Abril Visto de Fora

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«Porque eles calam mas tu não!»

Este foi um Abril chuvoso em que o sol, tal como em mil novecentos e setenta e quatro, raiou ao vigésimo quinto dia. Aproveitei-o para passear à beira mar e, ainda que o politicamente correcto convidasse a um subtil esquecimento, não passo ao lado do Abril que vai ficando por se cumprir.

Nesta Grândola que é mais utopia que espaço de civitas, não há cravo que amenize a tristeza de se continuar a fazer da ignorância panaceia para a conquista do voto popular. Levam-nos o fruto do trabalho, qual sangria, e dele fazem sustento para um Estado ineficiente que os paga com salários de ouro e reformas de diamante.

A banda sonora não ajuda. Enquanto cantamos, com cega convicção, que «o povo é quem mais ordena», venderam a ágora, a nossa ágora de sempre, e o que não pagamos ao Estado temos em débito aos oligarcas do cimento. Da estrada à água, da saúde à educação, da natureza à diversão, pagamos o nosso em impostos e o dos outros em subsídios de duvidosa fiscalização.

Não há fraternidade que resista nesta terra que perpetua legislativamente o preconceito infundado e o moralismo bafiento. O Estado é «regulador» do que como e do que bebo, escolhe a cama em que me deito e com quem me posso nela deitar. Mas o preconceito é sagrado, porque benzido.

Tenho para mim que Abril é, obviamente, melhor que isto. Mas hoje, tal como ontem, ainda há demasiada gente a calar...

8 comentários:

  1. Eu, actualmente, não acredito em Portugal.

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  2. Eu sei que este é um comentário tosco, mas por que diabo este senhor nunca se dedicou a tentar mudar esta realidade do nosso Portugal que tanto critica?

    Ultimamente tenho lido dezenas de comentários escritos numa profusão de blogs por supostos críticos. O mote por detrás de textos bonitos e irónicos é sempre o mesmo: Vivemos num país rasca de gente rasca governado por tipos ainda mais rascas. Os trabalhadores criticam os patrões, os patrões criticam os trabalhadores e todos criticam o governo.

    A impressão que fica é que todos se sentem traídos pelo seu país.

    Pois bem, a todos esses críticos de prateleira fica aqui uma pequena novidade: Os senhores fazem parte do país! Talvez o país seja rasca, mas é também aquilo que vocês fazem dele!

    Critica-se os "Eles", os que fazem, o que constroem centros comerciais onde deviam fazer parques; os que cobram impostos a 21% e atiram com as leis cá para fora; Os que dão aulas; os que nos julgam; os sacanas dos patrões que roubam os empregados; Os padres porque não pagam impostos e ainda ficam com o dinheiro das esmolas; enfim todos e mais alguns. Criticam-se todos porque todos são uns chupistas interesseiros. E nós? Somos uns coitadinhos maltratados por todos estes oportunistas e interesseiros.

    Tão coitadinhos que temos que fazer pela vida. Sim, e ser tão oportunistas como eles. Se pudermos meter baixa e trabalhar ao mesmo tempo sempre são mais uns trocos. Se pudermos receber o subsidio de desemprego e trabalhar ao mesmo tempo então ainda melhor. E já que os palermas do governo agora dão portáteis a 150 euros, ainda melhor: vamos à escola uns dias, arranjamos o computador e depois é só chegar à conclusão "oh, isto não é para mim" e desistimos.

    Todos criticam, mas, no entanto, ninguém tem vontade de abandonar esta cultura do "chico esperto" em que o objectivo é que a minha vidinha melhore.

    Querem um país melhor? E fazer por isso não??

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  3. Não partilho da irritação do comentário anterior, por uma simples razão, o País está doente e temos de admitir tem sido mal Governado.As opções tomadas foram tardias e nem sempre brilhantes e disso quase todos temos consciência.Devo dizer algo mais, hoje vejo a nossa AR como um grupo de profissionais obedientes " ás ordens" dos partidos, mas diferentes dum passado recente, hoje tudo é economia, ontem 20 Anos atrás havia ideias, debates e preocupações sociais.Serão pequenas diferenças, mas suficientes para dizer, basta...chega de números, pensem no povo.

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  4. Soube, pelo Diário de Notícias de hoje, da existência deste blogue. Gostei e quero expressar aqui as minhas felicitações pelo trabalho.

    Quanto ao comentário com que o Emanuel critica este texto, muito sinceramente, parece-me exagerado. É que o facto de ser indesmentível o “chico-espertismo” de uma boa parte dos portugueses, isso não desculpabiliza aqueles que, ao longo destes 34 anos têm conduzido o País. O “não se poder ser padre em semelhante freguesia” não me parece aplicável. OK, está bem, todos temos um bocadinho de culpa no “estado” a que isto chegou, mas os políticos que têm “ tido a faca e o queijo na mão”, não precisam que se tenha pena deles.
    Abraço.

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  5. Excelente trabalho de quem não viveu Abril, mas que conhece a esperança que Abril nos trouxe.
    Na verdade este Abril já não cheira a Abril.

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  6. Os que viveram intensamente o 25 de Abril, sentem-se hoje frustrados com tantas desilusões, sendo certo que elevaram demasiado alto as suas expectativas.Temos auto estradas, estádios de Futebol e Expo, somos conhecidos na Europa, participamos activamente na comunidade, mas esquecemos o povo sem trabalho, as crianças e os idosos todos os dias maltratados, pessoas, o aspecto social tão falado, não mereceu a atenção e a sensibilidade para os seus problemas.Adaamos o social preocupados com o económico e alguns eventos nem sempre de boa escolha.Temos de viver com o que temos, mas é pena a solidariedade fique quase sempre nas intenções de quem Governa.

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  7. Temos exigido muito pouco da nossa classe política (se isso existe, ou deva existir),e por essa razão temos tido os governantes que merecemos.
    Se a nossa atitude perante os políticos fosse outra o grau de exigência e de pressão seria tão elevado que os incompetentes e os menos capazes seriam obrigados a abandonar o poder - nem chegariam a criar veleidades.
    Actualmente o Santana Lopes é um triste exemplo do que tem acontecido: um homem que sabe o quão pouco lhe foi exigido e que aposta na facilidade com que esquecemos a sua incapacidade para governar o país.
    Como o reconhecimento (sempre necessário) acompanha a exigência, seria a oportunidade dos mais capazes aparecerem no terreno até então mal frequentado da política.

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  8. O 25 de Abril e o 1º DE Maio, quase não existem em Braga.Posso tecer muitos argumentos, porém não vi nada de 1º de Maio, vi silêncio pessoas que caminhavam na rua à procura de montras e nada mais...É assim a Braga actual quanto a referências ao passado? Porque será? Alguém tem culpa e talvez seja fácil encontrar os responsáveis.Até em Guimarães ouve este Ano um 1º de Maio.Parabéns não temem as criticas do presente e entendem o passado.

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