Avenida da Liberdade – Centro Histórico. No âmbito da discussão sobre o prolongamento do túnel da Avenida da Liberdade e antes de começarem as obras, tive oportunidade de manifestar o meu parecer contra . Caso houvesse bom senso, parava-se desde já. Pode aprofundar-se o debate como propõe o Dr. Gonçalo Cruz, mas julgo que seria melhor parar em definitivo. Esta exigência devia ser assumida pelos cidadãos e pelos partidos representados na Assembleia Municipal.
Por outro lado enquanto se prolonga a discussão sobre o túnel o debate urgente sobre a recuperação do Centro Histórico e a valorização das ruínas arqueológicas está a ser adiado ou passa despecebido. É verdade que o Executivo Camarário já apresentou um plano para o efeito. Porém eu conheço as promessas do Engenheiro Mesquita Machado e como elas se esfumam. Também sei por experiência que a degradação dos prédios acarreta problemas muito complicados e pode por vezes obviar, ou transformar num risco diário de vida, as intervenções arqueológicas que devem preceder os restauros e as primeiras operações de consolidação. Aliás os técnicos da Câmara sabem disso melhor que eu, ou seja que cada dia que passa aumentam as dificuldades das intervenções. Sera que já nos esquecemos dos operários que morreram na Rua dos Chãos? Tragédias idênticas só não ocorreram por acaso, na Rua de S. Marcos e na Rua da Cruz da Pedra.
Há portanto duas frentes que deveriam ser aprofundadas: a suspensão imediata das obras na Avenida da Liberdade. Segundo: uma pressão vigorosa para que o Município invista a sério no Centro Histórico e com a máxima rapidez, não daqui a um ano, mas já.
Por último é urgente que se estabeleça como regra o acompanhamento arqueológico de todas as obras de vulto, incluindo urbanizações que realizam nos arredores da cidade. E para delimitar as zonas patrimoniais mais sensíveis deve-se proceder, também com urgência, a prospecções sistemáticas em toda a área do concelho, financiadas pela autarquia.
A blogosfera, quando me foi apresentada por amigos que fundaram o Bola na Área, e que entretanto tomaram outros caminhos, pareceu-me inicialmente algo de exótico e de parecido com esses projectos científicos embrulhados numa película a que se deu o nome de biosfera. Ou seja, a blogosfera era para mim uma bolha experimental, um espaço fechado e ao mesmo tempo aberto a novas experiências. Sendo a sobrevivência ainda hoje o grande desafio da humanidade e mesmo dos tubarões das finanças que nos atiraram para as bordas do precipício de bancarrota, atirei-me ao desafio de tentar não morrer no novo oceano que se abria à minha frente. De braçada em braçada, cheguei a uma conclusão que também já foi refrão de uma música: isto de ser blogger é um exercício de natação obrigatória, num ambiente muito diferente da limpeza das experiências biosféricas, ou seja, por aqui não há cú que não dê traques. O ar é bafiento mas ao mesmo tempo perfumado. No fundo, tudo é uma questão de perspectiva.
Quem navega nestas águas livres sabe que está sempre à beira do naufrágio e do consequente afogamento. Porque se navega contra o vento e contra as correntes. A experiência que tenho no blog Porto de Leixões, lançado em Dezembro do ano passado, tendo por tema a discussão de assuntos ligados à vida de Matosinhos, levou-me a encontrar uma espécie de pedra filosofal. Concretamente, sei hoje que o caminho infalível para não agradar mesmo à própria família é escrever num blog as histórias que se contam nos cafés. A guarda pretoriana não tolera a amplificação tertuliana.
De Dezembro para cá, os dois bloggers do Porto de Leixões, hoje apenas um (eu), sentiram o mais diverso tipos de pressões. De início levei a "coisa" para a brincadeira mas rapidamente vi que era a sério. Com dificuldades em conotar o blog, as forças políticas locais – hoje em grande convulsão – tentaram perceber uma conspiração que não era mais que uma constipação, ou melhor, um espirro de dois cidadãos num espaço da Internet. Dois cidadãos sem filiação partidária, sem ligações directas ao poder local e sem aspirações políticos. Porém, desde logo dois perigosos agitadores.
É este lado que francamente me agrada na blogosfera: a facilidade com que, mesmo sem querer, fazemos ferver uma água turva e suja. Onde chafurdam há muitos anos profissionais da política mascarados de democratas. Eles e toda a sua vasta clientela, agarrada aos lugares que ocupam como o mexilhão das rochas das praias do concelho de Matosinhos durante as marés-vivas. Dá para perceber que debaixo do lodo há uma imensidão de criaturas extraordinárias, sendo quase todas acéfalas.
Não sei o que se passa em Braga mas imagino. Apenas lhe faltará ser rodeada de mar para ser considerada um jardim. Por ser uma cidade capital de distrito e com uma dimensão superior àquela onde vivo, pressinto as dificuldades de quem aí bloga mas sinto também o prazer que pode ser proporcionado por um voo rasante sobre a podridão humana. De tal não resultará propriamente o melhor perfume mas também já todos sabemos que mesmo os bons cheiros são muitos vezes resultado dos mais execráveis produtos.
O deleite é, pois, o grande perigo de quem se arrisca nesta aventura. Sobretudo porque é adictivo.
[Eugénio Queirós é jornalista do Record e autor do blogue Porto de Leixões]
Avenida, Dois Anos
Em nome de toda a equipa do Avenida Central, agradeço a todos os que se juntaram a nós nesta celebração do segundo aniversário. Um agradecimento especial para Ana Matos Pires, Fernanda Câncio, CAA, Ricardo Rio, Pedro Correia, Vitor Pimenta, Cláudio Rodrigues, Jorge Sousa, José Luís Araújo e Rui Vasco Neto pelas palavras que nos dirigiram nos seus blogues.
Também o jornal online ComUM dedicou mais um olhar atento à blogsfera minhota, a propósito do aniversiário do Avenida Central.
Também o jornal online ComUM dedicou mais um olhar atento à blogsfera minhota, a propósito do aniversiário do Avenida Central.
A obrigação do amor. Temos uma Constituição que proíbe a discriminação em função da orientação sexual (há 4 anos), e leis que espelham a Constituição – à excepção do Código Civil e do que estabelece quanto ao casamento. Mas as leis, pese embora a sua enorme importância, não são tudo.
Por exemplo, todas as narrativas sobre o amor e a sexualidade que são apresentadas e transmitidas às crianças e aos jovens, em casa, na escola, nos livros, na tv, no cinema tendem a excluir, elidir, discriminar a homossexualidade. A generalidade dos pais, mesmo os pais mais aparentemente liberais, lidam muito mal com a possibilidade de os filhos terem uma orientação sexual diversa da sua ou daquela que consideram 'normal' e 'desejável' – ou, nos piores dos casos, 'a única possível'.
Dir-se-á que não se podem reescrever os contos de fadas e de príncipes e princesas. Mas é óbvio que os contos infantis são o que quisermos que sejam, e espelham muito claramente os nossos preconceitos e estereótipos, veiculando-os. Na recente campanha que ocorreu em alguns Estados americanos – Califórnia, Arizona, Florida -- para alterar as constituições respectivas por forma a impedir o casamento das pessoas do mesmo sexo, um vídeo mostrava uma criança que voltava da escola e narrava a uma mãe horrorizada a história que lá lhe haviam contado: o príncipe que casara com o príncipe. A campanha resultou.
A ideia de que o império da normatividade heterossexista em todas as narrativas dirigidas às crianças, das fábulas aos brinquedos, é uma espécie de garantia contra a homossexualidade parece um pouco disparatada demais para ser verdade. Como disparatada demais surge a ideia de que alguém fica homossexual por ouvir uma história de amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Mas é a ideia que está subjacente à generalidade dos curricula quer escolares quer parentais – e que teve em Portugal a sua ilustração na célebre polémica de 2005 lançada por um artigo do jornal Expresso em que se 'denunciavam' (entre muitas aspas) os conteúdos de um alegado programa de educação sexual do ministério da educação e da apf em que um dos exercícios mais comuns seria pôr os alunos do secundário a imaginar uma viagem a um país em que a norma seria a homossexualidade.
O escândalo que acolheu esta possibilidade é bem demonstrador do estado lastimoso das coisas. Inimaginável, um país onde a maioria seja homossexual e os heterossexuais sejam a minoria discriminada – não, não queremos pôr os jovens a pensar, nem a questionar, nem por um instante, o império indiscutível da heterossexualidade e a indiscutível razão da discriminação. Era o que faltava. Não queremos, sobretudo, aceitar a possibilidade de que haja, entre esses jovens, quem necessite desesperadamente de se sentir menos isolado naquilo que sente, quem necessite de saber que não é uma aberração, que há no mundo muito mais gente a sentir o mesmo e que não há que ter vergonha nem desesperar.
Seja o que for que se julga estar a fazer pelas crianças e jovens quando se lhes recusa qualquer alusão que não seja negativa e até violenta à possibilidade de vivência de uma sexualidade não exclusivamente heterossexual, não é decerto de amor que se trata. Tenho poucas dúvidas de que se trata, precisamente, do contrário do amor. Um pai ou um educador que faz um jovem sentir que só o respeitará e amará se amar alguém de sexo diferente está a dizer que não o ama nem o respeita pelo que é, mas apenas pelo que quer ele seja – uma espécie de prolongamento de si e dos seus desejos e frustrações. Não há nada de mais egoísta e de mais cruel.
Ilustrando o contrário desse egoísmo e crueldade, o mayor republicano de San Diego (Califórnia), Jerry Sanders, assumiu, num discurso emocionado na véspera das eleições americanas e do referendo californiano, que mudara de ideias acerca do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao qual se opusera antes: "Não posso olhar nos olhos a minha filha Lisa, que é homossexual, e dizer que a relação dela, a vida dela, tem menos valor que o casamento que partilho com a minha mulher." Sanders descobriu, embora tarde, que não é possível defender a teoria do 'separate but equal', porque quando separamos, quando afastamos, estamos a dizer que não é igual. Sanders descobriu, embora tarde – mas a tempo – o que é o amor e o que ele implica.
[Fernanda Câncio é jornalista no Diário de Notícias e autora do blogue Jugular]
Uma Cidade a Precisar de Ser Agitada nas Mãos do Avenida Central
[Pedro Vieira é autor dos blogues Arrastão e Irmão Lúcia]
Braga: "Questão Que Eu Tenho Comigo Mesmo". Vim para cá viver há 50 anos. Em 1964, feito o liceu, fui para Coimbra, onde me formei em todos os sentidos e me mantive cerca de 10 anos, com ligeiras variantes. Regressei nos finais do ano glorioso de 74, comecei a trabalhar na Universidade do Minho, rapidamente me envolvi no combate interminável pelo salvamento de Bracara Augusta. Ajudei a fundar a ASPA, na qual sempre me revejo e onde orgulhosamente milito até hoje, tentando participar no salvamento de Braga – por isso também fui deputado municipal pela CDU (saí por causa da ASPA e de outras coisas), hoje estou com o Bloco de Esquerda, colaborando como posso.
Porquê, se o desencanto é cada vez maior? Por vezes não sei mesmo se gosto de Braga (aqui me casei, aqui me nasceu um filho, aqui morreu meu pai), mas se não gostasse certamente há muito teria desistido e teria uma vida mais sossegada. Mas, e a inquietação?
Braga, a Braga do poder dito “socialista”, escorre corrupção, jogos de interesse, compadrios, caciquismo, insensibilidade cultural, parolice, mau gosto. Acredito que existe efectivamente um polvo poderoso, com tentáculos fortíssimos, que tudo vai envolvendo, a todos tenta corroer e esmagar. Mas há sempre alguém que resiste e blogues como este são uma arma atenta, crítica e interventiva que ajudam a lutar contra as forças do mal que nos querem asfixiar. Tenho sempre a esperança de que um dia as polícias e os tribunais possam efectivamente actuar.
Gosto de Braga? Volto ao Alexandre O’Neill: Braga, “meu remorso, meu remorso de todos nós…”
[Henrique Barreto Nunes é Director da Biblioteca Pública de Braga]
A Avenida de todos, em todos os sentidos, completa hoje dois anos de existência ao serviço do debate plural e responsável.
De pessoal a colectivo, o projecto ganhou consistência com os excelentes contributos semanais de Vitor Pimenta, Pedro Romano, Eduardo Jorge Madureira, Gonçalo Cruz, João Martinho e Bruno Gonçalves. É deles o mérito da captação de novos públicos, estimulada pela qualidade da escrita, pela diversificação dos temas e pela corajosa e sempre necessária crítica reflexiva. A todos eles, a minha homenagem em dia de aniversário.
Dos cem mil visitantes em 2007 aos duzentos mil em 2008, a consolidação do crescimento do Avenida Central. Mais de quinhentas mil páginas visitadas. Este é o fórum do Minho, distinguido como o melhor blogue regional do país e esse é um prémio exclusivo dos seus leitores. Daqueles que, dia após dia, aqui vêm ler e comentar, fazendo germinar o debate e a reflexão que tentamos empreender. A todos eles, a minha homenagem em dia de aniversário.
Do aspecto voluntarista ao design profisisonal, o Avenida Central lê-se com mais prazer desde que o Cláudio Rodrigues criou nova identidade gráfica para este projecto. Com o seu empenho quotidiano, o Avenida ganhou nova cara que é nova vida. Ao designer do Avenida, a minha homenagem em dia de aniversário.
Da intensidade regional à afirmação nacional, este foi o ano em que o Avenida triplicou as referências na comunicação social regional e, sobretudo, nacional. A atenção dos jornalistas ao que aqui se produz é um estímulo para que possamos continuar a fazer acontecer debate num ano que será marcado por muitas eleições. A todos eles, jornalistas conscientes da importância crescente da blogosfera, a minha homenagem em dia de aniversário.
Do trabalho de todos os dias aos festejos em dia de aniversário, o Avenida convidou algumas personalidades a partilharem os seus pensamentos connosco. Aqui serão publicados ao longo dos próximos dias, na certeza de que são uma mais valia para a pluralidade do projecto. A todos os que aceitaram participar, a minha homenagem aos que se juntam a nós em dia de aniversário.
Subscrever:
Mensagens (Atom)