Avenida dos Leitores: Os Media ao Serviço de Quem?

| Partilhar
Comentário à notícia "Transplantes rendem milhões aos médicos", enviado por JMP:

«Embora se reconheça que muita da informação presente nesta notícia é verdadeira, a forma como ela é contada é no mínimo tendenciosa. Vejamos!

O título: “Transplantes rendem milhões aos médicos”. No mínimo é uma reflexão subversiva da realidade de que os transplantes são um negócio e de que os principais beneficiados são os médicos.

Lendo depois a notícia parece que o programa de incentivo aos transplantes foi criado para estimular os médicos a realizar transplantes e que, até então, não se realizavam transplantes suficientes porque os médicos não sentiam benefício dessa actividade. Mais uma vez a postura dos media de que os médicos não passam de mercenários, ávidos em aproveitar as fraquezas e as necessidades dos pobres (quais versões negativas de Robins-dos-Bosques). Também se depreende que o número de transplantes aumentou porque os benefícios monetários dos médicos aumentaram. Pois há muita inverdade aqui.

O programa de incentivo aos transplantes beneficia sobretudo os hospitais que acolhem os dadores de orgãos e os hospitais e profissionais onde se realiza a colheita de orgãos. A principal razão do incentivo é que para os hospitais onde a actividade é realizada a despesa com o dador ou com o transplante é muito elevada mesma.

A maioria dos orgãos doados, em Portugal, são provenientes de dadores vivos, em morte cerebral. Estes doentes são muitas vezes vítimas de acidentes graves, que sofreram lesões cerebrais muito graves e irreversíveis. O tratamento que sofrem na tentativa de recuperação e para depois manutenção dos orgãos tem custos muito elevados para os hospitais que os acolhem. Por vezes, estão internados, em Unidades de Cuidados Intensivos, vários dias a semanas até serem estabilizados o suficiente para excluir a reversão das lesões e poderem ser colhidos os orgãos. De saber que só por estarem internados em UCI custão em média 1000/dia, fora todos os tratamentos específicos a que são submetidos ( ex. TAC, cirurgias, fármacos). Percebe-se que rapidamente estes doentes são um encargo monetário muito penoso para os hospitais. O incentivo dado aos hospitais que acolhem os dadores é no sentido de equilibrar esta balança e incentivar a prática.

Para os hospitais onde se realizam os transplantes o cenário é idêntico ou mais grave. Para além de os custos associados à formação específica em transplantes dos profissionais (médicos, enfermeiros, etc), muitas vezes com formação no estrangeiro, têm de arcar com os custos das cirurgias e do tratamento dos doentes em UCI para que o transplante seja viável. Estes internamentos podem durar várias semanas a meses com terapêuticas caras como os imunosupressores, os estudos de histocompatibilidade (para verificar a compatibilidade entre dador e hospedeiro) e cirurgias várias. Os incentivos mais uma vez visam estas despesas. De referir que os hospitais cativam na maioria das vezes 50% dos incentivos e que os restantes são distribuidos pela equipa de transplantes (não só os médicos). Nesta questão de referir que os médicos (e enfermeiros e demais profissionais), que estão nos hospitais onde é feita a colheita, não recebem qualquer dinheiro.

O acréscimo de transplantes tem resultado destes incentivos, mas também do desenvolvimento nos últimos 15 anos de uma rede de emergência pré-hospitalar (INEM) mais eficaz e que consegue oferecer aos doentes cuidados médicos mais precoces e melhorados. Daqui resultou que doentes que antes faleciam no local ou a caminho do hospital, são mantidos vivos. Esta melhoria no atendimento, sobretudo às vítimas de trauma, gerou um maior número de potenciais dadores. Consequentemente, das possibilidades de maior número de transplantes.

Mas o que interessa salientar é que os médicos (e enfermeiros, técnicos, etc) beneficiam alguma coisa com isso. Sobretudo, os doentes que estavam ligados a uma máquina de hemodiálise, ou um pulmão artificial, não beneficiaram... Também não interessa que em hospitais de referência, por vezes, só um médico tenha experiência em transplante de fígado ou coração, o que implique que esteja de prevenção para transplante todas as 24h de todos os dias.

Não! É como na canção do Chico: Geni e o Zepelim...»

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  2. Como é óbvio não são aceites neste blogue comentários sobre a instituição em que trabalho.

    Espero que compreendam.

    ResponderEliminar

Antes de comentar leia sobre a nossa Política de Comentários.

"Mi vida en tus manos", um filme de Nuno Beato

Pesquisar no Avenida Central




Subscreva os Nossos Conteúdos
por Correio Electrónico


Contadores