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Na Esquina da Avenida

Todo o mundo dirá agora

Eu sei muito bem que as palavras de um Prémio Nobel da Economia são de nulo valor se comparadas com os curiosos posts de três ou quatro linhas dos inúmeros jovens bloggers lusos muito liberais e muito epígonos uns dos outros, mas não virá, talvez, grande mal ao mundo se se citar Joseph Stiglitz, a quem fui, há dias, buscar a expressão "fundamentalismo do mercado neoliberal".

Numa entrevista que o El País publicou no domingo, afirmava ele: "O programa da globalização esteve estreitamente ligado aos fundamentalistas do mercado: a ideologia dos mercados livres e da liberalização financeira. Nesta crise, observamos que as instituições mais baseadas no mercado da economia mais baseada no mercado vêm abaixo e correm a pedir a ajuda do Estado. Todo o mundo dirá agora que este é o final do fundamentalismo do mercado. Neste sentido, a crise de Wall Street é para o fundamentalismo do mercado o que a queda do muro de Berlim foi para o comunismo: diz ao mundo que este modo de organização económica é insustentável".

Stiglitz tem, com certeza, razão em dizer que "este modo de organização económica é insustentável", mas engana-se julgando que "todo o mundo dirá agora que este é o final do fundamentalismo do mercado". É que nunca falta quem, às vezes até parece que com algum esforço, se mostre incapaz de ver o que há para ver e de concluir o que há para concluir.

5 comentários:

  1. Eduardo:

    A sua crítica não se dirigiu apenas à actual crise económica, mas sim ao capitalismo como um todo. Dizer que o capitalismo traz riqueza a poucos e desgraça a muitos não é uma opinião fundamentada por evidência empírica: é cegueira.

    A actual posição da Administração Bush (nacionalizar empresas) vai ter consequências muito graves no futuro. Se o Estado pode safar os gestores das suas asneiras, para quê ter cuidado?

    E já que me acusa de falta de capacidade crítica, talvez devesse começar a analisar todo o contexto desta crise em vez de comer indiscriminadamente o que vem nos jornais.

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  2. Caro Hugo, a nacionalização de empresas nos states só aparentemente vai contra o sistema de economia liberal e capitalista, antes vai de encontro ao seu (neo)pragmatismo de o salvar a todo o custo.Hoje, para se salvar o modelo não se recorre a uma medida social e de "esquerda", nacionalizando, hoje a medida em si nem é de direita nem de esquerda, é a salvação do sistema, injectando-lhe calmaria e água fria para garantir a sua eterna sobrevivência...
    Mas essa não é uma vantagem comparativa do capitalismo que ao socialismo não é consentida por mais dogmático e ortodoxo, pese as suas cambiantes?
    Mas você é que o teórico, pronto...

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  3. Caro Eduardo Jorge,

    Não há nenhum problema com argumentos de autoridade, desde que usados adequadamente.

    Mas uma das regras dos argumentos de autoridade é que uma conclusão é tanto mais forte quanto mais autoridades a suportarem.

    No caso em apreço, Stiglitz é certamente uma autoridade. Mas é possível encontrar dezenas de outras autoridades que não partilham da mesma conclusão.

    Pode encontrar algumas aqui: http://faculty.chicagogsb.edu/john.cochrane/research/Papers/mortgage_protest.htm . Penso que o Nobel Jim Buchanon também terá ideias diferentes.

    Como as autoridades divergem suficientemente entre si, o argumento de autoridade não colhe. Convém sempre fazer a distinção entre acolher uma opinião porque reflecte as ideias de uma autoridade e citar a autoridade cujas ideias são coincidentes com as nossas próprias opiniões.

    Um abraço

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  4. Provavelmente seria uma boa ideia não "nacionalizar" aquelas empresas...

    uma boa ideia para o próprio mercado (tenho as minhas dúvidas se o modelo existente se aguentaria tal como está) se regenerar.

    Contudo, não partilho dogmas neoliberais mas sim a preocupação do que seria o resultado destas falências. O impacto social de tal situação é um argumento bem mais válido do que sustentar um modelo económico injusto e desigual.

    Portanto, apoio as medidas da administração Bush, embora não seja pelas mesmas preocupações e causas do que escrevo mas o efeito (veremos) será o mesmo: conter a crise e assim proteger os mais 'fracos' dos erros dos mais 'fortes'.

    post scriptum se analisarmos bem o contexto da crise veremos que nada mais nada menos se baseou naquilo que o capitalismo se sustenta: no consumismo desenfreado (e o crédito fácil como financiador) com o resultado de lucros fáceis e rápidos. É nisto, a grosso modo, que se baseia o capitalismo: no consumismo e na obtenção de lucros.

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  5. Contra-Corrente:

    Se analisar bem o contexto das nacionalizações verá que houve muita pouca solidariedade envolvida.

    Marco Gomes:

    Fracos e fortes? Falamos com objectividade científica, portanto...

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