(Re)Enterrar o Tesouro Romano

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«Os arqueólogos da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho (UAUM), que vêm acompanhando os trabalhos do prolongamento do túnel, detectaram, em Outubro, um vestígio de um edifício romano de grandes dimensões, a sul do cruzamento da Avenida da Liberdade com a rua do Raio. As escavações puseram a descoberto apenas o topo norte da estrutura, com cerca de 20 metros, bem como um muro de construção romana. O resto do edifício permanece escondido debaixo de terra numa zona onde não está prevista nenhuma intervenção a curto prazo. O início da construção do equipamento descoberto pelos arqueólogos da UM deve remontar ao século I.» [Samuel Silva, Público]

A decisão foi tomada sem qualquer debate público - as descobertas arqueológicas do topo norte da Avenida da Liberdade vão ser (re)enterradas e as obras do túnel prosseguem. Mas afinal, qual é o potencial histórico e turístico da musealização destas descobertas?

A resposta, se alguém se questionou sobre o assunto, está guardada nos gabinetes dos autarcas e dos arqueólogos desta cidade, sem que das reflexões produzidas seja dado cabal conhecimento às populações. Num momento em que se ouvem tantos lamentos sobre o desinteresse dos cidadãos pela política e pelas questões de cidadania, o debate sobre estas matérias deveria ser público, transparente e global.

Todos se recordam do que foi o debate em torno do novo aeroporto da Ota e dos custos que o país teria que suportar caso o assunto se tivesse mantido na esfera dos políticos e dos técnicos que os políticos contratam. Temo bem que suceda o mesmo nesta questão do túnel da Avenida da Liberdade.

Já se sabe que uma parte significativa dos bracarenses não tem a herança histórica em boa conta, mas a verdade é que, ao desperdiçarem oportunidades preciosas para suscitar o debate, os arqueólogos, alguns arqueólogos, contribuem para o preocupante alheamento das populações que acaba por ratificar os erros estratégicos e atentados contra o património histórico que têm sido cometidos ao longo dos últimos anos.

15 comentários:

  1. Este processo é bizarro já que foi lançada uma grande empreitada de obras públicas, numa área extremamente sensível da cidade de Bracara Augusta, sem prévia realização de qualquer estudo de diagnóstico arqueológico. É manifestamente absurdo avançar com uma obra desta natureza sem que tal estudo prévio fosse concretizado, quer ao nível da definição da sua viabilidade face ao impacte estimado sobre bens patrimoniais, quer ao nível do seu planeamento em termos financeiros e de prazos de execução. Para além disso, quem está a pagar os trabalhos (aparentemente umprevistos!) em curso: o empreiteiro? a autarquia? Por que razão não foi aberto um concurso público para a sua realização específica? Quem os realiza? Como são transferidas verbas?

    A actividade arqueológica realizada na cidade de Braga reveste-se de características únicas quando comparada com o que se passa no restante território nacional: ausência de mercado e de competição entre potenciais prestadores de serviços. Tal prática, incompreensível e de duvidosa legalidade, pode ser lesiva da óbvia transparência que estes casos merecem.

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  2. Caro Pedro,

    A decisão não me parece totalmente negativa, tendo em conta que os vestígios não serão afectados e serão preservados. Espero é que a Autarquia de Braga venha a demonstrar um mínimo de interesse quanto a uma musealização dos vestígios...

    Concordo contigo quando dizes que a decisão deveria ter sido tomada em debate público, transparente e global.

    Quanto aos arqueólogos, recordo-te que apenas têm prerrogativas para impedir a destruição dos vestígios, e não para impôr a sua musealização. Nenhuma equipa de arqueólogos neste país teria uma conduta diferente da da UAUM, por muito que algumas pessoas (pouco informadas ou mal intencionadas) digam o contrário.
    Abraço,

    Gonçalo

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  3. «Todos se recordam do que foi o debate em torno do novo aeroporto da Ota e dos custos que o país teria que suportar caso o assunto se tivesse mantido na esfera dos políticos e dos técnicos que os políticos contratam. Temo bem que suceda o mesmo nesta questão do túnel da Avenida da Liberdad»

    O debate público tem virtudes, mas o caso da Ota é precisamente um caso exemplar no sentido negativo.

    Certo é que se tivesse sido avançado há 20 anos teria-se chegado a uma conclusão. Se se tivesse avançado há 10 a outra. Se se tivesse avançado em 2006/2007 a outra. Com o debate público chegou-se a outra conclusão.

    Mas se fosse hoje, 2008/2009, já, tenho a certeza absoluta, que chegaríamos a outra, pois o pressuposto básico inicial: a previsão do atingir da capacidade da Portela está seriamente colocado em causa.

    O debate público sobre esta questão também teria, certamente, as suas virtudes. Mas a consequência imediata era, evidentemente, o adiar da questão durante pelo menos 2 anos, pois já estamos demasiado perto das autárquicas. Correndo o risco de que todo o eventual progresso feito até às eleições fosse por água abaixo, em virtude da mudança governativa.

    Em todo o caso seria interessante saber o que entendem como "musealização" e como a pretendem fazer no meio da Avenida da Liberdade. É que levar as coisas para outro lado ou enterra-las não custa nada e faz-se já amanhã, pelo que, por este discurso todo, suponho que o que pretendem é fazer ali qualquer coisa a céu aberto... ou, pior ainda, construir lá uma qualquer infraestrutura.

    Debate público? Digam, logo à partida, o que realmente pretendem, de forma clara e com um mínimo de objectividade. A palavra musealização é demasiado vago, sem a apresentação do que se quer em concreto, como facilmente se percebe pelas variadas manifestações e musealizações que existem em Braga.

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  4. Ó pá, em vez de falares de bola faz mas é o abaixo assinado contra o túnel.
    A cambada xuxialista de Braga mete nojo.

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  5. enfim, este post pos-me a pensar. obrigado pela qualidade do mesmo.

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  6. Caro Gonçalo

    Acredite que a maior parte dos arqueólogos portugueses teria tido uma atitude diferente à dos arqueólogos que estão a intervencionar a avenida da liberdade!Admiro a capacidade que tem em responsabilizar facilmente os cidadãos e os políticos relativamente ao suposto alheamento que estes têm para a questão do património.Pena é que desresponsabilize os arqueólogos da UAUM, atribuindo-lhes a única tarefa de impedir a destruição de vestígios arqueológicos.Penso que eles devem ter um papel activo na musealização ou noutro tipo de salvaguarda do património.Passar a bola para o lado é fácil, se os arqueólogos não "forçarem" a musealização quem o fará?
    Parabéns ao Pedro Morgado por um post que denota uma consciência crítica salutar.

    Cumprimentos

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  7. Caro Pedro,
    O post aqui publicado parece-me cada vez mais pertinente, tendo em conta que há algumas vozes nestes blogues que atestam o desinteresse dos cidadãos.
    Se assim o fosse, creio que a unidade de arqueologia não procederia agora de uma foram diferente da qual tem pautado a sua existência de trinta anos. Agora sim, planeia dar comunicados com o desenrolar das intervenções e abrir janelas nos taipais para os cidadãos poderem observar os trabalhos. Coerente, no mínimo.
    Contudo, o facto de haver estruturas arqueológicas relança um novo debate – que fazer ao nosso património?
    Creio que deverá fazer parte de uma estratégia de revitalização do centro histórico de Braga, podendo, desde logo incentivar o turismo da nossa cidade.
    Se um achado de grande relevância, dito pelos arqueólogos, será reenterrado, sei que haverá vozes que dirão que enterrado está protegido e não será destruído, mas uma vez que está já cá fora, não deveria ser de interesse comum poder musealiza-lo e anexa-lo à parca lista de sítios arqueológicos de Braga? Imagino que seja complicado e que requeira boa vontade do Município e paciência dos munícipes, mas esta reflexão deve ser feita. Não creio que esta decisão devesse pertencer exclusivamente à CMB, à UAUM ou mesmo ao IGESPAR. Deveria ser uma decisão conjunta entre a população e estas entidades.
    O potencial histórico e turístico da musealização destas descobertas poderá permitir um novo atractivo ao nosso centro urbano, que neste momento me parece (e é meramente pessoal) pouco atraente.
    Se os cidadãos bracarenses não se revêem na sua histórica, creio que será mais porque nunca tiveram grande acesso a ela, isto é, nunca houve uma cultura de valorizar Braga. Talvez daí sempre que as escolas saiam em visitas, iam visitar o castelo de Guimarães, o Palácio dos Duques, a Citânia de Briteiros ou outras estruturas fora de Braga.
    Daí que, tal como afirma um anónimo num post de um dos blogues que costumo consultar, o arqueólogo tem uma responsabilidade social, e deve, sobretudo, zelar pela consciência patrimonial. Creio que o arqueólogo pode ter um papel pedagógico naquilo que respeita à nossa herança cultural.

    Caro Miguel Lago,
    Se de facto acha que é um processo “bizarro”, consegue mostrar-nos o porquê?
    É que quem está de fora tem algumas dificuldades em perceber isso, mas seria interessante perceber se existe, ou não, uma espécie de monopólio de adjudicações em Braga. E se existe, como pode não haver um controlo por parte das entidades reguladoras.

    Caro JLS,
    Parece-me que musealização é assumir a conservação das estruturas naquele sítio onde foi encontrado, e torna-lo visitável à cidade. Creio que, desde logo, implicaria uma alteração no trânsito da Av. da Liberdade e passar a ter uma zona pedonal, onde os transeuntes dessem de caras com aquela estrutura arqueológica.

    Caro Cruz,
    Percebo a pertinência do seu comentário. De facto, não basta acusar aqui e ali, é necessário, tal como o afirmei no início deste post, assumir as nossas raízes identitárias. Para tal, é necessário que os arqueólogos façam de “professores” e nos ensinem a ter gosto naquilo que os nossos antepassados nos deixaram em memória.
    Deve haver um conjunto de forças sociais capazes de dialogar e pensar na cidade…mas pensar a cidade conjuntamente com a cidade.

    Cumprimentos

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  8. O túnel da Avenida da Liberdade continua com a destruição da Avenida da Liberdade! Ao torná-la um esgoto de trânsito, ao afastar quem ainda ali quisésse morar. Não deixa de ser irónico que o PS de Braga promova a destruição duma Avenida com um nome tão simbólico...

    Além disso, o túnel está cheio de erros! É uma desgraça... Desde vincar o deserto do Centro histórico, até criar um espaço que não é praça, nem é largo, antes uma rua a descer, um espaço aberto e não acolhedor... Para já não falar dos vestígios arqueológicos que vão ser destruídos.

    Seria bem interessante virar tudo do avesso, ou seja, em vez de em Braga se destruir o património (no Centro Histórico ou por baixo da terra), porque não passar antes a promover a nossa história e cultura (como em Mérida)?

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  9. E que tal uma abaixo-asinado?

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  10. Onde está a sociedade civil bracarense?!

    Quem alinha num protesto público?

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  11. Abaixo-assinado e protestos já !!! Isto assim é que não pode continuar!

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  12. Boa tarde!

    Caro Dr. Miguel Lago,

    Fiquei impressionado e agradado por o ver participar neste blogue, como importante figura da Arqueologia portuguesa. Ontem, quando publiquei o meu comentário, não tinha ainda visto o seu, que me pareceu demonstrar o seu interesse pela defesa do património de Braga.
    Embora não concorde consigo quanto à opinião que veicula, acho muito bem que dê claramente a entender o que pensa do processo de adjudicação. No entanto, a sua opinião restringiu-se a esse aspecto. Sinto-me pouco clarificado em relação à sua postura quanto a outros aspectos, nomeadamente:

    1. O que pensa da construção de um túnel na Avenidade da Liberdade? Enquanto arqueólogo, concorda ou não com a realização desta obra? Acha que ela devia ter sido feita, ou por outro lado, acha que o previsível impacto da obra justificava que a mesma não se fizesse?

    2. Enquanto arqueólogo aceitaria a responsabilidade científica pelo acompanhamento desta obra?

    3. Se tivesse este trabalho em mãos, e se o seu cliente (neste caso a Autarquia de Braga) lhe comunicasse que as ruínas que se encontra a escavar não irão ser musealizadas, devendo-se proceder ao reenterramento das mesmas, o que faria?

    Penso que a sua opinião sobre estes aspectos teria bastante peso para o debate.


    Caro JLS,

    Concordo com o que escreveu, deviam ser avançadas sugestões concretas de musealização, porque o termo em si é vago.


    Caro Daniel,

    A sua atitude não foi muito simpática, posto que comentou as opiniões de toda a gente, incluindo as minhas. Mas se no caso das outras opiniões citou os respectivos autores, no caso das minhas, referiu-se a mim como “as vozes”. Podia ter tido a simpatia de se dirigir a mim directamente, posto que eu já o fiz para consigo, noutro post.
    E sobre o que “as vozes” disseram, aí vai:

    Daniel: “há algumas vozes nestes blogues que atestam o desinteresse dos cidadãos”.

    Pois há, e eu sou uma delas. Continuo a achar o mesmo, porque o interesse que verifico por parte de alguns cidadãos (neste blogue), não me parece ir no sentido de se discutir a situação abertamente e responsavelmente, mas vai no sentido de atacar os arqueólogos que estão a coordenar a intervenção (nomeadamente por outros arqueólogos).
    Um pouco como um arquitecto criticar um projecto de outro, dizendo que se fosse feito por ele seria muito melhor.
    As críticas que têm sido feitas não seguem qualquer critério, e por muito que sejam refutadas por factos reais e legais (como por exemplo eu fiz), mantêm-se teimosamente, baixando a discussão ao nível do insulto o que, naturalmente, me leva a não lhes responder.


    Daniel: “Se assim fosse, creio que a unidade de arqueologia não procederia agora de uma forma diferente da qual tem pautado a sua existência de trinta anos. Agora sim, planeia dar comunicados com o desenrolar das intervenções e abrir janelas nos taipais para os cidadãos poderem observar os trabalhos. Coerente, no mínimo.”

    Caro Daniel, a UAUM não está a proceder de forma diferente em relação à forma como tem procedido nos últimos trinta anos. A grande maioria das intervenções arqueológicas coordenadas pela UAUM foram sempre divulgadas na imprensa, quer pela sua presidente actual, Manuela Martins, quer pelo seu assessor jubilado, Francisco Sande Lemos. Os mesmos sempre abordaram de forma bastante aberta os trabalhos da UAUM nas aulas da Universidade, que frequentei. Quanto à sugestão das janelas nos taipais, não partiu da UAUM, mas sim de mim, através deste blogue, e eu não tenho qualquer vínculo com a UAUM, não confunda as coisas.


    Daniel: “Se um achado de grande relevância, dito pelos arqueólogos, será reenterrado, sei que haverá vozes que dirão que enterrado está protegido e não será destruído...”

    Sim, “as vozes” acham que reenterrado está protegido, e que o aterro não impede a posterior publicação dos resultados das mais diversas formas (textos científicos, exposições, conferências).
    E não são só “as vozes” que o dizem, a grande maioria dos arqueólogos deste país defende essa solução, e pratica-a de Norte a Sul de Portugal. Se todos a praticassem, em vez de destruírem vestígios, a Arqueologia não estaria a funcionar nada mal.
    Devo, no entanto, dizer que concordo consigo quanto ao facto de que a musealização devia ter sido, desde já, tida em conta, e que se deviam ter sondado os cidadãos nesse sentido.

    De resto, concordo com o que escreveu. Para mim faz todo o sentido.


    Caro Nuno,

    Os vestígios arqueológicos não vão ser destruídos.
    Sobre o exemplo que deu, Mérida, é um caso em que as coisas funcionam de forma bem diferente. Em Mérida existe uma entidade autónoma (o Consórcio Ciudad Munumental Histórico-Artística e Arqueologia de Mérida), formada pela Junta da Extremadura, Ministério da Educação, Diputación Provincial de Badajóz e pelo Município de Mérida. Esta entidade está dotada de meios legais convenientes para efectuar escavações arqueológicas uniformizadas em toda a cidade, pronunciar-se sobre as soluções de conservação das ruínas, efectuar a musealização das mesmas e, finalmente, gerir os sítios visitáveis.
    Acha que funciona bem? Eu acho, tanto que defendo para Braga o mesmo modelo.
    Claro que... em Mérida não há “mercado” de intervenções arqueológicas, mas ninguém põe em causa que as coisas funcionam muito bem.
    Para mais pormenores: http://www.consorciomerida.org/

    Com os melhores cumprimentos,

    Gonçalo Cruz

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  13. Os projectos de obras públicas com previsível incidência sobre bens arqueológicos de grande relevância científica e patrimonial deveriam ser sempre precedidos de trabalhos de diagnóstico arqueológico. Os seus resultados, tal como outros factores de carácter social, económico ou ambiental, deveriam informar os decisores, contribuindo para uma ponderada e cautelosa posição final. Tal procedimento deveria ter ocorrido no caso da obra do prolongamento do túnel da Av. da Liberdade, evitando-se tomadas de decisão erradas.
    O nosso país não se pode dar ao luxo de assistir, neste como em muitos outros casos, a graves problemas planeamento e de sub-orçamentação de projectos. Estas situações implicam rupturas financeiras, despesas imprevistas (que alguém tem que pagar), problemas no cumprimento dos prazos definidos, transtornos para a vida dos cidadãos e, por fim, eventual implementação de estratégias e de metodologias desajustadas face ao real valor dos contextos a intervencionar. Tudo porque as pressões para a sua execução técnica em tempo recorde são extremamente fortes, favorecendo-se cedências ao nível do rigor e da qualidade final.
    Sem planeamento adequado são tomadas decisões desadequadas: ao nível da viabilidade financeira de uma obra, ao nível da sua execução e ao nível da inerente componente arqueológica a concretizar. Nestes casos, não são definidos trabalhos, não é possível sistematizar um caderno de encargos nem consultar o mercado; precipitadamente, urge montar uma equipa de arqueologia que pode não ser a mais adequada técnica e cientificamente.
    Estarei sempre disponível para participar em processos de contratação transparentes e que assegurem adequadas condições de execução; estarei sempre disponível para participar em processos que não belisquem a minha ética profissional, nomeadamente ao nível da necessária salvaguarda dos valores patrimoniais.
    A musealização de contextos arqueológicos deve ser sempre precedida dos necessários estudos técnicos relativos à sua preservação futura, incluindo a necessária manutenção. Neste contexto, os estudos de viabilidade económica são fundamentais, sob pena de, sem recursos garantidos, contribuir para a efectiva degradação ou destruição de tais bens arqueológicos. O reenterramento de estruturas antigas é, em muitos casos, a mais adequada medida de salvaguarda patrimonial. É fundamental o rigor ao nível dos procedimentos de planeamento, contratação e execução de obras deste tipo.
    Braga tem sido um território patrimonial extremamente massacrado. Os problemas sucessivos do modelo de gestão implementado na cidade demonstram ser urgente reflectir, de forma aberta, sobre o futuro. Tal reflexão deverá conduzir à implementação de um adequado modelo de gestão que, no futuro, assegure uma consequente salvaguarda, investigação e valorização dos seus contextos arqueológicos. Neste âmbito, o papel da Autarquia e da Universidade são fundamentais em termos de gestão global e de implementação de estratégias de investigação e de consolidação de processos de conhecimento, naturalmente abertos à restante comunidade arqueológica e à sociedade civil. O património é um bem comum cuja gestão não pode estar obscurecida por sombras ou névoas.

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  14. Caro Dr. Miguel Lago,

    Uma vez mais gostei bastante do que escreveu.
    As considerações que avança relativamente à ética profissional, no que concerne à salvaguarda dos valores patrimoniais, são para mim evidentes, e partilho da sua opinião. Na verdade, não esperava outra opinião de si, como da generalidade dos arqueólogos.
    Mas concretamente, em relação às questões que lhe coloquei, e em face das críticas que fez, o Dr. Miguel Lago acabou por não me responder. Fiquei, aliás, ainda mais confuso acerca do que pensa de tudo isto.

    Refere que este tipo de obras públicas deveriam ser necessariamente precedidos de trabalhos de diagnóstico arqueológico. Mas acha que deveria ser antes da adjudicação das obras? Neste caso da Avenida da Liberdade, como faria um diagnóstico arqueológico prévio? Faria uma escavação integral em open area, de toda a avenida, ou faria sondagens cirúrgicas em determinados pontos? Se fizesse sondagens, que critério iria usar para as abrir?
    Note que, no decorrer dos trabalhos da UAUM, a fase de desaterro inicial no local de construção do túnel, teve acompanhamento arqueológico. Este acompanhamento visa detectar pontos em que a escavação mecânica deve dar lugar a escavação arqueológica, sempre que os vestígios que vão surgindo, assim o justifiquem. Se os trabalhos arqueológicos deviam ter antecedido o arranque das obras, então como se faria a escavação? A equipa de arqueólogos iria recorrer a máquinas escavadoras, fazendo assim parte do trabalho da equipa de construção?
    Segundo o Dr. Miguel Lago, o facto de o procedimento que defende não ter sido seguido na obra da Avenida da Liberdade, fez com que se tivessem tomado “decisões erradas”. De que decisões fala? Do reenterramento dos vestígios?

    Menciona que graves problemas de planeamento e sub-orçamentação de projectos conduzem a rupturas financeiras, despesas imprevistas, incumprimento de prazos e transtornos para a vida dos cidadãos. Muito bem, como faria então?
    Não iria pura e simplesmente “adivinhar” que sob a Avenida da Liberdade existia um edifício do século I?! Tal descoberta seria para si uma surpresa. Essa surpresa não iria, de todo, atrasar as obras, caso fosse o Dr. Miguel Lago o responsável pela escavação?
    Iria colmatar a sub-orçamentação que refere, com sobreorçamentação? Esse factor faria com que a escavação das ruínas do século I se tornasse mais rápida?
    Refere novamente a implementação de estratégias e de metodologias desajustadas. Suponho que se estava a referir a esta intervenção. Concretamente referia-se a que estratégias e metodologias?
    Eu penso que as pressões para a execução técnica em tempo recorde são efectivamente fortes. O Dr. Miguel Lago provavelmente já se confrontou imensas vezes com situações deste género. Nestes casos, cedeu a nível do rigor e da qualidade final? Acha que, neste caso, a UAUM o fez?

    Quando no decorrer das obras de desaterro surgem achados, urge montar uma equipa de Arqueologia, como escreveu (é verdade que em muitos casos essa equipa não é a mais adequada). Mas na fase de acompanhamento, os técnicos por ele responsáveis dispensam essa tal adequação técnica e científica? No caso concreto da Avenida da Liberdade, acha que a equipa que está a fazer a escavação não é adequada técnica e cientificamente?

    O Dr. Miguel Lago defende a implementação de um novo modelo de gestão para a Arqueologia em Braga, que seja mais adequado à realidade. Nesse modelo, como defende, o papel da Universidade e da Autarquia são fundamentais. Mas não são a Autarquia e a Universidade que hoje, de acordo com o seu primeiro comentário, representam um sistema que definiu como bizarro, pouco transparente e de duvidosa legalidade?

    Dr. Miguel Lago, enquanto arqueólogo, eu também critico este processo. Para já, acho a obra do túnel em si desnecessária, mesmo para efeitos de investigação arqueológica. Esta deveria ser sempre feita sem a pressão das obras. Acho que se podia ter possibilitado aos cidadãos, em pontos específicos, que as escavações podessem ser observadas (sendo contudo verdade que esta opção é um pouco controversa). Finalmente, acho que a Câmara Municipal de Braga devia ter consultado publicamente os cidadãos, quanto a uma possível musealização dos vestígios.
    Mas o Dr. Miguel Lago vai mais longe nas suas críticas. Expressões como “tomadas de decisão erradas”, “estratégias e metodologias desajustadas”, “cedências ao nível do rigor e da qualidade final”, “decisões desadequadas” e “equipa de arqueologia que pode não ser a mais adequada técnica e cientificamente” ponteiam o seu texto do início ao fim.
    Posto isto, fiquei confuso em relação ao quê ou a quem dirige as suas críticas. Foi ao reenterramento dos vestígios? Mas contudo acha que, em muitos casos, é “a mais adequada medida de salvaguarda patrimonial”... Acha que a equipa da UAUM, que está a escavar na Avenida da Liberdade é incompetente?...
    Fiquei também curioso em saber em que iria consistir, efectivamente, o novo modelo de gestão que propõe para Braga, sem “sombras e névoas”.

    Peço desculpa se este meu comentário adquire características de questionário, mas na verdade, a opinião que aqui publicou, para mim, é muito pouco concreta e conclusiva. Penso que, tendo em conta as críticas que fez, as mesmas exigem a definição de uma alternativa que possa discutida.
    Com os melhores cumprimentos.

    Gonçalo Cruz

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  15. A capacidade de planear é cada vez mais relevante em arqueologia. Penso mesmo que é um dos maiores desafios que se coloca a todos os profissionais sérios e, sobretudo, aos que intervém em processos nos quais a arqueologia é uma das componentes. Efectivamente, é possível prever com grande rigor em arqueologia e informar decisões políticas e técnicas que determinam obras ou planos que afectam ou condicionam o território. É necessário que os arqueólogos aprendam a planear e a gerir de forma adequada projectos de arqueologia, precisamente porque a sociedade os aproximou de si e os responsabiliza, cada vez mais, por tomadas de decisão: não apenas ao nível da adequação dos questionários científicos ou das metodologias de trabalho, mas também ao nível da previsão e controlo de prazos e recursos a afectar. As empresas têm uma vocação concreta que deve ser aproveitada a bem do sistema: concretizar, produzir, criar, gerir, empreender. Exija-se que cumpram o seu papel com elevação; mas antes de mais, permita-se a sua existência e a sua acção.
    Quanto a Braga, não tenho um modelo definido na "manga". Mas considero que esta cidade beneficiava com a abertura ao mercado. Então, tutela, autarquia e Universidade poderiam fazer o seu papel: projectar, controlar, fiscalizar, regular, investigar, ensinar. Acredito que num sistema amadurecido, as empresas experientes e com capaciade técnica, científica, financeira e de gestão de projectos podem desempenhar um papel de grande relevância, interagindo com os outros agentes do sistema.
    Não tenhamos dúvidas que rigor e transparência no sistema, só é possível sem atropelos à legalidade e com vontade democrática de assumir que as fontes arqueológicas são da comunidade, de todos, e não apenas de alguns. Mesmo que assente num modelo legal (?), considero lamentável que uma cidade como Braga não seja um espaço aberto à diversidade nas perspectivas e posicionamentos que permitem produção de conhecimento. Naturalmente com controlo e com elevados níveis de exigência. A imposição de um modelo sem discussão não é consistente com o futuro.
    A realização de um estudo de benchmarking seria útil como ponto de partida para uma redefinição do actual modelo, nitidamente esgotado. No entanto, apesar dos muitos problemas, Braga tem vantagens, nomeadamente experiência e conhecimento acumulado. Sem receios, Braga poderia dar um exemplo que não o do actual conservadorismo.

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