[Avenida do Mal] Os Reinos do Meio

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Não é preciso morar nos recônditos de Portugal mais entranhado de granito e chalés para se notar o quão diferente do que se vende aos olhos, temos. É do Minho ao Algarve, mais territórios intra-marinos, quais restos de Atlântida afundada e deitados aos porcos. Mas fica-se pelo Continente este rodopio de raciocínio, que não dou mais paleio – e ele tão pouco m’o deve ler – a Alberto João Jardim, qual deus calvo em saia de folhas de bananeira... Corre-se então por aqui, de carro ou veículo, de mais ou menos rodas, mais ou menos assentos, na trama de auto-estradas e viadutos. Erguidos estes com o dinheiro da Europa e pagos por nós às prestações, em juros de mora, a gente que não tinha de receber por elas. E não se entende porquê mas também pouco se contesta para lá de um insulto para o bolso ao sair da portagem, depois de parados ou em via verde.

Na real fotografia do país profundo ou menos esclarecido, tido como satisfeito com pequenas migalhas, observam-se as diferenças com o tempo. Em terras onde nem Cristo passaria em calvário ou em jejum, nem por 4 dias quanto mais 40, vêem-se novas cidades em ponto pequeno, e parolas muitas vezes, erguidas ao novo caciquismo pós-regedor e casas-do-povo. São no entanto aldeolas a perder gente porque não lhes coube na cabeça, e tão pouco lhes foi útil aos dedos e às mãos, a educação do Estado e privados, para lá de tabuadas e cópias à mão, e muito empresário de 4ª classe com mais linhas ferroviárias de Angola na cabeça que noções de mercado. Vão se assim com os telemóveis e exigências de sociedade do consumo, gerações inteiras fugidas em sangria para terras de mais cimento ou de melhor salário, como Espanha aqui ao lado, onde raramente os tomam como burros.

No entanto, interessa antes aos olhos de muitos quando voltam, em férias de emigrado para áreas de metrópole, ou para lá e para cá dos Pirinéus, ver que apesar de tudo, se erguem piscinas e pavilhões a cada quilómetro, edifícios cheios de ar e ecos de vozes ao longe e sozinhos como escrever de caneta. Manifestações exteriores de riqueza em lugares de gente em que a inocência é calo e a única riqueza interior que possuem. Feitos ignorantes e portanto sossegados, satisfeitos com os monumentos à grandeza.

Nestes territórios metidos dentro, os Paços Municipais são sede de Reinos do Meio, palácios de figuras endeusadas extraídas da veia sebastianista de um povo sempre refém de Moisés empacotados e Salomões de quem se depende no aceno de mão. Não se abre o mar ao meio mas pelo andar da subida do nível bem que se podia abrir, tanto se constrói em cima dele. Seriam exemplos bíblicos, Avelino Ferreira Torres a outros que nem me atrevo a dizer o nome, mas que aproveitando o dinheiro europeu e a fiarada do Estado Social, metido no quotidiano como um cancro e metástases, abriram caminho a santuários e sessões de adoração às suas figuras de olho em terra de cegos. E o conceito, por muito serrano que pareça, também se aplica a cidades sede de governo civil.

E com as vicissitudes deste país retalhado de pequenos principados, há também uma lógica de distribuição de dinheiros feita mal e de acordo com a capacidade de aborrecimento dos monarcas de província. As administrações regionais funcionam na lógica do aparelho e dão-se com o suceder de governos, tempos de vacas gordas para uns e magras para outros. E se boa a altura e o contexto, e apropriada a semente, criam-se as condições de emergência a reinados longos e no meio de um Portugal chupado por quantos buracos tem. Queixam-se autarcas outros, mais ou menos comportados, do bife que os outros tiveram e da sola com que ficaram. São as lógicas do que temos e para o qual contribuímos com o arrastar do nosso modelo de administração do território.

Mas forçada, e em jeito de conclusão, estará a pendente consideração e análise futura, porque para lá dos inconvenientes de muito culto de personalidade, há em alguns autarcas do país, apontados como em fase autista do mandato, uma questão de método na criação de iguais oportunidades para os seus conterrâneos. E por muito chavistas que pareçam, e tão pouco me agradem, são no emperro de tantos anos, a ruptura face a uma espécie de feudo herdado do salazarismo, comedido e obediente. Produto de entremeada entre o que veio de trás e o que virá para a frente. Os portugueses também são, em liberdade, gente permeável a novas ideias e conceitos de vida. Vá-se só perceber que espécie de sociedade e vícios teremos, quando saírem alguns deles.

Foto de José Gama

2 comentários:

  1. O teu atrevimento deveria fazer com que identificasses outros para além do "fácil", Avelino Ferreira Torres.

    Aos sábados não perder Avenida do Mal.

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  2. Quem?
    O Mal Maior das terras de Basto?
    O Cacique mor?

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