[Avenida do Mal] A Doença Prolongada

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O Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, pode bem, desde já, estar entre as figuras de 2008, apesar do ano pelo começo. Vale pelo descaramento, mesmo que neste país não valha de nada apontar. Fica-se numa perplexidade admirada e amorfa, parada e depressa se desvaloriza tudo numa caricatura ou num outro assunto. Que a administração pública, e o aparelho de promiscuidade que se lhe associa, tem uma base corrupta, é dado adquirido. Tanto que são as organizações internacionais que o apontam. Mas incomoda mais que tudo, o laxismo e a lata com que se recusa aprovar legislação - e mais que isso aplicá-la - que a combata desculpando-se hipocritamente no “humanismo” do ónus da prova.

Normal. Num sistema político com obesidade mórbida - porque se estende bem para lá dos órgãos de soberania - que mal se mexe e pouco rende, só se preocupando em alimentar(-se), fica o tratamento limitado, porque não há grua nem estimulante que chegue para levantar odre do poiso. Permanece assim, de natureza, ineficiente e esfomeado, que não dispondo de fundos de Europa, jazidas em Angola e Brasil, suga o seu próprio tutano em desigualdades e no aumento dos impostos, substituindo a carne por gordura. Enfim. Coitado, porque é brandinho.... Pelo menos até à próxima orgia revolucionária e inconsequente... Acalmada a fúria, sobra depois o País Pedinte, quase desde sempre, por dentro e sobretudo lá fora.

Verdade é que, de certa maneira, o actual modelo económico e social, estável na instabilidade, é sustentado por toda esta fisiologia. Só que a mesma custa mais ao país do que custaria empenhar o erário e a vontade pública - porque a política é pouca - numa máquina nova e afinada, que funcionasse à margem das alternâncias democráticas. É que ficando a que temos, e com tamanho cancro instalado, muito custa a crer-se como curável. Se calhar, a ressecção do mesmo talvez levasse o país para o colapso mental.

Em alturas de comemoração do Regicídio de 1908, com lenços negros ou em foguetes, cabe então também pensar que 3ª República é esta. Não a contesto como modelo de Regime, tanto é que rejeito a monarquia como qualquer outro que se assemelhe, em Cuba ou na Coreia, pelo seu simples princípio de que a rege de um Estado está inscrita num código genético. Mas, no dado momento, tanto nos vale um Rei como um mentiroso. Nestas coisas da democracia e da política é tudo uma questão de modas, e neste país mais do que noutro qualquer.

A marca mais evidente desta República, da IIIª, e que ficará encravada nos pergaminhos da História assim que finada, é o seu sistema-politico partidário confuso e sobreponente, em nada inovador e sem uma definição clara entre os partidos, em que a luta é agora e em todo o espectro sobre quem domina na crista da onda da opinião. Quase que como dantes. E deste Portugal político, em que só tem carreira quem for conivente com o mal instalado, só se pode esperar a morte do regime por doença prolongada.

8 comentários:

  1. O problema da corrupção em Portugal e a sua prevalência crónica deve-se às manobras que levam ao financiamento dos partidos políticos: favores que pagam favores, que favores não parecem... e isto sempre em cascata.

    Com esta república não se vê solução.

    Venha outra república - ou a
    monarquia.

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  2. «A marca mais evidente desta República, da IIIª, e que ficará encravada nos pergaminhos da História assim que finada, é o seu sistema-politico partidário confuso e sobreponente, em nada inovador e sem uma definição clara entre os partidos, em que a luta é agora e em todo o espectro sobre quem domina na crista da onda da opinião.»

    O que defende em concreto? Confesso que não percebi. Parto do princípio que não defenda um partido único, pois expressou o seu desagrado pelo comunismo. Este é verdadeiramente um sistema pluri-partidário. Vários partidos têm assento no parlamento. É normal que haja alternâncias "naturais". Talvez seja menos normal não haver maior necessidade de se fazerem coligações, mas isso também não é necessariamente bom, como se viu agora em Itália. O que resta? Resta o sistema bipartidário. Mas esse, também não promove uma definição clara entre partidos. Há ideias perfeitamente díspares, dentro dos próprios partidos (nos EUA, é particularmente evidente nos republicanos, em que Ron Paul aparece como um libertário).

    Sinceramente, este sistema-partidário não é a «marca mais evidente desta República», não é a razão/raíz dos males do sistema.

    Voltando à pergunta inicial, se não defende um sistema com um partido único, com vários partidos ou com dois partidos (pois esse também não promove a definição clara entre partidos), defende o quê? O problema não estará no sistema, por assim dizer, mas nos agentes. É tentador, mas fantasioso, pensar que uma 4ª República vai mudar os agentes. Tal como o foi quando se passou da Monarquia para a República, há quase 100 anos. A memória colectiva impede de o sabermos, em virtude do "bloqueio" do Estado Novo, mas os agentes serão assim tão diferentes, hoje, do que eram há 100 anos?

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  3. Uma coisa é certa: a República não só não resolveu problema nenhum da Monarquia, como até os agravou. E nunca a pouca-vergonha tinha chegado antes ao que chegou hoje. Neste momento, vivo num sítio onde o Chefe do Executivo não é eleito democraticamente. E sabem que mais? Espero que assim continue por muitos e longos anos, pelo menos enquanto aqui viver. Já foram demasiados anos a viver no carnaval das eleições que deixam tudo cada vez mais na mesma. Por princípio, eu era republicano e democrata. Só que aprendo com o que vou vendo. E as teorias já pouco me interessam, o que me interessa é o que vou tirando das várias experiências por que passo. E essas têm-me mostrado a porcaria que é a dita "democracia". Pelo menos a que existe aí em Portugal.

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  4. Essa de dizer que tudo bate nos partidos é um pouco enganadora… basta ver que a corrupção e nepotismo são praticados a todos os níveis em Portugal. AS pessoas comuns recusam-se a assumir as suas responsabilidades! Quanto mais não seja a de que sistematicametne elegem cretinos para os orgãos de soberania e não exercem qualquer pressão para elevar o nível – estão na lama mas também não têm interesse em sair. O resto é falso espanto e choque.

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  5. Caro Jam. Obviamente não defendo um sistema de partido único nem bipartidário.O que eu quero dizer é que não há um espectro descontínuo e evidente nos partidos. Há híbridos ideológicos. O PSD e O PS confundem-se, o PSD confunde-se com o PP, ou PS com o BE e com o PCP, às vezes, e este com parte do BE e parte do PS. Confuso não é? Daí que não admire que os debates no parlamento sejam tomados de pura hipocrisia, demagogos e oportunistas. E sem passos em frente, porque os partidos não pregam ideologias, pregam modas.


    Defendo, por ventura, uma dissolução do sistema, um reset que permitisse a reestruturação e definição ideológica, que os esclarecesse nas políticas. Traria outra intensidade ao conflito democrático. Como acontece em Espanha.

    E sobretudo – e se calhar é irrealismo meu – descolava a administração pública da serventia política que a torna ineficiente e a meio gás, porque o meio ou é laranja ou rosa.

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  6. O bastonário veio dizer o que toda a gente sabe mas que ninguém investiga! Somos um país onde a corrupção é prática corrente e quase considerada normal.

    Assim continuaremos a ver os apartamentos de luxo esgotados e o nº de pobres a aumentar!

    E ninguém faz nada?...

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  7. Vitor Pimenta, parto do príncipio de que nunca foi militante do PCP, eu fui. E digo-lhe. O PCP é único no País. Não se confunde, mesmo.

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