Portugal à lupa

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Manuel Villaverde Cabral, sociólogo, numa excelente entrevista publicada no Diário Económico:

Quem são as novas elites?
São democráticas – ou seja, pouco elites. Reflectem uma universidade mal massificada, que se massificou sem diferenciação. É um problema de crescimento – que deveria fazer-se através da especialização e que tem a ver com todas as outras áreas. O nosso sistema político, assente nas clivagens de 1974 e reproduzindo as que vinham desde 1820, ficou atrás da própria mudança social e perdeu capacidade de liderança.

Além das elites políticas, o que sobra?
O traço histórico tem uma dimensão oligárquica muito forte. As mesmas famílias distribuem-se pelos partidos políticos, pelas elites profissionais… A família Portas, por exemplo: dois filhos em partidos opostos, que chegaram a concorrer à mesma eleição da câmara de Lisboa. Algumas vêm do antigamente: o meu falecido amigo Afonso de Barros, sobrinho de Marcello Caetano, foi casado com uma sobrinha de Adelino da Palma Carlos. Na sua família, o 25 de Abril traduziu-se por o primeiro-ministro deixar de ser o tio dele, para passar a ser o tio dela. É uma caricatura, mas mostra a dimensão e a falta de diferenciação das nossas elites. As do anterior regime estavam esgotadas, a renovação era muito limitada. O 25 de Abril obrigou a uma renovação radical, que começou pelos próprios militares e trouxe a esquerda ao poder. Incluo nessa renovação o PPD de Sá Carneiro. A Ala Liberal rompeu, mais ou menos, na altura em que aparece o PS e Sá Carneiro percebe o fim do regime. Levanta a questão das liberdades, quando pede autorização para visitar os presos políticos e esta lhe é negada.

Uma frustração que é também económica. Nos últimos anos, agravaram-se muito as desigualdades sociais...
Sem dúvida. Desde o princípio da década de 90. Maastricht, em 1992, é um marco. Depois, há sucessivos abandonos do poder. Respondemos muito bem ao primeiro desafio europeu, que nos chamou à auto-estima. A Universidade e a Ciência responderam bem, internacionalizaram-se. Pouco, mas pode ver-se a mudança. A banca modernizou-se muito, mas acumula lucros que não se percebem – não deviam ser reinvestidos? Demo-nos bem com uma Europa que ainda não estava completamente incorporada no movimento da globalização e estamos a dar-nos mal com a Europa global. Por que não há investimento em Portugal? Entre outras razões, porque foi para a Índia e para a China. E é impossível concorrermos com esses países.

1 comentário:

  1. Este trecho reflecte bem o que tem sido a política em Portugal ao longo dos séculos. Posso mesmo arriscar que as ideias políticas que perpassam a história de Portugal são sempre as mesmas: uma ala conservadora retrógada e tradicionalista, uma ala revolucionária ultra-progressista, e os restantes 90% de analfabetos e amorfos. A um país que viveu ao longo de toda a sua história de revoluções pacíficas não se poderia exigir melhor.

    Quanto à questão económica, era inevitável que o aprofundamento dos acordos OMC entre a China e a Europa era uma sentença de morte ao sector do textil e de calçado portugueses. Era obrigação dos nossos políticos ter compreendido isso... Más opções políticas e uma mentalidade empresarial paupérrima só podiam resultar desta forma. O tempo mudou e ninguém quis compreender isso. Quem mal faz por mal espere...

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