A Elitização do Theatro Circo

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Em Novembro de 2006, escrevi aqui o seguinte:

O Theatro Circo regressou à cidade de Braga com um enorme sucesso. Um cartaz de qualidade e uma vontade inusitada de todos os bracarenses de revisitar um espaço superiormente restaurado têm sido os condimentos essenciais dos sucessos de bilheteira que se repetem. [...]
O Theatro que não se quer banalizado também não pode fechar-se numa programação excessivamente elitista, porque essa não é a sua missão.

Os últimos seis meses têm confirmado as nossas piores expectativas. O Theatro Circo tem um pendor excessivamente elitista, opção que se vem reflectido na fraca adesão dos públicos aos espectáculos ali promovidos. Fraca adesão que é, por sua vez, justificação evidente da instabilidade na Administração daquele espaço cultural.
A segregação antecipada da participação da sociedade, patenteada na anunciada interdição do espaço aos estudantes universitários, foi um sinal que, à época, encarámos com a apreensão que agora sentimos mais que justificada.

Agora que passou o efeito da novidade, o Theatro tem que se voltar para a cidade, envolvendo-a e motivando-a para este projecto. Não vale a pena dizer que as pessoas não aderem, é urgente cativá-las. Até porque, num deserto (cultural), não será muito difícil gerir um oásis.

14 comentários:

  1. Eu acho que o mais elitista que o TC tem, assim como o CCVF, é o preço dos bilhetes! Ecletismo é bom, por isso venha o Tony, a Floribella, O Mickael, a Ágata, etcaetra, etcaetra...

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  2. Já agora, cuidado com a utilização da palavra "deserto". Não vá o Lorpa tecê-las...

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  3. Prezado Pedro Morgado,

    É fácil deitar abaixo. Braga e o seu Theatro têm um dos melhores programadores culturais do país. Até agora Braga recebeu nomes que nunca imaginei que um dia iria ver em Braga.

    A população não aderiu em massa, tudo bem. Então digam-me algo a que os bracarenses aderem em massa? Algo? Nem ao futebol em que mesmo numa fase adiantada da UEFA metemos 6.000 alminhas no estádio.

    O problema está na cidade! As pessoas estão muito acomodadas nem têm apelo para sair de casa. O problema é desta câmara que promove a construção de prédios sem qualquer critério por areas circundantes do centro e não se preocupa minimamente em dinamizar o centro. Ir ao teatro é uma diversão em qualquer cidade. Ver as ruas com gente, restaurantes e bares para se ir antes ou depois. Onde isso existe em Braga? A nossa cidade é cada vez mais uma cidade dormitório. Por falta de opções, na sua cidade, os bracarenses que querem sair vão para o Porto. Basta ir a um teatro, bar, restaurante, discoteca no Porto que se encontram lá vários bracarenses.
    A câmara de Braga, que única e exclusivamente se preocupa com os negócios do betão, deveria ter um programa cultural sério e de dinamização do centro da cidade.
    Existem jovens bracarenses que gostariam de ficar em Braga para se divertirem mas só não ficam por falta de opções. O centro de Braga teria potencial para ser uma área cultural e de diversão fantástica no entanto nada se faz nesse sentido.
    Não culpem a gestão Theatro do Circo disso. Eu nem conheço pessoalmente o director cultural. Sei que ele esteve na Casa das Artes de Famalicão, onde eu fui várias vezes devido ao excelnete programa que oferecia. Ia eu de Braga, outros do Porto, Guimarães, etc etc Não vejo por que a programação do Theatro seja elitista, ou no que difere substancialmente de uma Casa da Música ou Serralves. E lá as pessoas aderem.

    Se estão a sugerir para se fazerem no Theatro eventos para o Toni Carreira e teatro de revista barato, força. Verão se atraem gente....O que move estes espaços, quer se queira quer não, são os as pessoas dos 20 aos 45 anos e podem ter a certeza que essa faixa de idades já não está para teatros de revista. Só em casos pontuais. Nem são com esses "artistas" que se dinamiza os eventos culturais na cidade.

    Podem dar muitas voltas mas enquanto não dinamizarem o centro à noite e o tirarem deste marasmo o Theatro não vai encher. Por muito boa que seja a sua programação.

    O Paulo Brandão é do melhor que existe na àrea. Melhor não vão encontrar...

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  4. Car Anónimo,

    Sem duvida que o Paulo Brandão é o melhor que há por aqui. Mas até os melhores podem ser criticados no sentido de melhorarem a sua actuação.

    O afastamento entre a cidade e o Theatro é uma evidência. Há que dar a volta e não ficar à espera que a cidade decida mobilizar-se.

    O Braga teve mais de 6000 pessoas no jogo contra o Parma. Foi um fracasso que se deveu a uma política errada da Direcção e que, na ocasião, censurei. Mas deu a volta por cima e no jogo seguinte eram 13.000, no final da época bateu o record de assistências...

    Eu também gostava que Braga tivesse mais gente nas ruas, que o centro tivesse mais vida, que as pessoas fossem mais activas culturalmente. Mas por algum lado temos que começar...

    Se tiver tempo, leia este texto...

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  5. Prezado Pedro Morgado,

    Tem que se começar em algum lado, com certeza. No entanto, estás a começar por umas das poucas coisas que estão bem em Braga - a programação excelente do Theatro do Circo.
    O que me preocupa é que gente da Câmara de Braga (ou ligada) tacanha, provinciana e incompetente como só eles, poderão ler o teu blog. Será mais uma razão para insistirem em criar e espalhar a ideia que o Theatro não tem gente por culpa da programação. Mandam embora o Paulo Brandão e com certeza que o problema se vai manter, venha quem vier. Isto não é em defesa do Paulo Brandão pois imagino que convites de trabalho não lhe devem faltar.

    O que tem que ser dito é que esta câmara promoveu o abandono do centro da cidade. A cidade está totalmente descaracterizada. Trago amigos de fora de Braga e quero-lhes mostrar a minha cidade e não faço ideia a onde os poderei levar. O lobby do betão em conjunto com este presidenteco conseguiram fazer de Braga um coisa que ela nunca deveria ser.
    O estado das coisas tem que ser mudado pelos mais jovens. As pessoas que estão na câmara e afins não estão minimamente preocupadas - pois cultura é coisa que para eles não existe e diversão também não pois eles querem acordar às 6h00 da manhã para estarem às 7h00 à porta da câmara para verem quem entra.

    Braga deixa-me triste. Leva á depressão. Com certeza que vai surgir o discurso tipo "a noite é para dormir, no dia seguinte é dia de trabalho". Eu trabalho (e muito) e por isso MESMO tenho direito em ir á noite a um bar, jantar fora, ir ao teatro, passear no centro da minha cidade etc Em Braga não é possível pois o centro da cidade está desértico à noite. Afasta as pessoas.

    A culpa é da programação do Theatro? Muito fez o Theatro neste seu primeiro ano.

    Caso pretendas tentar criar um movimento para se mudar o estado das coisas, aponta para os alvos certos.

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  6. Caro Pedro,

    Braga é há anos um deserto cultural. A abertura do Theatro Circo representou um sinal de esperança para todos aqueles, bracarenses ou não, que gostam da cidade. Conheço Braga há mais de uma década, tendo vivido na cidade nove anos. A política cultural da edilidade bracarense é quase nula. Exemplo disso foi o processo de reabilitação do Theatro Circo. Durante anos seguidos, a CM atrasou as obras, pois a reconstrução deste espaço nunca foi uma prioridade.

    Surpreenderam-me imenso ao contratar Paulo Brandão, programador com provas dadas e garante de qualidade. Mas não se podia conceber que, de repente, a cidade acordasse para uma nova realidade cultural. Braga recebeu nomes como Antony and the Johnsons, Al Di Meola, entre outros, de inegável valor artístico. De início, os espectáculos estiveram cheios, fossem eles nomes conhecidos, de qualidade ou simplesmente ilustres desconhecidos. Aprendi com o tempo que Braga é uma cidade de modas. No início, as elites e os bracarenses motivaram-se e iam ver espectáculos sem saber bem ao que iam. Até o presidente Mesquita Machado se referiu ao Antony, como se fosse grande fã dele (certa MM deverá ter outras preferências estéticas).

    Pois bem, passado a novidade, o Theatro Circo começa a enfrentar a triste realidade da cidade em que está inserida: uma cidade onde não existe consciência cultural devido à inexistência de uma política cultural e onde não existem públicos consumidores de ofertas de qualidade. Como bem referiu o anónimo, em Braga quem deseja ter uma vida cosmopolita cultural e socialmente, desloca-se para o Porto.

    A solução não se afigura fácil, principalmente com a tentação da CM de Braga de rebaixar a qualidade da programação do Theatro Circo, apostando em ofertas mais populares. O que discordo totalmente.

    A solução para criar uma ligação efectiva entre a cidade e o Theatro Circo poderiam passar por alguns aspectos que sempre defendi: a utilização do TC por parte da Academia Minhota, como acontecia no passado com o 1º de Dezembro, os festivais de Tunas e até o Julgamento do Caloiro, que chegava a encher o antigo TC; continuar a aposta em projectos de inegável qualidade, tentando baixar os preços ligeiramente para atrair mais público; contratação de alguns novos nomes sonantes, sem cair nos “populares”, para captar público para os espectáculos. E um aspecto que me parece uma má aposta desta direcção: a promoção das actividades não pode ser efectuada somente em canais populares, pois a comunicação tem de ir em encontro aos seus públicos-alvo, coisa que não tem acontecido.

    Mas acima de tudo, o que Braga merece é uma nova política cultural e novos rostos à frente desta política. Não se pode esperar que a mudança aconteça com os responsáveis pelo actual marasmo que a cidade vive.

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  7. concordo com quase tudo que aqui foi dito! acho que a programaçao do Theatro Circo tem sido muito boa, e até tem tido uma variedade cultural bastante rica.
    acho que o que falha é o preço dos bilhetes de alguns concertos. dou como exemplo o concerto do Andrew Bird na próxima sexta, dia 1 de junho. o Andrew Bird teve hoje concerto em Coimbra e o preço foi de €12,5; amanha em Lisboa, com o preço a variar de €15 a €20; e em Braga com preço único de €20!! gostava de saber a razao...eu nao conheço muito bem o artista, mas só não o vou ver por causa do preço dos bilhetes, pois nao dá mesmo!
    acho que deviam ter mais atenção a esse promenor, pois penso era preferível ter uma casa cheia com bilhetes a preço acessivel, do que preços altissimos e o theatro a meio-gás...até os artistas devem ficar desanimados quando vêm cá...

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  8. Quando vejo o Perry Blake a iniciar a digressão europeia em Braga, e não passar por Lisboa, e depois de os Faun Fables terem por aí passado também, na 1ª parte de Bonnie Prince Billy, e de eu não os poder ter visto em Lisboa porque decidiram fazer o concerto numa sala minúscula, que esgotou em 5 minutos, custa-me a aceitar que o problema do TC seja a programação.

    Mais e melhor é sempre possível, mas viremo-nos primeiro para aquilo que está mal, não para o que já está bem.

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  9. Falemos de coisas boas e más: o preço às vezes é acessível (i.e. menos de 10 euros)e outras vezes não garante sequer uma casa meio cheia (25/30 euros).
    Acho que o mais caro acaba por ser aquele produto que à priori é mais comercial; tentando assim obter mais lucro.

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  10. Post triste e desapropriado.
    Espaços massificados e pimbalhescos não faltam na cidade. Um espaço raro com programação de excelência a ser alvo de uma vontade de descaracterização por ti e por muitos "massificadores" de Braga é algo que me deixa apreensivo e triste. Este tipo de opinionismo como o deste post é o exmemplo de que Braga muito dificilmente se aguenta como uma alternativa cultural, um pólo exportador de cultura do país. Por este andar, não vai passar disto mesmo: um subúrbio betonizado do Porto.

    Mesquita é mau, mas estou a ver que o mal é geral...

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  11. Perry Blake quase que esgotou o Theatro no Sábado passado.
    São artistas como este que ajudam a se criar um movimento de pessoas que começam a se interessar por qualidade. Com certeza que, após esta apresentação, o Theatro vai conseguir captar mais gente para a próxima e depois mais gente e mais gente. Demora o seu tempo mas o caminho só pode ser este.
    Muito já se está a fazer numa cidade onde não existia qualquer iniciativa cultural e onde na câmara o nível das pessoas é miserável em termos culturais. Não é de um dia para o outro que as coisas se fazem e o Theatro nem há um ano está na activa.

    Vêm aí:
    - Rebecca Moore, considerada a musa do Jeff Buckley
    - Um dos melhores músicos de blues a nível mundial, Charlie Musselwhite
    - Philip Glass
    - Laurie Anderson

    Querem melhor??? Braga nunca teve nada assim nem parecido.

    O autor deste blog coloca este post que é duma infelicidade total e só demonstra a ignorância de parte da população. O mais preocupante é que o mesmo parece ser um jovem, infelizmente um jovem desactualizdo.

    Uma pena....

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  12. Caro Pedro:

    Não resisto a dar a minha opinião sobre o Teatro Circo, até porque é, provavelemente, o assunto que melhor domino na minha área profissional.

    Não quero entrar na questão da qualidade da programação do Teatro porque essa é inegável. O preço dos bilhetes é realmente um entrave para a existência de mais espectadores. No entanto, eu que por motivos profissionais, tive a oportunidade de assistir a quase todos os espectáculos não vi um decréscimo de espectadores.

    Com alguém disse por aqui, o último concerto do Perry Blake teve mais de 700 pessoas, numa sala com capacidade para 1000. Parece-me uma boa média para quem durante anos teve que ir a outras cidades para ver concertos com qualidade.

    Como tu muito bem aqui postaste há tempos, baseado numa noticia minha, o problema do Teatro Circo é mesmo um problema de gestão. Não é concebível que, por exemplo, a Joanna Newson actue em Braga e assine o contrato no mesmo dia do concerto, sem negociação e com todas as exigências satisfeitas.

    Não é concebível que o concerto do Philip Glass anunciado há meses, tenha aparecido nos cartazes sem estar sequer aprovado pelo conselho de administração do Teatro Circo. E este não foi caso único. Recordo-te o caso do Bragajazz, alvo também de uma noticia.

    Desculpa, mas eu prefiro centrar a discussão na questão da gestão... porque uma boa gestão é meio caminho andado para uma boa programação, sobretudo equilibrada e de qualidade. A minha dúvida é simples: será que com a anarquia actualmente reinante na gestão, não terá o Teatro Circo que aligeirar a programação para fazer face ao buraco que já existe e que pode tornar-se insustentável?

    Pedro Antunes Pereira

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  13. Caro Pedro Antunes Pereira,

    Obrigado pelo seu contributo.
    O que aqui escrevi penso que espelha o sentimento de uma parte significativa dos bracarenses relativamente ao seu contributo.

    Nunca tive dúvidas (e isso pode ser lido em posts anteriores) que Paulo Brandão seria uma excelente aposta para o Theatro Circo.

    No entanto, acho que a programação de elite deve andar, lado a lado, com outro tipo de programação mais voltada para o grande público.

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  14. Pedro,

    Não sei se será elitista. Talvez o melhor seja dizer que não é mainstream. Isso não é, concerteza. Será alternativo, por não ser mainstream. E por ser alternativo, grande parte da sua oferta é desconhecida do público. Mas dizia que não é elitista, apesar de poder apelar directamente a pouco público. Elitista, no sentido prejurativo que tem sido recentemente utilizado, quando se fala de cultura. São bandas e concertos, na sua maioria, com qualidade, escolhidas e não "oferecidas" por um agente. E por não partilhar da opinião de que falta qualidade aos espetaculos é que não concordo com o adjectivo "elitista".

    Mas reconheço que um pouco mais de espetaculos mainstream seriam saudáveis e permitiram continuar a dar a conhecer ao público música de cariz mais alternativo, mais desconhecido, mas com grande qualidade.

    Nota: Não sei se costumas ir a festivais, mas se vais, já deves ter reparado que normalmente há pequenas grandes concertos nos palcos "menores", vulgarmente chamados de alternativos, paralelos ao palco principal. Muitas vezes concertos muito melhores do que aqueles que vendem, no palco principal.

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