Lobos com Pele de Cordeiro

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«Laurinda quer um mundo melhor, mais próximo, onde os comissários possam ir a casa das pessoas e perguntar “diz-me, amigo, qual é o teu problema!”. No fundo, a Laurinda acha que a União Europeia é uma espécie de mega-paróquia ou uma ala de crianças com leucemia no IPO.» [Jorge C.]

Não imaginava possível resumir em tão poucas linhas aquilo que tem sido a campanha eleitoral de Laurinda Alves, a candidata mais simpática do campeonato dos pequeninos. Confesso que não me comovo com a postura delicada de Laurinda Alves e, muito menos, com a teoria de que devíamos dar aos novos partidos uma oportunidade só por serem estreantes.

Por entre as parangonas do costume, não há nenhuma evidência que demostre que o Movimento Esperança Portugal possa trazer a anunciada esperança que permitiria romper com o sistema político tradicional e, no essencial, sobrepõem-se ao PS e ao PSD, replicando-lhe vários vícios e acrescentando uma doutrina moralizadora que quase torna redundante o nascimento desse partido-religião a que chamam «Portugal Pela Vida».

Salientando pela positiva as interessantes propostas em termos de acolhimento aos imigrantes, de valorização do papel dos idosos na sociedade e da função reguladora do Estado, permitam-me que questione as opções do MEP em três aspectos que considero fundamentais.

Muito curiosamente (ou talvez não) o MEP assume-se “familio-cêntrico” sem nunca esclarecer o seu conceito de família. Desta situação resulta o perigo da exclusão das famílias que, por não se enquadrarem nos valores da memória e da tradição, não venham a ser consideradas pelo MEP, bem como da discriminação de todos os que, por opção ou acaso, se vêm privados de uma família. Ao contrário do MEP, sou de opinião que o indivíduo deve continuar a ser a unidade fundamental da sociedade democrática, sem deixar de se reconhecer a importância dos grupos e comunidades que integra, dos quais o mais relevante de todos é a família. Além do mais, fica a ideia de que o MEP pretende trocar a democracia das pessoas pelo poder das corporações, incentivando ao protagonismo da rapaziada que os acompanha nas associações de famílias e outras coisas afins.

No capítulo educativo, fica a impressão que o MEP pretende aprofundar a erosão da Escola Pública, apostando no «reforço da liberdade de ensinar e da liberdade de aprender», claro eufemismo para uma aposta no ensino particular e cooperativo. Demonstrando algum desprezo pelos debates que a sociedade civil tem vindo a promover, o MEP não dedica uma única linha do seu programa à Educação Sexual, mas depreende-se que gostaria de a deixar à mercê das famílias, o que resulta no abandono das crianças e jovens oriundos de núcleos familiares com menos competências educativas.

Para a saúde, o MEP propõe que deve ser «alargado o esforço de comparticipação da despesa em saúde, por parte das famílias, consoante a sua capacidade financeira». Na prática, isto resulta na dupla tributação do quarto de portugueses que paga impostos. Também aqui o MEP «defende uma maior abertura e cooperação com o sector social e privado para uma prestação integrada, complementar ou alternativa de cuidados de saúde, possibilitando ao cidadão a capacidade de escolha entre SNS público, sector privado e sector social».

Falemos claro: o MEP quer menos Estado na saúde e na educação e nós sabemos a quem é que o MEP gostava de entregar estes sectores. É uma proposta legítima que deveria ser assumida abertamente e que eu não hesito em rejeitar.

A ler: MEP nas europeias para dar voz aos que defendem causas sociais, no Público; Mas defendem o quê: a igreja e as empresas?, por Miguel Vale Almeida.

6 comentários:

  1. Caro Pedro M.

    “Uma história repetida mil vezes passa a ser noticia.” Parece ser esse o objectivo deste post!

    Depois de o Pedro a ter publicada no blog do Público 2009, http://blogs.publico.pt/eleicoes2009/ volta a ser aqui publicada, sem qualquer referencia ao post anterior.

    Assim como continua sem qualquer referência ao site do MEP – www.mep.pt para que os leitores o possam consultar e ter a sua própria opinião.
    Quanto à definição de família, que o MEP propõe, que é “ uma comunidade de pessoas ligadas por afectos, compromissos e por um elo de zelo mútuo”, não estou a ver que famílias estejam a excluir. Mas talvez me possa dar exemplos concretos.
    Esta centralidade da família nas políticas compreende-se bem no caso da educação: mais do que conceber o estado como o grande educador, parece-me que o MEP vê o estado como aquele que apoia as famílias na educação dos seus filhos.
    As propostas do MEP são de mais sociedade civil, onde temos excelentes casos de sucesso, em conjunto com um estado que tem de fazer melhor aos recursos que usa.

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  2. Caro Jorge Sousa,

    1. Não deve ser leitor deste blogue senão saberia que não tenho por hábito interligar as publicações do Avenida Central com as do Eleições 2009 e que já não é a primeira vez que publico os posts do eleições aqui.

    2. Depois de tantas queixas, penso que deveria ficar contente por estarmos aqui a discutir as políticas do MEP.

    3. “Uma história repetida mil vezes passa a ser noticia.” Talvez isto se aplique as seus comentários da mesmo forma que tenta aplicá-lo ao meu post.

    Cumprimentos,
    Pedro Morgado

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  3. Ao menos o MEP (e outros partidos ainda sem afirmação publica) não tem uma máquina política por detrás que faz o trabalho todo e os cabecilhas acenam e são recompensados pelo esforço de 2 ou 3! Ainda não a vi a percorrer as feirinhas...

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  4. O MEP é o partido da Igreja Católica, não é? Todos os que lá estão andaram a fazer campanha contra o aborto e o casamento civil e agora armam-se em defensores da não-marginalização? Eles são uma cambada de conservadores armados em amigos dos pobrezinhos. Esta gente alimenta-se do facto de existirem pobres para depois poderem fazer a sua caridade de saltos altos. Que hipocrisia...

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  5. «Ao menos o MEP (e outros partidos ainda sem afirmação publica) não tem uma máquina política por detrás»

    joão pedro, engana-se. o MEP tem a máquina da Igreja por trás... Ou acha que eles conseguem esta influência e campanha toda como?

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  6. "Ou acha que eles conseguem esta influência e campanha toda como?"

    João Sousa

    Já lhe ocorreu que o MEP tem pessoas com experiência na área da comunicação, na liderança de projectos, que tem ideias partilhadas por uma grande parte dos portugueses, que tem uma perspectiva nova e positiva especialmente necessária num momento de crise e um conjunto de militantes muito motivados?

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