[Avenida do Mal] O Elogio ao Mário ou do Sindicalismo de Mercado

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O sindicalismo pop faz-se notar como nunca neste país de sem tradição sindical nenhuma. Quanto mais no norte português, puritano e reaccionário, de sacristia, onde o sindicato é fabricação soviética medonha e pouco mais que isso. Se fecharmos os olhos para imaginar, qual crianças perante o lobo mau, talvez nos venha à cabeça uma mesa redonda com bandeiras por trás, vermelhas e uns retratos de uns quantos filósofos e líderes do socialismo. Na mesma mesa: gente de bigode e camisa, mofo.

Talvez a imagem esteja errada, na realidade. Numa economia de mercado, o sindicalismo tem em Portugal a sua componente de produto vendível, e mais que oportunista e teimoso (para não dizer sem quaisquer objectivos concretos) é de carreira. Todo o que se vê na entremeada é puro marketing e mainstream. Até se compreende, é da força do fogo do outro lado da barricada, em partidos do poder e no poder. Nunca se viu, aliás, política e propaganda em Portugal feita de tanta parra, em confetis e fundos azuis [no da seta única de Menezes e nas Novas Fronteiras de Sócrates- lembram-se?] do que nesta altura e nesta democracia.

No veneno dos dias, apercebemos-nos nós, os portugueses que exigem sossego perante a fantochada, que é um logro à inteligência das pessoas todos estes palcos montados. Dá a sensação da tal Revista à Portuguesa, exportada do Parque Mayer a tudo quanto é praça pública e teatro político. Nunca houve governo com um marcado cariz ideológico, e para falar verdade, também nunca os sindicatos estiveram na raiz da força das manifestações espontâneas, unas num real descontentamento e com o propósito de mudança. Tiveram sempre uma agenda partidária e não admira portanto a barracada que são as greves gerais convocadas por centrais sindicais. Basicamente, ou se tem (ou tinha) por princípio, a solidariedade com os outros trabalhadores em luta ou então nem vale a pena despender o ordenado de um dia em sucessivas montanhas a parir ratos.

E a prova de que os sindicatos portugueses são um falhanço é que, desde o 25 de Abril, nunca conseguíram estancar a sangria dos direitos dos trabalhadores e do desmantelamento do tal Estado Social. Pelo contrário, no festim de sangue, só se alimentou o espectáculo de marretas políticos, e a ascensão de gente chata e irritante, que só berra ao estímulo, letárgicos na espuma dos dias e, como sempre, incapazes de mobilizar as classes profissionais nas reformas desde cá de baixo. Em suma, só se mexem quando alguém insiste – e às vezes com melhores intenções que estratégias – em mudar-lhes o óleo e os componentes.

Na Broadway portuguesa do sindicalismo, Mário Nogueira é agora a estrela ascendente nos cartazes – Carvalho da Silva está de momento mais de mãos e pés gravados no cimento do passeio da fama, e de olhos a caminho de Belém, ele e mais uns quantos camelos (é da força da metáfora), será? Mas do docente líder da FenProf, não lhe conheço carreira a olhar miúdos da carteira, é antes tão eficaz como um Pastor da IURD. Conseguiu pôr uma carrada de professores a fazer o que tanto contestam na política da Ministra da Educação: enrodilharem-se horas e dias a fio na burocracia dos papéis, plásticos e telefonemas; mas por autocarros e mais de quantas bandeiras e cantigas em comícios à sua figura.

Pois é. Pode ser uma espécie de Carvalho da Silva remisturado, mas Mário Nogueira, com estas e outras, já fez mais que o ex-secretário geral da CGTP: foi elevado a ícone – no discurso irritado de Santos Silva – junto com Cunhal, Mário Soares e Manuel Alegre. E contra mim falo, já me ocupou, nos dedos e nos neurónios, algum do tempo esta tarde. Bravo, camarada Mário!

5 comentários:

  1. Estás enganado Vitor. Mário Nogueira pode te irritar ao aparecer últimamente todos os dias na TV e rádio pirata. Mas, o sindicalista da fenprof terá muito que dar ao pé e há sabedoria para chegar aos calcanhares de Carvalho da Silva.

    O ícone dos governos do PSd e do PS é um tal sindicalista moderno, socialista dos 4 costados um trabalhador chamado , João Proença o "filho" do maior Torres Couto. O bom sindicalista sempre pronto a fazer fretes ao governo.

    Pensei que o teu texto de hoje era a dar vivas ao comício do PS no Académico ( lugar de rock dos anos 80).

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  2. Oh meu caro JMF.

    Lá está, concordo consigo, como tento dizer no texto. Eu só peguei na figura de Mário Nogueira porque é o sindicalista em ascensão, sem Carvalho da Silva na CGTP. :)

    Quanto a comícios do PS. Não lhes dou vivas quando feitos na entremeada da legislatura. E mais que contra os professores, o comício foi uma demonstração de força face ao PSD, numa altura em que o Governo não está em maré de graça.

    Quanto a Rock dos anos 80, estamos muito mais de acordo, suponho :)

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  3. "E a prova de que os sindicatos portugueses são um falhanço é que, desde o 25 de Abril, nunca conseguíram estancar a sangria dos direitos dos trabalhadores e do desmantelamento do tal Estado Social", esta frase Senhor pedro de facto prova que para si as coisas funcionariam bem era num regime salazarista,sem direito a liberdade de expressao pois eu meu caro nao sou comunista mas lhe digo a nossa liberdade nao a devemos a Paulo Portas nem seus discipulos mas sim ao PARTIDO SOCIALISTA,PARTIDO COMUNISTA E SOBRETUDO 2 GRANDES HOMENS independentemente dos falhanços que tiveram,foram homens de coragem e que deram muito ao país como é o caso de Álvaro Cunhal e de Mário Soares...terá voce algo contra os sindicatos??ou contra os professores??será isso??

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  4. Caro anónimo,

    Não sei com que intenções veio a este blogue, mas a ânsia de me atacar faz com que esteja a criticar-me por um texto que não é da minha autoria.

    Este texto é da autoria do Vitor Pimenta. A minha opinião sobre os professores e o racismo está bem patente ao longo dos vários textos que por aqui vou assinando.

    Atenciosamente,
    PM

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  5. Caro Anónimo. Como autor do texto devo avisar-lhe que está a cometer um erro de interpretação, porventura causado pelos rodeios do português, ou pelo estado ansioso do meu caro.

    Referia, antes, que os direitos adquiridos com a Democracia e, com eles, as virtudes do Estado Social erguido no 25 de Abril, têm sofrido um desmantelamento e que isso não tem sido impedido pelos sindicatos portugueses como em países com larga e sustentada tradição no sindicalismo.

    Ou acha que nos tempos de Salazar havia Estado Social digno desse nome? Eu penso que não, porque arre Salazar para longe. E com ele a mediocridade.

    Cumprimentos.

    Vítor Pimenta

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