Uma Úlcera No Urbanismo | 2

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© stupidcupidz [Galeries Saint-Hubert]

Há um mês atrás discutiu-se aqui sobre o fenómeno shopping e a diferença entre shopping de rua ou shopping cogumelo. Não sou defensora acérrima nem de um nem de outro. Percebo apenas a necessidade de ter serviços comerciais abertos num horário mais alargado e a salvo das acções do clima. Além disso, deveriam funcionar também como catalisadores de acções urbanísticas de melhoramento e desenvolvimento.

Tenho pena que a escola tenha servido de pouco aos decisores quando chega a hora de intervir. Se assim não fosse, saberiam onde ir buscar modelos, ou encontrar quem os conhecesse para apostarem no cavalo certo.

Olhemos um bocadinho para a história e para o centro da Europa. Remontemos ao ano de 1836, século XIX. Um jovem arquitecto nascido na Holanda em 1811, teve a ideia de construir uma galeria comercial coberta com mais de duzentos metros que ligaria o Mercado de Ervas ao Mercado dos Vegetais, demolindo um grande número de vielas onde a burguesia não se atrevia a entrar.

Em 1845, o Conselho Local votou a favor deste projecto. Assim nasceram as Galeries Royales Saint-Hubert, no centro de Bruxelas. A Galerie du Roi, a Galerie de la Reine e a Galerie du Prince, formando um ípssilon. Para quem não conhece o "shopping" em questão, há ainda a referir que este contém um Teatro (lindo, lindo!), uma sala de cinema e pequenos apartamentos no último piso.

Outros exemplos existem na Europa destas operações urbanísticas de salubridade versus desenvolvimento versus visão económica.

Poderiam os projectos das galerias comerciais em Braga (e por Portugal afora) ser pensados como soluções para problemas urbanísticos? Poderiam estes ser pensados para durar séculos e ser admirados quase duzentos anos depois? Poderíamos construir cidade com base em modelos sólidos, funcionais e prósperos? A resposta é mais que óbvia.

Para quem não sabe (e é natural que muitos não saibam), a morte de alguns shoppings de rua é um problema de desenho. Antes de serem construídos, já morrem no papel, porque a maior parte tenta resolver "problemas" de rentabilização de áreas.

É preciso compreender que tudo nasce para solucionar um problema. A questão está na pergunta: Que problema quero eu resolver?

A discussão em torno dos shoppings de rua na cidade de Braga deveria passar por perceber onde falharam e onde acertaram os objectivos os já existentes, e de que forma os que hão-de vir podem contribuir para uma melhoria significativa do local onde vão ser implantados.

8 comentários:

  1. Boa perspectiva de abordagem!

    Talvez alguns ainda despertem para outras realidades (difícil!).

    Ser diferente exige uma visão de fora para dentro, desafectada de interesses, voltada para o futuro.

    Mas nunca é demais falar sobre (ou de...).

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  2. Comparar as Galerias Victor Emanuel em Milão com o Bragaparque é o mesmo que comparar um prato do El Bulli com caganitas de cabra. A começar pela qualidade e beleza da arquitectura e a acabar nas lojas que lá há. Porque é que temos 3 ou 4 centros comerciais todos com as mesmas lojas lá dentro? e porque é que todos se parecem com um caixote de cimento com carros à volta?
    Há uma solução fácil: Não irmos lá, não comprarmos lá e não votarmos em quem os autoriza!

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  3. Concordo inteiramente. A aprovação de novos espaços e a aprovação da expansão dos antigos deveria ter como critério fundamental esse aspecto que frisas: deveriam funcionar também como catalisadores de acções urbanísticas de melhoramento e desenvolvimento.

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  4. isso era se os nossos decisores fossem pessoas de boa fé e estivessem interessados no desenvolvimento da comunidade...

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  5. Tem razão, Senhor M! Foi um lapso. Obrigada pelo alerta.


    Caro anónimo, penso que ninguém fez a comparação que sugere no comentário...

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  6. Pelos vistos o senhor engenheiro/arquitecto que projectou as Galerias Victor Emanuel em Milão, suicidou-se pelo gozo que o Povo projectou ao ver semelhante edifício.

    Porque é que alguns presidentes de Câmara não seguem o exemplo?
    Ah, pois...
    Eles não fazem obras assim, mas o povo aplaude!

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