Capítulo 21: ceci n'est pas un temple

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Um pastiche de Magritte para desenjoar de um assunto que ainda não parou de dar voltas.

No dia 16 de Novembro, acordávamos com a notícia da descoberta de um Templo Romano do séc. I, desenterrado das imediações de uma das vias romanas, nos trabalhos de “enterramento” da moderna rodovia do topo da Avenida da Liberdade.

Os prognósticos de quase todos confirmavam as esperanças de muitos: “habemus ponta por onde se lhe pegue, cancelem-se as obras!”. Dizia-se à boca grande que o Templo era tão monumental que até justificava a musealização in situ, ainda que para isso fosse necessário construir um viaduto.

Vai-se a ver, porém, e o Templo afinal não o é e; na era da informação, perdemo-nos no meio da má informação, da informação inútil e da contra-informação. Perdemo-nos na ignorância e deixamos que a democracia se perca também nesta nova Torre de Babel bracarense.

Escandalizam-se os puritanos: “Enterrar o Templo, vão mas é destruí-lo! Aqui em Braga é sempre a mesma coisa: é só betão e a História não interessa a ninguém!”. E têm alguma razão; provavelmente nem a eles próprios interessará. Quantos deles terão visitado as Termas Romanas do Alto da Cividade e espreitado o Teatro; o Museu Arqueológico D. Diogo de Sousa; a Fonte do Ídolo?

Escreveu-se muito sobre o respeito pelo passado e pela História. Quem o escreveu talvez preferisse a nossa Braga toda esburacada e a nossa História, em escombros, a céu aberto. São conceitos diferentes de respeito, mas eu antes preferia ver o pouco património que temos a descoberto devidamente valorizado, do que todo o nosso passado a espreitar dos buracos da calçada.

14 comentários:

  1. Mais um emissário do Mesquita Machado.

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  2. João, estarás a ser irónico?
    Já tive oportunidade de visitar os monumentos romanos que referes. É verdade que, apesar dos bracarenses vangloriarem-se do epíteto Bracara Augusta, desconhecem, desrespeitam e desvalorizam os vestígios da antiga cidade romana. Agora, que isso seja desculpa para os poderes públicos, a troco do prolongamento de um túnel e de um calendário eleitoral que não dá para mudar, simplesmente taparem o que ficou a descoberto é, simplesmente e apenas, uma vergonha.
    E é contra essa vergonha que estou contra. Há quase duas décadas, como te deverás lembrar caso tenhas idade para isso, aconteceu o mesmo na Cividade. Ia-se construir umas vivendas, descobriu-se uns vestígios, escavou-se uma parte e construiu-se sobre a outra. Tantas anos depois os erros repetem-se. Os responsáveis, curiosamente, são os mesmos. O assobiar para o lado, como pude ler aqui, também.

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  3. Senhor M,

    Antes de mais, obrigado pelo seu comentário.
    De facto, não estava a ser irónico. Este procedimento é um procedimento corrente em arqueologia e não significa destruir o património.

    Se visitou os monumentos que refiro, deverá ter notado que há muito por fazer para torná-los monumentos de referência. Eu acredito que a qualidade é mais importante que a quantidade. E, nesse sentido, penso que é mais útil valorizarmos espaços como o Teatro e as Carvalheiras, por exemplo.

    Tenho muito orgulho na História minha cidade, mas não posso concordar com quem defende que o desenvolvimento sustentável de Braga se dá por simplesmente desenterrar tudo o que há a desenterrar; da mesma forma, deixo já claro que não sou defensor das obras de prolongamento no túnel, mas não é disso que falamos aqui.

    E não, não me recordo desse episódio, mas acredito no trabalho dos arqueólogos da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho.

    Um abraço!



    Anónimo,

    Não sou mais um emissário do Mesquita Machado. Nunca o conheci, não tenho qualquer interesse na Câmara Municipal nem pertenço a nenhuma jota. Se tem dúvidas, investigue. Eu não tenho problemas em assinar com o meu nome.

    A única coisa de que me pode acusar é de recusar a entrar na carneirada acrítica.

    Cumprimentos!

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  4. Pois, Pois, em Braga não interessa aos nossos políticos conhecer a história, interessa construir a história, pedra a pedra e nem que sejam virtuais.
    Hoje, no gabinete do edil o rebuliço era grande, e tudo por causa da vinda do 1M, no domingo para "atirar" a primeira pedra do novo hospital.

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  5. Aguardamos as soluções do iluminado João Martinho.
    Ele não é a favor do túnel, ele não é a favor dos vestígios, ele não é carne, ele não é peixe...é veegan!

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  6. Anónimo,

    Obrigado pelo elogio. Já não é a primeira vez que me chamam iluminado e ainda estou para perceber porquê. Se calhar não mereço esse epíteto...

    Quanto à minha posição, penso que está bastante clara. Eu não escrevi que sou contra os vestígios. Pelo contrário, como escrevi: tenho muito orgulho na nossa História.

    O que acho é que é preferível sermos objectivos e dedicar o nosso capital humano e financeiro nas grandes estruturas que já temos antes de desenterrarmos mais. O que está sob os nossos pés não se estraga e isso é o mais importante. Com tempo e planeamento adequado, encontrar-se-ão soluções para isso.

    Para já, penso ser importante apostar no complexo Termas-Teatro e nas Carvalheiras.

    Mas essa é a minha opinião, apenas. E não me considero particularmente iluminado; mas gosto de explorar as possibilidades, perdoe-me por isso.

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  7. Então não há templo na Avenida? Fico, sinceramente, muito consternado!
    Alguém nos atirou sedimentos aos olhos por razões de batalha política? Fico, sem ironia, muito desolado!
    Eu queria, sem meios termos, o túnel, a nova praça e a história; tudo lindo e descoberto.
    Já temos guerreiros iluminados em abundância e o fanatismo também pode habitar na nossa casa.
    Eu, por mim, peço aos senhores arqueólogos, engenheiros e paisagistas os seus pareceres fundamentados que opinião de boca e de manha já temos, graças a Deus.
    Continue, joão Martinho, que vai muito bem.

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  8. "O que acho é que é preferível sermos objectivos e dedicar o nosso capital humano e financeiro nas grandes estruturas que já temos antes de desenterrarmos mais. O que está sob os nossos pés não se estraga e isso é o mais importante. Com tempo e planeamento adequado, encontrar-se-ão soluções para isso.

    Para já, penso ser importante apostar no complexo Termas-Teatro e nas Carvalheiras."

    Mas desde quando é que um projecto (escavações do teatro) invalida o outro?Mal estamos nós quando só podemos fazer uma coisa de cada vez.Este túnel é que invalida tudo.
    E já que se está com a mão na massa porque não aproveitar o que se descobriu?
    O senhor Martins ainda não deu uma proposta.
    Apenas diz uma coisa e o seu contrário.
    Por ele fica tudo enterrado para uma ocasião melhor.Depois de feito o túnel vão abri-lo?Ai sim?
    Viva o túnel, essa grande obra marcante do mandanto Mesquitista.
    Essa grande obra que vai trazer turismo à nossa cidade e dar-nos o título de património mundial.Essa grande obra que vai resolver o problema do trânsito na cidade.
    Triste cidade esta.Triste povo provinciano.

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  9. Tem toda a razão, caro anónimo. Um projecto não deveria invalidar o outro e o Teatro e as Carvalheiras já deviam estar mais avançados. O grande problema é o dinheiro - e a vontade, talvez. E se não há dinheiro para uma coisa, não haverá para as duas.

    Não sei o senhor Martins sou eu, mas desde já lhe digo que não sou eu quem tem de apresentar propostas. A minha opinião e a minha vontade? Ver o Teatro e o complexo das Carvalheiras devidamente valorizados e "utilizáveis"; estará para breve?

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  10. Engagei-me no eu nome,peço desculpa.
    Lá está, se talvez parassem o túnel e gastassem todo aquele dinheiro ou uma parte dele no património talvez chegasse para tudo.Não acha?
    Dinheiro há sempre.Até para fazerem campos sintéticos e psicinas em todas as freguesias.
    Não caia nessa mentira da falta d fundos.Já ouviu falar na parceria público privada, aquela em que a assinatura vale eleições?

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  11. Como para si, o património histórico é, para mim, prioridade em relação a certas obras públicas. Ainda assim, o dinheiro que financia a recuperação patrimonial não é o mesmo que financia as obras públicas e, por isso, não pode ser pura e simplesmente transferido de um lado para o outro.

    Agora, se me diz que é importante redefinir prioridades e aumentar o investimento na recuperação patrimonial, posso concordar consigo. Aliás, referi-o quando preenchi a ficha do Orçamento Participativo.

    Não concordo é com a suspensão das obras porque, de repente, o património passou a ser o mais importante. Porque atenção: não há nenhum templo!

    Obrigado pelos comentários.

    Cumprimentos,

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  12. "Porque atenção: não há nenhum templo!"

    Sabe mais do que Sande Lemos.
    Qual é a prioridade neste momento?
    Túnel ou património?
    É disso que estamos a falar e não do teatro romano.
    É isso que está em causa nas obras da Avenida da Liberdade.
    Nada mais.

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  13. Essa do "não há nenhum templo" é de mestre". Como a convicção de que a protecção do património arqueológico de Braga está bem entregue nas mãos da UAUM. O curioso é que foi a UAUM que anunciou a descoberta de "um templo ou basílica... construção datada do século I"... Mais.. entre dentes, Luís Fontes até confidenciou "Façam pressão". Se indagar, vai ver que não faltam testemunhas presenciais..Mas depois da pressão ter saído do lado inesperado, o que era deixou de ser, o que havia deixou de haver... Mas mesmo protagonizando escavações arqueológicas não autorizadas pelo Igespar, a UAUM continua, na versão do Sr Martinho, a ser digna de confiança... tenha dó Sr. Martinho... que nestas escavações, quanto mais se escava mais a UAUM se enterra...

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  14. Caro Francisco, ele há visionários não há?
    Toda a gente viu e disse que há mas alguns continuam a pensar que somos todos uma cambada e burros.
    "Não há templo", dizem eles.

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