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Perguntaram-me se os blogues são jornalismo. É um péssimo início de conversa. Dá ideia de uma dicotomia que, na realidade, não existe. Como se a escolha fosse binária. De um lado o jornalismo, do outro lado o resto. Pega-se nas gavetas de ontem, rotula-se o produto e guarda-se com cuidado. E, quando a gaveta não fecha, dá-se um empurrão até a coisa se compor. Mas mais valia mudar de gavetas em vez de andar a partir a mobília.

Os blogues não têm a dimensão institucional do jornalismo. Faltam os filtros, falta o processo de edição. Falta a assinatura em baixo da peça, muitas vezes. Se é isto o jornalismo, os blogues não são jornalismo. Mas é duvidoso que seja esse o sentido que normalmente se dá à pergunta. That’s not the point. A questão é se, como os media tradicionais, os blogues informam, apuram e servem ao debate público. É menos uma questão de meios do que uma questão de resultados.

Para a informação ainda falta um bocadinho, até porque é difícil ter um correspondente no Paquistão ou no Quénia a escrever sem salário; mas na discussão a história é outra. Neste ponto, aquilo que afasta os blogues do jornalismo é precisamente aquilo que lhes dá vantagem: a abertura à concorrência. O mercado interno é pequeno, o que limita o universo da comunicação social. Mas um blogue não exige tantos recursos. Antes, quem discordava das vozes habituais contava três opções: ter a sorte de aceder aos microfones oficiais, comer e calar ou fazer um jornal. Hoje é mais simples: cria-se um blogue. Neste mercado de ideias, a sorte e o dinheiro contam cada vez menos.

Nem todos gostam. Os media de raízes assentes tendem a olhar os blogues com desconfiança (embora, claro, haja excepções). É normal. Os blogues apertam a vigilância, apontam as incorrecções, propõem alternativas e quebram o monopólio. Não são jornalismo, nem são ‘o resto’. São as tertúlias de café abertas ao público em noite de entrada livre. São algo diferente a precisar de uma gaveta nova. Claro que se ouvem lamentos. A concorrência externa é frequentemente acompanhada de apelos ao proteccionismo.

A blogosfera também combina um monte de recursos que a tornam um lugar de insulto fácil. A comunicação é rápida, o diálogo está aberto nas caixas de comentários e ninguém tem de assinar o que diz. As calúnias e as imprecisões são os graffitis da blogosfera, mas criticá-la por isso é como criticar uma tertúlia que dá voz a idiotas. Até pode dar, mas só lhes presta atenção quem quer.

5 comentários:

  1. Um blogue é um vício masturbatório imprescindível na liberdade individual.

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  2. Outro assunto paralelo ao de saber se blogues são jornalismo, é saber se o jornalismo de hoje é jornalismo, sequer. O recurso sistemático a agências noticiosas, que acabam por vender a mesma notícia a dezenas de "canais" noticiosos diferentes; a febre dos directos e a quantidade de tempo útil perdido. Dirá que não existem filtros na blogosfera. Pois não, mas já existem ideias como a do TubarãoEsquilo e com tempo uma pessoa acaba por conseguir filtrar o que é bom e o que é mau.

    Outro aspecto será também o enjoo que as pessoas têm de, tal como nos políticos, andarem a ler as "mesmas" opiniões há anos e anos. Nesse aspecto foi uma lufada de ar fresco. Foi, creio eu que já não é - novidade, ou diferente -, pois os jornais e televisões já trataram de "adquirir" muitos deles.

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  3. Os blog são opinião, o resto é o tal vício imprescindível na liberdade individual. Não percebo a necessidade de ascender a um estatuto institucional. Aceitar que os blogs são jornalismo seria o mesmo que dizer que o "barbeiro" do século XIX era o jornalista da vila. Há blogs sobre jornalismo, há blogs de jornalistas, há blogs que até fazem jornalismo, mas os blogs não são jornalismo.

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