Fechado Para Obras

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Foi de mansinho que fomos sendo informados pela tutela respectiva que algumas linhas de comboio em Portugal, numa reedição de 1990, poderiam fechar se a estas se associasse comprovadamente uma falta de rentabilidade. Era o lobo a vestir a pele de cordeiro: esquecendo que a mobilidade é um direito básico das populações, o governo assumia um papel de defensor da poupança dos escassos recursos nacionais.
Não se ouviram então vozes muito alto, foi antes um estertor, um restolho de insatisfação que não permitiu, de uma vez, e à moda de 1990, encerrar essas linhas. Falava-se na altura no ramal da Figueira, no ramal de Cáceres. Mas havia quem apostasse que esses ramais eram apontados para desviar atenções: o interesse mesmo era matar de vez a via estreita em Portugal. Em tempos recuados, quer por razões técnicas, quer por razões económicas, algumas linhas de caminho-de-ferro nasciam com a bitola (distância entre linhas) métrica (e.g. 1 metro), em vez dos 1,668 da bitola (dita) ibérica, a «normal».

Entroncando a Norte da Linha do Douro (esta em bitola ibérica), temos a linha do Tâmega (Livração – Arco de Baúlhe), a linha do Corgo (Régua – Chaves), a Linha do Tua (Tua – Bragança) e a Linha do Sabor (Pocinho – Miranda Duas Igrejas). Destas já só tinham serviço de passageiros, e amputadas, as duas primeiras: a do Sabor morria em 1986 para passageiros, e a do Tua espera a sua reabilitação «para Março», porque «não é para fechar», «tem objectivos próprios», segundo o que se ouviu do Ministro das Obras Públicas.

Mesmo amputadas, mesmo em mau-estado, com serviço de passageiros em nada consentâneo com as necessidades dos mesmos, estas linhas foram sobrevivendo. Servindo populações que não têm alternativa de transporte, encravadas que estão em remotos locais. Até ontem. Altura em que «sem aviso prévio», a gestora da infraestrutura ferroviária, REFER, fechou por alegada falta de segurança as linhas ainda em funcionamento.

Até era de aplaudir esta opção: uma empresa que reconhece a sua ineficácia, e prefere perder a imagem a vidas humanas até não parece tão mal, mas o que se questiona (o mesmo tinha acontecido já com o ramal da Figueira pelas mesmas razões de falta de segurança), é porque é que a opção é «encerrarem temporariamente», quando afinal a sua missão seria de evitar que chegasse a tão desesperado estado de degradação? Então e se todas as entidades responsáveis por serviços ligados a mobilidade de pessoas decidissem fechar? As estradas, elevadores, linhas de metro, eléctricos, portos de mar e pistas de aviação por alegada «falta de segurança»?

Apetece dizer que à falta de um programa nacional de barragens, inventado em cima do joelho para conseguir-se o fecho da linha do Tua (que resistirá pela sua importância e pela importância que pessoas e organizações lhe reconhecem) foi preciso arranjar outra técnica: a do fecho por «falta de segurança»! É que mesmo sem um serviço minimamente capaz, sem qualquer publicidade, as linhas estreitas do Douro chamam milhares de pessoas (turistas) e servem populações locais que de outro modo se veriam induzidas a partir para um litoral descaracterizado, contribuindo para um interior cada vez mais desertificado, numa espiral sem fim.

Num país em que o Ministério do Ambiente não se insurge contra atentados ao património natural, em que o Ministério das Obras Públicas continua preocupado em fazer mais auto–estradas para ligar Porto a Lisboa (ou deverá dizer–se ao contrário?) e nada interessado em reabilitar o caminho–de–ferro como um meio ecológico, sustentável, seguro e confortável de transporte de pessoas e bens (contrariando o pensar europeu) pergunta–se:

Qual a estratégia para a ferrovia em Portugal?
Quantos quilómetros de via-férrea foram construídos ou reabilitados nos últimos quatro anos?
E quantos foram fechados, mesmo que «temporariamente»?

Depois de se ter assistido nos últimos anos a um reforço da insistência da REFER em vender canais ferroviários sem utilização para denominadas ecopistas que ainda precisam provar o seu interesse para as populações por elas servidas, e de ser preciso a união de 28 Concelhos para promover a ligação Pocinho a Barca D’Alva na Linha do Douro (30 km encerrados em 1988 que custarão o mesmo que 2 km de auto–estrada!), estamos entendidos quanto ao interesse que o comboio produz nesta geração de dirigentes «modernos e ambientalistas».

Não tarda, a nossa rede ferroviária será um conjunto de recordações «fechadas para obras», com reabertura não garantida! É pena!
[continuar a ler]
Escrito por José Cândido (GAFA – Grupo de Apoio à Ferrovia Aberta)

2 comentários:

  1. Este assunto, por muito que eu tente, não o consigo comentar.

    Não há maior cego do que aquele que não quer ver. Consequentemente torna-se mais burro, quase ao ponto da ignorância.


    É isto que penso dos responsáveis pelo fecho das linhas.

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  2. Aproveito para dar a conhecer este forum alemão com belissimas fotos das linhas estreitas do Douro dos anos 70. Cumprimentos

    Fernando Fernandes
    http://drehscheibe-online.ist-im-web.de/forum/read.php?17,4207829

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