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Na semana passada, o Pedro Morgado colocou neste blogue uma interessante imagem com as evidências de poderes sobrenaturais. O desenho é taxativo: parece que não há nenhuma. Intuitivamente, concordo com a conclusão. Mas depois questiono-me um pouco e fico a pensar que raio será um «poder sobrenatural».

Há uma definição simples para poder sobrenatural: é aquilo que transcende o natural. Mas há um problema óbvio com esta definição. Se considerarmos que natural é tudo aquilo que existe na natureza, então, e por definição, não pode haver coisas sobrenaturais. Se existem, são naturais. Se não existem, não são sobrenaturais. São só disparate.

No século XVII, parecia sobrenatural um planeta agir à distância sobre outro planeta. Disparate duplo, claro: uma mistura exótica da influência planetária dos astrólogos com a acção à distância das bonecas vodu. Mas as evidências (e Newton) mostraram que não havia nada de sobrenatural nessa acção. Foi uma conquista da ciência humana à ignorância medieval. E foi mais um item que a razão naturalista riscou do cardápio sobrenatural. Afinal, era mesmo a sério.

Astrólogos, cartomantes, espíritas e milagreiros tentam afirmar-se no mercado de crendices recorrendo a essa figura obscura que é a do «sobrenatural». Mas isto é uma contradição nos próprios termos. Se as cartas ditam a nossa sorte, se os signos influenciam a nossa vida e se realmente é possível falar com os mortos, então não há nada de sobrenatural aí. Mostrem-me uma bruxa a voar e ela será tão natural quanto um avião ou um helicóptero. Tem é de voar mesmo...

O problema das bruxas, dos lobisomens e das cartas é que sistematicamente não voam, não aparecem e não ditam futuro coisa nenhuma. O ‘sobrenatural’ é o último recurso de quem ganha a vida com a banha da cobra e não tem evidências ou sequer indícios para apresentar. Dá a ideia de que há dois mundos: um natural, compreensível, e outro sobrenatural, incompreensível e não passível de escrutínio. Mas o que existe é natural. A etiqueta de sobrenatural é apenas uma má desculpa para a ignorância.

3 comentários:

  1. Bruxas, Padres, Curandeiros e afins é tudo gente sem escrúpulos a tentar singrar à custa dos pobres (de espírito!).

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  2. pois, mas o newton era talvez dos cientistas mais supersticiosos de sempre...talvez mais do que muitos dos "ignorantes medievais" que pelo menos não queriam estudar física e astronomia para determinar o dia do apocalipse.
    etiquetar tem destas coisas: raramente nos apercebemos que dificilmente algo ou alguém cabe a 100% debaixo da etiqueta. ignorar o papel preponderante que certas "crendices" tiveram para a história da ciência acaba por ser uma crendice nova: a de que a sacrossanta sabedoria científica nasceu do nada, ao contrário de tudo o que há na natureza...

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  3. Mariana, é óbvio que muitos génios tiveram as suas crendices. Mas repare que não foi por isso que ficaram na história.

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