A Derrocada

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Os acidentes de trabalho mortais provocam, habitualmente, uma reduzida ou nula comoção social, atribuindo-se, de resto, aos desígnios fatais do destino o que, frequentemente, sucede por incúria e por demissão de quem deve garantir que ela não exista. Seja como for, se um qualquer fugaz figurante de revistas sociais morre num acidente de viação porque ia bêbedo ou drogado, o país afoga-se durante dias num choro convulso; se três trabalhadores da construção civil morrem soterrados, bem mais raros são os que experimentam alguma tristeza. Quem é que quer, afinal, saber do que acontece, por exemplo, a um, dois ou três "trolhas"?

Preocupados em registar os ditos do senhor comandante, do senhor presidente, do senhor governador ou do senhor secretário de estado, alguns jornais esqueceram-se de dizer quem eram os três trabalhadores que ontem faleceram em Braga, ignorando que eles se chamavam Agostinho Martins, Manuel Pontes e José Veríssimo. Há pessoas que nem na hora da morte parecem ter direito a um nome.

10 comentários:

  1. Um ponto de vista que a muitos escapou! Será que se ouviu o comentário: "Vá lá, só morreram os trabalhadores da obra!"?

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  2. Concordo e subscrevo completamente a infame superficialidade com que muitos abordaram o tema.

    São apenas números...

    Enfim.

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  3. Acompanhei inúmeras obras de construção civil e tive assim a oportunidade de observar as condições de segurança. Salvo as grandes obras como, por exemplo, a da Estação de Caminhos de Ferro, onde intervinha uma empresa especializada nesse domínio, a segurança dos trabalhadores era a última das preocupações. Quem vive do lado de fora dos tapumes das obras não tem a mínima ideia dos riscos diários que correm os operários da construção civil. Entretanto houve progressos significativos, mas o sucedido na Rua dos Chãos revela que o problema persiste.

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  4. Vais ver que a culpa ainda é dos que morreram...

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  5. Acho que desconhecem um facto do jornalismo: porque muitas vezes é a própria família que se sente no direito de pedir que não publiquem/ divulguem os nomes dos falecidos, os jornalistas têm o dever - o DEVER - de o respeitar sem esquecer a desgraça que assola a vida dos que cá ficam. Outros motivos os haverá, certamente... Mas, atenção quando se julga pelo desconhecimento!!!... A minha amiga Luísa tem de facto razão, pois perante a inocência e a ignorância "A Culpa É Sempre do Jornalista"...

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  6. O ponto do EJM, creio eu, não é em absoluto sobre o nome mas sim sobre a invisibilidade dos falecidos, ie, se por hipótese não fosse possível dizer o nome, dir-se-ia de onde eram, que idade tinham, há quanto tempo trabalhavam na construção cívil, ou seja, a comunicação social séria deveria dar um rosto, mesmo que anónimo, àqueles trabalhadores. Como certamente faria se tivessem falecido três engenheiros ou três empreiteiros ou três jornalistas ou ou ou ...

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  7. O Sr. João das duas uma: ou nunca foi jornalista e por isso desconhece o que é fazer jornalismo, ou então andou com as orelhas alheias a tudo aquilo que foi publicado nesse dia. É que todos informaram o público que se tratavam de 3 trabalhadores de construcção civil, cuja empresa está sediada em Ponte de Lima. Por acaso, até nem estive lá em reportagem por motivos de saúde. Talvez por isso, tenha andado muito mais atenta que o Sr. João.
    E volto a frisar o que escrevi anteriormente, pois perante a inocência e a ignorância "A Culpa É Sempre do Jornalista"...

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  8. Estive lá a fazer a cobertura para um jornal. Não concordo nada com o Pedro Morgado quando acusa os jornais de não referirem os nomes das vítimas. Por acaso, eu até referi, mas pensei em não o fazer por não haver confirmação oficial dos seus nomes (e dar uma notícia errada é sempre mau!) e porque, por vezes, as próprias famílias não o querem. Sim, porque se um familiar meu falecesse, eu não sei se gostaria de ver o nome dele estampado num jornal e como eu muita gente pensa o mesmo. Há quem diga que é falta de consideração não lhes dar uma "cara". Eu digo antes que é uma questão de respeito, salvaguardando a vontade das famílias, com as quais não conseguimos entrar em contacto. Outra coisa: por acaso, neste caso, conseguimos, à última da hora, saber os nomes das vítimas, mas quem é jornalista sabe que, na maior parte das vezes, tal não é possível averiguar. Os jornalistas que estiveram comigo no local sabem também o quanto foi difícil obter dados das vítimas naquele dia.

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  9. Cara wicked_moon,

    Apesar de me identificar por inteiro com o texto, o mesmo não é da minha autoria mas sim do Professor Eduardo Jorge Madureira.

    Cumprimentos,
    Pedro Morgado

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  10. Caro wicked_moon, certamente que nos conhecemos... Bem haja a boa vontade de informar com rigor, isenção e SOBRETUDO RESPONSABILIDADE!!! Estamos juntos nessa jornada amigo.

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