[Avenida do Mal] O País Alagado

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De Espanha não virão ventos maus como dantes. E de casamentos, estarão eles melhor servidos - ou mais modernos. Mas vem também lojas de roupa descartável, armazéns do corte-e-costura, empresas do pescado, Institutos de Nanotecnologia e corporações do corpo. Vem bom cinema, tapas, bolachas, torrões, tudo que pese na balança comercial, mais gravosa para nós que para eles . Mas vem também água, às carradas ou às pinguinhas, conforme a dita metereológica, que estão do lado de lá as torneiras e do lado de cá os açudes.

E por falar em açude, neste país da península encostado pela raia ao mar, a EDP esgravata o vale do Tua como se fosse seu. Triste como as mil e uma barragens projectadas para apagar paisagens e terra arável, nichos ecológicos e história, sem ganhos de eficiência no consumo de energia. Alagado o Portugal em mil represas, ganham-se 3% de plafond na electricidade metida na rede, dizem os estudos. Fora os milhões que se perdem, em dinheiro e riqueza cultural. E diz-se também, que o mesmo dinheiro metido numa política séria de eficiência energética reduziria em quase 40% o consumo e o flato do país em CO2.

Mas não. Por cá, em advento de anos de seca, aumentam-se os recursos hídricos em lagoas de água choca. E saturado que está o Algarve a esbordar por fora, fazem-se algarves por dentro, em albufeiras artificiais do tamanho da Europa. E é lamentável, como igualmente irónico, o abandalho de tudo em alagamento num país já parco em terra e rodeado de mar por mais de quantos lados. Mas tem políticos e centrais propósitos: enquanto se alimentam as fornalhas das cimenteiras aproveita-se e afoga-se a Linha do Tua com o mesmo sentido de Estado com que Salazar afogou Vilarinho da Furna.

[E não se afoga a do Tâmega, porque está muitos metros acima do rio, e com ela afogar-se-ia, se não já está afogada, toda uma região por desafogar.]

Mas não admira que são outras as prioridades do país, na sua megalómana pequenez, de aeroportos e TGV's. Ficam-se as exigências europeias em medidas tímidas e exibicionistas. Cobrem-se antes os montes de moinhos brancos, que além de caros, me fazem duvidar da viabilidade ou impacto num mercado electrocutado. Vale mais continuar este peeling de leviandade modernóide, porque salvo raras excepções - e estas à esquerda - nunca houve de realidade uma tradição ambientalista nas políticas dos partidos portugueses. Não vende e tão pouco compra votos. Pelo menos, enquanto o céu não nos cair por cima, ou o chão não se nos alagar por baixo.

6 comentários:

  1. Bom texto como o usual. Então o Braga faz hoje anos e ninguém diz nada!

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  2. Excelente texto este! Parabéns.
    A justificação da construção destas novas barragens seria patética, se não fosse trágico o que vai acontecer a esse ´´país``. E continua a EDP a funcionar como um estado dentro do estado.
    Fiquem bem

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  3. Inteiramente de acordo, Portugal está entregue às mãos de grandes grupos económicos, e o zé povo, adormece-se com uns sacos e umas esferográficas em tempo de eleições. afoga-se o País e não só, afoga-se também a alma Portuguesa, que daqui a pouco nem por um canudo vamos enxergar o que é este País à beira mar plantado.Um abraço para todos.

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  4. Com tanta água às pocinhas, ficará Portugal um pântano?
    Falta muito?
    2013?

    Dario Silvad

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  5. Então e notou-se por aí a realização da Cimeira Ibérica?

    Parabéns ao Sporting de Braga ...

    O "Avenida central" continua, com muito gosto da nossa parte, a constar das "Ligações" na barra lateral do nosso blogue colectivo.

    Um óptimo fim-de-semana para todos.

    http://atribulacoeslocais2.blogspot.com/

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  6. Relativamente aos moinhos brancos... talvez seja boa ideia efectuar um pouco de pesquisa antes de duvidar da sua eficiência! Mas é de facto verdade que existe um grande desperdício na nossa rede eléctrica, o qual podia ser reduzido largamente com correcções nos sítios adequados. Mas isso também passa pela consciência de cada um. Quantos se preocupam realmente em apagar as luzes que não são necessárias ou em desligar televisões que ninguém está a ver? Até que ponto a questão da eficiência energética influencia a nossa escolha ao nível dos electrodomésticos? E as nossas casas? São energeticamente eficientes? Procuramos carros com baixo consumo? Ou damos prioridade à potência?

    Responsabiliza-se o governo, a EDP e uma data de lobbies regionais por um país poluído e incaracterístico. E a nossa própria responsabilidade?
    Em que é que cada um de nós pode contribuir para reduzir o problema?

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