[Avenida do Mal] Sétimo Dia

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Não vejo como adiar o que não fiz, nem aqui nem em lado nenhum: o meu comentário ou sequer a referência à morte do Monsenhor Melo. Pareceria estranho de minha parte que tanto o utilizei nas paródias e nas metáforas, ironias, exercícios plenos da minha idiossincrasia. Aliás, apanhou-me a notícia com algum desamparo. E lamentei-a com a humanidade de quem desconhece o processo e a experiência da morte, porque também ninguém sobra para a contar e a editar em artigo, e os que dizem que de lá voltaram, falam em túneis e luzes ao fundo. Conversa que parece típica de português e madeirense: túneis e luz ao fundo. Mais os túneis que as luzes.

Mas de todo me parece uma desgraça, a morte do cónego Melo, pelo que se lê nas entrelinhas de tanta gente que lhe guardava rancor. Coisa de que estamos sujeitos todos, sempre que nos empoleiramos algures com bons, razoáveis ou piores motivos.

Também não lhe ergo estátuas em gratidão, nem assino petições contra ou a favor, porque o mais próximo que tivemos um do outro, foi na pompa da minha Comunhão Solene e ele fez a gentileza de me dar um bocado da hóstia grande que eles levantam alto no Ofertório, e levam na Comunhão à boca, depois de partida em 2 ou 3 bocados. Eu fiquei com um deles, tinha 12 anos, lido a Primeira Leitura e achei-me um burguês.Mesmo que não tenha provado o vinho. E isso não chega para uma estátua.

Verdade é que, não lhe conhecendo a vida em pormenor, deixou-me um vazio literário. É aí o meu luto. O cónego Melo era uma figura misteriosa, daquelas de romance de conspiração, de preto e, nalgumas fotos que lhe vi, com batina de cinta vermelha - cor que mandaria botar fogo noutros contextos talvez, ou lhe fizesse explodir de fúria. Como alguns outros, monsenhores e leigos, padres e diáconos, em discussão de coisas da sociedade, plenas de pecado.

Mas mais, Cónego Melo simbolizava, ainda que romantizada porventura, esta promiscuidade presente, anos depois de derrubado um regime assente no pior do catolicismo, de como o poder político precisa e faz por precisar de manter um apego à máscara clerical para santificar ou purgar, em funerais e fotografias, muitas das suas acções e condutas. Infelizmente, não há frente laicista de governo que disfarce o beatismo confesso de alguns dos seus autarcas, nos discursos como homilias e nos apelos às prostrações...

17 comentários:

  1. Eu que sou-do-contra dou-me como totalmente de acordo com a breve, mas precisa carecterização do homem, da obra e dos choros ou não que gera.
    Parabéns!

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  2. "Infelizmente, não há frente laicista de governo que disfarce o beatismo confesso de alguns dos seus autarcas, nos discursos como homilias e nos apelos às prostrações".

    Excelente texto. Autarcas beatos, por interesse quase todos. Os votos cativam os falsos religiosos.

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  3. e que agora descanse em paz, sem mais memórias boas ou más. Àmen

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  4. e que agora descanse em paz, sem mais memórias boas ou más. Àmen

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  5. Fico descontente quando muitos tentam passar uma imagem negra, do Monsenhor Melo.
    A muitos tirou a fome, deu emprego, tirou da droga, deu medicamentos e roupa para vestir etc.
    Porque não falam os seus criticos disto? ou tem medo?

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  6. Este texto é a pedra que a tumba do Monsenhor precisava.Que permaneça por lá eternamente.

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  7. Em momentos da vida é preciso ter respeito meu caro Pedro Morgado! Se não por ele por os dele!

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  8. É tempo de falar dos vivos...de lembrar o que de bem tenha feito de perdoar, mas não esquecer o mal se eventualmente o fez.A História( não a de Braga) mas a do País falará das pessoas e dos factos, sejam eles da politica," dos corrécios" dos mortos ou das histórias ouvidas ao longo de décadas.Neste momento tb entendo o respeito pela família e mesmo por quem partiu é um dever de qualquer cidadão.O Deus tantas vezes falado, nos julgará um dia.Que assim seja.

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  9. Só três per4guntas: 1) Ele morreu de quê?; b) O que foi fazer a Fátima? c) Estátua?! O acebispado que a erga no seu território. Porque não o faz?

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  10. Da morte renascem os heróis.
    O cónego Melo era um amigo íntimo de MMachado, de alguns empreiteiros e homens do regime bracarense.O Mesquita até "chorou". Ele já não o pode ajudar nas próximas eleições, se tiver a ousadia de concorrer.
    Fica no entanto a dúvida se o actual arcebispado o via com os olhos de outrora...
    Foi um homem que se finou, que fez, certamente, algumas coisas bem e outras menos boas.
    "Que Deus tenha isso em conta."

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  11. "Só três per4guntas: 1) Ele morreu de quê?; b) O que foi fazer a Fátima? c) Estátua?! O acebispado que a erga no seu território. Porque não o faz?"

    3/4 respostas:

    Morreu num encontro imediato com a Irmã Lúcia.

    Estava em Fátima num happening dos "Cursilhos da Cristandade".

    A estátua faria um conjunto de rara beleza com o painel onde o próprio figura, isto no Santuário do Sameiro.

    Creio que o Arcebispo está farto do homem e não o quer ver nem pintado (daí a sua renitência em frequentar o Sameiro).

    Pois, isso!

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  12. Amigos, desculpem mas pior que a pessoa que referm são alguns Docentes da UM , ideias bolorentas e teimosas, incapazes de entenderem o progresso, sedentos de mostrarem reprovações para alimentarem uma fama de maus, tanto do seu agrado e o pior é que fizeram escola e já têm alguns novos a seguir-lhes as pegadas.Pobre país que paga a tais funcionários públicos para ensinarem e eles apenas querem muitos fim de mês.

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  13. O que acho piada na sociedade bracarense é que toda gente acusa nas conversas de treta, por detrás de máscaras/anonimato, mas ninguém chega-se à frente, dando a cara, para acusar oficialmente!
    Eu não conheci o homem, nem sequer conheço a sua obra. Já ouvi bem e mal dele.

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  14. Parem lá de escrever coisas sobre esse melo. Morreu e está enterrado. Nem se deve mais relembrar essa triste figura.

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  15. diz um anónimo "A muitos tirou a fome, deu emprego, tirou da droga, deu medicamentos e roupa para vestir etc."
    e isto dá para uma estátua? supondo q é verdade, não é isso que um homem da igreja deve fazer? o q existia de extraordinário no cónego? ser amigo do Ramiro Moreira, por exemplo...

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