Esta Linha É Tua

| Partilhar
Linha do Tua
© Cláudio Rodrigues

Uma das piores características do nosso tempo é a alienação. Serenos, sempre demasiado serenos numa quase anestesia consciente, assistimos ao desmantelamento progressivo do nosso melhor património natural, cultural ou edificado. Tudo é feito com a melhor das intenções, sempre com a melhor das intenções numa quase exaltação de um interesse colectivo que, vamos ver, não passa da oportuna soma de meia dúzia de interesses individuais. O marketing é perfeito, sempre irrepreensivelmente perfeito numa transcendência altruísta que se serve com sucesso no prato do desconhecimento e da ignorância.

É pois com enorme consternação, mas sem grande surpresa que assistimos à morte lenta da Linha do Tua, uma preciosa pérola do melhor património nacional. Na verdade, desde que se soube que seria muito rentável para os accionistas de algumas empresas construir uma barragem no Baixo Tua, um conjunto de factos muito estranhos e ainda mais infelizes colocaram em causa o futuro daquela da linha e hipotecaram a sua operacionalidade no presente.

Incêndio na Estação de Tua
© Gilberto Santos

Como quem se dá ao luxo de queimar notas para acender fogueiras, o Portugal do Século XXI destrói o património que ainda resta perante a impotência das autoridades policiais, a inoperância do Governo e a complacência da opinião pública. Ainda esta semana, um incêndio devastou património da Estação do Tua (Carrazeda de Ansiães). Dia após dia, a Linha do Tua vai-se entregando à degradação e ao abandono que mais não são do que prenúncio de uma morte anunciada.

Ainda há-de crescer mato sobre a linha e do rio ainda hão-de fazer albufeira para alimentar uma barragem. Tudo em nome da salvação ecológica, sempre a salvação ecológica vendida da forma mais dúbia e desleal por via das paredes de betão que protegem ecossistemas. E o património, esse mal-amado desta gente tão pretensamente moderna, ninguém no-lo volta a devolver. Já só resta que acordemos antes que seja tarde demais.

14 comentários:

  1. Trata-se de terrenos permissivos apenas porque o Estado não defende os bens que pertencem e servem o POVO.Tua, Sabor,Corga,Tâmega, Fafe,Povoa, Valença,ou Pocinho...são apenas algumas referências onde a NORTE se manifestaram outros interesses que não os do serviço público a prestar.Um caminho de Ferro à mercê dos interesses alheios, gerido por gente que nunca soube o que era e para que servia um comboio,levou a que em momentos diferentes se procurassem "modificações" visando o progresso, mas deixando cair o interesse do serviço público a prestar...terrível opção que levou ao encerramento de linhas por motivos também "económicos".

    ResponderEliminar
  2. Belíssima fotografia a primeira.
    Mas a minha questão é: quem paga?
    Os utentes da linha pagam a manutenção da linha? Há alguma forma de isso vir a acontecer? Ou está-se à espera que sejam os contribuintes a pagar? Ou anda-se a sonhar que existirá uma situação idílica onde haverá uma peregrinação turística que sustente a linha?
    Esse trabalho de educação/publicidade já devia ter sido feito e já teve anos bastantes para ter resultados. Estaria disposto a doar para sustentar a manutenção da linha ou acha devíamos ser todos obrigados a doar?
    Note o comentário desta foto de 2006 Foz do rio Tua, um afluente do rio Douro. Há quem ache que é uma excelente localização para uma barragem idroeléctrica..., tenho pena mas já houve tempo bastante para fazer os TPC e ou não foram feitos ou os resultados estão à vista.

    ResponderEliminar
  3. os contribuintes sustentam metros, autocarros, comboios em vários sítios do país e inúteis autoestradas e pontes em todo o lado. pela milionésima parte disso tudo também podem sustentar um património natural, ecológico e de arqueologia industrial impar no mundo. em vez de se gastar, por exemplo, mais uns milhões numa bancada nova no estádio de Braga talvez fosse mais avisado recuperar o Tua. quanto ao TPC: o chico deve andar distraído: muitos já o fizeram e fazem há décadas.

    ResponderEliminar
  4. "Os utentes da linha pagam a manutenção da linha? Há alguma forma de isso vir a acontecer?"

    É isso, vamos fazer as contas, vamos retroceder três ou quatro anos, aos tempos em que "ninguém" sabia da Linha do Tua, ao tempo em que nos meses de verão as duas automotoras andavam sempre cheia até à rolha e a CP recusava a venda de bilhetes Porto-Mirandela por não ser capaz de garantir transporte...

    Vamos a contas, vamos a rácio de receita-despesa e pode ser que se feche já amanhã a Linha de Sintra, Cascais, Cintura, Figueira, Braga, Guimarães, Metro de Lisboa, etc etc....

    ResponderEliminar
  5. Caro António Alves ainda bem que puxa esses exemplos - o objectivo é acabar com esses subsídios inconsequentes (ou injustificados); não é criar novos, isso é continuar a nivelar por baixo.

    Quanto à CP/REFER caro Dário, também sou defensor dos transportes colectivos mas à anos que não entendo como é que uma máquina feita para transportar 600 pessoas que anda com taxas de ocupação bem elevadas e para a qual foi construída (e paga) uma *estrada* feita à medida, pratica preços de transporte que competem em preço com um automóvel a gasolina com duas pessoas a pagar autotrada - o serviço chama-se Alfa; se calhar devia fechar.

    Note, quem tirou a foto e escreveu o comentário que disponho acima fui eu.

    ResponderEliminar
  6. Devíamos começar a pensar num nome para dar, ao que os lisboetas chamam de província, ou seja, Portugal excepto Lisboa. Talvez eles gostassem que se chamasse Paroliquistão. Eles ficam com o nome Portugal; nós, que servimos apenas para votar, qual vara de javalis, seríamos os Parolos do Paroliquistão.

    ResponderEliminar
  7. o Tua é sustentável por si só. Só precisa que lhhe dêem a oportunidade tal como foi dada ao Rio Douro. Depois do investimento feito na navegabilidade a actividade económica apareceu e muito mais poderá aparecer se o projecto fosse devidamente complementado com infraestruturas que permitissem outros negócios como o transporte de mercadorias. Não se esqueçam que tudo aquilo é propriedade do estado e enquanto ele não quiser nada se pode fazer. E mesmo que não seja rentável: alguém pretende demolir a Porta Nova em Braga? a Ponte maria Pia ou a Torre de Belém?

    ResponderEliminar
  8. Quando apenas a sustentabilidade é assegurada por medidas economicistas, não há razão que vença a argumentação mesmo quimérica de quem só visa os números e interesses duvidosos.Salvem as poucas vias férreas que ainda temos, apostem na modernização, prestem um bom serviço público e acreditem, temos exemplos, os resultados logo surgem.Taxa de ocupação só é poss´vel com boa oferta...modernização e manutenção dos serviços.

    ResponderEliminar
  9. "uma máquina feita para transportar 600 pessoas"

    Na verdade, o Alfa Pendular transporta 300 passageiros. E eu não disse nem sugeri que devia fechar o Alfa ou qualquer outro serviço ferroviário, se calhar "devia" mas eu acho que não.

    Eu gosto é de auto-estradas, quantas mais melhor, o nosso futuro passa mesmo por mais e mais auto-estradas, de preferência SCUT, que assim pago-as eu com os poucos impostos.

    ResponderEliminar
  10. Decidir com base em "já agora"s, palpites e intuições não tem jeito nenhum.
    E, apesar do excesso dos maus exemplos, dizer que também já fizemos coisas parecidas com base em estudos com qualidade e quantidade de informação (e manipulações) semelhantes é que também não parece ser a forma correcta de decidir.
    Posto isto, as acções no alinhaetua.blogspot.com/ e no www.linhadotua.net/ estão no caminho certo, têm fotos e informações excelentes - falta o resto.

    ResponderEliminar
  11. Comparemos o antes e o depois, das populações onde um dia circulou e chegou o comboio!Qual o comportamento dos Autarcas locais, quando a CP decidiu encerrar as linhas! Quais as alternativas antes, depois e agora!Os postos de trabalho extintos na CP, o aumento das dificuldades de transporte em algumas dessas regiões.Finalmente interroguem-se sobre a quem servirá a Alta Velocidade e quais os seus custos de manutenção!Talvez agora sejamos capazes de concluir e entender os objectivos, que sempre estão por detrás das grandes obras...

    ResponderEliminar
  12. pagamos todos nós as facturas da EDP. pagamos a electricidade e bem! que consumimos, o património que perdemos, pagamos o país sem estratégia alternativa à que decorre da indústria da construção, num tempo em que deveríamos pensar em como consumir menos e em como investir melhor.

    já não há pachorra para o discurso do "quem paga".

    ResponderEliminar
  13. Para quem tiver oportunidade, vale a pena ver este documentário...

    http://www.pinosolanas.com/proxima_estacion_info.htm

    ResponderEliminar
  14. caro francisco, quem paga é sempre o contribuinte, e ainda bem. porque o que já paga chega para isto e muito mais. mas se a gestão for danosa, o governo inoperante, e os media adormecidos, quem paga é, de forma directa a população local, que se vê mais e mais remetida ao isolamento que não escolheu, e de forma indirecta qualquer pessoa com dois dedos de testa para perceber que o património é de todos e merece estima.

    excelente artigo, pedro morgado. felizmente consegue escrever sobre isto sem a amargura que eu já não consigo esconder.

    se tiver facebook, junte-se à causa pela linha do tua a património mundial

    http://apps.facebook.com/causes/221466/67132899?m=1b3d31f4

    ResponderEliminar

Antes de comentar leia sobre a nossa Política de Comentários.

"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

Pesquisar no Avenida Central




Subscreva os Nossos Conteúdos
por Correio Electrónico


Contadores