O Ex-Vermelho de Riga

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De dia, Riga é esta cidade de rosto contido, incomodado, dorida de tantos anos de nariz alheio metido nela. Há esta crispação se solicitamos, como se não fossemos bem-vindos, russos nós também. A cidade que acolhe 40 por cento deles, desde a ocupação, quase tantos quanto os letões nativos, encurrala-nos nas boas intenções entre o azedume de um fogo cruzado. Maior remédio que o Balzams com sumo de amora fervido, só o ópio do tempo para amainar as tensões entre hóspedes e hospedeiros caprichosos.

A nova geração letã, no entanto, está agora mais embriagada com as oportunidades que o futuro que lhes reserva - a aventura capitalista - que propriamente o passado, a sua autoridade e a sua austeridade. Enquanto não se desce para as galerias num edifício esquinado ao Município e à Melngalvju nams, onde decorre um festival de música experimental, um grupo de amigos locais fumam civismo ao ar-livre e ironizam dizendo que ali, como na Rússia, certas liberdades ainda se compram directamente à polícia e à nomenclatura e não na lei.

A outra juventude, de origem russa, criada no pós-URSS, conta híbridos escondidos por detrás de apelidos letões, como alternativa ao degredo. Na verdade, os subúrbios, guetos de decadência e os fins de semana à noite em redor da Estação Central, mostram uma Perestroika a afogar as mágoas na vodka. Nas passagens subterrâneas que contornam por baixo o emaranhado de asfalto, carris de eléctricos e fios de trolejbuss, o vaivém de alcoólicos dissimulados, velhas senhoras compram bondade enquanto nos estendem a mão. Parece haver uma miséria de idade e uma miséria de mercado ao mesmo tempo. A União Soviética, esse prolongamento socialista da Rússia imperial, abandonou os seus cidadãos, também aqui, às sortes do Ocidente. A outrora potência dominante tem pujança enferrujada como as carcaças dos Antonov no museu anexado ao Aeroporto de Riga.

Riga, hoje como nunca, quer livrar-se do vermelho e do cirílico (re)experimenta-se a si mesma, na música, na arquitectura, nas outras artes e na liberdade, ainda que os penteados loiros à Ágata se notem entre as voluptuosas mulheres pernaltas e descapotáveis, raramente obesas. Na febre liberal, os edifícios envidraçados que se erguem alto da outra margem do rio Dauvaga, ou Duína Ocidental, fazem inveja à Torre da Televisão e Rádio Nacional, à Catedral e Igrejas de Galo empoleirado nas erectas cristas. Ousadia que ameaça o título da Unesco e de capital art nouveau mas dificilmente lhe tira este charme patchouli...

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