Avenida MarginalAos poucos

| Partilhar
Durante muitos séculos a crença num Deus criador foi comum. Aliás, foi não só comum como racionalmente plausível. Porque havia factos a explicar e porque o criacionismo bíblico apresentava-se como a única teoria capaz de o fazer. Claro que havia a concorrência das outras religiões, mas o argumento da heresia era particularmente convicente nesses casos. O argumento da fogueira também não tinha maus resultados.

David Hume atacou de forma incisiva os principais argumentos a favor da tradicional concepção de um Deus criador. Mas faltava-lhe o fundamental: uma explicação alternativa capaz de rivalizar com a hipótese cristã e que pudesse ser pesada na balança dos factos. Por isso, o máximo a que intelectualmente se sentiu obrigado foi a suspensão do juízo em matéria de criação divina. Faltava qualquer coisa que permitisse saltar do tradicional «não sei se a criação foi feita em seis dias» para o actual «mas tu bebes ou quê?».

A revolução veio com Darwin. A explicação que Darwin propôs era simples mas extraordinariamente fecunda. Desde então, deixaram de ser necessários artifícios sobrenaturais para explicar a criação. A hipótese darwinista explicava tudo o que a hipótese bíblica explicava, mas de uma forma muito mais elegante e sem precisar de postular entidades desnecessárias. Era curto e apelativo.

Hoje parecem ridículas as teses bíblicas da criação em seis dias. Posturas como as de Jónatas Machado, que esta semana defendeu o criacionismo em Braga, são praticamente impossíveis de encontrar. O edifício ruiu por dentro. A Igreja adaptou-se e os teológos reviram a hermenêutica. A teologia agilizou-se e tornou-se mais fácil ver metáforas e conotações onde antes havia apenas uma verdade pura e dura. Os tempos mudaram a Igreja fez um lifting. Foi o preço a pagar pela fidelidade dos fiéis em fuga.

Claro que foi um processo gradual. Primeiro aceitou-se que a explicação darwinista era correcta, mas que o processo de selecção natural exigia a mão divina. Depois a mão divina mudou de hospedeiro: era na origem das primeiras formas de vida que residia o toque de Deus. A biologia mostrou que nem para isso era necessário um Deus. E ele conformou-se. Foi aos poucos.

Actualmente, é difícil encontrá-lo. Já não está na criação dos homens nem na sua evolução. Já não está na origem da vida nem na criação dos planetas. Já nem está na Ética. Tem recuado aos poucos, para os únicos lugares que nunca serão perscrutados: para os confins do Universo e para os corações dos fiéis. Os únicos em que nenhum cientista alguma vez poderá entrar para ver se está lá alguém. É o mais sensato. E o mais seguro. Ninguém quer perder o amigo invisível.

4 comentários:

  1. Dinis citou ainda Santo Agostinho, que dizia que “os homens que tentam falar de Deus sem o conhecerem acabam por fazer cair o cristianismo no ridículo”. “E o Dr. Jónatas, com a sua postura, está a descredibilizar o cristianismo”

    Há fanáticos em todo o lado. Até entre os ateus e agnósticos.

    ResponderEliminar
  2. Ler a história á luz dos argumentos de hoje é profundamente errado. É perfeitamente normal que a leitura de textos com muitos séculos tenha que ser feita com o devido enquadramento histórico. Vê nisto estratégia, está no seu direito. Eu prefiro assinalar que o debate foi feito por uma faculdade de teologia. Esta é a face da Igreja que os detractores preferem esconder. Uma Igreja aberta. Claro que dá muito mais jeito continuar a caricaturar a Igreja com figuras mais próximas dos livros do Eça e Camilo, mas a Igreja é muito mais que isso.

    Citando o comentário anterior:

    "Há fanáticos em todo o lado. Até entre os ateus e agnósticos."

    Eu recuso todas as formas de fanatismo. Assim como recuso as cruzadas de prós e contras. Vivo a minha fé com as minhas convicções e imperfeições.

    ResponderEliminar
  3. Não é com argumentos destes que se nega a existência de Deus. Quem assim escreve dá nota e confirma que existe algo para alem daquilo em que acredita.Na verdade a Biblia é um conjunto de livros escritos em determinada época tentando explicar aos homens desse tempo e na sua própria linguagem aquilo que é inexplicável: "DEUS". Estão escritos de tal forma que mesmo à luz dos nossos dias, alguns esclarecidos os usem para achincalhar os ignorantes que creem num Deus Criador, esquecendo-se de referir que ao tempo seriam as explicações possiveis. Hoje explica-se a criação não pelo sopro da vida, mas pela evolução das especies. Uma e outra não passam de meras metáforas. Só que explicando coisas diferentes. A segunda tenta explicar a evolução da matéria, a primeira tenta explicar a segunda dimensão humana, a divina, o espírito. Meras suposições explicativas, já quer uma quer outra são explicações humanas ainda que podendo ser cientificas. E tal como as teoriasteológicas podem ser falíveis à luz dos tempos, também as cientificas muitas vezes o são por causa da evolução cientifica.Se por vezes a ciencia pode por dúvidas em verdades teológicas, certo é que nunca provou a inexistência de Deus. Por isso Sr. Pedro Romano tal como eu o Sr. é um crente.Eu creio na existencia de um Ser supremo a que chamo Deus, o senhor acredita que Ele não existe. Ambos acreditamos numa coisa que não podemos racionalmente provar.

    ResponderEliminar
  4. Discussão profunda mas estéril, porque ninguém vai ceder, porque ou se tem ou não Fé.Felizes dos que acreditam sem ver.Dúvidas quem as não tem.Na verdade preocupa-me a forma como estas questõers são abordadas, mesmo por pessoas da Igreja.Há questões aparentemente inexplicáveis, a compreesão requer fé.Aos que duvidam assiste o direito de argumentarem, mesmo quando ninguém lhes pergunta nada.Mas não blasfemem, não sejam tão pretensionitas que pretendam explicar, com argumentos mal fundamentados , as p~róprias leis da Natureza.Reduzam-se ao que conhecem dos livros, não inventem e tolerem ao menos os que acreditam.Certezas quem as tem? A questão é bem simples ou se acredita e tem fé ou não se acredita.Não há meios termos nem malabirismos.Por mim entendo as duas partes e tenho muitas dúvidas sobre o que vou lendo, mas não ouso criticar ou põr em causa o que ultrapassa o meu conhecimento.Talvez seja uma santa ignorância, mas ainda não encontrei a verdade sem máscula aquela que todos os argumentos não consigam desmitificar...daí o respeito por tudo que ultrapassa o conhecimento humano.Será que alguém entendeu este texto? Sem pretensiosismo e com respeito espero ao menos contribuir para pôr em dúvida muito do que se diz por dizer.A simplicidade sem recursos à oratória ou à Bíblia ainda julgo ser a forma ideal, o ponto de partida para a reflexão.

    ResponderEliminar

Antes de comentar leia sobre a nossa Política de Comentários.

"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

Pesquisar no Avenida Central




Subscreva os Nossos Conteúdos
por Correio Electrónico


Contadores