Circulamos Embolsados
Circulamos embolsados
em automóveis de luxo
Nas portas surdas
os fechos
são linhas a níquel a traçar o limite
dos peões ocasionais
O espaldar desune
anula o solavanco
reduz a área exposta
Esguichos lavam
pára-brisas que a gargalhada abaula
Clareiam as estradas
Só o retrovisor
Lembra o caminho andado
a um olho reflectindo
de quem guia
Trémulo o chassis
pressagia
as roturas
os sulcos dos freios
a divulgação do desastre
Mas real e criada
no bolso de Picasso
uma pomba de bico florido
suja por inocência os tejadilhos.
Sebastião Alba, O Ritmo do Presságio