[Avenida do Mal] Espectros de Sexualidade

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No inicio é uma célula, zigoto, resultado da união de gâmetas (espermatozóide e óvulo) e no meio do emaranhado de 46 cromossomas, surgem dois (fala-se assim porque é por demais complicado para leigos) o X e o Y, intitulados de cromossomas sexuais, que determinam o sexo do embrião, sendo que, e mais uma vez fazendo simples, dois XX determinam-no feminino e um X e um Y determinam-no masculino. Na verdade estes apenas definem as gónadas de cada género: o ovário ou testículo; estruturas estas que largam hormonas que vão moldando, ao longo do desenvolvimento embrionário, o rascunho dos órgãos genitais, ambíguos pela 7ª semana de gestação, vincando-lhes gradualmente as formas, na força com que interagem com os receptores de membrana das células. No fim: menino ou menina, por dentro e por fora.

Simples, se assim o fosse, seria tido como de Natureza a catalogação rigorosa das coisas. Mas não é. Por processos da biologia, erros e mutações, motores de Evolução, difíceis de ver a olho armado que fará a olho nu, outros que é preciso pensar neles em mais de quantos estudos e experimentações, a Natureza faz por fazer complicados e complexos o bailado e os passos na construção da vida e das suas morfologias. Sem a tal sincronia divina, como tábua de mandamentos, dificulta, como torna mais desafiante, a compreensão ao Homem.

Não admira então o espanto, quando me dediquei há anos, em pequenos trabalhos e leituras, sobre pseudohermafroditismo e intersexo. Sobretudo pseudohermafroditas masculinos/meninas XY: mulheres em corpo, esbeltas, altas e de fraca pilosidade, muitas delas modelos serão, para a alta-costura, mas que em vez de ovários têm testículos (metidos dentro da barriga, no abdómen em lugar dos ovários) a produzir quantidades absurdas de testosterona à qual o corpo não responde. Isto para não falar de outras manifestações no intermédio, ou porque os diferentes indivíduos não têm corpos que (não) respondam de tão vincada forma, ou porque o processo é outro. Trocam as voltas à pessoa e à família, e baralha no contra-senso (do senso comum, refiro) as sociedades que pensam a duas cores.

Não há azul nem rosa. Há todo um espectro contínuo de manifestações dos caracteres sexuais, primários e secundários, e dos comportamentos, e estes não se encaixam nos parâmetros forçados pela lei ou pela moral, mais dos Homens que de Deus. E de verdade, haverá mais que 2 sexos. E não lanço na fogueira da confusão o refogado hormonal, e suas condicionantes de fervura em banho-maria, que sexualizam o cérebro de acordo - na grande parte das vezes - ou não com a sexualização do corpo.

Enfim, quem conhecer o quão dependente, de equilíbrios hormonais e outros químicos, estruturas proteicas e moleculares tão aparentemente insignificantes, está a definição de uma identidade sexual (no corpo e nos afectos), fica com a noção que o que faz diferente de homem para mulher é quase tanto como de um homem peludo para outro mais depenado. E nisto, mais razão se dá ao Governo de Zapatero/PSOE quando não se cansa de embandeirar a Lei de Identidade de Género e as outras contra a escala de cinzas da Igreja e o monocolorismo do PP espanhol. É que tem em conta as redundâncias da Natureza, e aqui, é mais pró-natura e humanista.

Foto de João Vasco

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