[Avenida do Mal] Salazaróide Paranóide

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Ou a verborreia de salazarismo pop, como lhe chamo, em terras enjeitadas entre Espanha e o Atlântico, e é das carnes e dos costumes. Dos afectos. Mas é com os prazeres reservados à elite, abençoada por Deus, em melhor sorte e melhor família, se calhar um pouco mais de inteligência. Há todo um culto ao fruto que, mais que proibido, é restrito a alguns e aí vale ser-se conservador, punitivo, no acesso e nas leis, restritivo a casas de grandes quintas e jardins, muros erguidos ao alto que nos separem do povinho, ou então uma leira, um gradeado, um portão de ferro. A cannabis não é para caseiros, nem para gente pobre, nem tão pouco para vencidos da vida, nem gente com cancro e sem dinheiro - câncaro! – ou em fase terminal. Nem eles tem direito a sexo por quantos lados há e buracos, no corpo e no mundo, nem enjeitamentos que não os da cópula vaginal, pelo menos aos reservados pobres de dinheiro e de pensamento. As orgias, as festas largas, as máscaras, a hipocrisia do dia-a-dia, é reservada à elite. E há que as cravar na lei, como se cravou nas tábuas a Moisés. “Não cobiçarás a mulher alheia." E o homem alheio? Isto agora, sabe Deus... Enfim, religiões para machos; mulheres para a cozinha, sobretudo sopeiras, as que vieram da pocilga servir, onde são os leitões mais que as mães. O aborto: coisa do demónio porque o demónio estava metido dentro do corpo n’altura em que não se meteu camisa. Camisa? Que é isso? Não dá prazer, tira e mete, é chato, é de gente pobre, é para lhes parar a torrente de filhos. Filhos? Um e dois, para que o ordenado chegue para um punhado de carros e casas, em tudo quanto é sítio do Portugal sazonal, inverno na Estrela, em Trás-os-Montes: o carnaval e a festa dos garotos a fumar – que gira é a gente pobre e ignorante deste país, tão engraçada desde cedo a penhorar pulmões e cabeça aos garotos, mantém-se-nos burros e sossegadinhos, no trabalho de enxada ou na trolhice a mandar bocas às meninas, badalhocos e malcriados - pudera, são pobres. Há casa no Alentejo também, Herdade, como se herda o direito à elite – porque os direitos são para quem pode usufruir deles – e com vista sobre a planície alagada, barcos de gente fina, iates e quem sabe paquetes, pelo Guadiana acima. Os prazeres, cogumelos, santieiros, ervas, cocaína, heroína, viagra com essas coisas todas, é para gente com dinheiro e que possa. A mariquice? Em casa privada, grande e em festas de guest list. As ruas são para coisas de santidade, farricocos, santos, andores e gente figurada. País e mundo desfigurado todo o santo dia – perdão que é pecado – dia só!; os dias de contrição estão no calendário e em mais lado nenhum, depois de do Aval da Carne temos a Quaresma para não comer carne e encher a barriga de marisco. As ruas não são para a CGTP nem para gente vermelha, é para hurras ao Presidente do Conselho – que Deus o tenha no Céu e com os anjos sem sexo, limpinhos, e com um apartamento com vista para a rua onde passeiam 70 virgens para cada terrorista. E as mulheres terroristas? São fufas? Vão para o Inferno certamente, porque para cada uma chega um pénis, e à moda antiga, de luz apagada e com todos os lençóis por cima em uma via no meio – havia de vir outro! Salazar, claro, o António de Oliveira, não a Ana que parece um hóme. Há quem diga que sim, que já cá anda, em S. Bento ou no Restelo, austero como a Manuela Ferreira Leite e feio como ela. Ui, se calhar é ela!... Venha, venha. Deixa Rajoy ganhar ao outro que gosta de tensão e faz-se uma guerra civil de lá para cá, remistura-se a Igreja e o Estado no mesmo embrulho. O Parlamento como altar, de cerimónia e coisas deitadas ao ar, ditas e lidas de cor e em consonância, a repetir, uns atrás dos outros, como era no tempo dele (com “dê” pequeno porque não era Deus era humilde) e como é agora… Ui!...

6 comentários:

  1. Os parágrafos, esses fascistas!

    Mas a sério, já lhe tinha dado esta dica à uns tempos. O texto está excelente, como quase sempre. Mas, continuo a não saber bem porquê, tem a tendência para se esquecer do básico. Os parágrafos ajudam bastante à leitura de um texto, qualquer ele. Uma questão estética e estrutural, e por isso com regras algo latas, cujo o objectivo é facilitar a leitura do texto.

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  2. "Os prazeres, cogumelos, santieiros, ervas, cocaína, heroína, viagra com essas coisas todas, é para gente com dinheiro e que possa."

    Gostei. O Jam tem razão.

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  3. Caros Jam e JMF: fiz o texto de corridinho e postei-o assim, na íntegra, verborreico e paranóico, com fuga de ideias e sem regras com o ritmo que tinha a quando do despejo. Provavelmente não ajuda não haver parágrafos, mas teve esse propósito.Fica a correcção para quando os editar(os textos) em livro :)

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  4. "já lhe tinha dado esta dica à uns tempos"

    Ó jam, e que tal aprender a escrever antes de corrigir quem quer que seja...

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  5. pimentinha mui admiro toda a tua verborreica sapiência e capacidade altruísta de abrir os olhos para quem cheio de remelas está.

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