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Haja Decoro!

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A Antena 1 organiza um programa de debate desportivo em que convida um adepto do Porto, outro do Benfica e outro do Sporting. Nesses programas, cada um deles destila argumentos em favor dos respectivos clubes, numa espécia de guerra a trêz vozes. Após queixas de vários ouvintes relativamente à falta de contraditório, Tiago Alves esclarece que «não se pretende analisar os jogos, mas sim o estado das equipas principais da Liga, as que jogam para o titulo e que ganham títulos na Europa, as que representam a esmagadora maioria dos portugueses.»

Em primeiro, Tiago Alves deve andar muito distraído na moderação do programa. Sempre que o oiço, são os jogos dos três clubes chamados grandes que são analisados. Em segundo, Tiago Alves devia saber que o Sporting de Braga já ganhou títulos na Europa e nos últimos tem estado sempre no pódio entre os clubes que mais contribuem para o ranking internacional de Portugal, motivo bastante para que o critério enunciado desqualifique gravemente o seu conhecimento da realidade desportiva nacional. E, em terceiro, o critério da «esmagadora maioria dos portugueses» está por demonstrar de forma objectiva. Adicionalmente, é preciso deixar bem claro que, ainda que a maioria apoie esses três clubes, a sua quota de adeptos não é de 100%, nem nada que se lhe possa comparar pelo que o critério da Antena 1 é inegavelmente inconsistente.

Tiago Alves aborda a questão da ausência de contraditório afirmando que «está salvaguardado e é praticado de forma muito estimulante, do meu de vista, por três adeptos de clubes rivais que estão no mesmo plano competitivo». O ridículo da afirmação é tamanho que esta visão só pode ser vista como anedótica. É mais ou menos como assumir que o CDS-PP não precisa de defender pontos de vista nos debates com o PS, porque o PSD já rebate os argumentos dos socialistas...

Por tudo o que pode ler-se na sua resposta, parece evidente que a posição assumida por Tiago Alves não passa de uma profissão de fé cega ao favorecimento dos três clubes chamados grandes por parte da estação de serviço público. Quando alguém não compreende que não é por serem Grandes Adeptos que deixam de ser Adeptos dos Grandes, está tudo dito. A ironia é que os impostos nos são cobrados compulsivamente e ninguém nos pergunta se somos adeptos de um clube que nao ganha títulos europeus ou de um clube que os ganhou quando os meus pais ainda nem sequer tinham nascido...

Provedor de Quem?

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«Têm fundamento e são verificáveis, as queixas do predomínio dado a esses três clubes, quer nos programas desportivos, quer nas notícias, onde os outros clubes têm um tratamento muito secundarizado. E se, por um lado, não pode ser a RTP a graduar de modo diferente, por valores de importância desportiva os grandes clubes, também não pode ser a RTP a desconsiderar os outros clubes. Também neste ponto devem prevalecer os parâmetros de pluralismo do estatuto de serviço público.» [Provedor do Telespectador da RTP]

Vai longa a batalha daqueles que defendem uma RTP verdadeiramente plural nas questões desportivas. O excesso mediático do futebol dos três grandes, acompanhado de forma inaceitável pela estação de serviço público, constitui-se como uma inaceitável distorção do pluralismo a que estão obrigados os órgãos de comunicação social. A situação é mais grave quando é público e notório que a RTP continua a reincidir após repetidos apelos do seu Provedor.

A última situação verificou-se a propósito da novela da transferência de Jorge Jesus para a Luz, processo em que a RTP nunca ouviu um único comentador afecto ao Sporting de Braga, limitando-se a um desfilar de opiniões de benfiquistas severamente críticos da intransigência do clube minhoto na defesa dos seus legítimos interesses. A situação é grave e viola os deveres de imparcialidade e pluralismo a que a RTP está obrigada.

Mais recentemente, um comentador residente da RTPN (e conhecido benfiquista) fez um ataque selvagem à postura do Sporting de Braga naquele negócio sem que haja qualquer oportunidade para a instituição bracarense ser defendida. Estas situações devem ser lidas como um ataque institucional da própria RTP ao Sporting de Braga, nada empenhada em garantir o contraditório a que também está obrigada. Às queixas formuladas pelos telespectadores, o Provedor responde com o já habitual acto de contrição sem qualquer consequência: «A falta de imparcialidade e isenção tem sido uma preocupação constante do Provedor no exercício da suas funções e não deixará de continuar a transmitir ao Director de Informação as pertinentes reclamações dos telespectadores».

Afinal, para que serve um Gabinete do Provedor cujas recomendações são reiteradamente ignoradas pelos seus destinatários?
"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

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