. Eu não tiro razão nenhuma a este texto, bem pelo contrário. A cultura do benfiquismo apenas é afuscada pelo portismo e sportinguismo quando estes conseguem fazer alguma coisa "lá fora". E ainda assim, é dificil. Como portista convicto (leia-se doente - lol), sinto-me indignado, quando a cada aproximação do benfiquinha (por mais virtual que ela seja, nesta altura) lhe sejam entregues as faixas de campeão nacional (sendo que estão a uns "míseros" 11 pontos ATRÁS). Mas de facto é a cultura que vívemos, "a cultura dos coitadinhos".

    Ao revelares a tua opinião, estás, como é lógico, a puxar a brasa á tua sardinha (leia-se S.C.Braga). E de facto, pensando bem, tens toda a razão na tua opinião, e conhecendo-me sabes que assino por baixo a letras bem gordas esse teu comentário.

    No entanto há duas questões que aqui são mais do que essenciais. Quanto ganhará a RTP em share com a transmissão dos "coitadinhos" e a transmissão da desilusão destes? E quanto ganharia a RTP ao transmitir o BRAGA e o orgulho que que os bracarenses sentem ao ver o seu clube na uefa?

    Enfim... É a cultura dos "coitadinhos" em que vivemos...

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  3. Do meu ponto de vista já faz algum tempo que a RTP tem abusado da confiança e tem sido cada vez mais imparcial.
    Este caso da não transmissão do Braga num jogo a contar para a UEFA, faz-me lembrar muitos outros casos idênticos, não só com o Braga, mas também com outros clubes do Norte.
    Até na questão do Apito dourado se vê de que é constituida a dita "RTP". Ainda não me esqueci da célebre entrevista/documentário em que o único objectivo da RTP foi de difamar injustamente a entidade FCP, colocando à mercê do telespectador única e exclusivamente os piores momentos do clube deste que este nasceu. Nessa altura a RTP tentou a todo o custo passar uma imagem muito mais que negativa do FCP, quase que em forma de juízo final como se os responsáveis por tal transmissão fossem juízes de tribunal.
    Curioso de vêr seria se a seguir também tivessem transmitido "o pior do SLB".
    De certeza que seria uma transmissão muito mais aterradora...estarei enganado? (os ignorantes escusam de ficar chateados.. lol)
    O tiro ainda vai sair pela colatra a esse gambuzino que lá por estar nos 50 mais ricos de Portugal, não me tira o direito de lhe chamar de Luis Filipe Vieira.

    "Eu, Luis." Será o título de um livro a ser comercializado brevemente.

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  4. Pedro:

    Eis um texto cheio de boas intenções, mas porque enferma de clubite (no mínimo), acaba por te trair, como num golo na propria baliza.

    Começas por cascar no chamado serviço público, com farta adjectivação "clínica" (como o pleomórfico) - compreendo que é a tua especialidade. Depois de lembrares que o dinheiro pago pela transmissão de um jogo de futebol é um "detalhe absolutamente irrelevante" por causa das contrapartidas publicitárias, concluis que "(...) a RTP deveria ter a obrigação de asseguar que os jogos menos apetecíveis pelo mercado privado não ficassem sistematicamente sem transmissão(...)".

    Para a RTP, é uma situação de "loose-loose": nunca estaria a salvo de análises como a tua - porque optando por um jogo "menos apetecível" para as audiências, pouparia na transmissão, mas também perderia receitas e público. E logo logo viriam os franco-atirados (que martelam o Serviço Público por tudo e por nada) perorar contra a empresa que não satisfaz nem as finanças nem as audiências.

    O pior é que prossegues: "Só assim contribuíria, como é sua missão, para o cumprimento dos princípios da «diversificação» e do «pluralismo», previstos na Lei da Televisão (...)"

    Desculpa?!... Diversificar, defender o pluralismo, como impõe a lei, não é discutir se vemos o Benfica ou o Braga ou o Porto. Seria perguntarmo-nos se vemos futebol ou outra coisa. Ou não concordas?

    O teu raciocínio leva-te à conclusão seguinte - isentar o pobre do contribuinte, que já paga por tudo e por nada. É uma proposta, vá, popular, mas um mau serviço para discutir algo tão importante para esse conceito que tanto nos (pre)ocupa nesta Avenida Central: a Democracia.

    Por isso te estranho neste texto, e embora concorde com algumas coisas, não resisto a dizer-te: a isto se chama um "frango". E é uma pena, porque o tema é pertinente.

    Abraço
    ASS: Victor

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  5. Caro Victor,

    Em primeiro, estou certo que sabes o que sucederia caso não houvesse transmissão televisiva de um Werder Bremen - Benfica para a Taça UEFA.

    Devo dizer que estou em total acordo contigo quando dizes que o primeiro debate deve centrar-se no facto de sabermos se é futebol ou outra coisa qualquer que deve passar na RTP. Mas, gramando com o futebol, a verdade é que o facto da RTP privilegiar um amigável do Benfica ou Porto em relação a um jogo oficial de outro clube português é a antítese do que deve ser o serviço público.

    O que eu digo é que se a RTP serve para acrescentar oferta aos adeptos dos três grandes, então não faz sentido continuarmos a pagar impostos para financiar o «serviço público». Na minha óptica, uma televisão estatal deve servir, precisamente, para reduzir as assimetrias, favorecendo a pluralidade.

    Uma boa forma de começar esse empreendimento, seria tratar os 16 clubes da Liga como iguais e, de seguida, dar idêntico destaque aos clubes que estão nas competições europeias.

    Estamos a falar de futebol, mas a conversa aplica-se a qualquer outra área: bem sabemos que um espectáculo de quarto nível em Lisboa tem maior destaque na televisão do Estado que um concerto de qualidade superior em Braga.

    Já que é a democracia que nos move, façamos o favor a nós próprios de não cair na tentação de a confundir com a ditadura da maioria.

    Abraço,
    PM

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  6. A questão não é se a RTP privilegia o Benfica nas transmissões, já que uma televisão pública, nos moldes previstos no seu estatuto, não tem que desperdiçar o mercado de audiências/publicidade, e já se sabe que o Benfica nesse campo "arrasa".O problema é saber como compaginar o interesse dos 3 clubes que jogam na UEFA e se nesse contexto não devia ser feita uma aproximação (possivel) entre os canais para garantirem, ainda que em sobreposição, as imagens dos 3 jogos...
    E aí o bom senso tem que imperar.

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  7. Err... 90% do serviço público está na RTP2, mas enfim...

    Mostrar futebol não é serviço público. Mostrar dezenas de outros desportos, como fazem nada 2, já é serviço público. Mas sim, de facto mais valia "libertarem" a RTP1 do serviço público e manter a RTP2 só para isso. Até podia ser que a RTP1 conseguisse ter lucro.

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  8. Caro Pedro,

    Sugiro uma vista de olhos a este post do Trio de Rachar. Tal como sugiro uma escuta do programa que o precedeu. Obrigado

    http://editor.blog.com/posts/edit/?postid=2424421

    Pedro Antunes

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  9. Fazendo uma alusão ao país em que vivemos... sugiro este post:

    http://jornaldatripeira.blogspot.com/2008/02/uma-semana-benfica.html

    Lindo...define bem aquilo que eu chamo de "ditadura popular" e de "cultura dos coitadinhos"

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  10. "Contudo, esse é um detalhe absolutamente irrelevante sabendo-se que o valor em causa será parcialmente amortizado pelas receitas publicitárias do jogo."

    Não concordo. Se o valor não é totalmente coberto pelas receitas publicitárias, então estamos perante um caso de subsidiação do clube. O que não me parece aceitável.

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  11. A RTP é o maior desastre como serviço publico de televisão.Apelida-se de serviço público para chupar no orçamento do estado e nos contribuintes pagantes da taxa dos audivisuais.Devia apenas chamar-se RTLA-Radio Televisão de Lisboa e Arredores e deixar de ser serviço público.Desta televisão a paisagem está farta

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