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Avenida do Mal

Castelos Andantes

Tenho um amigo que deve ter ficado radiante com a perspectiva do seu apartamento colado ao Aleixo, ficar no futuro livre das 4 ou 5 torres que vão deixar de o ser, para dar lugar a um empreendimento de luxo. De repente, passou a ter uma janela virada a um futuro bairro in, tão perto da Foz do Porto e talvez longe de imaginar que tão arriscado investimento pudesse ser algum dia tão espantosamente bem retornado.

Ora, isso é só possível graças ao flexível modelo de habitação social português, uma flexi(n)segurança aplicada ao arrendamento social, que com mesma ligeireza com que distribui chaves de apartamento e RSI's, move e remove vidas raízes e rotinas de pás cheias de um lado para o outro, conforme as conveniências ou as exigências do Mercado e as complacências da democracia.

A solidariedade social precede assim o paternalismo social que dá lugar ao assistencialismo caritativo e que faz dos bairros sociais meros castelos-andantes ao serviço dos interesses higiénicos de algumas elites. Ali despeja-se o que não se quer ver e muda-se de lugar quando nos apetecer. Como um caixote do lixo.

O modelo português cobre-se de candura mas é na verdade tão nazi como um guetto, porque, será cliché, nunca promoveu a reinserção e descartou-se da responsabilização, quer dos seus beneficiários quer do próprio Estado. É desumano e sem respeito para com quem lá vive cumprindo com as suas obrigações de cidadão. É desumano e sem respeito para quem paga impostos legando ao Estado o zelo pela Igualdade de Oportunidades.

Neste caminho, o Aleixo só vai dar lugar a um "novo Aleixo", algures numa periferia ainda desienteressante do Porto, com as mesmas polémicas e o mesmo torcer de nariz ao comprimento dos quartos e à largura da sala. O outro, o dos ricos, fica com vista de vidros duplos virado ao Rio.

2 comentários:

  1. Não concordo com a sua perspectiva. Por algumas razões:

    Na sua maioria,

    1. a promoção da reinserção faz-se a partir dos dois lados da moeda. Não há milagres para quem não quer ser reinserido num meio social multidisciplinar e "multisocial".

    2. Quem lá vive, não cumpre (90%) as suas funções de cidadão. É um erro pensar que sim. Encostam-se à sombra sempre à espera do próximo subsidio.

    3. Há variadíssimos modelos de habitação social. Desde os anos 70 foram experimentados muitos e algumas conclusões foram tiradas. Muito depende dos grupos que habitam o bairro, do desenho arquitectónico e urbanístico do bairro, da envolvente do bairro e acessos à cidade.

    Ora, no Porto há apenas um bairro que funciona em plenas condições, que oferece aos seus habitantes e à cidade um modelo exemplar e promove a inserção social. Aliás, é imperceptível como bairro social. Foi construído no final dos anos 70 e sofreu obras de remodelação e ampliação recentemente. Fica na Lapa e foi conhecido como a operação SAAL. (pode ler-se aqui, por exemplo)

    Talvez concorde consigo quando diz que o despejo em bairros é elitista. Para lá vai o que não se quer. Mas... e se os abrangidos por essas acções começassem por trabalhar e lutar? Em vez de esperar pela caridade? (já muitos trabalhos fiz em bairros e conheço bem as gentes do porto, as queixas, os pedidos) É certo que não é tudo farinha do mesmo saco e soluções devem ser encontradas.

    Concretamente sobre o Aleixo, desde que aquela zona se fechou em copas que algum tipo de intervenção era necessária. O local onde pousam as torres é uma ilha, quer pelo traçado das ruas, quer pela topografia. E, mandar todas aquelas famílias para outros locais, para outra classe investir num local privilegiado é elitismo. Concordo.

    O que se passa, é que o modelo de habitação em torre para as habitações sociais nunca funcionou. Aquelas 5 torres foram um erro, e basta lá ir para percebermos isso. Basta conhecer as histórias dos condomínios para percebermos isso, basta visitar alguns bairros ao lado, atrás do jardim de Serralves, para perceber como é que um bairro pode funcionar bem.

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  2. O problema é este: Não é bom desenraizar pessoas de bairros problemáticos?
    Por exemplo, nunca percebi como é que os ambientalistas podiam defender uma determinada "paisagem"
    contra a invasão de água proveniente de uma barragem quando esse meio orinalmente era árido e seco...
    Se uma paisagem é desoladora, agreste, seca, improdutiva, embora por causa disso tenha alguns lagartos e arbustos, introduzir-lhe água e modificando-lhe concomitantemente o ambiente, Para melhor - ONDE HÁ AGUA HÁ VIDA - isso não é positivo?
    Por exemplo o Alqueva!Mudou-se o cemitério, claro, algumas vivências, mas em nome de uma alteração estrutural do ambiente isso não é bom para o ambiente?
    Para mim, que sou ambientalista, a água doce em terras do interior nunca fez mal a ninguém...Mas, estou certo ou estou errado?
    Já sei que estou errado, mas convençam-me...

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